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Vale do Pati, a trilha da Chapada Diamantina (parte 4)

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O horizonte do Morro do Castelo//Foto d’As sementeiras

por Luciana Teruel

Antes de voltar pra casa fomos abençoados com a chuva. Sim, abençoados porque a chuva ali é um momento único em que as pessoas pulam, vibram e tiram foto. É lindo ver todos tomados de alegria olhando pro céu e agradecendo a dádiva da chuva. Seguimos caminhando por 8 horas com subidas muito pesadas, mas fomos agraciados com cachoeiras fantásticas, como a tão falada Cachoeira do Funil. Nessa altura, a chuva já havia parado e nós não perdemos a chance de nos jogarmos em suas águas.

Depois do banho, seguimos para o Calixto e quando o vimos, de dentro, não nos arrependemos de nenhum passo dado a mais. Estar ali é como estar em Eywa, a terra de Avatar. Não há sequer um mito, lenda ou estória de conto de fadas que você não veja ali. Para mim, foi um contato de pura gratidão para com a Mãe Terra, o Pai Céu, o Avô Sol, a Avó Lua, as Quatro Direções, o Povo-em-Pé (árvores), o Povo de Pedra, os seres de asas, os seres de barbatanas, os quatro patas (animais), os rastejantes (insetos), a Grande Nação das Estrelas, os Irmãos e Irmãs do Céu, os povos subterrâneos, os seres do Trovão, os Quatro Espíritos Principais (Ar, Terra, Água e Fogo) e todos os seres de Duas Pernas da família humana…

Arrepiados, saímos do Calixto e, mais uma vez, caminhamos sobre os Gerais. Hora de digerir tudo o que os nossos sentidos presenciaram nessa imersão. Horas de caminhada depois, estávamos bem cansados e paramos na toca do Gaúcho para respirar e comer alguma coisa. Essa toca foi, por muitos anos, a morada de um desprendido gaúcho que vivia ali como no tempo dos homens das cavernas.

Quando só faltava a descida rumo ao Capão, resolvemos ver e nos jogar na Cachoeira da Purificação, então desviamos a esquerda e, depois de uma difícil descida por trilha pouco batida, chegamos! Nos purificamos nas últimas águas da Chapada e descemos, pois o Capão nos esperava. A trilha do Vale do Pati tinha chegado ao fim, mas nossos olhos e sentidos nunca mais serão os mesmos depois dessa profusão de paisagens, sensações e experiências. Então nos despedimos com gratidão ao Grande Mistério e aos amigos que compartilharam essa incrível caminhada (Alex, Luana, Diana, Maíra e Eder).

Contas da trilha:

Quanto saiu a trilha indo por conta.
Hospedagem: R$ 85,00
Transporte (desde Salvador): R$ 150,00
Refeições: R$ 125,00
Guia: R$ 100,00 (por pessoa)
Total: R$ 460,00 (por pessoa)

Dicas e informações importantes:

Sim, guia é fundamental. Pelo menos se você não é um expert em trilhas e estudou muito bem todo trajeto que vai percorrer.

Em geral, um guia cobra R$ 150,00 por dia para fazer o Pati, dependendo do número  de pessoas. Logo, vale a pena juntar uma turma e contratar diretamente um guia sem agência de turismo. Aqui, dois contados de guias de confiança: Diana e Dmitri.

No Vale do Capão e por todo Vale do Pati não há sinal de celular, portanto, deixe amigos ou familiares avisados antes de ir pra lá.

Os bancos ou caixas eletrônicos mais próximos ficam na cidade de Palmeiras, logo, leve a quantia que vai precisar em espécie.

O sol durante a trilha é muito forte e pode deixar queimaduras horríveis, por isso,  além do protetor solar, é fundamental levar bonés, chapéus ou lenços.

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Texto publicado originalmente em As sementeiras.

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Vale do Pati, a trilha da Chapada Diamantina (parte 3)

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Casa de seu Wilson e dona Maria//Foto d’As Sementeiras

por Luciana Teruel

O trajeto da igrejinha até a casa de seu Wilson foi o mais difícil e de maior aventura de toda a trilha. Já eram 16 horas quando saímos e precisávamos chegar antes de escurecer, por isso, a guia escolheu um caminho mais curto… literalmente pelas cachoeiras. Muita descida, pedras úmidas e soltas, árvores para se segurar e pular, pequenas escaladas. Seguimos pelas águas do Rio Funis, passando por algumas cachoeiras. Algumas vezes adentramos na mata alta e era impossível prestar atenção naquela diversidade verde à nossa frente e, ao mesmo tempo, nas pedras no chão. Nos perdíamos em sensações e informações visuais.

Se antes vimos a Chapada por cima, agora estávamos lá embaixo, com os imensos Gerais do Vieira nos abraçando. Nos distanciamos das cachoeiras e seguimos uma estrada aberta até a casa de seu Wilson. Quando chegamos ali, a noite já estava caindo. E como é inesquecível o céu estrelado do Pati! A casa de seu Wilson é ainda mais simples e menor que a igrejinha. Conta com apenas a casa da família de seu Wilson e uma outra anexa, com quartos compartilhados, 2 banheiros e uma cozinha bem simples. A diária só pra dormir custa R$ 35,00 por pessoa, mas o que a maioria faz é pagar pensão completa com alojamento, jantar e café da manhã que sai R$ 75,00 por pessoa. Além disso, a comida de dona Maria, esposa de seu Wilson, é a mais famosa de todo Vale do Pati.

