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O sotaque

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A língua portuguesa na forma de cardápio em Cascais

por Nadson Vinícius dos Santos

A cidade de Cascais fica a alguns minutos de Lisboa, é um lugar de praia, perfeito para o veraneio. Sua infraestrutura é voltada para o turismo; ao chegar nela nos deparamos com lojas de souvenirs, bares, hotéis, marinas e restaurantes que se dedicam quase que integralmente ao ramo turístico, e foi em um desses restaurantes de Cascais que se passou comigo um caso engraçado, o qual desejo narrar nesta crônica. Era o final da tarde e depois de visitar vários sítios interessantes busquei um restaurante onde pudesse jantar, ao entrar perguntei: O que tem para comer? Abrashet, me responde o atendente. Contesto eu: o que é isso? Abrashet foi a resposta. Sim, o que tem neste prato, do que é feito, é comida portuguesa, dentre outras perguntas que o bombardeei, e sua resposta frustrou completamente a expectativa da fome que trazia: “não, o restaurante abre as sete”,  falou-me bem devagar. Aí notei que o mau entendido se dava por conta do sotaque.

Todo brasileiro, ou melhor, todos os falantes de língua portuguesa sabem que existem diferenças capitais no modo como esta língua é falada nos diferentes continentes. Além disso, sabe-se que o sotaque português apresenta características que logo o identificamos. Até que nos acostumemos, certos fonemas portugueses podem nos causar estranheza, graça e até mau entendidos como na anedota que narrei.

A diferença entre o sotaque brasileiro e o português além de outras características se dá pelo fato dos lusos comerem algumas vogais das palavras, bem como chiarem todos os “s” das frases, assim, carícia vira “crícia”, cais do sodré transforma-se em “kashodré” e assim por diante, no meu caso a confusão se estabeleceu quando o gajo além de ocultar o sujeito da frase “o restaurante” ainda   engoliu o “e” de abre, chiou o “s” e omitiu o último “e”, o da palavra sete, logo a frase me pareceu uma única palavra: “abrashet”.

Para mim, o sotaque significa uma pequena diferença em relação às representações culturais, e também um espaço de liberdade que deve ser respeitado. Longe de qualquer fundamentalismo, nós abrimos a boca como sujeitos culturais e nisto marcamos nosso espaço de resistência, e é algo tão sutil que qualquer aproximação transforma-se numa mímica, numa imitação reconhecida pelo outro. No Brasil, eu falo como nordestino; no nordeste, eu falo como baiano; em Lisboa, eu falo como brasileiro. Nesta frase demonstro como as identidades são complexas e fugidias a tipos rígidos de classificação, e o sotaque que traiu o apóstolo Pedro quando da prisão de Cristo, segue traindo qualquer outro que tente se esconder de uma marca indelével, então, que digo eu? Cada um que assuma sua cultura e seu sotaque sem conflito! Viva a comunicação!

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O peso da história

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Um retrato histórico de Sintra, em Portugal

por Nadson Vinícius dos Santos

Esta é a vista de uma das torres do castelo dos mouros na cidade de Sintra em Portugal. Atualmente, ele tem sido alvo das políticas portuguesas para incentivo do turismo; suas estruturas foram reformadas e abertas à visitação. O turista pode subir a pé (o que eu fiz) o morro até o castelo, e no caminho vai passando por uma reserva florestal lindíssima, ouvindo o som do correr das águas e o cantar dos pássaros ou subir de carro.

A história do castelo vai sendo contada ao longo do trajeto mediante placas de informação. E quando atingimos o topo, isto é, as torres do castelo, estamos já embriagados de história, e uma história que de certa forma nos marca.

Sintra foi palco das lutas entre cristãos e muçulmanos no início do segundo milênio da nossa era. A vista do alto do castelo era bastante privilegiada, se podia ver toda a região; os mouros se instalaram ali e possuíam uma vantagem cobiçada pelos cristãos, orientados pela igreja católica. O castelo foi dominado, os mouros subjugados e a história se seguiu com o nome do castelo ainda em referência aos primeiros donos – não sei se uma honraria ou deboche.

Em cada estrutura que pisei era dominado por um sentimento forte… uma angústia, uma curiosidade, uma decepção em relação aos atos humanos. Ia pensando no absurdo das guerras que sempre, a história vem mostrando se fundar nas mesmas razões: construimos castelos, invadimos ou somos invadidos.

