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Um café, por favor

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De uma padaria nortchense

por Jose Mochila

Saio ansioso de meu casulo para tomar um café vespertino numa padaria da cidade. Localizei-a numa de minhas caminhadas pelas ruas e calçadas irregulares de nosso cenário de mundo. Lembro-me de ter parado rente à porta do dito estabelecimento e perguntado sobre o uso do espaço para leitura e revisão de textos durante um café. Dois dias depois, eu já respondia a um tradicional “pois não, o que deseja” e descobria que o café da casa panificadora não é do meu gosto devido. O café é feito à máquina? Franzi o cenho com ar de surpresa na hora da fala da atendente. “Não tem café coado?”. Como se eu precisasse acrescentar: “Só tem café da máquina?!”. Diante de minha provável cara desfigurada, a atendente retribuiu a sua: a de quem, além de atendente, parece fazer a vez de dona do negócio. Aliás, ela expressou algo mais. Como se eu não tivesse sentindo o chão, a atendente com cara de patroa levou um dos braços na mira de uma máquina de fazer café. “É esta aqui!”. Claro, ela não chegou a tanto. Acredite, ela chegou a tanto.

Em vez de um café sem gosto de borracha, acabei aceitando um café com gosto de borracha. Assim são quase todos os cafés feitos à máquina. Ah, eu disse algo para tentar salvar a minha visita àquela padaria que curiosamente me escapa o nome neste instante. “Café com… Por favor, se der para acrescentar o leite no café”. Para mim mesmo, bem baixinho: “Com leite, para ver se corta o gosto de borracha”. Disfarcei, com receio de que minha voz interior tivesse escapado para a esfera das convenções sociais. Coffe, coffe. Creio que a mulher nem percebeu a expressão facial de quem luta diariamente para não engolir parte da realidade social que nos é imposta. Atenta à sua função, a atendente me perguntou ainda se eu queria “algo mais além do café”. Ou melhor, “se eu iria comer algo”. Eu respondi “só o café, por enquanto”. Ah, sim. Eu poderia esperar na mesa, que alguém iria levar o pedido, “pois sim”. Virei o rosto, e identifiquei o que à distância me pareceu um acento ideal.

Quando cheguei ao fundão da padaria, o sentimento foi semelhante ou ainda maior do que o da surpresa com a oferta única de café feito à máquina. As mesas identificadas à distância, pude notar, compunham um lugar que, a priori, me pareceu aconchegante. O que parecia ser quatro mesas entre outras mais, era apenas quatro mesas e nada mais. E digo mais? Assim que eu me sentei numa cadeira… Assim que eu alegremente abri um livro, um ruído afamado cravou em meus tímpanos. Uma televisão que eu não havia percebido antes; um aparelho com o áudio de desestabilizar qualquer concentração de leitura.

Tentei ler um trecho do livro que eu levei junto a um encarte, e nada. Tentei em seguida rabiscar algumas linhas e fazer algumas anotações de canto de página, e nada. Na tela dependurada na parede, um sujeito tagarelava com ares de quem adora entreter, tirar ou desviar o foco de trabalho das pessoas.

O pedido. Enfim o café chegou. Junto dele, uma base fina redonda para a xícara, o pires e um potinho com açúcar. Enquanto eu queimava o bico com o café, o chato da tevê tagarelava tagarelava. De bandeja para quem chegou até aqui: a nossa tragédia de uma tarde de serviço perdido. Deixei de lado a minha leitura e revisão de textos; fui incrivelmente sorvido pelas imagens da tevê, pela efusiva reprise de trechos editados de uma telenovela antiga.

Em tempo: simmm, eu consegui beber o café maquinado.

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Um dia sem fim

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Da praça Intendente Francisco José Pereira

por Jose Mochila

Descubro que já começo a ser reconhecido em São José do Nortchê. Se pela recorrência de minhas peregrinações, eu não sei. Quando saio do cais, no meu giro periódico, eu nem percebo se estou sendo notado. Quando não paro para falar com algum pescador, tiro fotografias do lugar e saio noutra direção. Na última vez, por exemplo, eu não estava muito para sociabilidade. Saí do cais com o pensamento de voltar logo para casa. O tédio me tomara. O tédio é uma praga fatal para qualquer periodista em vias de transmissão de mais um diário.

Na saída do cais, numa banda da rua Marcílio Dias, percebo minha ideia de volta rápida para casa ir para o espaço sideral. Sou localizado por Porto Seguro, um metalúrgico natural do estado brasileiro da Bahia. Com ele, eu viria a conhecer Salvador, um seu conterrâneo de estado federativo e também metalúrgico. Porto Seguro não se conteve em receber um cumprimento de lado oposto de rua, me chamou para trocar uma ideia. Eu o conheci dias atrás no mesmo cais, onde ele, mulher e filho pescavam a mistura da janta. Porto Seguro é residente há quase dois anos em nosso cenário de mundo; a família veio do nordeste brasileiro há poucos meses para junto de seu convívio. A pescaria relembrada serviu de pretexto para que ele me reconhecesse. Ah, claro, Porto Seguro não esqueceria minha profissão de nome mistificado pela sociedade. “Qual mesmo o seu nome, periodista?”, mentalizei a sua fala. Fiz suspense… Desisti rápido do suspense. “Pode me chamar de Jose”, eu disse no instante em que cumprimentei Salvador. Os dois carregam neste diário o nome de suas cidades de origem; que a recepção nos permita tal discrição e homenagem.