3°dia: Casa de seu Wilson e dona Maria até a Prefeitura

Quem faz trilha sabe que sinônimo de descer muito é subir muito e foi assim que começamos nosso terceiro dia, subindo absurdamente muito. O objetivo era chegar em outra grande atração da Chapada, a gruta do Morro do Castelo. Quando chegamos ali não acreditamos no que estávamos vendo. A entrada dela, por si só, nos levou imediatamente a uma cena de filme: era enorme e não sabíamos se olhávamos curiosos para dentro, onde estava tudo escuro, ou para o mar verde com suas elevações rochosas do lado de fora. Depois de muito contemplar, como Júlio Verne, adentramos ao desconhecido mal enxergando um ao outro e com uma pequena lanterna guiando a todos. Foram minutos do tempo daqui, mas uma eternidade na ampulheta da imaginação até alcançarmos novamente a luz. E foi realmente como transpassar um portal e encontrar um vale escondido da humanidade, ou melhor dizendo, protegido da humanidade. As formas, cores, texturas, cheiro, a vida que pulsava ali mexeu demais com cada um de nós. Certamente estávamos tomados de perplexidade e sensações distintas, cada um transportado ao mundo de sua quimera. Mas ainda tinha um… depois. E foi quando presenciamos uma natureza descomunal. Estávamos no coração da Chapada Diamantina, com o visual mais incrível do Pati. Éramos grãos numa imensa sementeira e ficamos ali sentindo o vento, escutando nossa voz interior e contemplando com o coração.

Mas, apesar da vontade de viver ali, seguimos silenciosamente a trilha, tranquila e encantadora, até a Prefeitura, sentindo algo germinar dentro de nós. Pra fechar nosso penúltimo dia imersos no Pati, depois de deixar nossas coisas na última morada, fomos nos banhar no Poço da Árvore, bela piscina natural e cachoeira no meio da mata. Ao regressar, ficamos fascinados com o céu mais lindo que já vi na vida sobre as falésias do morro dos Dedos . Ele e o Morro do Castelo se erguiam sobre as nossas cabeças.

Dos três refúgios, a Prefeitura é o que está um pouco mais completo. Tem quartos menores e duplos, banheiros com água quente, vendinha e uma cozinha bem equipada. A diária custa R$ 25,00 e o jantar R$ 35,00, por pessoa. Antes de cairmos na cama, sentamos na frente da casa para tomar uma cachaça com canela e ouvir deliciosas histórias sobre os moradores do Vale.

4° dia: Prefeitura até o Vale do Capão

No último dia daquele sonho, levantamos as 5 horas da manhã para conseguir chegar ao Vale do Capão antes de anoitecer, passando pelo Vale do Calixto. Olhando pra trás, me lembrei da canção: “dos cegos do Castelo me despeço e vou a pé até encontrar um caminho, o lugar pro que eu sou”. Então, seguimos, e não é que lavamos a alma?

(continua)

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Vale do Pati, a trilha da Chapada Diamantina (parte 2)

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Seu João, um dos moradores do Vale/Foto: D’As sementeiras

por Luciana Teruel

A trilha começou com uma subida leve de aproximadamente 2 horas até o Córrego das Galinhas. A nossa esquerda e a frente já avistávamos o começo dos impressionantes paredões de pedra. Fizemos uma rápida parada no córrego para abastecer as garrafas de água, comer algo pra repor energia e ir ao “banheiro”. Não precisou de muitas horas para percebermos que a água da Chapada é incrivelmente pura e límpida. Uma água “benta” que nutre a alma durante cada passo dado. Depois de 15 minutos, seguimos rumo ao Gerais do Vieira. Foram mais ou menos 4 horas andando num retão onde o visual era uma pintura divina. Céu azul, campo aberto, vegetação rasteira, solo rachado, montanhas nascendo do solo por todos os lados para onde olhávamos e vento soprando forte. Uma meditação em movimento. Paramos para comer num pequeno refúgio feito de troncos e sapê, que protege os aventureiros do vento e da chuva, e nos banhar na Cachoeira dos Cristais.

Energia reposta, seguimos com o mesmo visual, apenas a vegetação foi “subindo”, o solo ficou negro, o sol estava escaldante e uma nascente cortou nosso caminho para aliviar o calor, a sede e a alma. Enquanto nos aproximávamos da ponta do Gerais do Rio Preto brincávamos de desenhar com as nuvens sobre o Morro Branco. A reta acabou e sentamos para apreciar aquela imensidão de montanhas, serras e vales. Estávamos num lugar bem alto e era de arrepiar imaginar que aquilo ali embaixo um dia foi mar. Começamos então a descer por uma “pirambeira”, como dizem os nativos, o Quebra Bunda, e antes de chegar à igrejinha ainda passamos por uma linda mata fechada. O clima tinha mudado bruscamente de seco para úmido e isso alterou completamente a vegetação, tanto que a flor Quaresma coloriu de roxo a paisagem.

