Entre o inusitado e a fé desejada de uma noite de sábado maluca

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atualizado 29 setembro 2018 Deixar comentário
Em um boteco misterioso de Ubá (Renato S. M.)

por Renato S. M.

Noite de sábado e eu penso que posso sonhar e ver além do que o meu focinho pode almejar. Se estou em Ubá, penso que posso estar todos os dias nas imediações da Praça Guido? Afinal, hoje é sábado e se não me for permitido sair e provar uma birita e provocar um testemunho o que seria de mim? Desço a Coronel Júlio Soares, a rua onde teria nascido Nelson Ned, o famoso: O pequeno gigante da canção brasileira. Sigo. Perambulo por umas dez quadras e viro à direita, passo uma quadra e viro de novo, agora à esquerda, e já estou na Cristiano Roças. Subo um morro, um movimento íngreme, olho do lado e noto a igreja monumental Nossa Senhora do Rosário, um notável símbolo de Ubá. Descendo o morro, vou adiante até a rua e… A partir deste momento me nego a dizer em qual boteco entro. Só sei que entro num boteco e peço um litrão. Entendam, estou agora num lugar misterioso. Corto para o elemento mágico, estou numa mesa bebericando uma Antarctica. Não tinha Itaipava, sorry.

O motivo deste narrador-personagem se encontrar num boteco sem nome declarado, meus leitores não precisam saber. O por quê de ser boteco e não a sorveteria cara da Praça São Januário? Isso também não é preciso explicar. O que posso dizer é que estou numa mesa de bar e acompanhado de um fulano. O fulano agora está, imaginem vocês, dormindo. Quer dizer, num primeiro momento, o companheiro de mesa está acordado. Me cumprimenta após eu perguntar se posso sentar ao lado. Ele diz meio sem sentido, que “sim”. Sento-me e o colega de base investe logo num sono. Fecha os olhos e esquece do mundo. Fica ele ali com a boca entreaberta, olhos fechados e fungando a atmosfera de gente que não respeita a lei anti-fumo – nos bares de Ubá, digo, nos botecos ubaenses dignos do nome as pessoas fumam à vontade, sem se preocupar com anúncios de lei federal. Eu que não tenho nada a ver com o amigo que dorme na cadeira, me resguardo da posição de testemunha ocular. Beberico mais um gole de cerva.

Sem querer pagar de deselegante, deixo o amigo que dorme na cadeira falando imaginariamente sozinho. A bexiga aperta. Lembram-se que eu falo de um bar misterioso, hoje não me lembro bem por lei alguma de onde narro. Passo pela primeira mesa de sinuca. Olho de lado e vejo uma jogada. Mais dois passos, me deparo com outra mesa e visualizo: há uma aposta sanguinária nesta! Há uma terceira mesa de sinuca? Só vejo malícia nesta, deduzo que há dois malandros treinando no pano verde, afinal, noto dois oponentes sorrindo além da conta. Mais alguns passos e me percebo num fim de túnel, na direção de um mictório. Afinal, me adianto com a intenção de mijar. Se eu fosse cagar, eu daria mais um passo e entraria numa porta ou cagaria em casa mesmo, antes de sentar num trono público suspeito. Deus do céu! A imagem com que me deparo do mictório deste bar que faço questão de manter em tom velado é de uma noção…! Nunca na minha vida me vi diante de tal cena. O que importa dizer, assim que entro no ambiente nada ventilado pra dar um famoso mijão, me deparo com um sujeito levando as mãos no cocho onde se urina. Se você não é homem e nunca imaginou chegar num mictório e ver um sujeito cavar o mictório com as mãos desprotegidas de luvas onde comumente se urina… Se você que nos lê e é homem e sabe o que é mijar em pé num ambiente não ventilado, num cocho com naftalina faltando, então você pode estranhar como nunca a imagem de um sujeito de posse de uma sacolinha de supermercado e tirando um volume de uma água mais ou menos corrente e recolhendo uma substância sólida estranha.

Se eu estranhei o que acabara de ver? Eu lembro-me de ter dito: “Meu querido, o que você está fazendo?”. “Eu… Eu…”, o sujeito se saiu assim. Eu juro que no primeiro momento eu não sabia o que se passava ali. “O que é isso, meu ca-ma-ra-da?”, se eu não disse, eu pensei com a certeza devida. “É que…”, o sujeito começou a argumentar e eu comecei a entender, segurando a vontade de mijar. Ocorria que o sujeito acabara de vomitar no mictório e, levado por uma moral fora do comum ou vai saber muito comum onde lá não sei, o sujeito que havia vomitado involuntariamente se julgou no dever de limpar urgentemente o mictório sem proteção das mãos ou num momento inapropriado. Apertado, tive que abrir a braglia da calça e dizer pro camarada: “preciso dar um mijão, sei que você está limpando e pondo a mão neste cocho metálico e sujo de bactérias, mas tenho que tirar a água do joelho…”. O camarada entendeu e eu fiquei ali, com meu pingolim à mostra e o sujeito interessado em se justificar e numa penitência particular e fora do comum: “É correto, tenho que limpar…”. Me aliviando, ainda tive fôlego pra dizer ao sujeito : “Meu querido, não precisa fazer isso, isso acontece, deixa aí, depois limpam…!”.  Em vão, eu não conseguiria convencer a figura fora do comum ou desta realidade que nos cerca nem se eu fosse uma pessoa iluminada.

De volta à minha mesa, na companhia de um sujeito dorminhoco. Quando menos espero, surge mais uma vez o autor do vômito do mictório. O contexto é que o boteco ia fechar. O camarada que usara as próprias mãos sem proteção de luvas na limpeza voluntária do mictório estava agora batendo em meus ombros, me dizendo: “Olha, limpei a mão, viu?!”. E eu em vão, disse pro camarada: “Não faz isso não, rapaz…”, argumentei pro maluco que parecia ter uns cinquenta anos e estava de saída do boteco.

Na sequência, o amigo dorminhoco que me acompanhava na mesa acorda depois de duas horas e me diz de supetão: “Hora de eu ir embora!”. Ele levanta, vai ao balcão, quem sabe quita o valor daquela sua Antarctica 600ml, que rendeu pacas ou uma noite inteira. Vi quando o cara foi até o caixa, pagou a bebida, voltou até mim e bateu em meu ombro então cheio de bactérias e sacramentou, pra fechar a noite maluca de sábado que eu tive: “Fica na fé, irmão!”.

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