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La voz de Dios

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A rua Marechal Floriano nos dias finais do ano de 2014

por Jose Mochila

Como diz o ditado universal, la voz del pueblo es la voz de Dios; a voz do povo, ao menos a do povo nortchense, tem sido científica. Tomei tal sentido, ao cruzar a rua Marechal Floriano em período de fim de ano. No exato momento em que sinto meus pés juntos por cima de um canteiro central, paro, ouço uma voz. Quer dizer, uma das vozes só podia ser a de um suposto surdo, que imediatamente me fez lembrar de uma teoria popular ouvida dias atrás como aprendizado auditivo na fila do correios. Numa abertura de parêntese, noto um pensador nortchense jogando luz e ciência à nossa realidade narrada: “Se o fulano falar alto, se tem o hábito de falar muito alto, é porque na certa é surdo, é surdo e não sabe que é surdo, visse?”. “É verdade…”, um pensador vizinho, que estava ao meu lado, confirmou o pensamento do sábio. Um comentário científico, eu interiorizei reconhecendo seu significado, após audição presencial de uma figura, de fato, dono de uma escandalosa voz, percebida do outro lado da rua, por sinal, da mesma Marechal Floriano, onde eu me reacharia em data ou momento posterior. O então objeto falante foi avistado por todos nas dependências do correios, por um alerta interior de… surdooo. Como se pode perceber, a agência de postagens fica na Floriano, pertinho, ou no perímetro da chamada boca pequena do Nortchê. Não à toa, este diário trata de um tema pertinente à sagrada boca.

Fechado o parêntese, me vejo novamente no telegrafado canteiro da Floriano, parado, de volta à pauta periodista, estrategicamente observador, quieto para ouvir e verificar um dado carente de confirmação. O surdo dizia, digo, um sujeito sentado numa moto em posição de iminente partida dizia para outra face humana, postada ao lado, que O NORTCHÊ TEM XIS MIL HABITANTES. “Tinha, digo, tem quantos mesmo”?, interiorizei com vontade de dizer também em voz alta: “TCHÊÊÊ, PODE REPETIR O DITO, EU NÃO OUVI DIREITO, UM CARRO PASSOU NO INSTANTE DE SUA FALA!”. Mas fiquei na minha, ainda parado por cima do canteiro, disfarçando que via a hora no celular, na torcida para que o surdo – a esta altura já consagrado pelo apelido – repetisse a informação vocalizada. “NÃÃÃO, 12 MIL NÃO, MAS ACHO QUE UNS 15 MIL”, ele atualizou os dados, retransmitidos ao colega interlocutor, que parecia mesmo travar a saída de nosso herói do meio-fio.  Com ar de autoridade, o surdo-motociclista corneteou outra, disse mais uma vez em ALTO E BOM SOM, embora o seu interlocutor estivesse a quatro, cinco palmos de seu nariz. Eu que estava a sete, oito metros da dupla, ouvi nitidamente. De imediato, entendi os números atualizados pelo herói de sarjeta: “SÃO 15 MIL NA CIDADE. E PODE COLOCAR AÍ UNS 10 MIL LÁ FORA”, disse já em comum acordo com o amigo ouvinte. Notei que o amigo ouvinte assentiu com a cabeça, e eu entendi rápido, este havia questionado a estatística inicial do nosso surdão. A propósito, para quem não sabe ou para quem é de fora do sul brasileiro, “Lá fora” é um dizer sulino e de quase todos os nascidos e crescidos nestas bandas pampianas de ares frescos. Ao que nos consta, “Lá fora” significa “zona rural”; uma forma peculiar da cultura do Rio Grande do Sul, ou do Rio Graaande, conforme a pronúncia típica. Como a versão oficial, a extraoficial também cravou o número correto de habitantes de nosso cenário de mundo. Como desta vez, não fico impressionado nem abismado com a voz científica de Deus, retransmitida pela fala do povo como se fosse um – digo já contagiado pelo vírus da surdez nortchense – ARTEFATO PROVIDENCIAL.

