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O absurdo de nós

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por Nina Alencar Zur

Pensei em escrever coisas bonitas. Mas coisas bonitas não cabem nas coisas apaixonadas.

Quis escolher defeitos. Os defeitos das pessoas. As qualidades são meninas de saiotas bem comportadinhas, nunca me causaram espanto. Com os defeitos a gente tem que conviver como quem vive com dor. Tem que respeitar a porra da dor. Achava que era possível escolher defeitos. Sabia que dava um puta trabalho, mas achava possível. Até o dia em que me apaixonei.

era uma luz brilhante vermelha foda
                                                                  e
                                                                       um
                                                                          abismo

Comecei a escrever um livro sobre esse dia. O dia em que me esqueci de procurar defeitos. O dia em que me lembrei de procurar defeitos e não os encontrei. O dia em que descobri que o maior trabalho de todos era se apaixonar. A paixão tem uma cara suja, um pouco triste. Paixão tem cara feia. É ela o grande defeito.

Era um dia bem escroto. Só agora, rabiscando dentro do ônibus, através dessas letras trêmulas, me dou conta disso. Tinha chovido, tava nublado e tudo úmido. As roupas no meu varal tavam fedendo. A gente perde a noção das coisas quando acha que chegou alguém pra acabar com todos os problemas do mundo. É exatamente isso. A gente não se apaixona pela pessoa, mas pela ideia de que ela será exclusivamente responsável por tornar a existência possível. A gente finge não saber que a vida é impossível. Pelo menos até a primeira insônia.

Ontem foi seis de janeiro, dia de reis. Fez cinco anos do dia em que me apaixonei. Fiquei com preguiça de ouvir o barulho do chuveiro e pensei em acender velinhas e cantar parabéns para mim. Cinco anos de uma estrada da qual eu tô tentando sair há cinco anos. Resolvi meter o pé na estrada de verdade. Peguei o iPod, deixei um bilhete na geladeira e hasta luego.

levantei, calcei meu chinelo mais confortável e fui viajar.
deixei você.
uma hora eu volto.

Acho que tô fazendo a coisa certa. Já faz doze horas que entrei nesse ônibus. As coisas tão passando depressa, mais até do que as horas. Mas eu ainda sou a mesma pessoa que deixou aquele bilhete sob o ímã de Machu Picchu. Ainda sou a mesma pessoa que esteve em Machu Picchu, tentando inventar uma nova forma de viver a dois. Ainda sou isso tudo que se perdeu. E não me importam esses chinelos gastos. Vivo mesmo é de distâncias.

A pessoa por quem eu me apaixonei. A pessoa que resolveria todos os problemas do mundo. Ela ronca. Ronca como esse cara do meu lado, igualzinho. Mas agora, dentro do ônibus, escrevendo, tentando entender esses cinco anos, não acho que um ronco seja uma boa maneira de pensar em tudo. Não acho que um ronco seja um jeito legal de comemorar esse tempo. A gente pode comemorar o tempo?

Passei a noite acordada. Doze horas. Quase treze agora. Doze e quarenta e três. Se o meu relógio estiver funcionando. Se o tempo ainda continua o mesmo. Se eu ainda entendo o tempo. A noite tava relax, sem muito carro na estrada. Tive que mijar no banheiro do ônibus. Atravessei o corredor e senti tristeza pelas pessoas dormindo, tão feias. Quando a gente tá triste, acho que a gente acaba colocando tristeza nas coisas. Feiura nas coisas. Depois que eu voltei pro meu lugar, fiquei um tempo pensando naquelas caras. Todo mundo ali tão apertado. Tava meio assustada e o ônibus fez a parada de meia hora. A parada de meia hora que parece a mesma de todas as viagens. O mesmo lugar, os mesmos funcionários, os mesmos viajantes com cara de sono e prisão de ventre. O mesmo pão de queijo borrachudo. O mesmo desprazer. Talvez o tempo seja sempre o mesmo. Talvez sejam inúteis os cinco anos completos do dia em que me apaixonei e as dozequasetrezehoras que tô na estrada.