Sentindo-se um amigo de longa data, Porto Seguro quisera saber de minhas “reportagens”. Enquanto os dois interlocutores sentaram-se na calçada, eu preferi me agachar no piso de pedra lascada da rua; momentaneamente, porque a posição de sapo cansado é de esgotar as energias. Não demorei a me sentir um entrevistado. Porto Seguro, que então escapara de um churrasco familiar “chato pra caramba”, estava falante na rua. Falava, falava. Aliás, Porto Seguro parecia um locutor de rádio falando de política local. “Por que este povo tem preconceito com a gente [de fora]. Não dá abertura para qualquer um, não”, aconselhou-me em determinado momento. “Não é bem assim não”, Salvador interveio rápido. “É normal que as pessoas da cidade reajam assim”. Salvador – quase me esqueço de dizer – mora na vizinha cidade de Rio Grande. Veio para o Rio Grande do Sul, como o amigo Porto Seguro, para trabalhar no estaleiro rio-grandino. Os dois, neste relato, estão desempregados. Aguardam um reingresso no estaleiro nortchense, no lado oposto da Lagoa dos Patos.

A prosa prosseguiria num novo cenário. Antes de chegarmos à praça da matriz, a Intendente Francisco José Pereira, Porto Seguro resolveu pegar um copo com conhaque na esquina. Filou a bebida no bar Casarão, que receberia dele elogios efusivos. Bateria em meu ombro. “Rapaz, quer ir num bar bom?”. Apontou com a mão sem desgrudá-la do copo plástico. “É este”. Olhei. Porto Seguro insistiu. “É este, rapaz. É este”. Segurei o riso nos olhos. “O bar é bom, tenho uma ficha aí de uns trezentos contos. O dono é gente boa”, se vangloriou. Recusei prontamente um gole ofertado. Não precisei dizer que o conhaque não me agrada. Disse um “muito obrigado”. Aliás, sai-me com uma nota de contrariar meus últimos tradados sobre bares locais. “Parei com as bebidas, nobre amigo. Parei”. Porto Seguro ignorou completamente a minha confissão de fundo emocional. Continuou com a palavra como quem profere uma palestra-desabafo sobre sua destacada história de vida. Salvador não ficaria atrás do amigo. Os nobres então mediram forças com meu tédio; me tomaram como um analista de consultório neste dia que destaco como sem fim.

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Moda luz de um lampião

atualizado 23 janeiro 2015 Deixar comentário
Um blecaute do bar/lanchonete Recando do café

por Jose Mochila

Encostei-me a uma parede com sombra. O sol batia forte no final de tarde da última segunda-feira. Na verdade, eu parei ali depois de comprar um suco de uva num mercadinho próximo. O tédio me tirara de dentro de meu casulo de revisões de textos infinitas. De repente, eu me percebi atento à paisagem. Eu estava exatamente em algum ponto da rua General Osório, no dizer dos brasileiros, dando sopa para o azar. Para cada sorvida do suco, uma manobrada no canudo. Não por acaso, eu escolhi um horário apropriado para captar a vida social. Clic. Literalmente, fui reproduzindo meus pontos de vista. Clic, clic. Enquanto veículos se exibiam na esquina, pessoas caminhavam pelas calçadas. E eu ali, fingindo que o suco ainda existia dentro da latinha. Alguns passos, e pus o recipiente vazio para dentro de um grande tambor de lixo, postado no canteiro central da rua. Alguns passos de volta, e me vi novamente na parede com sombra. Clic. Uma pessoa passou ao lado, o guri que vinha com ela deixou escapar um “bah, que calor, mana!”. Os dois entraram no mercado e se perderam em meu imaginário. A recorrência dos passantes me fez pensar num registro de atualidade que considero importante para quem não é da cidade São José do Nortchê e que um dia deseja conhece-la: em período de forte calor os moradores não economizam, ops, em tempos de calor as pessoas economizam bem nos trajes. No inverno, aí sim, as pessoas não economizam. Deste senso de economia, eu ainda posso acrescentar: os guarda-roupas expostos em público costumam ser bastante agudos. O relevo, a ênfase. Eu poderia dissertar mais sobre moda verão local. Mas fiquemos com a constatação de que o livre estar impera entre os nativos e radicados.

Retiro as costas da parede com sombra. Mudo de ângulo. Resolvo descer a Osório em direção ao cais. À distância, se podia ver uma cortina imensa azul celeste uruguaio. Mas um azul celeste uruguaio diferente dos demais dias. O que se via no horizonte, ou melhor, o que eu pude ver era um temporal que surgiria avassalador no cotidiano de gente com poucos trajes ou de vestes curtas.  Curiosamente, à medida que eu me aproximava do cais, mais o sol se transformava numa figura inexistente num novo telão que se formava no ar. Quase que do nada, aquele calor de queimar nucas expostas foi dando lugar a uma atmosfera de ar refrescante.