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Em defesa da história nortchense

atualizado 30 dezembro 2014 Deixar comentário
A praça da matriz horas antes de um discurso histórico

por Jose Mochila

Na praça da matriz de nosso cenário de mundo tem uma fonte d’água igual a todas as fontes de todas as cidades da América Latina do século 20. Na verdade, eu quero que no lugar desta fonte d’água surja uma estátua reverenciada, como a do General Artigas (o herói da independência uruguaia), existente em quase todas as cidades de meus conterrâneos. Neste diário, vale um monumento bronzeado de oito metros com o perfil de Bento Gonçalves, mito sul-rio-grandense, montado num cavalo domado por duas botas modelo coturno de militar autointitulado. Só assim posso empurrar a figura histórica de Bento, que seria enterrado num túmulo exposto numa praça pública da vizinha Rio Grande. Sem ares de gentileza, retiro o benzido oficial de seu cavalo trajado. Outrora herói gaúcho, eu vos digo do túnel do tempo, retrato de reverência insurreta e patriarcal! Tomo o lugar que me é devido nestas linhas, em específico, e do alto de um cavalo de patas cravadas no ar, como um gaucho, um pampeano legítimo.

Usurpado de sua posição de clavícula torta, Bento cai de bunda no chão; antes seu, agora o meu cavalo relincha na contemporânea praça de São José do Nortchê para um público também atual, atento, e que me vê fazendo uma oração em voz alta, grossa (cofe cofe…) e destemida. Percebo-me com um pergaminho de aparência de folheto para turista. Com cara de fronteiriço e com sangue portenho nas veias, começo meu discurso histórico para uma praça cheia de pessoas, conforme estimativa de brigadeanos e de teletransportados jagunços paulistas de um romance de Luiz Antônio de Assis Brasil:

Aqui, neste lugar que me é de direito e capricho, provoco as forças nortchenses insurretas, as autoridades ditas insubmissas deste trecho de ar fresco e de quem ousar me desautorizar, que se juntem à minha esfinge!

Neste ponto da história, além de Bento Gonçalves, eu enfrento também o revivido José da Silva Paes, que no ano de 1737 comandaria “uma expedição militar portuguesa com o objetivo de assegurar aos lusitanos [de então] a posse das terras do sul, nas quais se defrontavam em encarniçadas batalhas os lusos-brasileiros e os espanhóis-castelhanos, em território hoje pertencente ao Rio Grande do Sul e ao Uruguai, antiga Colônia do Sacramento”. E digo mais…

Sim. E digo mais

Percebo um súbito problema, um sobressalto de dicção nas palavras transcritas; releio a última passagem. Deixo escapar uma confissão em voz baixa de cochicho: “Me perdoem, meus nobres presentes à praça, eu estava lendo o folheto errado, digo, o pergaminho era da cidade de Rio Grande”. Do pergaminho de São José do Nortchê, eu quero frisar… Solto um pigarro do alto do cavalo que nunca deixa cair suas patas dianteiras do ar, um animal que relincha a cada três minutos, diga-se.

Volto ou vou direto ao ponto:

– …

Depois de um suspense proposital, ainda de cima do cavalo de bronze, eu despejo a minha presença de periodista indisfarçável:

Serei bastante lacônico, povo de plantão; se vocês, queridas e queridos nortchenses, não patrocinarem os meus diários, eu vou começar a reportar a história local na versão não-o-fi-ci-al, okay?

Tchêêê, neste ponto de meu relato-reportagem, sou mais meu cavalo de bronze. Apesar da proteção da sua sombria imagem de espécie selvagem, sou cercado por populares, entre eles, os fanáticos da dita versão oficial, defensores de uma imutável historiografia nortchense.

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Da hidronave do bom velhinho

atualizado 24 dezembro 2014 Deixar comentário
O Papai Noel nortchense em trabalho

por Jose Mochila

Acho que já posso realçar algumas ideias fixas, a boca pequena, a hidroviária, a Lagoa dos Patos, o supermercado de v. (invento neste caso, ainda falta um diário deste notável estabelecimento de voyeur’s). Saí de casa para ir ao supermercado de v. Súbito, descubro que eu comprara amaciante pensando que fosse desinfetante. Abro o recipiente e… sai uma substância pastosa. Que gota, ri sozinho da própria falta de jeito. (Nesta parte da rememoração, eu me debruçava sobre uma baliza e dava tchau para os passageiros de mais uma lancha que deixava a cidade rumo a Rio Grande.)

