Em defesa da história nortchense

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atualizado 30 dezembro 2014 Deixar comentário
A praça da matriz horas antes de um discurso histórico

por Jose Mochila

Na praça da matriz de nosso cenário de mundo tem uma fonte d’água igual a todas as fontes de todas as cidades da América Latina do século 20. Na verdade, eu quero que no lugar desta fonte d’água surja uma estátua reverenciada, como a do General Artigas (o herói da independência uruguaia), existente em quase todas as cidades de meus conterrâneos. Neste diário, vale um monumento bronzeado de oito metros com o perfil de Bento Gonçalves, mito sul-rio-grandense, montado num cavalo domado por duas botas modelo coturno de militar autointitulado. Só assim posso empurrar a figura histórica de Bento, que seria enterrado num túmulo exposto numa praça pública da vizinha Rio Grande. Sem ares de gentileza, retiro o benzido oficial de seu cavalo trajado. Outrora herói gaúcho, eu vos digo do túnel do tempo, retrato de reverência insurreta e patriarcal! Tomo o lugar que me é devido nestas linhas, em específico, e do alto de um cavalo de patas cravadas no ar, como um gaucho, um pampeano legítimo.

Usurpado de sua posição de clavícula torta, Bento cai de bunda no chão; antes seu, agora o meu cavalo relincha na contemporânea praça de São José do Nortchê para um público também atual, atento, e que me vê fazendo uma oração em voz alta, grossa (cofe cofe…) e destemida. Percebo-me com um pergaminho de aparência de folheto para turista. Com cara de fronteiriço e com sangue portenho nas veias, começo meu discurso histórico para uma praça cheia de pessoas, conforme estimativa de brigadeanos e de teletransportados jagunços paulistas de um romance de Luiz Antônio de Assis Brasil:

Aqui, neste lugar que me é de direito e capricho, provoco as forças nortchenses insurretas, as autoridades ditas insubmissas deste trecho de ar fresco e de quem ousar me desautorizar, que se juntem à minha esfinge!

Neste ponto da história, além de Bento Gonçalves, eu enfrento também o revivido José da Silva Paes, que no ano de 1737 comandaria “uma expedição militar portuguesa com o objetivo de assegurar aos lusitanos [de então] a posse das terras do sul, nas quais se defrontavam em encarniçadas batalhas os lusos-brasileiros e os espanhóis-castelhanos, em território hoje pertencente ao Rio Grande do Sul e ao Uruguai, antiga Colônia do Sacramento”. E digo mais…

Sim. E digo mais

Percebo um súbito problema, um sobressalto de dicção nas palavras transcritas; releio a última passagem. Deixo escapar uma confissão em voz baixa de cochicho: “Me perdoem, meus nobres presentes à praça, eu estava lendo o folheto errado, digo, o pergaminho era da cidade de Rio Grande”. Do pergaminho de São José do Nortchê, eu quero frisar… Solto um pigarro do alto do cavalo que nunca deixa cair suas patas dianteiras do ar, um animal que relincha a cada três minutos, diga-se.

Volto ou vou direto ao ponto:

– …

Depois de um suspense proposital, ainda de cima do cavalo de bronze, eu despejo a minha presença de periodista indisfarçável:

Serei bastante lacônico, povo de plantão; se vocês, queridas e queridos nortchenses, não patrocinarem os meus diários, eu vou começar a reportar a história local na versão não-o-fi-ci-al, okay?

Tchêêê, neste ponto de meu relato-reportagem, sou mais meu cavalo de bronze. Apesar da proteção da sua sombria imagem de espécie selvagem, sou cercado por populares, entre eles, os fanáticos da dita versão oficial, defensores de uma imutável historiografia nortchense.

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