1+1=2
12quase13=2
5anos=2
mas nada disso significa alguma coisa
é apenas o absurdo
o absurdo de nós

É o Inácio a pessoa por quem eu me apaixonei (o absurdo de nós). O nome pouco importava, mas o sorriso só podia ser aquele do Inácio (o absurdo de nós). Antes de qualquer outra coisa, foi pelo sorriso do Inácio que me apaixonei (o absurdo de nós). Ou pelo jeito de sorrir, não sei muito bem explicar a diferença (o absurdo de nós). O que eu sentia era uma coisa fora do comum (o absurdo de nós). Acabei me acostumando com o sorriso dele, mas de vez em quando ainda levo uns sustos bons (o absurdo de nós).

Talvez o Inácio tenha lido o meu bilhete e sorrido. Talvez não. Talvez ele esteja puto. Quando o Inácio fica puto, ele para de falar comigo e vai digerindo o problema sozinho. Ele diz que é melhor desse jeito. Se ele tiver puto, pelo menos eu não tô lá pra ser ignorada. A gente subindo o Huayna Picchu sem conversar. A cara de cu do Inácio e a falta de ar. A altitude, o silêncio. Mas talvez ele tenha lido o meu bilhete e sorrido.

Era um dia nublado. Nada parecido com esse que eu vejo pela janela, de manhã amarela.

O absurdo de nós.

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Cidade não tem vírgula

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por Nina Alencar Zur

Uma brisa entrou pela janela que esquecera aberta. Brisa gelada que fez se mexerem os papéis picados sempre perdidos na estante do quarto. Havia versos mal dormidos naqueles papéis, e as palavras exalavam um cheiro antigo de tabaco. Na solidão de uma madrugada, só mesmo brisa gelada acorda as palavras. A brisa e o papel picado eram os próprios versos pisoteados de um bêbado.

Quando eu puder abrir os olhos, meu bem

Quero ser como você

Nada enxergar

Só tropeçar nas ruas

Ruas de luz do luar

Quando eu puder abrir os olhos, meu bem

Quero poder abrir os braços

Era uma noite fria como outra qualquer, sem grandes promessas. A meia estava já na metade do pé, quase a se perder pelo cobertor. Por um triz. Quando não há promessas, é por um triz que não há. Como versos deixados de lado. Levantou depressa para fechar a janela que esquecera aberta, ainda com gosto de tabaco e vinho na boca.

Do outro lado da cidade, também dormia um falso poeta. Naquele momento, um corpo no chão e nada mais. Um corpo e o cheiro de merda. Há dias andava sem rumo, com lapsos de entendimento, como se o estado de amargura fosse eterno. O cheiro de merda também parecia eterno a se perder pelo ar. O cheiro alargava, mas as tragédias continuavam presas no peito. As tragédias todas de um homem se medem pelo tamanho de seu silêncio. E ele dormia em silêncio. E tremia de frio em silêncio. O sonho falava.

Tinha o caminho no meio da vida

Tinha um bar no meio do caminho

Tinha o desejo no meio do bar

Tinha o não no meio do desejo

Tinham passos no meio do não

Tinha o medo no meio dos passos

Tinha a fúria no meio do medo

Sons de passos apressados acordaram o falso poeta. Não tinham rosto nem perdão, eram passos sem olhos. Ele sentia vergonha. Cobriu o rosto com a camiseta cheia de furos que vestia, mas continuava sendo aquele corpo cheirando a merda no chão. Virou-se, respirou fundo e voltou a dormir.

Pela manhã, a cidade não era cheiro e poesia. A cidade era gente. Não havia falsos poetas atravessando as ruas. Quem atravessava as ruas, escapulia dos carros. Escapulia dos carros como escapulia da fome. E a barriga roncava. Os motores roncavam. Cabeças para os lados e corpos correndo. De manhã, cidade não tem janela aberta. Cidade não tem vírgula.

Porra quase me atropelou desgraçado se eu tivesse esse carro faria um estrago. Se eu tivesse a grana dos cara eu dava churrasco na favela todo domingo comprava geladeira pra mãe levava a mulher pro rauái e tinha uma penca de filho. Porra se eu tivesse a grana dos cara eu ia viver do funk abrir uma escola de música fazer um cinema no morro e dar uma moral no visu. Ó o cara ali me olhando feio de dentro do seu carrão tá parando na frente do shops vai comprar uma gravata nova e fingir que esqueceu da culpa. Ó o cara ali saindo de gravata nova ele apareceu na tv dizem que é deputado e faz as leis do país e shops e latifúndios e igrejas e bancos e no morro ele bota a culpa que fingiu que esqueceu. Me larga dotô não fiz nada só olhei pra sua gravata ela é istaile agora olhar é crime também foi ele quem disse ele quem fez a lei. Me larga dotô eu sô di menó melhor ainda vai logo pra cadeia antes que olhe demais di menó agora vai pra cadeia foi ele quem disse ele quem fez a lei.