Esqueci por completo da ida ao supermercado de v. Fui tomado por um vento tal, voltei ao cais de Seu Levi, o pescador. Apostei comigo mesmo que ele estaria lá, e perdi. Já no cais, alguém me tira da lembrança de pescaria para entrar numa realidade narrada. Eu? É comigo? Custa quanto? Sim? De repente, estou a bordo duma hidronave sob as águas ondulantes da Lagoa dos Patos, num passeio – vejam vocês – no barco do Papai Noel local. Descobri num final de sábado: São José do Nortchê não tem neve, nem cabritas voadoras, mas tem Papai Noel.

A serviço da prefeitura nortchense, o bom velhinho, neste caso, de barba postiça, animava um grupo de crianças com seus pais. Do lugar onde eu estava, fiquei sem muito pensar, muito mais interessado em tirar fotografias das águas e da cara de quem teria ganhado um presente na data anterior. O itinerário, eu não sabia. Só fui informado de que o passeio gratuito duraria meia hora. Fotografia daqui, observação dali. Papai Noel local até me pareceu carismático.

Enquanto a figura distribuía pirulitos para a criançada, uma caixa de som exalava um flash back de sucessos natalinos. O querido hit “Então é Natal”, muito festejado pelos brasileiros neste período do ano, tocou sem parar em mais de cinco versões: de John Lennon a de Simone.

Após distribuição de pirulitos, Papai Noel nortchense começou a falar com as crianças da embarcação, inclusive fui testemunha de um diálogo seu com um gurizinho acompanhado da mãe. A mãe, enxerida, foi logo quebrando o gelo: “Conta pro Papai Noel, fala se tu é uma criança obediente”. Infelizmente, não consegui ouvir a voz do bom velhinho, que parecia gripado. Na real, o sujeito da barba postiça mal falava, ficou alisando a cabeça da criança, que a todo custo tentou se desviar de duas mãos gordas e suadas. Juro que eu me segurei para não rir daquilo.Então a embarcação deu meia volta às margens de um estaleiro produtor de plataformas de extração de petróleo bruto no oceano.

A volta do percurso me pareceu mais rápida do que a ida. Um cargueiro passaria a poucos metros de nossa embarcação, tirei uma foto dele com meu celular. No desembarque, eu testemunharia Papai Noel local ajudando no “estacionamento” do barco. Toco de concreto laçado, o bom velhinho puxaria a corda grossa de náilon até o fim do processo. E só foi eu pisar no cais de novo, para começar a chuviscar. Voltaria para casa correndo, para salvar roupas postas num varal para secar. Na consciência ou no coração falante (tuc tuc…), um retrato que uma flor chamaria de realismo fantástico.

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À dita boca pequena

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A dita boca pequena, em São José do Nortchê

por Jose Mochila

Em nosso doce cenário de mundo de 25 mil habitantes, todos os caminhos levam seus residentes ao encontro das ruas Álvaro Costa e Marechal Floriano. Mais especificamente, me reporto da chamada boca pequena local, encostado numa parede externa de um boteco movimentado. Não sabem desta, minhas caras e meus baratos? A boca pequena corresponde ao ponto de encontro de fabrico de sapos, cobras e lagartos, por línguas bem grandes e genuínas. As novidades emanam desta garganta como as novidades de todas as bocas pequenas do estado, do país, do mundo e de engrenagens semelhantes. O fenômeno é geral, crônico, bruto. Quer saber das novidades? diria um amigo jornalista, vá até a boca pequena mais próxima e descubra pessoalmente. Desta, é possível saber desde a previsão do tempo ao último enterro, do último caso extraconjugal até a lista atualizada de agiotas citadinos. De minha residência até a boca pequena de que falo, é um pulinho. Não custa chegar até este espaço sacrossanto. Sete minutos em passos largos ou 15 cotas de 60 segundos no um-dois, três-quatro. O percurso que me leva à hidroviária é uma gota caindo num deserto.