A igrejinha é um oásis humano no meio daquela natureza sem fim. Com uma igreja, quatro casas e um morador, seu João (que adora papear noite adentro), nos acolheu muito bem quando chegamos por volta das 18 horas mortas de cansaço. A infraestrutura é super simples e conta com banheiros e quartos coletivos, uma cozinha comunitária e a vendinha. A energia é gerada com placas solares e usada apenas para o necessário. Já o banheiro tem, por pouco tempo, água quente. A diária ali custa R$ 25,00 por pessoa e não há refeições oferecidas a parte, portanto é necessário levar ou comprar comida ali mesmo para fazer, com um adicional de R$ 8 por grupo caso precise utilizar o fogão. Famintos, comemos uma comida deliciosa preparada pela guia, conversamos com outros grupos que também faziam a trilha pelo Vale e fomos cedo pra cama, pois a aventura estava só no começo…

2° dia – Igrejinha até a casa de Seu Wilson e dona Maria

Antes de seguir para o nosso segundo destino, deixamos nossas mochilas na Igrejinha e fomos conhecer uma das maiores atrações da Chapada Diamantina, o Cachoeirão. A caminhada foi tranquila, quase toda em terreno plano, e cruzando vez ou outra com pequenos córregos que desembocam em cachoeiras. Passamos por uma pequena mata que mais parecia um mangue, pois as raízes das árvores estavam expostas e, combinadas com as cores dos musgos, nos fazia sentir num reino encantado. Seguimos andando numa reta, quando a guia parou e disse: “pessoal, de agora em diante, tomem muito cuidado por onde pisam, pois estamos chegando no Cachoeirão”. Não fazia o menor sentido, pois não víamos nem sinal de cachoeira. Demos então mais alguns passos e eis que um vale incrível foi surgindo sob nossos pés, como se o chão se abrisse para a cachoeira nascer. A emoção de chegar por cima numa cachoeira daquele porte e altura (são cerca de 200 metros de queda) é indescritível, algo que só pode ser sentido. Ficamos mais de uma hora ali em estado de graça, apenas contemplando a criação e conversando com a mãe-Terra… Depois desse choque energético, voltamos para a igrejinha para pegar nossas coisas e seguir viagem. O sol estava muito forte sobre nossas cabeças e isso nos deixou exaustos.

(continua)

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Vale do Pati, a trilha da Chapada Diamantina (parte 1)

atualizado 23 novembro 2014 Deixar comentário
Uma trilha em parque nacional

por Luciana Teruel

Quando saímos rumo a Bahia tínhamos um sonho: fazer alguma trilha pela Chapada Diamantina. Mas foi só começar a pesquisar que a realidade logo nos impôs um grande obstáculo: preços! As agências estavam cobrando algo em torno de mil reais por quatro ou cinco dias de trekking… Mas sementeira que é sementeira faz uma baita força para germinar e contar com os “acasos” da vida. E foi num desses que caiu sobre nós a possibilidade de fazer a trilha do Vale do Pati com o pessoal do projeto Vale do Grafite, e com a Diana, guia, amiga e parceira do projeto. Foi inacreditável!

Localizado bem no coração do Parque Nacional da Chapada Diamantina, entre os municípios e vilas de Andaraí, Mucugê, Guiné e Vale do Capão, por sua exuberante beleza, o Vale do Pati é um dos lugares mais visitados por quem gosta de fazer caminhadas em ambientes naturais. O seu acesso é feito apenas a pé ou montado em um animal, e são necessários no mínimo três dias para cruzar o extenso vale. Atualmente, vivem menos de 40 moradores fixos, mas o Vale do Pati viveu por décadas da agricultura do café, chegando a ter aproximadamente 2 mil moradores. Hoje, estes moradores vivem da hospedagem, transporte de carga e alimentação dos turistas que visitam o vale. O roteiro principal, que começa em Andaraí e termina no Vale do Capão, é feito em 5 dias. Como o pessoal do projeto só tinha quatro dias, optamos por um trajeto circular, a partir do Vale do Capão.

Vale do Capão: os preparativos

Quando descemos na praça do Vale eram 6 horas da manhã e a cidade estava quase deserta, mas o suficiente para olharmos pros lados e ficarmos fascinadas com aquele lugar. E o sonho só estava começando… O lugar é tão incrível que mereceu um post a parte (confira aqui), com informações de como chegar e onde se hospedar.

Mais tarde encontramos com o pessoal do Vale do Grafite, quando só então nos demos conta de que faríamos não só a melhor trilha da Chapada Diamantina, como uma das mais bonitas do mundo. Diana, nossa guia, nos aconselhou a não levar barraca, pois seria muito peso para carregar Chapada acima e abaixo, caminhando 8 horas por dia – sim, seriam nossas primeiras 8 horas diárias em terreno montanhoso. Ansiedade a mil! Nos informou também que teríamos casas de nativos para comer e dormir durante o trajeto, mas que levaríamos comida pra economizar. Cada um gastou no mercado R$ 35,00, e nossa guia sabia exatamente o que o grupo ia precisar tanto para fazer as refeições como para repor as energias durante a caminhada. Isso foi fundamental para vencer, bem, os 4 dias.

Na mochila, nada além de duas peças de roupa (uma delas para dormir), um chinelo, alguns remédios e itens de primeiros socorros, boné, capa de chuva, repelente, protetor solar, itens de higiene pessoal, as comidas rigorosamente divididas entre todos e a máquina fotográfica (que foi incapaz de registrar tudo o que vimos).