Minha cabeça me levou, quando cheguei à praça do castelo, onde tomei também uma cerveja, a imaginar a vida da elite que residia naquela fortaleza, que se sentava naquela praça e tomava suas bebidas. Nos guardas que ficavam em cima das torres de vigia; me sentei em uma espécie de sofá na sala de conselhos e imaginei o quanto de segredo da humanidade aquelas pedras não escutaram, o que se tramava ali quando os mouros tinham às portas seus inimigos de outro credo?

A cisterna subterrânea, os túmulos, as casas na borda da fortificação, os locais de culto; tudo isso revela um grau de perícia importantíssimo além de uma sofisticada civilização e cultura, em parte absorvida pelos conquistadores (o que lhes garantiu tecnologia para cruzar os oceanos e trocar umas palavras com os nativos daquilo que se chamou América), mas a maioria foi destruída.

Esse pensamento me carregou para outro: imaginei a correria e o desespero que não tomou conta de todos ali dentro quando os muros do castelo foram ultrapassados pelos invasores e a espada anunciou que um outro deus ali seria instalado e o crescente havia de ser substituído pela cruz semelhante ao que houve nas Américas.

Bom, esse ato ajudou a formar o atual Estado português que conhecemos hoje e compõe a orgulhosa identidade nacional. Motivos para considerá-lo brutal há vários, mas a julgar com a cabeça da época, que tenta se inserir ainda nos dias atuais, os dados eram outros… embora os jogadores ainda hoje existam. Pois é, voltei de Sintra com o peso da história em meus ombros.

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Mouros, cristianos e baianos

atualizado 30 dezembro 2014 Deixar comentário

por Nadson Vinícius dos Santos

A imagem, se bem que não é das melhores pelo fato do amadorismo do cronista, é da Catedral da Sé de Lisboa. Mas esta igreja, localizada no bairro de Alfama apresenta traços que a distingue das igrejas cristãs comuns, isto me aguçou a curiosidade, procurei informações e a resposta calhou com o que desconfiava. Isto era uma mesquita, transformada em templo católico quando os cristãos tomaram toda esta zona dos mouros, daí também o nome do bairro: Alfama.

A Catedral da Sé de Lisboa

Quando eu vejo tal documento da história me reporto mentalmente ao tempo desses acontecimentos e imagino quantos muçulmanos não devem ter se abrigado nestas paredes tentando salvar suas vidas da espada. Nunca, creio eu, o ditado “entre a cruz e a espada” foi tão verdadeiro. Fico imaginando se não houve derramamento de sangue dentro deste templo considerado sagrado pelos mouros e impuro para os cristãos, isto, digo, me referindo à época da conquista.

Após tal fatídico episódio, quantos muçulmanos não foram obrigados a se converter ao cristianismo, trocar suas representações culturais por imagens bíblicas, orar para outro deus e tratar por irmãos os antes algozes.

Mas o interessante é que os cristãos não destruíram fisicamente o templo, e sim, impuseram uma outra forma de apagamento: substituíram o Corão pela Bíblia, trocaram Alá por Jesus e propuseram um outro paraíso.  Assim o ocidente passou a se solidificar e se afastar de seu Outro, dos árabes, dos infiéis. Quando mais tarde, outra vez se precisou de uma mão forte para dar uma ajudinha ao conforto de Jeová, veio a Inquisição, outro fator preponderante na solidificação da mitologia judaico-cristã-ocidental, mas isso é outra história.

Porém, hoje, a igreja é aberta à visitação. Tudo já está bem assentado e reconhecido historicamente. Qualquer turista pode entrar (ainda que esteja havendo missa) e ver a história guardada nas pedras. Minha curiosidade levou-me a ler as inscrições nas paredes e qual não foi minha surpresa ao ler que o padre Antônio Vieira, o jesuíta, tinha nascido justo naquela catedral. Um nome que já nascia carregado de história e que iria fazer história. A placa o reconhecia como grande orador português e dizia o local de sua morte: a cidade da Bahia, como era chamada Salvador nos idos da colonização.

Me permitam bagunçar um pouco a lógica histórica só para o título desta crônica fazer sentido. Claro que não devemos historicamente julgar o passado com a cabeça de hoje, mas se juntamos mouros, cristianos e baianos colocamos todos no mesmo “balaio de gato”. Primeiro o cristianismo respira aliviado por saber que não mais os mouros o incomodariam, depois de satisfeita, tal mitologia foi exportada, aí entra o tal padre na história e entra também a Bahia, os índios, coitados, que chamavam ali de outro nome ao longo do tempo tornaram-se baianos. Mouros, cristianos e baianos.