Na verdade, eu estava voltando da hidroviária, não estava exatamente indo. O relato é da volta. Quando encostei as vertebras numa parede… Uma saída rápida de meu casulo, e pá. Curiosamente, minhas saídas para as calçadas e ruas de São José do Nortchê tem sido raras ou meramente pontuais. Tchêêê, me vi munido de dois encartes debaixo do braço direito. Ou melhor, eram dois encartes e o jornal mensal do município. “Travessia da Laguna dos Patos”, “Gastronomia”, “Patrimônio Histórico”, “Festa [da] Nossa Senhora dos Navegantes”, lia um dos textos ilustrados. Peguei-os na hidroviária. Me disseram: quer guia turístico, informações úteis? “Sei onde tem!”. Curioso é admitir porque eu não tivera esta ideia antes, já que estou há alguns dias no Nortchê. (Nortchê é como os nortchenses chamam a própria cidade.)

As inúmeras passadas batidas na hidroviária sem que eu notasse o posto de atendimento ao turista foi demais, um cochilo imperdoável. A propósito, ouçam esta: “(…) O povoado teve início em 1725, quando João Magalhães comandando 30 lagunenses estabeleceu o 1º posto de vigilância do nosso Estado, onde hoje é a cidade”. Perceberam o tom heroicizante do texto? Mais um trecho promocional: “(…) A partir de 1750, os casais de açorianos se estabeleceram no Estreito (atual 2º distrito). Em 25 de outubro de 1831 ocorreu a emancipação do Município e a criação de São José do Nor…”. Fina flor dos jardins de Marcel Proust, vossas digníssimas senhorias notaram o contorno de Carta de Caminha neste informe? Tchêêê, o nosso cenário de mundo existe desde muito. O texto que eu lia segue solene, com um típico estilo de crônica histórica dos escaninhos ibérico-navais de 1500 e lá vai cacetada.

Alô alô, boca pequena local!? Estou na área, providenciais informantes de plantão!

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A estética do copo

atualizado 19 dezembro 2014 Deixar comentário
De um ponto de vista de São José do Nortchê

por Jose Mochila

Fora dos dicionários e das enciclopédias, o copo de que falo nesta leitura é um recipiente de bordas entortadas pelo peso de um líquido parecido com o de uma lágrima de crocodilo. Falo, pois, de um ponto privilegiado de nosso cenário de mundo; de uma posição fora do alcance dos trópicos, sem linguagem direta. Ou melhor, reporto-me de um ato próprio de contemplação da vida; miro um copo grande, querendo então, ansioso para, ou sem poder circundá-lo com os braços. Percebo um copo quase cheio, feito de uma base velada e transformada pela ação do tempo? Não, não falo mesmo de bebida barata e de qualquer vasilhame feito de material sintético; trato de mais uma queda silenciosa de fim de tarde.

Trato de um formato de um copo de whisky, percebam que este copo elástico nunca caberia virado de cima para baixo no entorno de uma cabeça. Não que ele não me caiba, é que não existe guincho nem John Lennon nem força maior que possa erguê-lo e virá-lo por cima.

A bebida de que falo, e deste copo. Tal copo não pode ser abraçado pelos seus, e por desejo algum deste mundo narrado. Eu diria que é um copo impensável, mais um copo ou um corpo nunca antes pensado como um copo impensável. Quero crer que este copo seja mesmo o de lágrima. Se não pode sê-lo, deixemos que este copo seja, além de uma cuia quase cheia, e com as bordas entortadas, o que ele é ou como nem sempre é visto: um representante de si?

E eu sei. Da resposta. Que pergunta.