Inacreditável! Quando cheguei a duas quadras do cais, começou a chuviscar. O céu ficara menos claro numa questão de minutos. Sem muito pensar, abreviei a intenção, virei à direita. Decidi passar numa farmácia para recarregar o celular. Quer dizer, quis evitar os pingos que começaram a cair mais forte da estratosfera. Atravessei uma galeria (eh vero, o Nortchê tem uma galeria!). Já do outro lado do túnel, não demorei a cruzar a rua Pinto Nogueira (??) na diagonal, para ganhar tempo. A ideia era chegar o mais rápido possível em meu destino. Passos acelerados, quando dobro a esquina na direção da farmácia, tudo escurece de vez, até os postes de iluminação pública. Sendo fidedigno com o relato, a farmácia suspenderia o atendimento naquele instante; sem eletricidade, as máquinas param.

Mais dois passos, esbarro com o Caxias, um amigo carioca residente no município. Ele estava uniformizado com um macacão de uma empresa que opera no estaleiro northense. O camarada havia acabado de sair do serviço. Quando me viu, soltou um sorriso de quem, enfim, acabara de conseguir uma companhia para beber e conversar. Dito e feito: acompanhei Caxias no interior do bar/lanchonete Recanto do café, que se transformou em inevitável refúgio de seres de naturezas diversas: do affair duma das atendentes a um policial civil à paisana; do Caxias ao mototaxista que estaciona na frente do estabelecimento; de um pedinte profissional a uma figura inclassificável. Um lampião iluminava os presentes e a abertura das garrafas. Exceto eu, os demais pareciam não se importar com mais um (fiquei sabendo) rotineiro blecaute.

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Uma rotina de classe trabalhadora

atualizado 19 janeiro 2015 Deixar comentário
Um amanhecer das imediações da hidroviária nortchense

por Jose Mochila

Uma espécie terreno-diabólica me acordou numa madrugada desta semana, por volta das duas da manhã, quem sabe, como ocorre em muitas residências de cidades úmidas, margeadas por águas, matos e campos ou margeadas por rios, lagos, lagunas (!) ou infiltradas por canais fluviais. Falo de abomináveis pernilongos, da mesma praga que supostamente surge movida pelo cheiro das pessoas, conforme um renomado (nem tão renomado assim) estudo de uma obscura universidade de nome impronunciável do Reino Unido, por sua vez (uma pasma surpresa para muitos) uma escola superior (quem sabe?) secretamente financiada por uma empresa multinacional fabricantes de inseticidas, famosa anunciante, inclusive, de meios de comunicação, logicamente, uma informação não considerada pela “reportagem de últimos dias” editada por estagiários de um dito representativo portal brasileiro de notícias na Internet. Falo tudo isso, porque, por um tempo ganhou significação esta notícia inusitada, e que só leitores exclusivos de postagens de Redes Sociais e periodistas como eu costumamos dar valor. Se vocês não sabem… Obviamente, tomo banho todas as noites. E, para quem não leu a reportagem sobre abomináveis pernilongos, o portal brasileiro de notícias veiculou que as tais pragas surgem atraídas pelo cheio das vítimas. Importa dizer, mesmo de banho tomado, os pernilongos – descritos no manjado clipping de estagiários – apareceram e estragaram com uma de minhas madrugadas de sono. Com o sono detonado por um zum zum pernilonguírico, não dormi mais. Se bem que eu tentei, juro que eu tentei. Quando percebi o relógio, eram seis da manhã de um meio de semana. Súbito, me notei acordado nas imediações da hidroviária nortchense. No popular, madruguei. Foi quando, insone, testemunhei o fluxo de operários que atuam no estaleiro produtor de plataforma para extração de petróleo bruto no oceano, outrora dito polo naval localizado às margens da Lagoa dos Patos. Há um do lado de cá, recém-instalado. Se me informei bem, há mais de dois ou dois do lado de lá, neste caso, há um bom tempo sob a interferência geográfica da vizinha cidade de Rio Grande. Enquanto uns desembarcam da lancha, outros chegam para pegar outra condução aquática num itinerário inverso. Logo, deduzi dois turnos de trabalho (embora eu acredite que sejam três, porque a legislação trabalhista não permite um número elevado de horas de labuta). Observo, enquanto uns chegam para o trabalho, outros operários estão saindo. Ônibus cedidos pela “firma”, no dizer de operários, deixam um tanto de gente na hidroviária, e logo já pegam outro tanto em local e hora determinados. O estaleiro de São José do Nortchê fica a dois ou três quilômetros de seu epicentro urbano. Fiquei da esquina registrando, de soslaio, esta rotina de classe trabalhadora. Lembro-me de testemunhos de desocupados que dão existências à parede de um bar/lanchonete antes mesmo do astro rei baixar da escuridão do universo. Desde cedo há personagens zanzando pelas imediações da hidroviária local. Inclusive, alguns deles atuam na cidade como pedintes profissionais. Vagas “sobrando” no estaleiro, e os camaradas ali, atravessando a nossa entrevista com um pedido descarado de amigo, tem uma moedinha aí? Instado, brinquei com um deles no instante de minha volta para casa: “camarada, por acaso não foi pra você que eu dei meia latinha de cerveja outro dia num final de tarde?”. Ele riu para mim, sem álibi. Saiu de banda, o malandro. Pensei, perdi o sono, mas ganhei outro retrato para a coleção de nossos diários. O que deve nos ajudar – voltei-me para o fluxo – a entender um pouco da realidade destes trabalhadores nortchenses, rio-grandinos e de radicados nestas duas cidades, gente que bate o ponto cedo e promove, entre os outros, um alô de boa vizinhança; presumi: cada um ciente de sua respectiva história e condição de vida.

