Numa moda charme criolex

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atualizado 16 abril 2016 Deixar comentário

por Mochilowski

Ogum adjo, ê mariô / (Ògún laka aye) / Ogum adjo, ê mariô / (Ògún laka aye) [8x]

O eco de ovação do público à voz do artista da noite foi parar nos meus tímpanos, e confesso que até perdi a noção da música de abertura do show tentando captar o perfil daquele rapper com cara de sujeito bem alimentado. Eu o desconhecia até ali. Desconhecia de verdade. Me julguei logo captando-o, digo, me vi numa tentativa de fotografia brusca e recente. O bruto – o cara tem mesmo cara de bruto – entrou com os cabelos incrivelmente eriçados como as cerdas de um javali selvagem, quem sabe movido por um energético nas veias ou vá lá. Aquele movimento de vida loka que destaquei no episódio anterior? Voltou. A menina tranquila que me acompanhava tava no ritmo. Notei. Estava mesmo tudo dominado, como se costuma dizer. O público entrou em transe, a multidão encarnou a persona Cri-o-lo, Cri-o-lo… Caímos em coma…? Me senti diluído no meio de uma massa que sem muito esforço fazia a segunda voz na representação cênica de – eu viria saber – DJ DanDan, parceiro de vocal do protagonista. E a qualidade do áudio da casa Audio, hem? Putz, era de convencer qualquer um que desejasse sentir na pele a batida pulsante e a nota musical esvurmada dos autofalantes. A massa atingiu o delírio quando o terceiro elemento do palco, o MC/DJ Marco, sentado atrás de uma mesa de comando ou de discos, voltou uma das mãos em sentido anti horário. O verbo explodiu novamente da boca do bruto e de centenas que o acompanharam como se fosse um parceiro musical de tempos imemoriais: “Convoque seu Buda! /O clima tá tenso / Mandaram avisar que vão torrar o centro…”. Coreografia espontânea? Embargando um verso ali e outro, decidi tentar convocar o meu buda também. Entrei no embalo desta mística: “Sem pedigree, bem loco / Machado de Xangô fazer honrar seu choro / De UZI na mão, soldado do morro / Sem alma, sem perdão”. Deixei andar… Por não saber a letra toda, fiz-me uma espécie de aluno-testemunha ouvinte: “Cidade podre, solidão é um veneno / O Umbral quer mais Chandon, heróis crack no centro”. “QUEM SABE CANTA COM NÓIS, FAMÍLIA”, puxou num intervalo um carismático rastafari DanDan. Criolo emendou: “Nin Jitsu, Oxalá, capoeira, jiu jitsu / Shiva, Ganesh, Zé Pilin dai equilíbrio / Ao trabalhador que corre atrás do pão / É humilhação demais que não cabe nesse refrão”. Que isso, Oxalá, capoeira, jiu jitsu? A “família” cantava junto com o bruto, sem errar uma vírgula. DanDan e nóis em coro (eu já me sentia arriscando um verso): “E se não resistir e desocupar / Entregar tudo pra ele então, o que será? / E se não resistir e desocupar / Entregar tudo pra ele então, o que será?” E seee… Não resisti, tim din dãn… Não resisti à curiosa sensação de extensão da realidade social diretamente transplantada para o plano da música, porque Criolo parece ser isso: extensão da realidade social diretamente transplantada para o plano da música. E eu tentando entender esta forma de neorealismo que não promove esgotamento mental. Do cantor mais prestigiado pelas senzalas e pelas casas médias e grandes da maior cidade da América Latina…! Maaaaano…? “The Grajauex / Duas laje é tríplex / No morro os moleques, o vapor”. Outro hit?, eu já pagando de loco. / Numa moda charme criolex.

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Bônus de imagens do episódio

          

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