O que sei é que não quero hoje tratar de filosofias de botequim. O único pensador que me interessa deste momento de rio, deste momento de mar, deste encontro é aquele sujeito que está dentro do copo. Reparem que neste copo há um pensador. Deus de meu copo, a solidão que o preenche. Meu copo, o mesmo que não é meu, que não é seu; este copo que não é de ninguém nem da família do eu nem da do seu. Quisera eu fosse também do interior desta base descrita, e a solidão, e a solidão do pensador dentro do copo que não é meu nem…

Notem, o pensador de meu copo é um operário do cotidiano, quem sabe? para contrariar outros que não podem sê-lo neste ato. Neste copo, a solidão de um pescador em trabalho. E eu que invejo o operário deste copo. Digo, um operário de seu copo. Um copo sem dono não tem rótulo, a lagoa é grande demais para ser o que aparenta ser, deste olhar distante.

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Conversa de pescador

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No cais; a tarrafeada de Seu Levi

por Jose Mochila

Deixei meu trabalho de revisor de textos de lado, e saí pra rua. Antes desci as escadas do prédio onde me encontro hospedado; desci calmamente a escadaria em espiral, segurando firme no corrimão a cada passo cedido. Saíra atrás de um almoço. Era quase 17 horas. Um belo final de tarde de sábado. Na verdade, descobri que era final de tarde quase num susto. As leituras de textos me ocuparam tanto a cuca, que eu me perdi no curso do tempo. Entre um gole e outro de vinho barato, eu trocava uma palavra por outra, mexia num vocábulo mal digitado, suprimia uma frase repetida, acrescentava um termo retórico. Ou melhor, eu não bebida vinho enquanto revisava textos de uma encomenda periódica. Este hábito ocorre só no inverno. Nesta época do ano, eu praticamente bebo só cerveja. Como se diz em botecos brasileiros: uma breja trincaaando de gelada, por favor! Meus leitores, assim, podem imaginar o porquê de meu andar poético pelas ruas e calçadas irregulares de São José do Nortchê.

Tchêêê, quase me esqueço de meu vício de linguagem. Afinal, sou gaucho ou não sou? Gaúcho, não. Gaucho! “Mi Mariscala querido / cuando yo te vuelva a ver”. Porque a minha paráfrase preferida vem do outro lado da fronteira, embora não alimente fronteira alguma. Não vejo fronteiras pros meus passos. Das margens de uma lagoa, eu também não vejo limites.

Era pra eu procurar um restaurante, mas eu acabei rompendo o sentido de mundo e o ronco no estômago. Adelante? Pra não admitir que não há limites na vida, achei um. Limite físico, claro. Parei de andar nas imediações do cais local. O cais do porto? Não via nem possuía informações no momento para afirmar se uma base de concreto no formato de L ou U, infiltrada nas águas, pode ser chamada de “cais do porto”. Afinal, não é bem um porto que vejo. Apenas um local onde pequenas e médias embarcações atracam. Mas eu, admitindo a ignorância, resolvi tirar a dúvida com uma testemunha. “Como chamam este espaço, senhor?” À queima roupa, um homem com aparência de 60 anos de idade hesitou em me dizer, mas me disse: “… é o cais”. Seu Levi estava pescando com uma tarrafa naquela tarde.

Conta outra, Seu Levi? Apontando o indicador da mão direita em várias direções: “Ali e ali, tem um navio afundado”. História de pescador, Seu Levi? Seu Levi riu de minha fala direta.

Admito, não o chamei de Seu Levi. Levi, o pescador. E apenas Levi. Mesmo assim, mentalizei o vocativo: Seu Levi? Levi, eu saberia ao final de uma conversa de um pouco mais de quarenta minutos, é natural da cidade de Laguna, em Santa Catarina. Ele mora sozinho desde outubro passado em nosso cenário de mundo. Trabalha como montador em um dos estaleiros que constroem plataformas para extração de petróleo bruto no oceano. Preferiu morar em São José do Nortchê, e não na vizinha Rio Grande. “Lá é barra pesada. Só este ano morreram 55 [pessoas]”, me disse em tom de repórter policial. Seu Levi levaria para casa, como prêmio, se não estou sendo pescador como ele, 9 tainhas, 5 corvinas, 6 papa-terras, 3 linguados e 5 siris. Sem que Seu Levi soubesse, eu pescava dele uma entrevista informal. “Jose Mochila, direto do cais de São José do Nortchê, pa-ra Diarios de Mochila!”.