O sol atravessava a janela do trem lotado

E o útero de Ivone ardia

O bebê de Ivone chutava

E um lugar ninguém cedia

A humilhação atravessava a janela do trem lotado

Cafécompãobolachanão, cafécompãobolachanão, cafécompãobolachanão. Bom dia, senhoras e senhores, pra aliviar um pouco essa viagem e fazer do seu dia um lindo prazer, temos aqui balas Mentox, paçoca Mineira e chicletes Bom de Mascar. Tudo isso por apenas um real o pacote com os três, e se você quiser ajudar o amigo aqui, senhor, também estou vendendo o DVD do Muleque Bom de Samba, combina com o chiclete e custa apenas cinco reais! Obrigada, senhor, com licença, senhor, desculpe, senhor, licencinha, senhor, preciso passar, senhor, estou trabalhando, senhor.

Ivone sai do trem e corre para o banheiro da Central

A paçoca Mineira incomodou o bebê

O banheiro da Central incomoda o bebê

Bate o meio dia no relógio da Central

Bate o meio dia no útero de Ivone

Meio dia: bolsa que rompe

A vida teimava naquele jeito de seguir-sem-seguir, arrastando os sonhos como arrastava água de chuva pelas ladeiras. Os sonhos eram como água de chuva. Uma coisa sem sentido que existe-porque-existe. Sonhos sem fé nem pecado. Sonhos que perdiam os sonhos. Tudo acontecia como tinha de ser na cidade, sem surpresas em suas horas. Bolsas que rompem, janelas abertas, corpos no chão, meninos sem vírgula, passos sem olhos, promessas perdidas. A cidade era uma promessa perdida. E a gente caminhava pelas calçadas vendo o sol ir embora com a dor de uma perda. Sol também é promessa que se perde e ganha todos os dias.

E o menino sem vírgula corria sem vírgula pelo chão onde jazia o corpo do falso poeta. Sentia o cheiro de merda que se perdia eterno pelo ar. Porra esse cheiro aqui tá igualzinho ao do banheiro da Central pelo amor de Deus achava que não ia mais sentir essa porra hoje que que eu fiz pra merecer isso. E uma brisa gelada atravessou o menino e, do outro lado da cidade, acordou os versos sempre esquecidos na estante do quarto.

Tinha um poste no meio da fúria

Tinha a vida no meio do poste

Os passos do menino sem vírgula tinham olhos e viram a vida do falso poeta no meio do poste. Quando não há promessas, é por um triz que não há. Caralho,,,,,,,,,,,irmão.

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Encontro cor de chuva fina

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por Nina Alencar Zur

Naquele dia, a claridade não entrou cedo no quarto, como de costume. Santiago acordou assustado com o despertador – pi-pi-pi-pi-pi-pi!!!! – e pulou da cama como se estivesse atrasado. Normalmente acordava antes do celular, com os primeiros raios de sol que atravessassem a persiana. Subiu a cortina e confirmou um céu cor de chumbo cobrindo a rua, formando com o asfalto uma coisa só. Eram oito horas da manhã.

Juliana também acordou às oito naquela segunda-feira. Dias nublados não a angustiavam. Na verdade, até gostava deles e do ar melancólico que uma quase chuva trazia à cidade de São Paulo. Atravessou a marginal de táxi, observando o encontro do Tietê com o céu, os dois formando uma coisa só. No engarrafamento, as motos passavam em fúria – bi-bi-bi-bi-bi-bi!!!! – e deixavam um rastro de fumaça para trás. Baixou a janela e respirou daquele ar úmido, com cara de nojo. “Como fede”, comentou com o taxista.

Santiago entrou no ônibus com duas sacolas carregadas. Não mais havia lugar para sentar. Resmungou em voz baixa, pensando que devia ter saído de casa mais cedo. Uma senhora, sentada, cutucou de leve a sua costela e se ofereceu para segurar as sacolas. Ele aceitou, um pouco tímido, e passou o resto da viagem a observá-la. Vista daquele ângulo, ela ficava com uma careca enorme. Pensou na sua mãe, que também pegava ônibus todos os dias, sem reclamar, até o fim da vida. Imaginou um desconhecido reparando nos sinais de sua idade e desviou o olhar da careca.

