Imagem aumentada da santa realidade – cap 29

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atualizado 13 maio 2018 Deixar comentário
El condutor, em momento de exibição

 

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

A uma aproximada distância de mil metros de uma aduana e um medo não escondido de ver El fuca blanco e sua mecânica duvidosa barrados por uma blitz policial. Vão nos parar prematuramente, Dom Julio? Vão nos impedir de relatar a existência de um mundo mágico e pretensamente desconhecido por parte de nosso seleto público? Uma fatalidade de percurso, só que não… Não desta vez. O retrato frisado de espectros de fiscais presos ao meu horizonte não passou de uma imagem aumentada da santa realidade. Ao menos desta vez, não. Uhul, então ouvi um chiado cômico e inesperado de uma criança desmamada; Julinho não escondeu a empolgação de falso adulto depois da passagem pela aduana. Aliás, aparentemente, não vimos fiscalização alguma na aduana. O que eu havia considerado como espectro de fiscalização rodoviária, na real, correspondia a um grupo de pessoas que caprichosamente cruzaram o nosso caminho; pudemos vê-los de perto, tomando chimarrão e ar fresco em baixo de uma sombra de árvore ao lado da aduana, junto a duas motocicletas estacionadas. Lisos, leves e sorridentes, cruzamos pelo dito entreposto. Até pareceu que estávamos entrando naquele exato instante em solo uruguaio, marcados por um suspense de apelo dramático na despedida do perímetro urbano de Río Branco; como já ocorrera antes, a tensão da vez pareceu ser mais minha do que um sentimento compartilhado com el condutor, que ao meu lado não escondia o prazer por poder pisar fundo no acelerador de El fuca. “Pé na jaaaaca, Julinho”, caprichei na dicção. Com um protótipo de óculos Ray-Ban, importado da fortíssima e tradicional indústria paraguaia, o condutor da nossa máquina do tempo não perdeu a oportunidade de exibição: ajeitou a armação no rosto como se tivesse diante de um grande auditório, engoliu um pigarro mal ensaiado e engrenou uma paráfrase com uma peça cinematográfica de sucesso comercial. “De La poderosa motocicleta… para El poderoso El fuca blanco”. Primeira marcha, um movimento azeitado; segunda marcha, idem; terceira marcha… Neste ponto da viagem, a sensação era de que efetivamente havíamos começado a saga no país vizinho, teleguiados por um horizonte inédito que surgia à nossa frente.

(continua)

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