Na escuta com Elton, o palestrante

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No Bar do Pica, bairro Caxangá (Foto: Renato S. M.)

por Renato S. M.

Entro num boteco, jurando que se trata de mais um pretexto para falar de Ubá. O estabelecimento fica no bairro Caxangá, onde este repórter diz-se então instalado. Nelson Ned, o famoso gigante da canção viveu a infância nas redondezas. Nelson Ned tem sido uma ideia fixa pra mim, me perdoem. Saí pra conhecer um pouco mais do Canxagá e me deparei com um inédito ponto de biritas e distrações. De início, a ideia era sair e conhecer o bairro vizinho Peluso, que as más línguas dizem ser “barra pesada”. Mas descobriria que o Caxangá, supostamente não menos pacífico, se encontrava ainda vivo diante de meu horizonte. Súbito, entro num boteco que avisto povoado de clientes. Era justamente o que eu procurava: um boteco “povoado de clientes”. Aliás, em dado momento, já estou no boteco sem saber de seu nome. Na chegada, pergunto a um sujeito do outro lado do balcão sobre qual cerveja tomar. Quis saber da tabela de preços. Dono de cobertor curto é assim: tem que perguntar o preço antes. Perguntei. Incríveis 6,50 de reais o litrão! Eu poderia escolher entre Skol, Brahma e Antarctica tradicional. Optei por esta, e pensei que este boteco vende cerveja por um preço muito camarada. Qual boteco? Tive a resposta quando o patrão da vez, que soube ser filho do dono que dá nome ao estabelecimento, pôs um litrão inserido numa camisinha com a inscrição “Bar do Pica”. Seguro o riso por causa do nome e pela prudência de não rir da cara de desconhecidos. Mal acabo de fazer o pedido e de saber o nome do boteco, um sujeito ao lado oferece um banco vago. Ficou explícito pra mim que o sujeito queria alguém pra conversar. Falo de um negão que eu saberia se chamar Elton. Não cheguei a perguntar se tinha a letra “h” em seu nome. Por isso transcrevo a grafia sem má intenção. Elton estava ali, segundo ele, já há algum tempo, considerando que eu havia chegado perto das 18h30. Elton trajava um boné com um jacarezinho verde, uma camiseta e um short jeans que ia até os joelhos. Nos pés ele trazia uma botina de trabalhador, quem sabe com bico de ferro pra proteger a ponta dos dedos em um eventual acidente. Meu companheiro de birita numa noite de terça-feira é um trabalhador e de construção civil. As marcas de cimento e cal eram visíveis em seus trajes. “Estou aqui matando o tempo, avisei a patroa que estou trabalhando longe e que vou demorar pra chegar em casa”, disse-me rindo. Elton mora no Canxangá, o bairro do Elias Moisés. “Ouviu falar no poeta?”. Se me lembro bem, o colega de birita se saiu assim: “Ouviu falar no Poeta Passarinho?”. Meu interlocutor é amigo do Poeta Passarinho, “que mora logo ali”. “Tenho os dois livros do poeta”, disse-me. “Leu e gostou?”, perguntei, demonstrando interesse e me declarando jornalista. Elton disse que sim, “claro”, e se disse próximo de Elias Moisés. O Poeta Passarinho teria sido alfabetizado pelo Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização), instituído ainda no período da ditadura militar (1964-1985). “Aprendeu rápido a escrever e começou a fazer poemas. Vira e mexe ele está dando palestras”, Elton assim relatou, já começando a se mostrar um exímio palestrante. Elton e o Poeta Passarinho têm idades semelhantes, eu ficaria sabendo, por volta de 43 anos.

