Conversa de pescador

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No cais; a tarrafeada de Seu Levi

por Jose Mochila

Deixei meu trabalho de revisor de textos de lado, e saí pra rua. Antes desci as escadas do prédio onde me encontro hospedado; desci calmamente a escadaria em espiral, segurando firme no corrimão a cada passo cedido. Saíra atrás de um almoço. Era quase 17 horas. Um belo final de tarde de sábado. Na verdade, descobri que era final de tarde quase num susto. As leituras de textos me ocuparam tanto a cuca, que eu me perdi no curso do tempo. Entre um gole e outro de vinho barato, eu trocava uma palavra por outra, mexia num vocábulo mal digitado, suprimia uma frase repetida, acrescentava um termo retórico. Ou melhor, eu não bebida vinho enquanto revisava textos de uma encomenda periódica. Este hábito ocorre só no inverno. Nesta época do ano, eu praticamente bebo só cerveja. Como se diz em botecos brasileiros: uma breja trincaaando de gelada, por favor! Meus leitores, assim, podem imaginar o porquê de meu andar poético pelas ruas e calçadas irregulares de São José do Nortchê.

Tchêêê, quase me esqueço de meu vício de linguagem. Afinal, sou gaucho ou não sou? Gaúcho, não. Gaucho! “Mi Mariscala querido / cuando yo te vuelva a ver”. Porque a minha paráfrase preferida vem do outro lado da fronteira, embora não alimente fronteira alguma. Não vejo fronteiras pros meus passos. Das margens de uma lagoa, eu também não vejo limites.

Era pra eu procurar um restaurante, mas eu acabei rompendo o sentido de mundo e o ronco no estômago. Adelante? Pra não admitir que não há limites na vida, achei um. Limite físico, claro. Parei de andar nas imediações do cais local. O cais do porto? Não via nem possuía informações no momento para afirmar se uma base de concreto no formato de L ou U, infiltrada nas águas, pode ser chamada de “cais do porto”. Afinal, não é bem um porto que vejo. Apenas um local onde pequenas e médias embarcações atracam. Mas eu, admitindo a ignorância, resolvi tirar a dúvida com uma testemunha. “Como chamam este espaço, senhor?” À queima roupa, um homem com aparência de 60 anos de idade hesitou em me dizer, mas me disse: “… é o cais”. Seu Levi estava pescando com uma tarrafa naquela tarde.

Conta outra, Seu Levi? Apontando o indicador da mão direita em várias direções: “Ali e ali, tem um navio afundado”. História de pescador, Seu Levi? Seu Levi riu de minha fala direta.

Admito, não o chamei de Seu Levi. Levi, o pescador. E apenas Levi. Mesmo assim, mentalizei o vocativo: Seu Levi? Levi, eu saberia ao final de uma conversa de um pouco mais de quarenta minutos, é natural da cidade de Laguna, em Santa Catarina. Ele mora sozinho desde outubro passado em nosso cenário de mundo. Trabalha como montador em um dos estaleiros que constroem plataformas para extração de petróleo bruto no oceano. Preferiu morar em São José do Nortchê, e não na vizinha Rio Grande. “Lá é barra pesada. Só este ano morreram 55 [pessoas]”, me disse em tom de repórter policial. Seu Levi levaria para casa, como prêmio, se não estou sendo pescador como ele, 9 tainhas, 5 corvinas, 6 papa-terras, 3 linguados e 5 siris. Sem que Seu Levi soubesse, eu pescava dele uma entrevista informal. “Jose Mochila, direto do cais de São José do Nortchê, pa-ra Diarios de Mochila!”.

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