Inspirações de um subsolo (parte 4)

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atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Se o clima em Brasília é mesmo de deserto?

Em específico, o calor costuma ser infernal durante o dia na segunda metade do ano.

Frio ou ar fresco durante a madrugada.

Falta de umidade.

A falta de tons verdes de natureza regada nas praças públicas.

O clima é seco, reconhecidamente.

Beira o insuportável, às vezes.

Acrescente-se ao relato de época, um jejum de setenta, oitenta dias sem chuva.

Deve ter feitiço nesta joça.

Como costumo dizer, prezo publicamente pela falta de solução.

Sem respostas, volto ao subsolo da Universidade de b., noto Batata postado diante de meu focinho. Não é possível?

Meu nariz estava genuinamente limpo.

Até forcei um falso espirro pra contraprovar as evidências.

Resisti pra não limpá-lo, mesmo sem sujeira, diante da cara alheia.

Aliás, o que mais se vê na Universidade de b. é universitário limpando nariz em público.

Me perdoe a extensão de um parêntesis. Mas outro dia eu descia do R.U., vulgo Restaurante Universitário, e percebi no horizonte um cidadão singelo. Sentado num banco ao céu aberto, o moço com cara de Kurt Cobain bem alimentado, e sem qualquer malícia ou etiqueta, afunda no próprio nariz um dos dedos indicadores. Notei, notei ele a puxar de seu salão sabe-se lá quanta sujeira. Coisa bizarra, no meio do gesto ele percebe a caca que estava fazendo em público. Eu me aproximava cada vez mais de tal imagem. Ele? Nem ae pra filmagem. Não demoraria, eu passaria ao lado dele virando a cabeça, perguntando-me onde terminaria a ação daquele dedo indicador. A esfinge de Kurt Cobain nem ae pra gota da plateia; deu pra notar, nem ae pra qualquer gota de constrangimento exposto. Então, nosso Kurt bem alimentado puxa do salão de festas algo e estala pro chão com o auxílio de um dedo polegar. Em seguida, limpa o dedo na nuca (isso, na nuca!), e não se fala mais nisso! Ele deve ter emendado a narrativa, por telepatia, quando eu passava ao lado, com os olhos rútilos de descrença e de gozação. Nem me viu o pobre do Kurt bem alimentado, que já levava um dos dedos pra uma das orelhas. Os leitores podem adivinhar qual dos dedos? (Risos…)

Esta imagem me veio com tudo na memória, quando Batata mirou a minha cara.

– Afinal, qual o seu nome? – disse-me.

Ao nosso lado, Régis até cessou o movimento da garrafa em direção ao copo pra ouvir-me.

– Sou o jornalista sem solução.

Os dois pararam por um instante.

Olharam-se com ar de estranheza; de certo, acharam o nome extenso demais?

Régis, então, lançou-nos numa desafiadora desconversa.

– Quero ver… quero ver se nesta sala tem bunda mole! [Meio que descontrolado, quase apelando] Quero ver se aqui tem macho que se preze, quero ver! [Emenda uma oração com um fôlego nada previsível] Tenho um desafio pra vocês, [suga um pouco de ar] seus porras!

Batata e eu ficamos mudos, surpresos até, diante do repentino efeito de mistério no ar.

(continua)

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