Na crise… uma comida turca para relaxar

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por Nadson Vinícius dos Santos

Este tempo de agora
Tão raquítico e sistemático
não tem a mesma razão
dos tempos sem razão (Wesley Correia)

Não pude conter o riso diante desta propaganda aqui em Lisboa. O mundo em plena crise financeira, Portugal devendo mais que o PIB e uma lanchonete de comidas orientais (me perdoe Said pelo adjetivo tão vago) oferece um atenuante à crise: um Kebab por menos de dois euros. Claro, é de comida que precisamos para viver e enquanto os donos do mundo não se decidem sobre o problema, o proprietário desta lanchonete tem a iniciativa: Kebab barato para todo mundo.

Kebab, uma coqueluche em Lisboa

A origem do prato, segundo as fontes que pesquisei, é turca, mas algumas variações podem ser apreciadas em algumas regiões da Europa, especialmente as mais próximas da Turquia. Em Lisboa eles são vendidos nas “kebab haus” (ao menos é onde geralmente compro) e sempre atendido por orientais (me perdoe Said mais uma vez, porém, se especifico isso faço uma tese).

Soube também que os alemães são fanáticos pela iguaria. A mim também me agradou, confesso, nunca o tinha provado. Seu poder de satisfação também me espantou, afinal, não consegui comer um inteiro. Igualmente, achei mais natural e mais barato que um hambúrger do Mc Donalds.

Bom, é neste ponto que deixo os devaneios culinários, os quais nada entendo, e fixo-me onde transito melhor, no poder das representações e dos jogos de poder, prometendo, claro, não fazer uma tese.

Mas antes, conto uma estorinha: certa vez, pedi informações a um “gajo” e ele me responde: isto fica próximo a uma loja daquelas pessoas que parecem… indianos, paquistaneses, algo assim, enfim, daquela gente um bocado estranha. Pensei, se fosse um indiano a perguntar por mim ao gajo, eu também seria “um bocado estranho”?

Contei isso para mostrar como as velhas representações ainda subsistem em um mundo que, motivado pelas tecnologias da informação, empreende um diálogo contínuo. É difícil tirar da cabeça de um europeu insensato seu orgulho colonizador tanto quanto é difícil tirar da minha o passado no tronco e as chibatadas. Os espaços de poder e de resistência continuam firmes. Por exemplo, o poder gastronômico (digamos assim) que este kebab exerce no mundo talvez não tenha a magnificência do famoso Mc Donalds, que tudo padroniza e uniformiza no mundo e de modo algum é um “bocado estranho” nas terras onde pisa.

Uma vez ouvi que o preço deste sanduíche poderia ser usado para medir a flutuação cambial, e isso é um dado importante, será que o mesmo aconteceria com este kebab anti-crise? Mas independente disso tudo, a propaganda do kebab representa mais que a ousadia de um migrante “um bocado estranho” com sua comida também “um bocado estranha” em brincar com a situação econômica da terra que lhe acolhe, é também uma forma carinhosa de contribuir: “Oh, não tens dinheiro, toma o kebab, custa menos que um refrigerante”. Na crise… uma comida turca pra relaxar!

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