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Uma proteção contra urucubacas

atualizado 21 setembro 2015 Deixar comentário
A Praia de Mar Grosso em período de sol e calor

por Jose Mochila

Depois de quarenta, cinquenta dias, resolvi ir à praia; dizem: a melhor praia da região sul do Rio Grande do Sul. Quem me dissera, me garantiu que é bonita. Me preparei com esta ideia de anúncio na cabeça. Sairia. Para o desassossego de Mafaldinha, minha então interlocutora-ima-adesivo de geladeira recém-adotado. Disse a ela, em alto e bom som, nos vemos, Mafaldinha! Mafaldinha, sempre com o dedo indicador da mão direita vibrando na direção de meu focinho, a evocar dizeres do tipo: “Tenga cuidado, pancho!”, “Te estoy veindo!”. Sempre com um gesto de chamada de atenção esta Mafalda. No creo, chica! A mocinha prodígio não quis me ouvir, eu não quis ouvi-la. Pronto. Saí de seu alcance. Deixei a eterna criança esperta gesticulando no silêncio do apartamento. “Hasta la vuelta!”. Era sábado, o diálogo de malcriados fora suspenso. Para ser mais preciso, trato de um sábado de sol de queimar as costas de crianças desobedientes soltas nas ruas à revelia dos pais. O clima estava propício para um vamos ver o que vai dar. Esbarrei com este pensamento de pretensa grafia mística, a minha decisão de conhecer um dos cartões postais de São José do Nortchê. Além dos prédios históricos, entre os quais, a edificação da matriz da igreja católica, há muita coisa para se conhecer neste cenário de mundo que, deveras, transcende as nossas notas periódicas. Como se eu fosse um guia turístico, eu vos transmito: depois da Lagoa ou Laguna dos Patos, há o Molhe leste, o refúgio dos leões marinhos, a Barra, localidade do Estreito e a Praia do Barranco. Os títulos, na realidade, superam a tinta de panfleto oficial. Eu, pra ser bastante franco, ainda não conheci todos os lugares. Logicamente, eu não fiquei pensando nestas coisas quando fui tomar um ônibus na rodoviária. De hora em hora, há um transporte até o dito mar grosso. Uma fortuna de dois reais em troca de uma carona de quinze minutos. Cheguei perto das 17 horas ao destino do dia, animado.

O ônibus freou ao lado de uma lanchonete. Por um instante, eu só consegui ver anúncios de cervejas na minha frente. Mais alguns passos, esbarrei com uma bruta imagem de uma santa. Iemanjá ou Santa Bárbara? Deixei a pergunta retórica de lado, segui adiante na direção do mar. Eu não podia conter a ansiedade, queria por que queria sentir no rosto o bafo de vento fresco vindo das ondas. Súbito, me perguntei: se as ondas da Praia do Mar Grosso usam antisséptico sabor eucalipto? Não ventava muito, apenas o suficiente. Me aproximei rápido do Atlântico; com falta de sutileza, molhei os calcanhares. Olhei do lado esquerdo, carros por sobre a areia, pessoas n‘água; olhei pro meu lado direito, carros por sobre a areia, mais pessoas n’água. Optei por caminhar na direção direita de quem chega no cartão postal, onde tinha mais gente para fotografar.

Não economizei nos cliques. Tirei foto de tudo e de todos. A pessoa passava ao lado, eu sem vergonha alguma, clic, clic. Lembro-me de um casal. Eu tive a petulância de pedir para que eles sorrissem para a minha lente de câmera de celular. Um jovem não gostara de meu clic. Uma criança que cavoucava na areia enquanto eu passava por perto, me ignorou completamente.

Nem preciso dizer que me tomaram como um turista japonês? Na verdade, antes que este clichê fosse promovido, tirei a camiseta, enrolei meu celular e fone de ouvidos, carteira, chaves numa peça de roupa e tudo. O chapéu de vaqueiro pampeano, desta vez ficara em casa. Pus minhas coisas enroladas por cima de uma sandália de borracha. Saí correndo só de cueca na direção das ondas do mar, fazendo um ahhhhhhhhhhh de doido varrido. Um grito para o nada até me perder surdo num mergulho. Desta vez, eu dei um cano na reportagem, troquei o relato da Praia do Mar Grosso pelo sal grosso do mar. Como dizem os brasileiros, uma proteção contra urucubacas, mal olhados para fora do corpo.

Ali, lembro-me, o ano de 2015 começaria para mim.