Pé na trilha! 1° dia: Vale do Capão até a Igrejinha

Como o primeiro dia do trekking já prometia 8 horas de caminhada, para chegar ao início da trilha pegamos uma 4 x 4 que custou R$ 10,00 por pessoa. Isso foi essencial, pois, da praça principal da vila até lá, seriam mais 2 horas de caminhada pela Vila do Bomba por uma estrada de terra…

(continua)

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Vale do Capão

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Um vilarejo “estacionado no tempo”

por Eliane Barros

A ideia de ficar mais tempo no Vale do Capão, e não em Lençóis, como muitos geralmente fazem quando visitam a Chapada Diamantina, partiu de um amigo baiano, o Alexis Gois, que na época estava desenvolvendo um projeto super bacana por lá: o Vale do Graffiti. E foi uma feliz ideia. Sabe aqueles lugares que basta uma volta na praça para logo você se apaixonar pelas pessoas que vivem ali, pelo clima que move a cidade? O Capão é um deles. A sensação é de que o vilarejo propositalmente estacionou no tempo. E assim foi. Por ser um ponto energético muito forte – o céu dali é incrível -, dizem que, na década de 1960 e 70, um grupo de pessoas se mudou pra lá para experimentar novas formas alternativas de vida, todas baseadas na contemplação e no respeito à natureza. Pessoas que deixaram o stress do meio urbano para viver a tranquilidade e a paz presentes ali em abundância…

E esse clima você já sente logo no caminho de terra que liga Palmeiras – cidade onde chegam os ônibus vindos de Salvador – até o povoado de Caeté Açu, nome oficial do vilarejo. São 22 km de paisagens que, de tão fascinantes, nos convidam a um exercício de autoconhecimento e reflexão.

Retratos de cinema

Já na vila, o vai e vem dos moradores, em meio às casinhas coloridas em volta da praça, é um convite à contemplação das montanhas presentes em todos os horizontes do Capão. E bastou uns minutos de prosa por ali para começar a descobrir a infinidade de projetos interessantes presentes no vilarejo de apenas 1.400 habitantes. Tem aulas de circo, sessões de cineclube, aulas de idiomas, festival de jazz, de grafite, centro voltado a espiritualidade… E o que mais nos encantou foi conhecer a Biblioteca e a Escola Brilho do Cristal, ambas comunitárias. Com uma filosofia pedagógica construtivista, a escola experimental de 1ª a 4ª série defende o diálogo amoroso e a arte como fundamentais no processo de construção de conhecimento. Ao invés de um currículo escolar autoritário, a Brilho de Cristal trabalha com temas e projetos transversais pensados de forma coletiva entre pais, mães, professores(as) e crianças. Tudo com base no respeito à natureza em busca da conscientização de cada aluno e aluna.

Alimentos de corpo e alma

Uma série de lojinhas de produtos naturais é outro convite, este para mergulhar na gastronomia local que também busca essa sintonia com a natureza. No Capão, aliás, difícil é encontrar alimentos transgênicos ou mesmo com agrotóxicos. Tudo vem dali, da horta do vizinho, ou dos sítios da região. Até o supermercado é um desbunde: tomam conta das prateleiras diferentes tipos de grãos, castanhas, frutas secas, e até mesmo cosméticos naturais, como sabonetes, cremes e demais produtos de higiene pessoal, muitos deles vindos da Campina, uma comunidade alternativa nos arredores do vilarejo.

Vários restaurantes, bares e pizzarias seguem também essa mesma pegada. Um dia almoçamos no restaurante Dona Beli, cujo PF com arroz, feijão, legumes, salada e ovos nos custou R$ 8. O sabor? Comida caseira, feita no fogão à lenha. Dona Beli também oferece pratos com galinha caipira e carne de sol. Outro dia comemos em uma pizzaria que nos surpreendeu pela massa super leve e integral, sem contar na qualidade dos ingredientes. Comandada pelo suíço Thomas, a pizzaria já tem mais de 20 anos e oferece apenas dois sabores, sendo um salgado e outro doce. Provamos o primeiro, feito com mussarela, molho de tomate, pesto (molho de azeitona, manjericão, alho e orégano) e cenoura. Um sabor de fazer até os mais carnívoros lamberem os dedos…

Um mergulho na gastronomia local do Capão significa também estar com o paladar aberto a novas experiências. Já imaginou comer um palmito de jaca? Pois essa é uma das iguarias mais presentes nas diferentes receitas do vilarejo, sendo o pastel recheado com ela (R$ 2,50) a mais famosa. De tão incrível, fizemos um post só pra este “palmito” (confira aqui), feito a partir da jaca verde, e que substitui perfeitamente o frango em receitas como coxinha e torta, além do pastel, claro. Outra tentação que conhecemos por lá foram as bolachas “Delícias da Gê”, feitas com um mix de cerais estilo cookies.

Trilhas e uma cachoeira de 380 metros

Exuberância como cartão postal

É do Capão que partem três das trilhas mais famosas – e mais pesadas – da Chapada Diamantina: Vale do Pati, Capão-Guiné e Cachoeira da Fumaça. Na primeira tivemos a felicidade de fazer com um grupo de amigos guiados pela Diana (confira aqui). Já a segunda ficou na lista de coisas a se fazer numa próxima visita à Chapada. E a terceira, por fim, foi algo que nos surpreendeu – e muito – mesmo depois de termos percorrido os quatro dias de trekking pelo Vale do Pati.

