De volta com um elemento mágico

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atualizado 3 outubro 2016 Deixar comentário

por Mochilowski

Se não fabulo coisas além da conta, na literatura infantil existe uma palavra-chave que explica bem o gênero: o chamado elemento mágico. Passei as últimas semanas pensando nesta ideia, coçando o saco e fingindo ser um narrador fora do comum. Assombração de narrador! Eu andava sem revolta, sem um necessário instinto transgressor, sacam? Pior foi esquecer da correspondência de um público-leitor. Puta merda! Pus a consciência na roda novamente, me fiz sob efeito do álbum Relics, de Pink Floyd, traduzido aqui como “Memórias pessoais ocultas…”. Deus do céu! Voltei a lembrar de um recente Golpe de Estado e da massa analfabeta e do autorrebaixamento da profissão de jornalista em meio ao nosso estado de coisas. Também lembrei de A. Onde estará a menina tranquila, onde? A menina tranquila, lembram-se dela? Ah, a menina tranquila continua desejável ao meu lado. A., a audiência esquecida e um parênteses que nos escapa antes que eu cause uma confusão mental na recepção, me noto um fragmento de memória no conhecido Mundo das Pulgas. Eu então apagando secretamente das profundezas do universo sideral um fantasma que lê literatura e se comporta como. Não! Mil vez não, não quero mais ter estes pesadelos à luz do dia! Mil vezes! Sai de mim imagem pretérita de quem finge entender de literatura apesar da impecável declamação de poemas! Por favor, sai de mim retrato confuso que lê Balzac em madrugada curta e não consegue entender minimamente as complexidades da vida. Sai de mim figura que não sabe colaborar com e pouco nota o ser humano que adoece sem o ar que lhe tomaste da garganta… Cansado de estimular uma miragem, voltei-me supostamente crescido pra uma nota de atualidade. A. é testemunha deste presente narrado. Investi 40 pilas  num título de Casa Grande & Senzala! Realizei um sonho antigo de leitor sem pátria em pleno centro antigo de Sampa. A. e eu voltamos à banca de livros onde o exemplar de Gilberto Freire nos esperava. Eu interessado num esquecimento para me concentrar sobre o que mais interessa a um resgatado cenário de mundo. O livro estava em minha mãos, nem pude acreditar quando me desfiz de uma nota de 50 pilas escondida no bolso para ficar com um troco de 10 que me faria mudar de sentido daquele momento em diante.

E antes que pensem que eu encontrara um manual ou um tico de remédio, eu me antecipo: achei uma senha para tentar entender o que não se pode entender completamente. Na real, eu não sabia o que me esperava após adquirir um livro que escancara uma história como um educado dedo em riste. Foi só eu tomar posse da 17ª edição de um fino tratado sociológico sobre a cultura de um povo para reconhecer entre viventes seres invisíveis que escancaram a vida sampeana como escancaram o cotidiano de qualquer lugar, capital ou o caralho a quatro deste país. Me pus a folhear o exemplar… Logo, o meu ponto de vista ficou turvo, minha cabeça pesou, de súbito parei o ato para me dar conta de um esgotamento vazado no chão de um futuro…

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Bônus de imagens do episódio

                              

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