Juliana entrou no banco olhando para o relógio. Estava atrasada. Pensou que, em dia de pagar conta, era melhor que saísse meia hora mais cedo. A fila do caixa já estava quilométrica. Todos um pouco quietos, como num ritual conformado de início da semana. Seus saltos estalaram no chão – tec-tec-tec-tec-tec-tec!!!! – atraindo olhares. Seguiu de cabeça baixa e parou atrás de um senhor de seus setenta e cinco anos, talvez um pouco mais. Achou um absurdo não terem cedido um caixa para ele e comentou isso em voz alta, para ver se alguém o fazia. Sempre detestou, em São Paulo, a falta de cordialidade das pessoas. Pensou no seu pai, que dizia serem melhores os corações do interior.

Os dois se esbarraram no elevador do edifício comercial. Santiago com os olhos bem abertos, sentindo que dormira uma eternidade; Juliana com cara de sono, aos bocejos, tirando uma remela do canto do olho. Trocaram um bom dia tímido. Ele apertou o onze e perguntou para qual andar ela ia. “Para o mesmo”, ela disse. Um, dois, três, quatro, cinco, seis. Juliana se olhando no espelho. Sete, oito, nove, dez. Santiago cantarolando baixinho. Onze. Ele segurou a porta e ela agradeceu, chegando à conclusão de que ainda havia cavalheiros em Sampa, apesar de só conhecer um ou dois. Perguntou se ele era de lá. “Mais da quebrada impossível”, ele respondeu. Achou esquisita aquela pergunta, mas só deu uma risada discreta. Ela também achou a pergunta esquisita, mas perdia totalmente o senso do ridículo quando ficava curiosa. Emendou com um “eu também” e apressou o passo, envergonhada. Os saltos estalando no chão – tec-tec-tec-tec-tec-tec!!!! – e mais um bom dia.

Santiago bateu na porta de número mil cento e quatro – toc-toc-toc-toc-toc-toc!!! – e foi recebido por um homem da metade de seu tamanho. “Sou o eletricista”, disse. O homem olhou para as sacolas que carregava, cheias de fios e ferramentas. Pediu para que esperasse ali mesmo e saiu com a cara fechada. Santiago apoiou um dos braços na lateral da porta e recostou a cabeça. Fazia tempo que não via um recepcionista tão presunçoso. O homem voltou e o mandou entrar. “Deixe suas coisas aí mesmo e leve o estritamente necessário para o trabalho, por favor.”

Juliana entrou no consultório e foi direto para a mesa da secretária. Pediu para que ela confirmasse as consultas do dia e, enquanto a moça folheava a agenda – flap-flap-flap-flap-flap-flap!!!! – ela corria para o banheiro. Fazia tempo que não ficava com tanta vontade de mijar. Recomposta, vestiu o jaleco e parou na porta de acesso à recepção. Apoiou um dos braços na lateral e recostou a cabeça. Segunda-feira e já não estava conseguindo parar em pé. A secretária perguntou se ela tinha se alimentado direito. “Ando comendo muito mais do que devo, Marli. Por favor, me avise quando o primeiro paciente chegar, e peça para que ele deixe as coisas com você e leve apenas os exames para a consulta.”

Meio dia e meia. Brecha para o almoço. Já chovia na terra da garoa. Santiago com uma capa de chuva daquelas praticamente descartáveis, Juliana com o guarda-chuva importado. Por pouco não pegaram o mesmo elevador, mas se encontraram no térreo. Trocaram sorrisos amarelos e seguiram. Ela retardou o passo para que eles não continuassem caminhando lado a lado. A rua já estava semi alagada. Outra coisa que detestava em São Paulo era a eterna má administração da cidade. Santiago só pulava as poças e pensava na comida.