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Muito além de um olhar periférico

atualizado 13 janeiro 2015 Deixar comentário
Do bairro Veneza, na periferia do município

por Jose Mochila

Não deve haver obstáculo algum neste mundo que obscureça os olhos de um periodista. Importa sempre o que nos vem ao alcance em favor de um dado interesse público, pensei nesta chamada editorial quando projetei uma vista panorâmica de transcender a realidade narrada. A quantidade de moradias levantadas no perímetro urbano de São José do Nortchê, me arrisco com um pensamento reportado, é desproporcional ao tamanho de seu espaço físico. Assim, quem não conhece o nosso cenário pode estranhar se um dia pisar nele esperando ver outra coisa. É no mínimo curiosa a forma como as residências estão postas no solo. Falo de construções produzidas ao longo do tempo.

À vista, um contorno histórico formado por um conjunto pouco espaçado de edificações antigas, pelo que nos consta, de arquitetura açoriano-portuguesa, e que expõe a falta de um muro frontal rente à calçada (a porta e as janelas de tais moradias abrem diretamente para a rua, sem discrição, sem intermédio); outro tipo, semelhante às antigas residências, embora sem o mesmo acabamento, não raro, tem um pequeno muro frontal ou calçamento prolongado da porta para a calçada ou para a rua; outros tipos, às dezenas, centenas, ficam às margens de um centro histórico, formam uma teia mais diversificada e atual de esconderijos, com ou sem muro, com raro ou pequeno quintal.

Tratemos, pois, de uma cidade fincada num solo arenoso, de praia, a promover situações específicas: quando demora a chover ou quando o sol bate firme da estratosfera, as ruas não pavimentadas, sobretudo aquelas localizadas nas regiões mais periféricas do centro urbano, costumam travar pneus de veículos automotivos. A cena, muitas vezes, chega a ser tragicômica. Um guincho real ou improvisado surge como socorro, quando o objeto encalhado não é retirado num empurro de braços voluntários de boa vizinhança. Ver um automóvel patinando, impotente, as rodas num chão movediço é caso de solidariedade. Denunciado ao poder público-administrativo, o solo de B. O. recorrente recebe empedramento ou um paliativo enxague de água.

Sobre as residências deste solo. Em comum, se encontram exprimidas umas às outras, e oferecem aparência de organização atípica. Os economicamente menos abastados, eu diria, vivem pressionados entre impossibilidades e esforços financeiros de um dia ter uma casa maior ou de ter tido a sua aquisição antes da atual especulação imobiliária que atualmente toma conta da cidade. É motivo de cochichos e conversas de esquinas a vinda de forasteiros atraídos por empregos no recém-instalado estaleiro-local produtor de plataformas para extração de petróleo bruto no oceano. É bom que se diga, além da emergente movimentação econômica de donos de imóveis, trabalhadores nortchenses também são beneficiados pelo setor de metalurgia.

De uma vista panorâmica; posicionei-me na varanda residencial de vizinhos operários moradores de kitinetes num bairro periférico. “O amigo me permite tirar uma foto deste lugar?” Sem maiores impedimentos. O encarado morador, de procedência longínqua, me concedeu o registro pontual, correspondendo com um sotaque carregado. “Mermão, fique à vontade…”. Depois desta legenda, voltaria mais pensativo para meu casulo, para a discrição de um lar de pequena edificação a poucos instantes da fotografia. A propósito, o retrato me pareceu cristalino mesmo não sendo nada demais para os nativos ou para aqueles já habituados. Um recorte que me fez lembrar de um diário de ruas, almas e afins. De fato, a sensação de que os nortchenses e radicados dão existência a uma imagem de formigueiro nos finais de tarde é, para mim, bastante expressiva. A aglomeração e o fluxo de personas são fatos consumados, seja nos embarques e desembarques diários da hidroviária, do exercício de ir e vir de lanchas sob as águas correntes da Lagoa dos Patos, ou das visitas aos comércios e de encontros interpessoais nas calçadas, praças e botequins.

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Do Bar Grenal sem hífen

atualizado 21 julho 2015 Deixar comentário
A dita maior densidade demográfica do município

