O assovio de um samba qualquer

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por Nina Alencar Zur

Betina adentra a cozinha com o mesmo balançar dos quadris de tempos idos. Com o passar dos anos, perdeu filho, dinheiro e uns tantos fios de cabelo preto, mas não o jeito manso de caminhar. A sandália de borracha arrasta no chão de um jeito que beira o som de música boa. Música boa é aquela que dá conforto nas dores todas do coração. A sua presença naquela casa é como um suspiro, uma respiração aliviada. É só com Betina ali, velando por todos, que a família Oliveira sente o calor do aconchego. Sem ela, ficam todos perdidos de afeto. As crianças, duas meninas carentes e saídas de mãe tem menos de dez anos contados, botam nela amor de neto. É um amor inocente, amor que confia. Quando a noite chega, se esparramam pelos seus peitos enormes, pedindo que fique um pouco mais. E ela fica. Conta estórias do mundo das fadas, embaralhando aqueles cachos louros, e pensa no tempo em que colocava seu filho para dormir. Se a dona Lourdes soubesse o buraco que dá na gente quando um filho é levado embora, trataria de olhar melhor para essas meninas. Ela não imagina como é bom ter o peito ocupado desse carinho.

Já são onze horas da manhã, e o vento atravessa o basculante da cozinha, avisando que está no horário acertado de preparar o almoço. Betina passeia com sua bunda gorda à procura das cebolas. Abre armários, gavetas, recolhe os ingredientes, deixa tudo aprontado. Antes de começar, conversa com eles, decidindo a importância que cada um terá na feitura do prato. Ela aprendeu com sua mãe que comida desconversada dá muito mais trabalho. Cantarola um samba antigo, que ouvia muito no Estácio quando era pequena. Hoje sai aquele refogado que o seu Carlos adora. Ele anda nervoso, cheio de piripaques. Só sabe gritar com as meninas. Uma comida que bote o seu estômago para sorrir também vai ajudar na tranquilidade da casa. Ele perde muito tempo com preocupação na cabeça, isso ainda vai fazer estourar alguma coisa ali dentro. Se isso acontece, estão todos lascados, que só ele é quem bota dinheiro por aqui. Dona Lourdes só faz gastar, todo dia vem de sacola nova. Teve um tempo em que arrumou emprego, mas seu Carlos não gostou da ideia e logo acabou com a história. Nem percebeu que ela ficou mais alegre naquela época. Parece que as pessoas aqui gostam de se ver como incompletas.

As meninas chegam da aula e correm para a Betina. Enroscam-se entre as suas pernas e quase a derrubam. Puxando sua saia, gritam a fome que têm. Como de costume, são mandadas direto para o banheiro, que o almoço só sai depois que se sente cheiro de banho tomado. E não pode ser banho de gato porque gato não volta da escola. Lourdes chega das compras e também vai até a cozinha. Puxa uma cadeira e conversa com Betina sobre o último capítulo da novela das oito. Fica ali por alguns minutos, descansando da obrigação de ser mãe, admirando a intimidade que aquela mulher tem com os afazeres do dia-a-dia. Betina aprendeu, desde muito cedo, que as coisas só parecem difíceis quando são desconhecidas. Quando a gente se aproxima delas, percebe que não são intratáveis. O ser humano é um bicho que se vira com tudo, se ajeita na situação. Antes de conhecer a família Oliveira, fez um pouco de cada coisa que se pode fazer, sendo mãe solteira e tendo quase nada de dinheiro. É assim mesmo. Para dona Lourdes, o lar só é um mistério porque ela não é atrevida a se entender com ele. No fundo, bem lá no fundo, ela sabe que poderia aprender essa felicidade.

A buzina lá fora anuncia a chegada do pai. Carlos entra reclamando do trabalho pesado e larga a pasta em cima da poltrona. Beija a mulher com maneira de ser sempre daquele jeito, beijo murcho, sem vontades. Sente o cheiro do refogado e vai até Betina fazer festa. Agarra com força as carnes que a mulher tem de sobra e agradece pela comida dos deuses. Ele sempre diz que sua comida tem o cheiro do paraíso. Betina se pergunta se paraíso é dado a cheiros. Para ela, o paraíso sempre foi um lugar em que se descansa e só. Quando seu filho morreu é que começou a inventar mais engenhos para esse fim da gente. Definitivamente, se paraíso tem algum cheiro, não é de refogado. Deve ter cheiro de fruta madura. As crianças saem do banho e vão correndo para a mesa, ansiosas. Enquanto o pai come, a mãe corta a carne da filha mais velha e pede para Betina fazer o mesmo para a menor. Pouco se conversa, mas estão todos satisfeitos ali, com ares de vida correta.

Findo o almoço, Lourdes se recolhe, Carlos volta ao trabalho e as crianças chamam Betina para brincar. Na varanda, as três fingem ser habitantes de grandes castelos, longe dos perigos de um mundo sem encanto. As horas correm e elas se distraem com a alegria daquele amor. Betina, assustada com o relógio, arruma um jeito de sair do jogo. Ainda tem muita casa para olhar. Varre daqui, esfrega dali, passa roupas e limpa o suor. Ao fundo, a televisão abre ao mundo o reencontro de dois irmãos separados na maternidade. Esses donos do vídeo não têm mesmo o que fazer, são uns sem juízo, puxando a gente para uma coisa tão sem importância dessas. Programa tem é que colocar coisa nova dentro das pessoas, e não esse bando de história repetida.

O dia passa apressado e Betina não se deixa assustar. Continua com o andar arrastado e a mesma calma de sempre. Ouvia de seu pai que aquele que muito corre morre antes de chegar, sem os fôlegos no pulmão. Toma um banho gelado para deixar o apartamento. Arruma suas coisas e, antes de sair, se despede das crianças. É também um se despedir de seu filho, num luto diário em que se vê sozinha ao abrir a porta de casa, sem remédios nem venenos. A vida segue seu rumo, a gente queira ou não. Sai para chamar o elevador. De dentro do apartamento frio dos Oliveira, só se ouve o assovio de um samba qualquer.

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