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A realidade é real?

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por Nadson Vinícius dos Santos

 

Eu sou estas geografias que se deslocam,

Eu sou estes espaços que se cruzam

Eu sou estas línguas que dialogam (Wesley Correa)

 

Parece ironia, mas justo quando o assunto da crônica é “imagem” o texto não contém a foto de costume. A imagem a que me refiro é a gerada pela TV. Aquela criadora de mundos que, na maioria das vezes, encurrala as pessoas; as impede de se perguntarem se as coisas são realmente como as imagens dizem ser. Me pergunto qual seria o objetivo da grande mídia quando se comporta desta maneira. Às vezes me deixo levar por fábulas conspiratórias e chego a acreditar que existem pessoas desejosas de fechar o diálogo entre as culturas e sugerir uma imagem em grande parte falsa na mente das pessoas.

Mas para que o texto não se torne um manifesto contra a TV, longe de mim pretender tal coisa,  vou direto ao ponto: me queixo da grande mídia televisiva brasileira em relação às versões do Brasil que eles criam e vendem para divertir o europeu ingênuo. Um dos programas mais vistos aqui em Lisboa é daqueles sensacionalistas conhecidos pela expressão “se espremer sai sangue”, com aquele carinha que bate na mesa, fala de forma histérica e acusa o governo de tudo.

Me pergunto para quê serve um programa deste no exterior? Para reforçar o estereótipo e dele tirar dinheiro, só isso! Por isso me chamava à atenção o medo que alguns portugueses, conhecedores do Brasil apenas por televisão, sentiam do país. Que o Brasil apresenta índices altos de violência não vamos discutir, mas também cultivar somente esta imagem do páis não acho saudável.

Outra vez vi uma reportagem sobre um jacaré que apareceu em uma piscina de uma casa luxuosa. Me respondam, pelo amor de Deus, para quê dar fomento internacional a uma reportagem desta? Para discutir a questão da agressão impune contra o meio ambiente cometida pelos mais ricos? tenho outra hipótese: seria mostrar para o mundo que o Brasil é tão exótico que jacarés, onças-pintadas e jabutis dividem espaços com os carros e as pessoas.

Um limite ético, por favor, uma forma menos corrompida pelo dinheiro no jornalismo brasileiro, em específico, que vendo na parte rentável da notícia o único padrão moral, cria imagens completamente torpes do país, dificultando o trabalho das pessoas comuns que tentam cotidianamente mostrar pelos gestos e discursos que os brasileiros não são delinquentes nem o país  se parece  com uma cena do filme “Ace ventura: um maluco na selva”.

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O outro lado da ostentação

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por Nadson Vinícius dos Santos

 

Se liga playboy,

Fica de olho no esquema,

Tem muita gente boa

morrendo na mão do sistema (Wesley Correa)

 

Quando saí do Brasil, o país se deliciava na ostentação. A parte onde mais se sentia esse fervor era na música popular ou cultura de massa como alguns costumam definir. Como a determinação teórica é bem complicada, e não pretendo fazer nada além de uma crônica, deixarei de lado a determinação teórica, mas o fato é que gêneros musicais como o arrocha, o pagodão, o sertanejo (universitário ou não), o forró, e claro, o Funk (a lista é longa) não deixaram de produzir seus discursos em torno da ostentação.

A difamada bebida

Um dos fatores deste fenômeno (a lista também é longa) que mais saltam à vista é o fato do país ter redistribuído a renda. Ou seja, aqueles produtos antes inacessíveis tornaram-se (parcelados ou não) alcançáveis. A distância que separava ricos e pobres, ao menos no que tange ao consumo, diminuiu a olhos vistos. A ascensão social de pessoas representativas de alguns setores sociais através de sua arte (aqui incluo todos os ritmos que citei) gerou um discurso de superação, e claro, de ostentação. E a distância entre a representação e a realidade não ficava tão grande.

Claro, não vamos comparar a vida um cantor sertanejo com a de um operário, mas quando um determinado cantor professava “os plaquê de cem dentro de um citroen”, o sujeito que ouvia poderia não ter um citroen, mas tinha um carro popular, ou seja, podia ostentar também. De ônibus ele não voltava para casa, poderia ficar na rua até mais tarde só com poucos inconvenientes. O discurso da ostentação atingia tudo: roupas, alimento, transporte, vida sexual… enfim, tudo. E nessa onda, alguns itens foram postos no cânone da ostentação, e aqui me acerco do objetivo desta crônica, que é falar das bebidas alcoólicas.