por Jose Mochila

Mal entro no Bar Grenal sem hífen e tenho que pedir licença. Se já passei neste espaço de maior densidade demográfica de nosso cenário de mundo? Me perdoem aqueles ou aquelas que por ventura venham implicar com a recorrência do periodista. A falta do hífen entre o gre nal há de ser uma escolha publicitária. Ocorre que me deparo com paus d’água saindo, paus d’água entrando por uma porta estreita sem obstáculos institucionais. De uma estreiteza ímpar a porta deste Bar Grenal sem hífen! Atravesso numa dimensão de vazio, súbito percebo uma temperatura diferente. No interior de um teto baixo, uma realidade abafada de caras, olhos, bocas e, sobretudo, dizeres vagarosos de intercâmbio de ideias. Já no segundo passo dentro do estabelecimento, esbarro numa mesa de sinuca. Tá explicado certo bom uso do pedaço – vou logo pensando. Uma mesa de sinuca que ocupa um considerável percentual de um quadrado físico cheio de adereços nas paredes, entre eles, uma bandeira enorme do Sport Club Internacional, uma bandeira enorme do Grêmio de Fut-ball Porto Alegrense e, intrusa, uma bandeira também destacada do Avaí Futebol Clube, da capital do estado vizinho de Santa Catarina. “Mas se o Bar é Grenal, por que daquela bandeira do Avaí?” A resposta não demoraria, como não demorou a chegar até minhas mãos a cerveja mais ge-lada do Nortchê. Tchêêê, a refrigeração deste Bar Grenal sem hífen é de outro mundo. Do outro lado do balcão, a propósito, me atende um sujeito de corte de cabelo estilo rock and roll anos 1960, 70. Prestativo, pode crer. É só chegar no boteco que o sujeito te atende numa boa. Sem muito nexo, comecei a chama-lo de Led já a partir dos primeiros goles. Led, daquela banda de rock britânica. Sacam, Led Zeppelin? O vocalista… Forçando a memória e, sei muito bem, a comparação com o gênio do rock, até me lembro do nome de batismo daquela figura nortchense. Mesmo assim, prefiro chama-lo aqui ou publicamente de Led. O proprietário-balconista, eu quis dizer, o Led, não me ouviu chama-lo de Led nem ficou sabendo da minha obsessão pela falta de um hífen na fachada azul/vermelha de seu bar de mensagem híbrida. “Mas [Led]”, me lembro ter insistido, “o que faz mesmo aquela bandeira do Avaí pregada na parede?”. Num intervalo de atendimento, Led explica que seu pai é natural de Santa Catarina. Uma homenagem. É natural ou por lá já morou. Já não me recordo mais. Led, o “duplamente açoriano”?! Led mal tem tempo para tratar de resgates históricos. Como cá, Florianópolis também foi colonizada por açorianos. Um registro cultural que nos lembra Um Quarto de Légua em Quadro, do escritor sul-rio-grandense Luiz Antonio de Assis Brasil.

De volta ao Bar Grenal sem hífen. Noto Led em movimento do outro lado do balcão, atendendo os clientes, dando replay de clipes de músicas populares brasileiras numa TV 20 ou 29 polegadas, aparelho depositado num canto oposto da banca. Boteco relativamente cheio para um meio de semana. Um balcão todo de cotovelos. Lá fora, a música ecoa duma roda de samba importado do Rio de Janeiro. O cavaco de banjo e o tamborim, fiquei sabendo, são de propriedade e uso coletivos dos associados. Eu tive sorte de encontrar uma abertura para uma fotografia enquanto observava a clubística, os ditos associados. Isso mesmo; quero crer e, agora me corrijo em tempo, não há paus d’água no Bar Grenal sem hífen. (E que os paus d’água, me perdoem pela nota.) Então começo a falar como um notável associado: baahh…! O que há de sócios em nosso proclamado e suposto palco da felicidade permanente, não tá escrito! Me encontro no meio de sócios, quem diria, com focinho de um urgente periodista pedindo mais uma, por favor. Sede da braba, Led! Ops, quase deixei o vocativo escapar de verdade. Disfarcei como pude. Pedi mais uma garrafa para o carismático proprietário-balconista, numa bebericação que iria longe, e de ressurgir fantasmática, quem sabe, em nossos futuros diários.

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Entre ruas, almas e afins

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Do centro urbano de São José do Nortchê

por Jose Mochila

Podem crer que me pagam bem para replicar a literatura brasileira: A alma encantada das ruas. Não é uma pedida, é uma prescrição; leiam este livro antes de morrer; o autor é uma espécie de pássaro cantante do alvorecer de um então novo século. E que um dia meus diários caiam encantados por sobre as ruas lascadas de São José do Nortchê, sinto um assopro que me seduz cotidianamente neste lugar. Em todos os finais dos dias, me reporto, os nortchenses e os radicados de nosso cenário de mundo fazem de tudo para se fazerem presentes. Quando não surgem testemunhas para um quase sempre avermelhado horizonte desabrochado da vizinha cidade de Rio Grande, despistam num motivo secundário. Quero crer, a impressão é que nos finais de tarde, todos os citadinos dão com as caras em seu perímetro urbano.

As pessoas literalmente brotam de suas residências, parecem surgir das paredes. Testemunho inúmeras espécies e tipos. Uma vovozinha atravessa a minha frente, nem percebeu que eu esperava sua fotografia sem precedentes na história de nossos diários, deixa sua magia num meio-fio da rua General Osório, evoca um dos pés no ar, clic, clic. Já era, vovozinha! Meus cumprimentos de periodista indisfarçável. Troco de dimensão, piso noutro lado da calçada; passo pelo canteiro central. Das ruas de São José do Nortchê, eu tenho algo importante a dizer: vou falar algo além do registro de heróis oficiais. Marechais, generais, presidentes e retratos temerários que dão nomes pras principais ruas desta cidade. Aliás, quase todas as cidades do sul do sul do Rio Grande do Sul são chamadas de históricas. Médias, pequenas e diminutas. São quase todas antigas. Esquecidas, decadentes, são quase todas de outra época. É um motivo de orgulho para muitos, uma consciência que eu não noto nas novas gerações. As novas gerações, também aqui no Nortchê, só querem saber das novas tecnologias. Se me recordo bem, troquei de pensamento quando virei a cara pra vidraça de uma confeitaria, eu preferi lembrar meu tempo de guri no epicentro de minha fantasiada Mariscala, no interior do Uruguai. A lembrança é vaga, mas deve alcançar quase todas as cidades da América Latina de tempos anteriores. Estou falando de quando as pessoas miravam uns aos outros nos olhos, e não por aparelhos celulares. Tudo isso para dizer que eu reporto as pessoas teleguiado pelo registro do tempo; uma delas passa numa banda da Osório. Mesmo à distância, noto uma moça de coxas grossas. Santo Deus, cada coxa da moça é uma cintura minha. Me seguro para não lhe apontar o dedo em riste, com uma voz de denúncia cômica: “Estou sabendo que você faz academia, visse! Aliás, qual é a sua academia, que eu quero me certificar que você, vistosa das ruas do Nortchê, não exagera nos aparelhos musculares!”.

