Muito além de um olhar periférico

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atualizado 13 janeiro 2015 Deixar comentário
Do bairro Veneza, na periferia do município

por Jose Mochila

Não deve haver obstáculo algum neste mundo que obscureça os olhos de um periodista. Importa sempre o que nos vem ao alcance em favor de um dado interesse público, pensei nesta chamada editorial quando projetei uma vista panorâmica de transcender a realidade narrada. A quantidade de moradias levantadas no perímetro urbano de São José do Nortchê, me arrisco com um pensamento reportado, é desproporcional ao tamanho de seu espaço físico. Assim, quem não conhece o nosso cenário pode estranhar se um dia pisar nele esperando ver outra coisa. É no mínimo curiosa a forma como as residências estão postas no solo. Falo de construções produzidas ao longo do tempo.

À vista, um contorno histórico formado por um conjunto pouco espaçado de edificações antigas, pelo que nos consta, de arquitetura açoriano-portuguesa, e que expõe a falta de um muro frontal rente à calçada (a porta e as janelas de tais moradias abrem diretamente para a rua, sem discrição, sem intermédio); outro tipo, semelhante às antigas residências, embora sem o mesmo acabamento, não raro, tem um pequeno muro frontal ou calçamento prolongado da porta para a calçada ou para a rua; outros tipos, às dezenas, centenas, ficam às margens de um centro histórico, formam uma teia mais diversificada e atual de esconderijos, com ou sem muro, com raro ou pequeno quintal.

Tratemos, pois, de uma cidade fincada num solo arenoso, de praia, a promover situações específicas: quando demora a chover ou quando o sol bate firme da estratosfera, as ruas não pavimentadas, sobretudo aquelas localizadas nas regiões mais periféricas do centro urbano, costumam travar pneus de veículos automotivos. A cena, muitas vezes, chega a ser tragicômica. Um guincho real ou improvisado surge como socorro, quando o objeto encalhado não é retirado num empurro de braços voluntários de boa vizinhança. Ver um automóvel patinando, impotente, as rodas num chão movediço é caso de solidariedade. Denunciado ao poder público-administrativo, o solo de B. O. recorrente recebe empedramento ou um paliativo enxague de água.

Sobre as residências deste solo. Em comum, se encontram exprimidas umas às outras, e oferecem aparência de organização atípica. Os economicamente menos abastados, eu diria, vivem pressionados entre impossibilidades e esforços financeiros de um dia ter uma casa maior ou de ter tido a sua aquisição antes da atual especulação imobiliária que atualmente toma conta da cidade. É motivo de cochichos e conversas de esquinas a vinda de forasteiros atraídos por empregos no recém-instalado estaleiro-local produtor de plataformas para extração de petróleo bruto no oceano. É bom que se diga, além da emergente movimentação econômica de donos de imóveis, trabalhadores nortchenses também são beneficiados pelo setor de metalurgia.

De uma vista panorâmica; posicionei-me na varanda residencial de vizinhos operários moradores de kitinetes num bairro periférico. “O amigo me permite tirar uma foto deste lugar?” Sem maiores impedimentos. O encarado morador, de procedência longínqua, me concedeu o registro pontual, correspondendo com um sotaque carregado. “Mermão, fique à vontade…”. Depois desta legenda, voltaria mais pensativo para meu casulo, para a discrição de um lar de pequena edificação a poucos instantes da fotografia. A propósito, o retrato me pareceu cristalino mesmo não sendo nada demais para os nativos ou para aqueles já habituados. Um recorte que me fez lembrar de um diário de ruas, almas e afins. De fato, a sensação de que os nortchenses e radicados dão existência a uma imagem de formigueiro nos finais de tarde é, para mim, bastante expressiva. A aglomeração e o fluxo de personas são fatos consumados, seja nos embarques e desembarques diários da hidroviária, do exercício de ir e vir de lanchas sob as águas correntes da Lagoa dos Patos, ou das visitas aos comércios e de encontros interpessoais nas calçadas, praças e botequins.

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