Neste sentido, o uísque foi a bebida que mais brilhou no hall das ostentações, de repente, todos entram na febre de consumir a tal bebida. Ela tornara-se acessível. O que tem a ver isso? Nada. É uma bebida cara se comparada à cachaça? É. Mas cada um que compre o que lhe desejar. Este texto não é uma bula papal, e além do mais, o cronista também aprecia o drink.

Contudo, (tinha de vir o contudo) atribuir fidalguia a esta bebida com base apenas em seu preço sempre me incomodou. Na verdade, eu sempre tive aversão ao discurso “é bom porque é caro”, pois a carestia de um artigo importado não é necessariamente uma qualidade do produto em si, mas uma característica atrelada às tarifas alfandegárias e aos acordos comerciais internacionais.

E para provar minha hipótese fui a um supermercado aqui em Lisboa – onde ostento no momento a minha presença de crítico das ostentações – ver o preço de nosso famoso e tão difamado 51, o dito cujo custava quase 9 euros. 27 reais. Se você coloca na conta o limão e o açucar, a conta sobe mais 5 euros, 15 reais. A caipirinha para ser feita em casa sai em torno de 14 euros, ou seja, 42 reais. Aí se pode argumentar, ah! Mas na Europa todo mundo ganha em euro, 14 euros é nada, se fizer o câmbio dá isso, aquilo ou aquilo outro… enfim! Diga o que quiser, mas eu acho 42 reais um valor significativo. Como não sou economista para discutir câmbio ou outras coisas do ramo, fico por aqui com minha crônica pensando sobre o outro lado da ostentação.

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Sempre os comunistas…

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por Nadson Vinícius dos Santos

 

A mão do mundo me disse não,

mas aprendi a rosnar feito raivoso cão

e a afastar a terrível mão do não. (Wesley Correa)

 

Ando tranquilamente pelas ruas de Lisboa e eis! Um cartaz comunista. Frases de comando: não pagamos, fora o euro, venha o escudo, por uma política patriótica e democrática etc, etc e tal. Tiro uma foto e me ponho a pensar sobre o cartaz (como se não tivesse mais nada para fazer) e como se não bastasse, pergunto às pessoas, que me permitem dois dedos de prosa, sobre o escudo (a moeda portuguesa antes do euro), a crise e coisas do gênero. Essas conversas me permitiram ter uma visão e uma versão da coisa, é o que pretendo contar-lhes:

A insatisfação pregada no poste

A primeira indignação do cartaz refere-se à troca de moeda. Foi-se o escudo português e veio o euro. A medida visava a acabar com a flutuação cambial entre as moedas europeias e uniformizar também o negócio, para quê tanta moeda diferente!? Mas segundo um vendedor de eletrônicos, a coisa não se deu de forma romântica. Segundo ele, tudo subiu. O que se comprava com um escudo passou a ser comprado por dois euros. Ele não gostou muito da atitude, mas… o que pôde fazer? Engrossar o coro dos que pedem a volta do escudo e o fim do euro e a luta continua…

O “não pagamos” do cartaz refere-se ao pensamento de calotear a união europeia (não sei se isso tem tomado corpo) e não pagar a dívida que já passa dos 130% do PIB. Essa é a parte mais dolorosa de ver. Agora mesmo estourou o caso do Banco do Espírito Santo, que de santo não tem nada e o governo jogou os 5 bilhões de euros, a dívida do banco, nas costas da população (é o que eu soube). Com todo aquele discurso da austeridade: precisamos cortar gastos, medidas impopulares, remédio amargo etc, etc e tal.

A reivindicação “governo democrático e patriótico” é engraçada, pois estamos na casa da democracia burguesa, como não ser democrático? Mas deixa isso pra uma outra conversa, cheguemos ao patriótico. Esta parte é interessante para provar que direita é direita em qualquer lugar do mundo. A falta de patriotismo se refere ao fato do atual governo, em nome da crise, além de não investir em setores básicos como educação, saúde, geração de emprego e segurança social ainda querer vender todos os bens públicos do país: bancos, empresa aérea, setor energético e por aí vai.

