Folha seca no calendário

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por Nina Alencar Zur

Caraca, mulher, tu é mó piranha, hein! Eu não sou piranha, eu tô piranha, é diferente. é estado de espírito, tipo quando a gente tá com vontade de comer uma carne sangrando. Só que dessa vez a carne que tá sangrando é a tua, né, porra. com essa saia aí até aquele ceguinho que pede esmola no sinal da Gomes Freire consegue ver teu cu. Ai, amiga, que coisa horrível. não brinca com uma coisa dessas, o homem tem uma deficiência. imagina o martírio que é não ter olho pra nada, sair por aí trombando com as coisas. outro dia ele deu de cara num poste e ninguém fez nada, eu é que cheguei perto pra perguntar se ele tava bem. Xi, gamou no ceguinho. tá carente mesmo. deve tá criando teia nessa perereca. Chega, não vou nem comentar essa sua implicância. tô gata, gostosa e pronta pra matar. Cuidado com o seu Manoel. acho que ele tá endoidecendo de vez. anda desconfiado, investigando tudo. ainda tá cismado com aquela história do ladrão da madrugada. se você sai dizendo que tá pronta pra matar é bem capaz dele levar ao pé da letra. Tu tá brincando que ele ainda pensa naquilo? foi só um porta retrato que sumiu, meu pai do céu. e eu tenho certeza que a baranga da Adriana pegou pra dar de presente pro namorado no dia doze. ela tem aquela doença de gente rica, que sai roubando coisa sem valor. Hahaha, ela acha que é ryca e phyna. síndrome de patroa. aprendeu lá no Leblon. antigamente ela não tinha esse nariz empinado não. dia desses chegou com arroz integral e tofu, cê acredita? preparei logo um torresmão pra comer na cara dela. Pois é, só que a gente é um bando de fodida obrigada a morar com outro bando de fodido durante a semana. não aguento mais esse cortiço de merda. a gente bem que podia arrumar um canto só nosso. mesmo que fosse mais longe ou um pouco menor. Ah, deixa disso que eu não tenho tempo pra procurar canto pra dormir não. prefiro aturar isso aqui mesmo e ter menos uma preocupação. chega o final de semana e eu volto pro Irajá cheia de coisa na cabeça. mal consigo descansar. e ainda tem o Luiz me enchendo a porra do saco, parece que nunca viu mulher na vida. é sempre a mesma coisa, amiga. me come o sábado todinho, e quando eu penso que ele também já não aguenta mais, lá vem aquele pau duro pra cima de mim. tenho que expulsar o homem lá de casa, senão não tenho folga. Reclama de barriga cheia, vai. cê sabe que tem sorte. o luiz não quer casar e ainda te come bem. isso é raro, faz tempo que eu não arrumo coisa do tipo. só conheço traste que não sabe nem dar uma chupadinha. outro dia eu dei pra um que me comeu com pressa pra poder assistir UFC. ficava olhando pra televisão, conferindo se já tinha começado. e eu lá dando o melhor de mim, fazendo toda aquela cena de mulher maravilha. filho da puta. E o Carlos, por onde anda? voltou lá pra terra dele? tá trepando com cabra e jumento? Mas você é preconceituosa, hein. peloamor. não, não voltou pro Ceará. as coisas foram murchando só, tipo essa plantinha aqui da janela, pobrezinha. tá tão descuidada. pega aquela tesoura pra mim que eu vou dar uma aparada nessas folhas secas. também não sei quem é que deixa aqui na janela, pegando todo esse sol. Ai, fui, eu, desculpa. pensei que planta gostasse de sol. Algumas até precisam de sol, mas porra, isso aqui é um inferno. nem você que é preta e adora um bronze aguenta ficar aqui parada no meio do dia. aliás, a gente podia pegar uma praia na próxima folga, tô nesse estado de espírito também, de mar e cerveja gelada. fecha aqui pra mim que eu não alcanço, por favor. Claro, cê sabe que eu não recuso esse tipo de convite. mas vamos só nós duas. não quero correr o risco do Luiz inventar de me comer dentro do mar. hahaha. nossa, tá difícil de fechar essa porra. não leva a mal não, mas cê tá forçando a barra nesse PP. Que nada, vai com jeito aí que fecha, não é força. eu subo e desço escada o dia todo pra poder entrar nessa roupa. Credo. pronto, foi. não sei como você consegue respirar dentro disso. pensa bem se vai sair com essa blusa mesmo. se tu arruma um caso na noite vai ter que pedir pro boy fechar. hahaha, imagina a cena, você prendendo a respiração e o cara suando pra subir esse zíper. Sem chances, hoje eu só quero me acabar na pista de dança. você tem que ir comigo um dia desses. o DJ é bom e as bebidas são baratas. Ai, não sei, não curto muito esse lance de lugar fechado, acho que também tenho doença de madame, que nem a Adriana. só que a minha é aquela que dá falta de ar em apertos. gosto mesmo é de um pagode de raiz, roda de samba, vida de rua. Eu também gosto, mas uma coisa não impede a outra. vou te arrastar qualquer dia, tu vai gostar, tenho certeza. e o barman é um charme. você, do jeito que é, ia se assanhar pra cima dele. Do jeito que sou como? você que tá toda cheia de fogo no rabo e ainda sobra pra mim, vê se pode uma coisa dessas. o meu estado de espírito, querida, é virgem Maria. Hahaha, sei. vou fingir que acredito. acho que ficou melhor a situ da plantinha, né. vê aqui o que cê acha. de repente cortar mais um pouco desse lado. Tá bom, cara, cê tá mais preocupada com essa planta do que com a própria vida. Ah, mas claro, a minha vida eu já entreguei pra Deus, ele pode fazer dela o que quiser. não perco mais tempo ajeitando as minhas pontas secas não que já tenho muitas. daria um trabalho filho da puta. Nossa, como você tá poética, podia largar o emprego e lançar um livro. seria o sucesso do ano. Ô, mulher chata, sai pra lá com esse deboche. fala de mim, mas tá aqui cuidando da minha vida ao invés de olhar pro próprio umbigo. Viu como eu sou generosa? um exemplo de doação ao próximo. É, se doa tanto ao próximo que volta do final de semana assada. hahaha. Tu não brinca que isso é coisa séria! realmente me incomoda. agora vai logo, mas passa batida pelo seu Manoel, senão ele te enche de pergunta. e manda um beijo carinhoso pro ceguinho. Para de zoar gente cega que Deus ainda te castiga. fui, até amanhã. e tira a planta da janela.

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