Fique à vontade

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por Elizabeth Suarique, a Bete

Alguma vez eu fui a hospede que pedia licença para pegar a colher, para pegar um copo de agua, para mexer a cadeira, até para espirrar; minha anfitriã achou que eu era incapaz de me virar sozinha, mas, na verdade, eu estava apavorada de fazer alguma coisa que incomodara ela, pois eu estava no seu espaço. Ao final do dia a mulher explicou para mim o sentido desse “fique à vontade” que havia falado assim que eu entrei no seu apartamento, então tive que explicar para ela minha confusão com essa frase, é o seguinte:

Poucas expressões são tão aconchegantes como esse “fique à vontade” do povo brasileiro.  Aonde a pessoa chegar será bem-vinda com essas palavras para ser aceita e se sentir acolhida como mais uma da comunidade, por não falar da família.  No primeiro momento o estrangeiro acha estranho essa amplitude, estamos acostumados a reverenciar a individualidade e a privacidade, porém resulta constrangedor o excesso de confiança oferecida. Ficamos paralisados, pois conforme nossa experiência ninguém oferece ajuda a ninguém sem uma segunda intenção. Sinto muito, é nosso jeito de ser, sobretudo porque não temos, pelo menos no espanhol, uma expressão para oferecer ao hospede a chance de agir de acordo com sua própria vontade (temos a expressão “sientase como en su casa”, mas acho que não serve para o caso). Infelizmente, a “boa educação” instrui sobre como se comportar, não pedir nem aceitar coisa de ninguém, agir com independência e não estar sujeito aos outros. Pedir ajuda ou aceitá-la pode ser suspeito de malandragem, especialmente quando você chega a um contexto desconhecido. Além disso, na pior das situações não aceitar a generosidade libera você de agir generosamente com o outro.

Mas não culpe o estrangeiro, na verdade, é difícil compreender esse “fique à vontade”,  pois implica reorganizar nosso pensamento e reconstruir o conceito de confiança tão esquisito na vida contemporânea da metrópole. A gente foi educada para seguir as boas maneiras e se proteger da “maldade” dos desconhecidos, então, por decência, solicitar permissão para intervir no espaço e nos pertences do outro, e, em consequência não permitir que ninguém mexa nos nossos pertences, nós não pegamos nada sem primeiro pedir permissão, não atravessamos a porta se não formos convidados, inclusive conheço pessoas que recusam sentar na beira da cama se não ouve uma indicação. O respeito à propriedade privada torna-se um exagero que às vezes nosso caro anfitrião pode interpretar como uma dificuldade de compreensão comunicativa e até mental. A gente entende como um “abusado” aquele cara que pega as coisas sem pedir permissão, então nós achamos que esse “ficar à vontade” pode nos conduzir a adotar uma conduta errada na qual invadimos o espaço do outro. Coisa séria esta das diferenças culturais, “fique à vontade” é um jeito de oferecer confiança é conforto, também a sugestão de se virar sozinho nos detalhes simples da cotidianidade com os recursos que você tem à mão. Com certeza não pode abusar dessa generosidade, cada qual tem seu limite, a arte do hospede e a arte do anfitrião tem suas regras em cada cultura e cada um descobrirá somente na convivência.

Só para esclarecer, nós temos expressões que pode gerar confusão: “haga lo que se le de la gana” “voy hacer lo que se me de la gana”, “hacer la voluntad del otro”, são expressões próprias do espanhol para  salientar a teimosia de alguma pessoa ou a insubmissão de nossa própria vontade. A palavra vontade para nós significa poder, força e determinação. Finalmente a pessoa que tem o costume de viajar procura garantir sua segurança pessoal, malandro tem em todo lado e acho que o estrangeiro não é ingênuo, conhece o cheiro do perigo. Agora, há brasileiros e brasileiros, alguns gostam de falar e de preguntar de tudo, até opinar com excessiva familiaridade de nossa conduta, outros não. Há estrangeiros que não sentem a vontade de falar sobre certos assuntos.

Então, para encerrar: você brasileiro bonzinho, dê um tempo para o estrangeiro compreender a expressão “fique à vontade”, ajude ele a aceitar a confiança que você oferece, e você estrangeiro, se achar uma pessoa boa fique a vontade, aprenda com a generosidade deste povo, eu acredito que quando você voltar para sua terra sentirá vontade de oferecer a outro essa generosidade com a qual foi acolhido nestas terras hospitaleiras.

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