De um pátio com duas fontes de água sem água

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atualizado 4 novembro 2015 Deixar comentário

por Mochilowski

A qualquer momento as pessoas podem partir.

Pensei nesta óbvia sentença observando os internos amigos. Verdade, as pessoas podem partir na hora que quiserem ou como bem entender. No nosso caso, e por algum motivo, a maioria permanece ligada à nossa casa de recuperação.

Do mesmo modo, ou pensando melhor, as pessoas podem partir a qualquer momento e de qualquer história. De qualquer lugar. De qualquer situação. A maioria, contudo, resiste.

Faltam aos resistentes, eu poderia apostar, um pouco de coragem para anular as dores de uma vez por todas? O problema, como dizem, parece ser mais embaixo do que mais em cima. E a esta altura, ou do alto de um morro devastado pela ação do homem, é melhor a gente baixar as nossas bolas.

Melhor dizendo, humildemente: falta-nos uma dada estrutura mental para chutarmos o balde. Por uma suposta falta de estrutura mental, notem vocês, eu vim parar nas alturas.

– Eu não aguento mais este treeeeem! – um interno amigo berrou sem nexo outro dia.

Dias depois, o amigo parecia não ter forças para contraditar o próprio desabafo.

Fiquei observando a criança, na ocasião; ela, aparentemente, com bom tempo de cercadinho. Cogitei em me aproximar dela, dizer que as dores acabam, de que a vida é uma espécie de. Preferi deixá-lo andar, desisti do falso adulto e me concentrei num pátio central.

No pátio central da casa de recuperação, saibam, há duas fontes de água sem água. Na primeira vez que as vi, eu as achei parte de uma engrenagem cabulosa. Bem, noutro dia voltei ao pátio. E permaneci ali, analisando-o. E se pensei bem, eu não percebi no espaço apenas um pátio. Além de um pátio com duas fontes de água sem água, o cenário traz, na parte de dentro, internos exibidos. Por tradição ou sabe-se lá por que, os internos costumam se encostar naquelas bordas. Contam estrelas ou tomam sol conversando uns com os outros ou ficam pensando solitariamente na vida abaixo de um céu cenográfico.

Por outra imagem, já não me recordo bem do momento exato em que congelei este sugerido retrato inverossímil de doidice desmedida. Só consigo precisar uma coisa: demorei a me render àquelas rodinhas sociais. Onde já se viu, eu pensei, sentar numa borda de fonte de água sem água como se o local fosse uma área vip para populares sem chateação alguma?

Tal registro de diário me fez pensar ainda num detalhe até aqui não aludido por quem vos alcança: a casa de recuperação para almas e corpos também comporta mulheres. Pois então…! Além dos marmanjos tradicionais, este reduto de internos não discrimina as senhoritas.

De volta ao pátio. De repente, encosto-me a uma das bordas de socialização. Vejam vocês, só foi eu mirar o chão da fonte seca para ser interpelado; uma persona surgiria inédita na minha frente, projetando em meus olhos uma sombra espírita:

– Ei, rapaz, como você se chama?

Olhei-a, percebendo um de seus braços em posição de cumprimento.

– Prazer moça, sou o interno Mochilowski – disse-lhe sem vacilar, retribuindo o aperto de mão.

Antes que eu pudesse lhe perguntar o nome, a moça se antecipou em tom de me causar estranhamento:

– Prazer, seu moço, pode me chamar de Cleo, a maluca.

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