O acesso à trilha que vai à Cachoeira da Fumaça (vista por cima) é pela sede da Associação dos Condutores de Visitantes do Vale do Capão, a cerca de 6 km do centro da vila (um moto taxi pode custar R$ 10 até lá). Fomos de carona com o Gabriel e com a Luana, um casal super bacana que mora na Chapada dos Veadeiros e que também estava se hospedando na casa na Diana (nossa guia no Vale do Pati). E é da sede da Associação onde se inicia a subida de cerca de mil metros (cerca de 2 horas) até a exuberante vista da cachoeira, que tem nada menos que 380 metros de queda livre. É tão alto que, num primeiro momento, para não marear, o melhor a se fazer é deitar no chão/pedra e ir se aproximando/arrastando aos poucos até conseguir visualizar toda a queda. É uma sensação incrível, até porque sou um pouco fascinada por altura. A vontade que deu ali foi de iniciar, no dia seguinte mesmo, a trilha que vai até a cachoeira por baixo, algo que leva uns três dias. Mas isso também ficou para a próxima…

A trilha até a Fumaça por cima é autoguiada, mas em alguns pontos é possível se perder. No entanto, é uma das rotas possíveis de serem feitas no Capão sem o acompanhamento de guia. As outras são Riachinho, Cachoeira das Rodas, Rio Preto e Conceição dos Gatos. E há sempre mototaxis na vila que podem deixar o visitante no pé da trilha.

Como chegar? Desde Salvador, todos os dias uma empresa de ônibus disponibiliza veículo em direção à Palmeiras, por R$62,98. E sempre quando os ônibus chegam em Palmeiras há carros 4×4 ou vans que levam os passageiros até o Vale do Capão, pelo custo de R$ 10,00 (cerca de 1 hora de viagem).

Onde ficar? Durante o tempo que ficamos pelo Capão nos hospedamos na casa da Diana, amiga e parceira de projetos do Alexis e que, em dois dedos de prosa, também já era nossa amiga. Mas vimos que o Capão conta com pousadas e campings para todo tipo de gosto e de bolso. Das que ouvimos boas referências, uma delas é a Pousada Pé no Mato, com diárias desde R$ 35, e o Camping do Seu Daí, Tel.: (75) 3344-1057, e diárias a R$ 10,00. Outra ideia interessante é o Centro Lothlorien, que oferece o “hospedagem participativa”. É uma proposta onde o hóspede troca parte do custo de sua hospedagem por trabalho; experimenta um pouco da rotina, alimentação, tarefas e regras de convivência.

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Texto publicado originalmente em As sementeiras.

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‘Buen camino’ de Santiago de Compostela

atualizado 6 novembro 2014 Deixar comentário
O famoso caminho de Santiago de Compostela, noroeste da Espanha

por Luciana Teruel

É quase inexplicável o que é o Caminho de Santiago de Compostela. A primeira palavra que vou usar é “desprendimento”. No Caminho, a mochila é a sua casa. Então, tem gente que leva livros, várias trocas de roupas, de sapatos, o que quer que seja. Tem gente que até computador leva. Mas essa casa você carrega nas costas… e aja costas para carregar o fútil, o desnecessário, o que você nem usar vai. E é gostoso ver, ao longo da caminhada, as pessoas se dando conta disso e diminuindo suas “casas” até ficarem do tamanho real de suas necessidades. Muitos abandonam coisas, outros despacham para Santiago ou para suas “casas de tijolo”. Nos damos conta de que precisamos de muito pouco para ser felizes. Para nos realizar. Para fazer amigos. Para ajudar o outro. Para superar cerca de 800 km andando. Será que não acumulamos coisas desnecessárias em nossas casas? E no que essas coisas nos ajudam a viver mais e melhor? Será que não carregamos nossa casa nas costas?

A próxima palavra é “tempo”… e essa eu adoro! O relógio, as horas como as conhecemos, não tem o menor sentido no Caminho. Imagine que você tenha que acordar e sair para andar… e que só irá parar quando seu corpo não mais aguentar… e que no outro dia será igual, e no outro também… Não existe mais tempo! Dormíamos mais ou menos às 21h (com o sol europeu em nossas cabeças) e acordávamos às 5h da manhã. Era o corpo que nos pedia isso, e não mais o relógio. Imagine todas as pessoas fazendo isso juntas! Andávamos 6, 7, ou até 8 horas por dia. E as horas viravam dias, e os dias viravam meses e os 28 dias de Caminho viraram uma vida. A cada uma hora mais ou menos você tem uma nova paisagem, um novo acontecimento, uma pessoa que conhece, uma nova história… Será que é só o caminhar? Será que somos escravos das horas/dias/calendários/feriados?

Um momento de descanso

A terceira palavra que quero usar é “superação”. Meu Deus, como se sente dor. Foram bolhas nos pés, inflamação nos tornozelos, uma dor absurda num osso (que eu nem sabia que existia) no pé, diarreia, vômitos… Mas não imagine isso como um sacrifício. Não é! O Caminho não dá esse peso. São coisas que acontecem para que você desenvolva a calma, a paciência e a perseverança. Coisas que fui me dar conta no segundo dia de caminhada, quando conheci Maria Antonia, uma senhora de 68 anos que não era acostumada a andar antes e que me disse: “eu não tenho mais pressa na vida e não tenho data para voltar, assim que vou no meu ritmo e, seja quando for, eu vou chegar”. Foi nesse dia que comecei a buscar meu ritmo. Pra vida? Será? No Caminho não importa se você é preparado fisicamente ou não. Vi gente sem preparo algum chegar a Santiago de Compostela sem uma bolha sequer no pé (minha amiga Maria Antonia foi uma delas) e vi gente com muito preparo físico e pouca idade cair pelo Caminho com um ligamento rompido ou joelho estourado. Será que o segredo era o ritmo? A calma? A paciência?