“Merda, rasgou”. Juliana se aproximou e ofereceu um lugar debaixo do seu guarda-chuva. Comentou que aquelas capas de um real não serviam para nada e que era melhor gastar um pouco mais se não gostasse de tomar banho de chuva. Os dois riram. Caminhavam devagar, se ajeitando dentro do pequeno círculo, prestando atenção na sincronia dos passos. Ela achou ótimo ter deixado os saltos no consultório. Ficaram quietos por um tempo, ouvindo o barulho da chuva – ploc-ploc-ploc-ploc-ploc-ploc!!! – e entendendo as mãos de um na cintura do outro. Na esquina, Santiago agradeceu e disse que ia comer por ali mesmo. “Eu também” – ela disse, se achando uma idiota por usar de novo aquelas duas palavras – “adoro um prato feito”. Os dois riram. Juliana pensou que Marli ia achar graça daquela história. Santiago só pensava na comida. Foram juntos ao bar e os corações batiam – tum-tum-tum-tum-tum-tum!!! – no ritmo da chuva. “Até que eu gosto de Sampa assim, toda cinza”, ele disse. “Eu também”.

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Rascunhos sobre os quais não há nada a ser dito (nem mesmo um pio) ou com quantas ideias estúpidas se faz um roteirista de sucesso?

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por Nina Alencar Zur

– Martina, preciso que você me mostre alguma coisa até amanhã. Prazos são prazos. E vice-versa.

O prazo é o grande lobo do homem. Homens sem prazo seriam quase como coelhos, ou joaninhas. É em nome dessa palavra tão inocente, de cinco letras – ou seis, porque é praticamente impossível haver somente um prazo na vida de um homem de bem – que se cometem as piores atrocidades. Ou que se escrevem as linhas mais infames.

Desespero inicial (que só alarga o branco criativo): preciso de alguma coisa, qualquer coisa serve, pelo amor de Deus. Serve até protótipo de curta metragem pseudo-cult (que todos os santos e orixás nos protejam dos pseudo-cult).

Caneta, papel, lápis, borracha, corretivo. Luminária meio fraca, meio forte. Como alguma coisa pode ser meio fraca, meio forte? Dá no mesmo, é só uma questão de opinião. Martina é meio magra, meio gorda. Meio pseudo-cult, meio dissidente do movimento pseudo-cult. É cult ser dissidente do pseudo-cult?

Lá vamos nós.

Primeira tentativa frustrada: A reunião de trabalho que nunca existiu ou A desculpa do marido infiel

Escritório apertado, um homem dentro. Outro entra e fecha a porta.

– Oi. Cê tá atrasado de novo.

– Mas ainda não são três horas.

– A gente combinou às duas.

– Puts, desculpa, me confundi.

Os dois se sentam. Papéis na mesa, como se tivessem algo importante a tratar. Estão de terno. Passam quinze minutos olhando para a parede branca, para uma parte da parede que está descascando. Sérios.

Ruído de fundo: Uma ou outra buzina e o andar dos ponteiros do relógio. Tic, tac, tic, tac.

Um deles acende um cigarro, o outro reclama, abre a janela. O som das buzinas fica mais alto. O som dos ponteiros desaparece.

– Você não me ligou.

– Desculpa, não deu. Você sabe que é complicado.

– Tô cansado.

– O que você quer que eu faça?

– Eu quero que você me dê um pouco mais de atenção.

Os dois se pegam loucamente.

Nossa, que merda de roteiro!

Segunda tentativa frustrada: O homem que andava com a pulga atrás da orelha

Desconfiança, o verdadeiro mal-estar da civilização. Somos todos idiotas a andar por aí com os olhos atentos, esperando uma grande traição.

Um homem e sua pulga de estimação, pra lá e pra cá. Já nasceu desconfiado, desconfia de tudo e de todos.

Sequência cronológica de uma vida mal vivida, dominada pelo medo.

O bebê, recém-nascido, olha para o pai e para o melhor amigo do pai, lado a lado, no quarto de hospital. Os dois sorrindo, ternos, cheios de amor. Close na pulga. Ela ainda é uma pulga recém-nascida.

Que vergonha. Essa vai para a lista das leituras terminantemente proibidas. Não é para isso que se recebe o pior salário do mundo.

Pausa clássica para o café. Um roteirista de sucesso tem que gostar de café. Se não gosta, ao menos finja que gosta, senão não entra para o grupo. Quem avisa amigo é. De preferência, esteja descabelado na hora do café. E com olheiras. Mas isso é tão pseudo-cult…

Terceira tentativa frustrada: Martina, a roteirista de sucesso que não sabe escrever roteiros

Entrevistas, poses, flashes, tapete vermelho. Desfila Martina, a roteirista do filme de maior bilheteria do cinema mundial da última década.