Pela insatisfação das pessoas que converso duvido que a direita se eleja, mas o novo governo (duvido que seja comunista) terá um trabalho e tanto! Enquanto os dias vão passando, vejo uma greve de professores aqui, uma de funcionários do metrô ali, outra reclamação de aposentados acolá e vou observando os muitos cartazes do partido comunista e o desabafo de alguém que teve o salário reduzido ou será obrigado a pagar imposto do pouco que já ganha. Alguém pra reclamar disso tudo? Sempre os comunistas…

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Na crise… uma comida turca para relaxar

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por Nadson Vinícius dos Santos

Este tempo de agora
Tão raquítico e sistemático
não tem a mesma razão
dos tempos sem razão (Wesley Correia)

Não pude conter o riso diante desta propaganda aqui em Lisboa. O mundo em plena crise financeira, Portugal devendo mais que o PIB e uma lanchonete de comidas orientais (me perdoe Said pelo adjetivo tão vago) oferece um atenuante à crise: um Kebab por menos de dois euros. Claro, é de comida que precisamos para viver e enquanto os donos do mundo não se decidem sobre o problema, o proprietário desta lanchonete tem a iniciativa: Kebab barato para todo mundo.

Kebab, uma coqueluche em Lisboa

A origem do prato, segundo as fontes que pesquisei, é turca, mas algumas variações podem ser apreciadas em algumas regiões da Europa, especialmente as mais próximas da Turquia. Em Lisboa eles são vendidos nas “kebab haus” (ao menos é onde geralmente compro) e sempre atendido por orientais (me perdoe Said mais uma vez, porém, se especifico isso faço uma tese).

Soube também que os alemães são fanáticos pela iguaria. A mim também me agradou, confesso, nunca o tinha provado. Seu poder de satisfação também me espantou, afinal, não consegui comer um inteiro. Igualmente, achei mais natural e mais barato que um hambúrger do Mc Donalds.

Bom, é neste ponto que deixo os devaneios culinários, os quais nada entendo, e fixo-me onde transito melhor, no poder das representações e dos jogos de poder, prometendo, claro, não fazer uma tese.

Mas antes, conto uma estorinha: certa vez, pedi informações a um “gajo” e ele me responde: isto fica próximo a uma loja daquelas pessoas que parecem… indianos, paquistaneses, algo assim, enfim, daquela gente um bocado estranha. Pensei, se fosse um indiano a perguntar por mim ao gajo, eu também seria “um bocado estranho”?

Contei isso para mostrar como as velhas representações ainda subsistem em um mundo que, motivado pelas tecnologias da informação, empreende um diálogo contínuo. É difícil tirar da cabeça de um europeu insensato seu orgulho colonizador tanto quanto é difícil tirar da minha o passado no tronco e as chibatadas. Os espaços de poder e de resistência continuam firmes. Por exemplo, o poder gastronômico (digamos assim) que este kebab exerce no mundo talvez não tenha a magnificência do famoso Mc Donalds, que tudo padroniza e uniformiza no mundo e de modo algum é um “bocado estranho” nas terras onde pisa.

Uma vez ouvi que o preço deste sanduíche poderia ser usado para medir a flutuação cambial, e isso é um dado importante, será que o mesmo aconteceria com este kebab anti-crise? Mas independente disso tudo, a propaganda do kebab representa mais que a ousadia de um migrante “um bocado estranho” com sua comida também “um bocado estranha” em brincar com a situação econômica da terra que lhe acolhe, é também uma forma carinhosa de contribuir: “Oh, não tens dinheiro, toma o kebab, custa menos que um refrigerante”. Na crise… uma comida turca pra relaxar!

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Namorar? NaMouraria

atualizado 23 outubro 2014 Deixar comentário

por Nadson Vinícius dos Santos

 

Ai de mim,

Maniqueísta que fui,

Dei de rolar na cama

A julgar-me diabólico. (Wesley Correia)

 

Todo ponto de vista é a vista de um ponto. A frase é meio clichê, mas os clichês um dia foram originais, então não tenho problema em usá-los quando me convêm. O que me convém no presente momento, a propósito, é falar da impressão que a Mouraria, bairro de Lisboa, despertou em mim. Mas também é honesto dizer o ponto sobre o qual observo este reduto, e adianto:  o de alguém que até os 18 anos enxergava o mundo da janela de uma cidade de pouco mais de 30 mil habitantes e quando teve de deixar seu cariri, evitou um relacionamento sério com as capitais, preferindo com elas mais uma relação de amante.

Lisboa e uma herança histórica dos mouros

Claro que só mais tarde descobri que, tanto as cidades médias quanto as grandes, funcionam em torno do progresso burguês e da nossa mais perfeita ficção, o dinheiro. Nessa carreira, as cidades pequenas são engolidas. Entretanto, cotidianamente as urbes depositam nos seus subúrbios e favelas, trazidas em diversos meios de transportes, as cidades pequenas engolidas no girar a roda

do progresso. Neste ambiente em que seres humanos juntam os cacos do deslocamento e criam um mosaico de representações é que sempre me senti em casa. Com Lisboa não seria diferente.