Escapo desta ou a moça é quem escapa de um perfil mais aproximado; capto outra imagem de final de tarde. No epicentro da praça da matriz, outrora anunciada, outra persona. Então viro o rosto para não perder a audição de Engenheiros do Hawaii num imaginário redefinido. Pra ser sincero, eu espero que vocês, leitores e leitoras voyeurs, me vigiem desta aparição. Outro tipo, que também me parece sair de uma academia, e que inventa de pegar o mesmo caminho que eu. Eu estou indo na direção do sempre aberto Bar Grenal sem hífen, onde há a cerveja mais ge-lada da cidade. Eu estou do lado direito da calçada, a morena trajada de academia do lado esquerdo. Acelero. A moça também acelera. Vocês não vão acreditar, eu desacelero; súbito, a morena de academia desacelera. Vocês não vão acreditar de novo, pisei certeiro no interior do Bar Grenal sem hífen. Além da cerveja ge-lada, o estabelecimento se destaca por ser o de maior densidade demográfica do município. Cheguei nele no instante em que nobres paus d’águas saltavam no teto para fazer mais um pedido urgente pro proprietário-balconista. Do lado de fora do bar, um adepto de Bezerra da Silva mandava ver com os dedos, entre ilustres, num cavaco de banjo.

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Uma figura de gabarito político

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No cais; um descarregamento de redes para pescaria em alto mar

por Jose Mochila

Só quem me conhece sabe de minha real religiosidade. Talvez seja por isso que eu já tenha transformado o cais de São José do Nortchê numa espécie de confessionário periódico. Ao menos, não perco a chance de repisar naquele espaço onde dezenas de pessoas costumam pescar, onde embarcações descem âncora na chamada prainha, onde o horizonte nunca se repete nos finais de tarde, onde sempre há um personagem novo para ouvir. Outro dia foi Seu Levi, depois o Espanhol. Ops, ainda preciso falar de Roberto, o espanhol que há quase dois anos, casado com uma moça nortchense, vive em nosso cenário de mundo. Mas aí surgiu o Seu Jair, um típico pescador da região, que seria ima para uma figura de gabarito político.

A figura de gabarito político, e de inscrição de suspense proposital, surgiria no meio de uma conversa sobre pescaria com Seu Jair. Este me contava suas experiências em mar aberto. Meia hora só do relato de certa madrugada quando um cargueiro quase passou por cima da embarcação que ele compunha com uma tripulação de oito ou nove companheiros. “Mais de quinze dias em mar aberto.” “Quantos quilômetros daqui, de onde nós estamos, até lá?” “Rapaiz”, ele disse numa voz fina pronunciada por uma abertura alegre nos dentes, “não é quilômetros, não, é hora”. Em outras palavras, os lugares de pescas marítimas são tão longe que ficam a horas de distância. Compreendi. Neste ponto, devo confessar o porquê de minhas últimas incursões ao cais local: estou louco para pegar uma carona numa pescaria em mar aberto. Seu Jair, o pescador, não sabia como me indicar uma solução imediata. Receptivo, o nosso mais novo amigo não deixou de me convidar para conhecer a praia de água doce nas imediações de sua residência, no fundão da Lagoa dos Patos, a mais ou menos 17 quilômetros da cidade. “Ah, o senhor mora ‘lá fora’”, reproduzi um modo de dizer típico. Ah, sim. Uma hora de prosa até a anunciada figura de gabarito político se aproximar. Um ex-vereador! Friccionei as mãos sem que ele percebesse. Sem ansiedade alguma, eu disse que era um periodista. Na verdade, nem me apresentei direito, a figura de gabarito político entrou na nossa conversa. Seu Jair acionou o dedo indicador com tom de salvacionismo. “Ele é dono de barco!”. Nada mais a propósito, eu pensei. Era tudo que eu precisava! Não demorou, eu já me senti à vontade para perguntar: “Como é que é… é difícil de pegar carona no seu barco?”. Para minha surpresa e instantânea felicidade, “não é difícil”. Nem precisei destacar que planejo escrever uma grande reportagem numa viagem de pescaria à deriva no mar? Eu já tinha o convite garantido. “A viagem pode ser em feita no mês xis?”. O barco da figura de gabarito político havia zarpado na data anterior. “Agora a tripulação fica no mar por quinze dias”. Nesta passagem, pensei em citar uma obra conhecida de Hemingway, mas a figura de gabarito político não me pareceu versada em literatura. Do que o prezado entende? Ué, entende de política. Quatro mandatos no legislativo. Só não foi reeleito na última eleição, porque não disputou. “Quatro mandatos!”, repetiu a figura de gabarito político no meio de uma fala minha, “e a cada eleição sempre com mais votos”. Vocês não vão acreditar: o sujeito me pareceu modesto. Recuperado de um problema de saúde, a figura de gabarito político planeja uma volta para o próximo o pleito. “Para prefeito desta vez?”. Com um pouco mais de sessenta anos, nosso amigo fez suspense… e em tom de contista, tascou: “Quem sabe?”. Na direção do outro: “Aprova, Seu Jair?”. O futuro candidato, que também é produtor de cebolas no município não deixou por menos: “O Jair sempre foi meu eleitor, não é Jair?”. Seu Jair ganhou um afago num dos ombros, antes de uma confissão efusiva: “É!”.