A próxima palavra é “partilha”. Nossos pontos de descanso eram os albergues, onde jogávamos nosso corpo, deixávamos a água cair para limpar todo cansaço, onde nos alimentávamos em refeições comunitárias e onde ouvíamos histórias maravilhosas. Foram paellas, macarrão a carbonara, saladas, lanches etc. Uma delícia. Mesas enormes, gente de todos os cantos do mundo, aplausos para os cozinheiros, muito vinho e muita interação. E na hora de dormir? O quarto muitas vezes era para 90 pessoas (em beliches). Imagine 90 pessoas completamente distintas (em todos os aspectos) dormindo juntas? Eram roncos, chulés, tosse, gente se mexendo a noite toda. Uns dormiam mais cedo, outros mais tarde. Um absurdo para muita gente imaginar… e um verdadeiro aprendizado para aqueles que estão fazendo o Caminho. O respeito, o desapego e a tolerância são coisas que a gente aprende a desenvolver sem se dar conta. Pepe, um amigo espanhol de 66 anos, quando chegou a Santiago de Compostela, encontrou sua esposa e se hospedou em um hotel com ela. À tarde nos encontramos e perguntamos como ele estava. E assim ele disse: “tenho uma cama de casal enorme para dormir, uma ducha incrível para tomar banho, uma TV com 50 canais e, depois de usar tudo isso, pensei que não queria nada disso. Que nada disso me preenche de verdade. Que quero os meus amigos juntos. Que prefiro estar no albergue com vocês”. Quantas vezes tudo o que temos não nos preenche? E sabemos exatamente o porquê, assim como Pepe? Por que comemos sempre tão solitários? Por que sobra ou falta tanta comida em nossas mesas?

“Outra partilha”. Dizer que algo te falta no Caminho é sinônimo de ter o que precisa. Ao dizer “tenho fome”, alguém tira uma comida da mochila e te dá. “Não tenho boné para me proteger do sol”, alguém tira o boné da cabeça e te dá. Menos Maria Antonia, minha amiga. Pois bem, num dia duro de caminhada, Maria Antonia esqueceu o boné dela no albergue e seguiu o Caminho debaixo do sol escaldante. Ao comentar comigo que havia perdido o boné, eu olhei para aquela senhora de 68 anos, com marcas suficientes da sua idade no rosto e, sem pensar, lhe ofereci meu boné. Muito séria, ela me olhou e disse: “No se desnuda un santo para vestir otro”. Fiquei perplexa com essa frase na cabeça por uma boa parte do Caminho. Quantos santos eu já despi? E quantos eu vesti?

Luciana Teruel, Maria Antonia e Eliane Barros

“Idade”. No Caminho não existe idade. O mais novo que conheci tinha 17 anos e carregava na mochila um notebook de 17 polegadas e um terno. Não sabia direito o porquê estava caminhando e, no seu décimo dia, voltou pra casa. Já a mais velha tinha 81 anos (Dona Maria del Pino!). Era a quinta vez que fazia o Caminho. Estava com sua filha e fez questão de mostrar a identidade para que eu acreditasse nela. Sua filha contou que, para comemorar os 80 anos, sua mãe subiu um vulcão em Tenerife. E desabafou que os filhos têm que se revezar para acompanhá-la… e que aja folego. Quando eu perguntei à Dona Maria del Pino qual o segredo para ter tanta disposição assim nessa idade, ela sem pensar me respondeu: “Nunca parar de andar”. Será que paramos de andar muito cedo? Será que nos acostumamos com o sofá, com o carro…? Diante dessas coisas, percebi que a questão idade não tem o menor peso no Caminho. E na vida? Tem ou somos nós quem colocamos o peso?

Uma outra palavra é “idioma”. Tem gente do mundo inteiro. Europeus (super preparados fisicamente), brasileiros (aos montes, alguns tomando cerveja e fazendo piadas pelo Caminho, rs), coreanos (caminhando de chinelo), japoneses (levando em suas mochilas até banquinhos pra sentar), americanos (uns comendo batatas fritas e tomando coca-cola, rs), indianos (carregando instrumentos musicais para fazer seus mantras tibetanos), toda sorte de gente… Pode ser uma verdadeira escola de idiomas. Tem gente que caminha conversando em vários idiomas com um monte de gente. Mas o Caminho tem a sua língua oficial… E essa língua muitas vezes e falada só no olhar. Num esticar de mão pra quem está no chão, no oferecer de uma agulha com linha para furar a bolha enorme que está no seu pé, no sabão que te dão pra lavar a roupa suja, no sorriso que se abre quando você consegue chegar onde o outro chegou e só vocês sabem o quanto foi difícil chegar ali… No Caminho, não faz falta idioma algum. Por que então a comunicação entre o mundo é tão difícil? Por que as nações não conseguem se entender? Por que muitas vezes não “conversamos” com quem é diferente de nós?