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Com os pés na história

atualizado 15 dezembro 2014 Deixar comentário
As imediações da hidroviária nortchense

por Jose Mochila

Tiro então os pés da lancha para entrar na história, e não pela primeira vez nem pela segunda nem pela terceira vez etc. Depois de alguns dias como residente em São José do Nortchê, eu confesso ter perdido a conta de quantas vezes viajei – muitas das quais sem razão definida – a bordo da lancha que serve de transporte entre o nosso cenário de mundo e a cidade de Rio Grande. Não custa informar, quando falo lancha me refiro a quatro ou mais delas – cada uma com uma característica e nomeação distinta – que fazem o percurso de xis quilômetros ou meia hora de trânsito hidroviário intermunicipal pelas águas correntes da nossa Lagoa dos Patos, aqui conhecida como a graaande piscina aberta e natural do sul da província brasileira de Rio Grande do Sul. Realmente hermosa a Lagoa dos Patos – ou Laguna dos Patos, como querem os chatos, os implicantes da licença poética e os sabidos de geografia espacial. Importa anotar? Atravesso a lagoa quase que (!) periodicamente. E quando piso no chão da hidroviária nortchense, conforme se pronuncia o gentílico citadino, um clarão de espaço bem amado pelos seus explode em minha cara de fantasma sempre com sono.

São José do Nortchê é mesmo um bom lugar para se buscar a própria condição de mundo. Na cidade pisaram figuras lendárias da história local e do Cone Sul. Entre as quais, Bento Gonçalves da Silva e Onofre Pires da Silveira Canto. A cidade, onde inúmeras guerras ou conflitos de fronteira entre portugueses e espanhóis lograram no curso do tempo. A mesma história que marginaliza os índios, e que ainda trouxe para este e para o outro lado da lagoa açorianos e uruguaios então vulgarizados pela alcunha de castelhanos. Modéstia à parte, eu também posso cravar uma pisada no interior desta capa. Quem sabe marcante. No dizer local, uma baaaita pisada num pavimento irregular de pedra lascada. Uma pisada que seria dolorida, senão fosse a maciez de um tênis estilo médio coturno, comprado numa promoção na Avenida Paulista, o centro financeiro do Brasil. A pisada existe; registro, superstição. A cada pisada diária, um período de vida captada. Uma mania e ensinamento adquiridos ao longo de algumas andanças neste fundão de América Latina. Eu estou sevando a isca para fisgar um dito: uma pisada histórica!

Com os pés cravados nas imediações da hidroviária local, eu pude ver passar um filme de um relato possível pela minha cabeça de admitido figurante. Uma produção de média metragem, cujo tema, estilo, narração e personagens transcendem o retrato que eu ambiciono, munido de um bloquinho de notas e de uma câmera fotográfica de celular. Além de dezenas de pessoas andando feito formigas em processo de multidão, vejo uma lotérica, uma farmácia, uma lancheria nomeada de café e alguma coisa, um boteco povoado, um banco, motos estacionadas numa sarjeta. Percebo mais coisas, mas nesta parte de meus diários eu perco a audição. Não, eu não desmaiei de emoção inventada, mas perdi mesmo a acústica do ambiente descrito quando liguei meu radinho portátil mp3 em fones de ouvido. Adelante, passos surdos, audição concentrada num hit sodástico de Gustavo Cerati.

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A chegada

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O primeiro retrato de um anunciado cenário de mundo

por Jose Mochila

“Veeeeejam bem!” Num salto de pato selvagem subi na proa da lancha e improvisei um discurso: “Senhores e senhoritas de nádegas grudadas em acentos duros ou suspensas na vertical, o que vossas inquietudes veem adiante não é bem o que vossas inquietudes veem adiante, digo, a bem da verdade… Eu quero dizer: neste instante de chegada ao sabido destino, qualquer semelhança deste retrato de cidade telegrafada de litoral baiano de telenovela global da década de 1980 ou 90 com o que chamam de vida real, é mera coincidência. As vossas inquietudes devem admitir que, muito além de um trocadilho, o que nos salta aos olhos, agora, é mesmo o nosso mais novo cenário de mundo!”