Elton e eu não ficamos apenas no papo poesia. Meu companheiro de balcão se mostrou um notável flamenguista. Baixou o tom de voz e me confidenciou: “Está vendo esta televisão [então desligada]?”. O amigo se virou pra parede, pra em seguida voltar-se: “Betinho é chato pra caramba e não liga pra gente ver jogo”. Betinho é o filho do Pica, ausente do boteco e, de certo modo, parcialmente ausente deste diário. Betinho, que a oposição poderia chamar de Ô Piquinha, realmente parecia fazer o papel de sistemático. Se bem que: A primeira cerveja que ele me ofereceu estava choca e ele trocou numa boa, sem custos. Até me alertou da infelicidade, inclusive. Se não relatei antes, foi por distração. Mas realmente Betinho parecia sistemático. Cochichei pro lado do agora camarada Elton: “Quer que eu peça pro Betinho ligar a televisão, pra ver se ele liga?”. Tentei ser sutil e ao mesmo tempo fazer acontecer e livrar um possível desgaste pessoal entre Elton e o filho do Pica: “Ow Betinho, e a tevê, liga?”, me arrisquei intervindo. Não sei bem Betinho gostou ou não da sutil intimada. Antes que ele voltasse a falar, passei um olhar para o horizonte do Bar do Pica. Uma mesa de sinuca, com a qual há pouco um casal se ocupava. Deixaram a mesa com as bolas e um jogo incompleto. Ao fundo, do boteco, notei dois vovôs. Provoquei o camarada do lado: “O casal que jogava sinuca saiu. E aqueles senhores lá, jogam?”. Elton virou o corpo pra trás, pensou rápido e me disse voltando-se pra frente: “Jogam. O de lá é bom. O de cá é viado”. Elton aumentaria a voz na passagem: “O DE CÁ É VIADO”. Ufa, neste momento eu iria me lembrar de um alerta amigo: furaram a tripa de um terceiro outro dia no lugar de onde eu reportava. Bar do Pica, projetado num barranco em esquina, possui cinco ou mais degraus de escada. Olhei bem pras escadas e filosofei em silêncio: “Isso aqui é lugar de clientes fiéis!”. “O Flamengo goleou o Paraná na última rodada do Brasileiro!”, assim Elton me trouxe de volta à conversa. O companheiro de balcão, que dissera ter que ir embora “daqui a pouco”, pediu a saideira. A cerveja, de frasco menor, chegou para o parceiro e ele continuou com a palavra, já em flagrante posição de palestrante. Clube de Regatas Flamengo era a sua ideia fixa. Disse-me a respeito do “furão” Diego Alves, goleiro afastado por indisciplina pela comissão técnica. Elton, tal um repórter setorista do clube do coração, demonstrou estar bem informado a respeito do famoso Fla.

“Daqui a pouco tenho que buscar o filho na catequese”, Elton mesmo se cortou como se tivesse cansado de falar do vice-líder do campeonato brasileiro de futebol, o mesmo time que tinha encontro marcado na próxima rodada com o líder. “O Palmeiras vai jogar com quatro desfalques contra o Mengão. Maracanã lotado. 75 mil ingressos já vendidos. Vamos ver!”, relatou-me. Elton não parecia cansado de falar do time do coração? De maneira nenhuma. Mas a sua cerveja acabaria e o seu prazo no boteco também. Eu do mesmo modo tinha que ir-me. Pagamos as nossas respectivas contas. Ele no cartão crédito e eu no dinheiro vivo. Na volta pra casa, o amigo palestrante ainda iria me acompanhar em parte do caminho. Cinco quadras depois do Bar do Pica, Elton me diria, se despedindo na direção de uma escola, onde seu filho participava de uma catequese: “Está vendo lá em cima?”, disse-me. Miramos um morro e uma rua pouco iluminada. O amigo estendeu um dos braços: “Lá em cima você vai encontrar o Bar do Paulista, Elias Moisés costuma frequentar o lugar. É lá que ele gosta de tomar guaraná e comer um churrasquinho”. Gravei a dica. Despedi-me do amigo, voltei pra casa fisicamente ileso. Contente com uma indicação de pauta para um testemunho futuro, e aliviado por não terem me furado as tripas durante a rápida visita ao Bar do Pica.

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