E por falar em olhar e sorriso, a próxima palavra é “torcida”. No Caminho, você não torce por você. É claro que você deseja e luta para chegar ao seu destino, mas de nada adianta chegar sozinho… A gente se pega torcendo por cada rosto que viu durante a caminhada: o senhor que mancava, a menina com bolhas nos pés, o rapaz que está com o joelho inflamado… todos! A gente quer que todos também consigam aquilo que conseguimos. E como é maravilhoso chegar ao destino e ser recebido com aplausos e sorrisos por aqueles que já chegaram. Mais gostoso ainda é ficar aguardando pra aplaudir e sorrir aos que ainda estão por chegar. Você não quer chegar sozinho, todos devem chegar. Então por que somos tão individualistas e queremos ser melhores que os outros na vida?

“Solidariedade”. Numa das etapas mais duras do Caminho (um sol de matar, uma estrada sem fim, nenhuma árvore, nenhuma sombra, um deserto sem fim), vi uma das cenas mais bonitas do Caminho… Tinham dois amigos espanhóis e quatro italianas que sempre andavam juntos. Nesse dia, porém, eis que um dos espanhóis chega sozinho carregando 3 mochilas. Estava exausto, descalço, sem camisa, suado e muito, mas muito queimado do sol.  Ele nos contou o que passou, mas, logo depois, ver a cena do seu amigo chegar com o joelho estourado, enorme de inchado, sendo carregado por uma das italianas foi emocionante. Todos aplaudiram e lágrimas escorreram de muitos olhos. No final do Caminho, já em Santiago de Compostela, uma das italianas me contou que os espanhóis eram em três amigos inseparáveis e que, juntos, há anos sonhavam fazer o Caminho. Meses antes de iniciar a caminhada, porém, um deles morreu. Os dois, então, faziam o Caminho carregando as cinzas do amigo para jogar no mar de Finisterra (cidade que fica depois de Santiago e que faz parte de um prolongamento do Caminho). É possível não torcer para alguém nessa vida? Será que sabemos a história que essa pessoa carrega?

Um caminho ou uma busca de respostas

As últimas palavras “magia”, “fé” e “espiritualidade”. Sim, a gente reza muito durante o Caminho. Ao menos eu rezei. São muitos quilômetros, muitas horas dentro da gente mesmo. A cabeça não para. As coisas vêm. Rezei, pedi e mandei muita energia boa pras pessoas que fizeram e fazem parte da minha vida. Não é que no Caminho exista algo espiritual… a espiritualidade está dentro de nós e durante a caminhada nos damos conta disso. A gente acaba conversando muito com Deus (ou seja lá o nome que Ele tenha). E parece evidente que Ele está ouvindo. Estamos mais sensíveis e isso abre o nosso coração para que as coisas saiam e entrem com facilidade. São quilômetros de meditação, de introspecção, de perguntas. A leveza entra na alma como se trazida pelo vento que bate no rosto. E a dor sentida no corpo dá o toque final quando a gente descobre o prazer dessa dor… Sim, a dor que sentimos pelo Caminho é prazerosa. A magia (ou aquilo que assim chamei) é outra coisa que mexe com a gente. Todo o contexto já deixa a coisa mágica, mas basta você pensar em algo e… PLIM… acontece. Não que seja qualquer coisa, porque no Caminho, ao menos eu, não pensei em ficar rica, por exemplo. Você se pergunta em voz alta ou baixa: “Onde estará aquela pessoa que não vejo há dois dias?”. PLIM. Ela está bem na sua frente. “Acho que tal coisa não me acontece”. PLIM. Tal coisa acaba de te acontecer. Às vezes chega a dar medo do que falamos ou pensamos. Quando me dei conta dessa “magia”, aproveitei para mandar a todas as pessoas muitas coisas boas. Muitas energias boas.

Do mais, não terminei o Caminho com uma resposta sequer. Apenas milhares de perguntas, como as que coloquei aqui. Ainda estou “presa” ao Caminho… não consigo voltar a real-idade. Minha vontade é sair pelo mundo caminhando com minha casa nas costas e, de novo, viver tudo aquilo que vivi e da forma que vivi.

O Caminho também é uma fuga de objetivos de vida e isso ficou bem claro pra mim. Qual é o seu objetivo na vida? Se você não sabe responder essa pergunta, faça o Caminho. Porque ali existe um grande objetivo: superar os cerca de 800 km e conseguir chegar a Santiago de Compostela. E se você chega, você é um vencedor, as pessoas te parabenizam, e você conquistou algo como: um diploma de universidade, um bom emprego, um carro, a casa própria… Nos cobramos grandes realizações e às vezes não ganhamos aplausos por coisas simples que nos fazem feliz. Fico pensando a respeito das pessoas que fizeram o Caminho comigo… O que fará agora o aposentado que estava perdido por não ter mais que trabalhar na mesma empresa onde passou décadas indo? O que fará Maria Antonia que não tinha mais pressa na vida e nem dia para voltar? O que fará o desempregado que, após a notícia, foi fazer o Caminho? O que fará o menino de 17 anos que herdou, do pai que morreu, uma franquia para tocar? E os meninos espanhóis que levavam as cinzas do amigo? O que eu farei agora? Até a metade do Caminho eu não sabia responder a famosa pergunta que todos te fazem: “Por que você está fazendo o Caminho”?

Um dia descobri… Fiz o Caminho por todas as pessoas que não podem fazê-lo seja lá por qual motivo for. E como dizem os peregrinos pelo caminho: ¡BUEN CAMINO!

[Esse texto foi escrito no final de maio de 2012, quando [eu, Luciana Teruel] terminei o Caminho de Santiago, para a minha prima que trilha há anos um caminho muito difícil. Depois foi estendido a meus pais, aos meus grandes amigos, e a Eliane Barros que o fez junto comigo. Hoje o dedico aos amigos peregrinos que caminharam, riram e choraram nesses 28 dias ao meu lado. Gratidão.]