Claro, permaneci com as minhas nádegas coladas a um acento de fibra e com os pés grudados aos próprios sapatos antes de escalar a imaginação, ou melhor, antes de cruzar uma tábua de madeira mole por cima de um vão que separa a realidade flutuante da lancha com a aparente segurança do piso da hidroviária local. Meus primeiros passos em São José do Nortchê, o nosso anunciado cenário, foram marcadamente delirantes. Me achando criativo ou devidamente fora de mim, tentei ver a persona de Tieta ou a máscara jovem de Sonia Braga na primeira esquina, assim, de cara, caí na real. Percebi que eu não estava de fato no litoral baiano televisado. Logo admiti certo cansaço mental por causa da viagem ininterrupta de dois mil quilômetros desde a saída, num dia anterior, da rodoviária de Assis, interior de São Paulo.

Importa registrar, na medida em que eu avançava os passos arrastando o carrinho de feira sem feira pelas ruas de nosso cenário de mundo, fui sentindo um peso de âncora num dos braços.

Súbito, cessei os passos e os pensamentos. Resolvi chamar um táxi. Motivo: a rodinha do carrinho de feira sem feira – lotado com as minhas três malas – começara a sair do eixo. (A rodinha direita do carrinho, para ser mais preciso.) Na realidade, não dá muito futuro andar de carrinho de feira sem feira em chãos irregulares de paralelepípedos ou de pedras lascadas. Já dentro do táxi, fui passando as coordenadas para o chofer. Para onde eu vou? foi a sua primeira e óbvia pergunta do amigo motorista. Pro… Tirei um naco de papel do bolso e indiquei a rua, número e cep. Corrida paga, identificação na recepção do hotel feita.

Quando entrei no quarto de número 10, a primeira coisa que fiz foi abandonar as malas num canto e ir para o banho; um banho urgente era tudo o que eu precisava naquele instante. Dois minutos de tango debaixo de uma ducha e, inacreditavelmente, a rede elétrica municipal caiu.

A cidade foi tomada por um breu; meu primeiro registro in loco.

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A primeira travessia

atualizado 8 dezembro 2014 Deixar comentário
A lagoa lagoa lagoa!

por Jose Mochila

Chamam-na comumente de Laguna dos Patos, mas eu vou nomeá-la de:

– Lagoa lagoa lagoa!

Pronto, banco a ressignificação da palavra. À deriva na Lagoa dos Patos, feito um índio com olhos rutilantes numa canoa sem remo. Só que não, sugere o palavreado modernoso.

A caminho de uma anunciada vida destinada. Abaixo de minhas narinas peludas, um rio que parece mar ou um mar que parece rio. Numa das margens de uma vistosa grande piscina natural, fica a cidade de Rio Grande; noutra, o município de São José do Nortchê, o nosso programado cenário de mundo. Aos poucos, inclusive, vou saber quanto tempo dura a travessia de uma localidade para outra.

Pegaram o barco em movimento? Ops, para quem pegou a história deste ponto vigente, então vos informo que o bilhete da lancha que faz trânsito cotidiano entre Rio Grande e São José do Nortchê custa uma nota de 2 reais. Bem barato, concorda? Muito barato mesmo se o caro ou desbaratado amigo um dia, na condição de turista ou de visitante-mor, tiver a oportunidade de presenciar ou testemunhar o visual único de final de tarde da ressignificada Lagoa dos Patos, o sol caindo no horizonte por sobre as águas escuras, onde pequenas, médias e descomunais embarcações atravessam um horizonte com raios luminosos, o vento fresco que parece nunca cessar debaixo de um céu azul celeste, o reflexo do astro rei espalhado num bitelo espelho d’água sempre tremulante na superfície de onde espécies de peixes saltam suspensos no ar para a ansiedade de aves, de olhares curiosos e dedos indicadores.