Não obstante ostentar o título de capital de um país, em população, essa gigante não chega sequer aos pés de Salvador. As cidades em Portugal são muito pequenas se comparadas às do Brasil. Mas capital é capital, tem seus centros financeiros e burocráticos  como todas que se prezam, mas não venho me deliciar nesse texto para tratar de assuntos tão chatos, venho falar da Mouraria.

O nome vem de “Mouros”. Este foi um dos últimos redutos dos descendentes de árabe da Península Ibérica. Caiu sob mãos portuguesas e católicas, é bom frisar. Depois, o castelo de São Jorge, construído pelos mouros, – o qual se pode ver da Mouoraria – passa ser a sede dos despachos lusitanos. O último golpe da conquista. Mas a pergunta seria: se a Mouraria não passou de um território mouro tomado pelos cristãos como muitos outros, o que teria esse ambiente de tão encantador? Eu responderia que além da boemia do lugar, de sua falsa tranquilidade matutina, de sua história, da energia ancestral, da Ginja de seu Antônio e de toda sua beleza, enfim; é que da roseira desprezada nasceu a flor mais bela da floricultura. A Mouraria é o berço do fado, ritmo visceral, e por isso mesmo lindo, que representa todos os portugueses, assim como o samba nos representa no mundo.

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Sobre as aves que aqui gorjeiam

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por Nadson Vinícius dos Santos

Ao chegar nas terras d’além mar, em Lisboa, os muitos cartazes da esquerda me deram a impressão de que havia algo errado. Sim, porque a classe média e a pequena burguesia só chamam a esquerda quando a criança neo-liberal, formada na renomada escola de Chicago, mete os pés pelas mãos (resisti ao trocadilho ). No Brasil de 2002, essa mesma classe mandou Lula fazer a barba, ajeitar os dentes, botar um paletó mais chic e moderar o discurso; aí  fez o favor de mandar seus empregados votarem no pobre e lá se foi o Lula lá, salvá-los da falência em que o príncipe da privataria os estava metendo. 12 anos depois e estupidamente enriquecida a custa do consumo de seus empregados, este setor da economia e da sociedade cansou de dividir o pão ( se é que algum dia o dividiu); cansou de pagar impostos para ajudar pobres-pretos-vagabundos, acusa o governo de “o mais corrupto da história” e está movendo céus e terras para tirá-lo. Afinal, o PT se corrompeu, pois tirou todo mundo da merda, o plano era apenas tirá-los.

Agora, seus jornais suplicam novo comandante. Alguém que faça a economia crescer, alie-se aos EUA (como se a raposa cuidasse do galinheiro) e ajude os fundamentalistas na cruzada contra a onda gay. Engraçado é que a História, como farsa ou tragédia, sempre nos ensina a deixar de sermos tão burros. Ora, enquanto gemíamos nas mãos do FMI e do Banco mundial, a União europeia dividia as funções aqui no velho continente. Portugal, por exemplo, recebeu a proposta de se desindustrializar para transformar-se na zona do euro, digo, zona de lazer da UE. Recebia, em troca, dinheiro. Isso, dinheiro. Dinheiro dado. A única exigência seria passar a investir em turismo, serviços e artesanato. A esquerda prevendo o golpe votou contra, claro. Aí a mídia da pequena burguesia endemonizou os comedores de criancinha e Portugal recebeu uma bolada. Parte sumiu e a outra foi investida em tanta assistência social que a vida ficou chata.

Mas na mesma época em que o Brasil se livrava do Banco mundial e do FMI, graças a Lula, os yankee protestantes deram um pulinho no velho mundo a negócios, pois quem ia pensar em diversão em plena crise? Lá se foi o turismo português. A direita, então, recorreu aos banqueiros. Resultado: a emenda saiu pior que o soneto. atualmente, cortaram 40% dos salários e parte das aposentadorias, reduziram bolsas de pesquisa, nas  universidades públicas se paga uma taxa para estudar e pasmem os reacionários: contrataram até médicos cubanos, além de se cobrar uma taxa nos centros públicos de saúde.  Ao fim e ao cabo, como se costuma dizer aqui, o candidato do partido socialista é o mais cotado para assumir a presidência da república. A velha Clio se mostrou como tragédia e a pequena burguesia vira à esquerda mais uma vez.