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Texto publicado originalmente em As sementeiras.

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Vila de Paranapiacaba

atualizado 30 outubro 2014 Deixar comentário
Paranapiacaba fica a menos de 70 km de São Paulo

por Eliane Barros

No último fim de semana tive a oportunidade de conhecer uma vila ferroviária bem próxima à capital paulista. Cercada de muito verde, e com um povo pra lá de hospitaleiro, Paranapiacaba é um desses lugares perfeitos para respirar ar puro e conhecer belas histórias. Tombada pelo Patrimônio Histórico Cultural, trata-se da única vila ferroviária do Brasil conservada desde sua fundação, que data da segunda metade do século XIX. Com um grupo de amigos de um curso de fotografia que fiz em São Paulo, nossa proposta ali era perceber e sentir um pouco dessa história marcada por trilhos e trens.

Distrito de Santo André (SP), Paranapiacaba está a menos de 70 km de São Paulo. Surgiu nos anos 1860 como centro de controle operacional e residência para os funcionários da companhia inglesa de trens São Paulo Railway, a qual transportava cargas e pessoas do interior paulista para o porto de Santos e vice-versa. E foi dessa proximidade de Santos que surgiu seu nome: Paranapiacaba, do tupi, significa “lugar de onde se vê o mar”, através da junção de paranã (mar), epiak (ver) e aba (lugar).

Caminhar pela vila é um pouco entrar nessa história, por meio de seus trilhos e trens, hoje já coloridos pelas diferentes ferrugens que revelam seu passado. É se deixar levar pelas cores e linhas de sua típica arquitetura, parte dela inglesa, chamada de Vila de Martin Smith, e parte conhecida como Vila Portuguesa, esta com influências lusas e inglesas. Ambas são interligadas através de uma ponte de ferro que passa por cima de todas as linhas da estação ferroviária.

Caminhar por Paranapiacaba é se deixar levar pelo ritmo das montanhas, do vento, da neblina que vai e vem no horizonte. É se permitir um dedo de prosa com cada morador que, da janela de suas casas, ficam a olhar o movimento dos vizinhos, dos turistas, das crianças brincando nas ruas, dos cachorros que estão por todas as partes. E foi assim que conheci dona Francisca de Araújo que, debruçada em sua varanda, aos 83 anos, sorriu para mim com um olhar singelo. Comentei com ela sobre a beleza de sua casa e tão logo ela me convidou para conhecer seu artesanato e seu maior tesouro: suas poesias. Foi como ver Cora Coralina em pessoa.

Com estrofes e versos, dona Francisca guarda em poemas a memória dos tempos áureos do vilarejo, quando moços bonitos caminhavam pela estação do trem. “Gente elegante, sabe?”, lembra a poetisa. E ali, visitando sua casa, dona Francisca me falou sobre a história da vila, do apogeu dos trilhos, e do início da decadência, na década de 1940, quando terminou o período de concessão da São Paulo Railway Co., e a vila passou a pertencer à União.

Cambuci, uma fruta na Mata Atlântica

E foi me perdendo pelo colorido da vila que também conheci dona Alzira Pellegrine. Em seu Espaço Gastronômico, na praça da matriz, dona Alzira vende sorvetes, tortas, geleias, entre outras iguarias, todas feitas com a fruta típica da vila e de toda Mata Atlântica, o cambuci. Confesso que antes de Paranapiacaba, Cambuci era pra mim apenas o nome de um bairro paulistano. Mas foi só chegar à vila inglesa que logo esse nome foi se tornando algo doce, com traços suaves de limão. Provei o sorvete de cambuci e recomendo a todos essa deliciosa experiência. Azedinho como o limão e de casca verde-amarela, o cambuci é parente da goiaba, da pitanga, da guariroba e da jabuticaba.

Com um sorriso nos lábios, dona Alzira me contou que não é o tipo de fruta que se coma in natura, já que é ácido, mas garantiu que seu sabor é incrível em diversas receitas, tanto doces como salgadas. Me falou, ainda, sobre a Rota Gastronômica do Cambuci, que este ano celebrou sua quinta edição, percorrendo cidades como São Paulo, Caraguatatuba, Paraibuna, Mogi das Cruzes, Salesópolis, Rio Grande da Serra, além da própria Paranapiacaba. E com brilho nos olhos, me mostrou mudas da árvore do cambuci, todas plantadas por um parente dela, o cunhado, se não me engano, e vendidas ali mesmo por R$ 5,00. Falou sobre a importância da Rota Gastronômica, que busca resgatar e fomentar o cultivo e o consumo da fruta, não só preservando uma espécie nativa da Mata Atlântica, como gerando renda para a comunidade local.

Horas depois, me despedi de Paranapiacaba com a certeza de um dia voltar para experimentar outras delícias feitas com cambuci, e para visitar as cachoeiras que estão ali pelas redondezas. Me despedi com a vontade de partilhar, naquela vila do século 19, milhares de outros sabores e belas histórias que ali habitam. Me despedi com o sentimento de gratidão às montanhas que rodeiam e protegem a vila, aos amigos do curso Rotas Poéticas da Fotografia de Viagem, e ao professor e hoje amigo, Marcelo Schellini.

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Texto publicado originalmente em As sementeiras.