De cada lado das margens, ainda do meio da travessia, pode-se avistar uma miniatura de construções, moradias e embarcações atracadas nas encostas. Vi bem Rio Grande ficando pequena até atingir a circunferência das bolinhas pretas de meus olhos. Da lancha com dezenas de passageiros e tripulantes, até quem efetivamente não é se sente míope ao forçar o alcance da vista. Ao fundo, vejo um navio com jeito de barquinho pintado num papel sulfite com giz de cera rememorados. O navio parece se dirigir lentamente na direção de Porto Alegre, no extremo da corrente das águas.

Rio Grande e São José do Nortchê que eu vejo do meio da travessia se transformam em pequenos retratos embaçados, numa experiência estranha de focalização da ponta de meu nariz. Minha então ideia fixa, Rio Grande deixa de ser graaande. Naquele final de domingo, eu só queria chegar logo em São José do Nortchê. Depois de meia hora de travessia ainda por se completar, eu aproveitei pra reparar nas pessoas a bordo e curtir a brisa que exalava das águas. Uma forma de passar o tempo e controlar a ansiedade até a chegada do outro lado.

São José do Nortchê já podia ser vista bem nítida, com meu instinto de periodista faminto por novidade.

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Das margens da Lagoa dos Patos

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por Jose Mochila

Li textos eletrizantes de Clarice Lispector até me transformar numa nuvem. Naturalmente, não gostei muito da experiência, embora tenha descoberto alguma técnica farmacêutica. De como cheguei a São José do Norte? De uma passagem temporal pelo interior de São Paulo, suspendendo-a bruscamente.

O embarque na lancha

O resumo comprimido e digerido de minha experiência clariceana cessou assim que eu desembarquei de um sono mal dormido de dois mil quilômetros rodados. Baixei na cadavérica rodoviária de Rio Grande, a cidade-sede do chamado Polo Naval do estado brasileiro do Rio Grande do Sul. Vinha puxando um carrinho de feira com três bolsas num asfalto quente de final de tarde de domingo, tal um maltrapilho sem banho das memórias do jornalista aposentado Mario Rodrigues. A propósito, meu espírito era mesmo de descamisado quando pisei novamente no Rio Grande do Sul. Salve Renato de Souza, riograndino honorário, que me chamou de volta pra vida sugerindo uma capa de livro. Da vida então…

(Muitas saudades do Uruguai. Mariscala, minha querida cidade natal! Aqui pertinho… Meus antepassados são de Buenos Aires. Os antepassados de meus antepassados são do sul da Itália. Dos ancestrais, eu não tenho nem quero notícia. Maldita a hora em que eu me desacostumei do espanhol e aprendi o português, o idioma da nostalgia. Agora me bate uma saudade periódica quando me lembro de meu tempo de felicidade sem dor… A infância nunca morre. Deus do céu, quantos pensamentos atravessados!)

Como eu dizia, vinha puxando um carrinho de feira sem feira, suado e com a testa oleosa. Me recusei a pagar o táxi da rodoviária até o local de embarque da lancha que me levaria pro outro lado da Lagoa dos Patos. Com orçamento baixo, eu não quis arriscar as minhas próximas refeições e gastar a grana semanal da mega-sena. Digo, tudo parece caído, esgotado e truncado neste momento de iminente renascimento pessoal. Da autoestima às roupas surradas. Eh vero, meus caros e baratos amigos. Só não ando com mais tensão, porque me convocaram pra viajar. Viajar é preciso! Sempre digo para meus ditos seguidores fiéis da página do Facebook, meu mantra é aludir Fernando Pessoa.

Não, não apodreçam dentro si, viajem! Não levem a sério demais a vida e a necessidade de um prato de certezas! Pra falar a verdade, eu não tenho hábito de falar muito. Nem professar mandamentos. Normalmente eu só escrevo. E claro, sonho além da conta. Quando não escrevo, penso. Gosto de pensar. Deixa eu pensar um poquito… E se os diálogos me faltam neste momento de atmosfera nova, saio à captura de um. Assim me deparei com um guichê:

– Aqui é que se compra bilhete para São José do Nortchê?

Do outro lado, a moça riu de meu trocadilho. “Saiu inspirador, guria?”

Eu fiz questão de repetir o rogado:

– É aqui…?

Em poucos segundos, eu já estava com as malas a caminho de uma destinada vida.