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Uma sensação de sonho próprio

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Do prestigiado boteco “Sonho meu”

por Jose Mochila

No perímetro da dita boca pequena existe um boteco que transcende a realidade. Chama-se “Sonho meu”, fica ao lado da hidroviária nortchense. Quase não acreditei quando li a inscrição. De queixo erguido, me notei com os olhos rútilos de emoção. Não vacilei, troquei a realidade pela sensação de um pretenso sonho próprio. Quero dizer, eu estava atrás de um exercício de terapia. As revisões um dia ainda vão me deixar louco. Fiquei muito tempo dentro de casa, trabalhando. E os últimos feriados me deixaram depressivo. He he, prefiram tudo menos a profissão de plantonista.  Meu conselho de revisor: não leiam tanto nem escrevam sem obsessão. Prefiram atividades braçais; sejam peões de uma forma menos dolorida! É mais fácil ler parnasianos do que corrigir textos para jornais e revistas. “Sonho meu”, minhas dores e senões evaporaram quando pisei neste sacrossanto estabelecimento – todos os estabelecimentos da boca pequena local são sacrossantos, tenho que frisar esta redundância.

“Sonho meu”, um estabelecimento de cidade pequena, mas com dispositivos de segurança de alta tecnologia. O chão, por exemplo, é antiderrapante. A diretoria não vê ou parece fingir que não vê o engenho: a cada três minutos, um poeta tasca um cuspe no piso. Bebericador algum cai naquela base. Ao menos por escorregão. Captei o registro no primeiro gole de cerveja. Então observava o ambiente. Uns jogavam sinuca, alguns carteado, outros jogavam conversa fora. Ao fundo, perto do banheiro, um pau d’água abraçava a única mulher entre bebericadores profissionais. Pra ser sincero, eu não me ative nesta última imagem. Nem na penúltima. Voltei-me para a primeira. Obsessivo, eu não via jogadores de sinuca na frente. Eu via pescadores. Eu não via taco, nem a falta de giz, nem mesa desnivelada. Eu via pescadores. Para mim, só havia pescadores naquele microcenário de nosso cenário maior de mundo. Quereria eu que todos ali fossem pescadores? Acertou quem arriscou a única e certeira alternativa. Eu já estava na segunda garrafa, oferecida a um dos bebericadores. Não me contive, quis saber se o sujeito era pescador. Um dia fora um deles, fiquei sabendo. Hoje, apenas um aposentado, ex-açougueiro e esportista da tarrafa. E como fala, este esportista. A coisa ficou intensa mesmo depois que eu disse que era um periodista indisfarçável. O ex-açougueiro não parou mais de versar. Ele só diminuiu a fala depois de ser convocado para uma disputa no pano verde. De lá, o velho esportista da tarrafa ia tecendo suas histórias e, para não deixar por menos, aproveitava para provocar o oponente. Com riso de curinga do Batman, o sujeito se dirigia para mim e ao mesmo tempo para o seu oponente amigo: “Olha a moral deste cara, só joga com uma das mãos. Tal um aleijado!”. E não é que o oponente amigo, a esta altura também um amigo da reportagem, jogava só com o braço direito? Nããão, este cara não é um aleijado. No dizer de nosso herói, “este cara é um marrento!”. Ex-açougueiro falaria com destaque até a marra do oponente se deparar com a derradeira bola 8. Suspense? Tambores rufando? Um movimento de consagrar vencedores e de secar bocas abertas? Ex-açougueiro já não falava tanto, após um lance de causar surpresa nos próprios olhos do marrento, que numa jogava de tabela, mataria jogo. A bola preta cantou surda dentro da caçapa, eu bem percebi ex-açougueiro engolindo a seco a perda de uma valorizada moeda de 50 centavos de real. Depois desta, fechei a conta com a diretoria do bar que, sabendo de minha profissão, acionou a tabela para forasteiros: me cobraram inacreditáveis notas de reais por cada garrafa de cerveja consumida. Deus do céu, eu nunca pagaria tão caro por uma Antarctica tradicional 600 ml. Saí do “Sonho meu”, voltei à nossa realidade compartilhada.