De como virei o interno Mochilowski

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atualizado 17 outubro 2015 Deixar comentário

por Mochilowski

Ahora , en buen estado, como dicen aquí ou de uma das bandas do rio da Prata, o maior por do sol do mundo ou simplesmente o melhor retrato do universo – porque de onde recomeço a vida há de ser, por supuesto, uma paisagem de exaltação própria e de grandezas infinitas. Aquí yo – suspendendo este meu malcriado espanhol de Google tradutor – posso ver um horizonte de expectativas e dele ainda aludir coisas enfiando os braços num vácuo de moldura vivido há alguns meses quando eu, doente dos olhos e dos pés, previa um projeto de sobrevivência megalomaníaca, de que eu estaria justamente nesta mira de audiência, em frente a uma edificação de universidade centenária, sentado num banco de praça pública da cidade de La Plata – capital da Província de Buenos Aires, rascunhando num bloquinho de notas, pensando nesta intenção de futuro e num presente resultado para além da tentativa de fazer com que meus sete ou oito leitores possam (mais uma vez?) acreditar que falo mesmo de verdades biográficas quando eu na verdade não poderia comprovar desafio melhor ou quando na verdade, suscitando certa ironia, eu deveria mesmo estar contando histórias para lhes assegurar um documento para a chata da posteridade, uma terapia ou um discurso pouco dirigido às pessoas que julgam me conhecer de perto, de longe ou do avesso.

Para além desta miragem, eu bem me recordo chegando a uma casa de recuperação para almas e corpos localizada num cenário alteroso da geografia brasileira, com o espírito vertical em maca e com o esqueleto todo envolvido por faixas protetoras.

Dias depois deste parágrafo segundo, eu poderia dizer que fui resgatado com vida do querido povoado de São José do Nortchê, no extremo sul do país, e prontamente trazido para um novo circo. Mas seria uma contrariedade aos realistas de plantão evocar a brusca suspensão de uma outrora narrativa sulina sem admitir que eu vazei das margens da lagoa dos Patos como um Forrest Gump da vida. Mas tchê! Acreditem vocês ou não, eu saí quase louco de lá. Ferido da cabeça. Enigmático para a plateia, amputado do coração. Corri. Corri tanto de meus fantasmas – que por serem reais nem sempre são visíveis – até estacionar numa situação equivalente a que viveu George Orwell. Aliás, um filho de Deus que teria ajudado em meu socorro numa banda de uma entre tantas BR’s, ele mesmo, outro feliz andarilho infeliz, teria relatado de pés juntos às autoridades brasileiras competentes que eu fui visto subnutrido debaixo de uma lona rasgada, com acesso de refluxo gastroesofágico, mal vestido, olhos arregalados e, pasmem, com um exemplar de Na pior em Paris e Londres colado ao peito.

Para condensar os caracteres que me restam neste preâmbulo, saibam até que eu volte com o próximo episódio: assim que eu cheguei ou assim que me trouxeram à bendita casa de recuperação, fui prontamente encaminhado para um de seus alojamentos como o interno Mochilowski .

Após ser alimentado durante semanas com deliciosas sopas de rúcula e caprichosos caldinhos de beterraba – conforme a recomendação de uma equipe profissional –, pude então recobrar a consciência de que eu possuía um incrível, muito a propósito ou vigente plano de saúde bancado por um contrato com uma editora de livros que, entre outras obrigações e xaropices, me forçou a registrar esta história ou mais esta minha passagem de vida.

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