Entre distintos fugitivos da seca e crua realidade

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atualizado 20 maio 2016 Deixar comentário

por Mochilowski

A. eu pisamos no que eu anteriormente destaquei como um terreno potencial de fabulação. Desses com o poder de sugar os nossos corpos e estruturas mentais da seca e crua realidade social que por ventura nos destrata para uma dimensão que pode nos fazer sentir uma fantástica sensação de fugitivos. Destas transpiradas de sonhos estranhos de início de manhã, sem que a gente desconfie que tais sonhos estranhos ocorram sempre nos inícios das manhãs. Logicamente, não pensei nesta profundidade sugerida quando revi o Vale do Anhangabaú aberto para o comércio informal e o lazer de vivos mortais. Voltar ao pedaço sem que a pauta seja manifestações políticas em defesa de nossa frágil democracia é uma coisa diferente. Senti tal impacto, porque no interior de nossos diarios extraídos de Sampa a repercussão da violência e do desrespeito que parte da classe política promove contra a soberania do voto popular… Não que este periodista pretenda posar de descolado e nem que este estado o deixaria iluminado diante de uma audiência específica. O fato é que a minha máscara costuma ser a mesma em qualquer condição ou em parte deste grande teatro que chamam de Planeta Terra. Com a minha mesma cara, aliás, me notei em um mercado a céu aberto. E o Anhangabaú estava mesmo a céu aberto naquele domingo. “Baita concentração de pessoas, hem”? Acho que disse algo do tipo pra minha companhia. Confesso que não percebi se A. balançou ou não os ombros, aceitando o convite para trocarmos um boteco antes pensado por uma imersão de feira. Feira! Exatamente. Eis o nome. Ops. “Qual o nome desta feira, A.?” Quase uma cidadã sampeana, ela não soube responder. Pedi licença para a interrogação, e sugeri que avançássemos alguns passos. Não demorou, a menina tranquila e eu começamos a compor uma paisagem de… paz e amor. Isso! Paz & Amor, vale destacar o selo. Jovens, olhares soltos, caminhadas sem pressa, comes e bebes, compra e venda de produtos em bancas improvisadas no chão e… um aroma de cigarro clandestino no ar. Se eu senti uma corrente de ar daquele aroma de destravar tensões particulares…? De fato, exagero nesta passagem. Hmmmm… de aspiração pra cá, Hmmmm… de aspiração pra lá. Risos mudos fabricados, camaradas!

A. e eu paramos numa posição que não era bem a de aspiradores felizes ou de felizes aspiradores. Na real, nos vimos noutra vi-be: como espectadores curiosos de uma apresentação musical. O consumo, a aspiração de cigarros clandestinos, a propósito, será tema de um programado capítulo que em breve promete abalar leitores conservadores. No relato da vez, interessa citar a figura de João Perreka e os Alambiques, de quem eu compraria um CD de 6 reais após ouvir um hit intitulado Desiree.  A menina tranquila, eu e outras testemunhas pudemos conferir de perto uma espécie de nostalgia de uma garota evocada na interpretação de um aparente sósia de Raul Seixas noviço. Quem foi ou quem é a tal Desiree? Talvez nunca saibamos da explicação original… O que eu soube, digo, o que me provocou a carga de introspecção foi ver na exibição de uma banda um olhar de que os integrantes também estavam numa dimensão distinta, numa condição de fantasia… Fiz o obséquio de gravar o hit ou o capricho de registrar um trechinho da intervenção de notórios fugitivos da seca e crua realidade social: Aquela frase que eu dividia com você… Desireeee / Aquele canto do meu quarto… Desireeee / Ali está o seu retrato… Desireeeee / Cada canto um pedaço… de vocêêêê . . .

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Bônus de imagens do episódio

                  

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