– Bom, pois é, foi fácil, a inspiração veio na hora certa, acho que foi sorte… Queria homenagear o meu avô que morreu no ano retrasado, ele adorava ficção científica.

Só dá ela na passarela, transpira poder e segurança.

Fim de festa. Em casa, lava o rosto – que continua cheio de maquiagem borrada – e cai na cama, de vestido. Close no salto alto, um ainda está no pé.

Ruído de fundo: Zumbido de mosquito.

Martina não consegue dormir. Agita a palma da mão pelo ar, tentando afastar o incômodo. Coloca um travesseiro na cabeça. O zumbido começa a virar uma voz, uma voz que diz “Martina, o seu roteiro é o pior roteiro da última década”, “Martina, você não sabe escrever roteiros”, “Martina, a sua história já foi escrita mais de mil vezes”, “Martiiiiiiiiiiiiinaaaaa…”.

Puta que o pariu. Não tá dando. Impossível trabalhar assim.

– Oi, Carlos. Martina. Olha só, ainda não consegui escrever nada. Não, não vou poder te dar nenhum sinal amanhã. Eu sei. É. Eu sei, mas não deu. Fala pra eles que não deu. Gordo escroto, desligou na minha cara.

Alívio final (que encurta o branco criativo): foda-se, eu trabalho com cinema é pra isso mesmo, pra não ser escrava de ninguém. Arte não é produção em larga escala. Não ganho quase nada, não tenho que escrever qualquer mediocridade para cumprir com um combinado sem sentido. Princípios são princípios.

Pausa para um banho quente, para uma boa comida, para um vinho, para todo tipo de exagero. Duas horas de bem total com a vida. E de gastos desnecessários.

O remorso bate, Martina vai de novo aos papéis, escreve uma coisa meio boa, meio ruim. Faz uma nova ligação, pede desculpas pela falta de compromisso.

– Ok, amanhã às duas no seu escritório.

– Oi. Cê tá atrasada de novo.

– Mas ainda não são três horas.

– A gente combinou às duas.

– Puts, desculpa, me confundi.

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Obituário

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por Nina Alencar Zur

Um corpo no chão, uma história. Um, dois, três, quatro passos até o jornal, a coluna estala, o jornal finalmente na mão, o corpo largado na cadeira. Um cigarro aceso. Josué sua, o ventilador roda, não há vento que fique, mas é sempre o mesmo vento. A fumaça do cigarro, o suor na testa, o jornal. Um corpo no chão, uma história. As páginas do jornal, matérias inúteis, moda, verão, e essa gente que não sai do jornal. Fama, glória dos imbecis, as páginas, páginas, páginas. O vento não fica, uma página vai embora pela janela, o sol, vidro sujo, o cinzeiro. Uma, duas, três, quatro páginas, não há notícia que fique, mas é sempre a mesma notícia, não. Obituário. A morte, glória de todos os imbecis, não há gente que fique, mas é sempre a mesma gente. Um corpo no chão, uma história. A coluna estala.

Um. Maria Aparecida Ribeiro, 67 anos, o câncer, a dor. Um, dois, três, quatro anos, o suspiro, o descanso. Amém. A família convida para a missa de sétimo dia, que vão os alunos da universidade, o sexto andar do prédio, o mestrado em políticas públicas. As tardes de segunda, os artigos, o suor, o cigarro, não há cigarro que fique, mas é sempre o mesmo cigarro. O câncer no pulmão. O sexto andar do prédio, a tontura, a falta de ar, o Deus nos acuda, o hospital. As tardes de segunda cada vez menos tardes de segunda, as visitas, os olhares de pena, os alunos da universidade, o consolo. O riso sincero, o pranto escondido, o valha-me Deus, o abraço, a despedida. Amém. A família convida para a missa de sétimo dia. Um corpo no chão, uma história.

Dois. Afonso Reis de Lucena, 86 anos, viúvo, o mau humor, o reumatismo. Os filhos e netos lamentam a perda, não choram; o velório, os antigos colegas, a solidão. O café amargo, os dias inteiros juntando petições aos autos, a noite, o cansaço, a mulher. O divórcio, não há mulher que fique, mas é sempre a mesma mulher, a reconciliação. A noite, só à noite, a ausência, o trabalho, a solidão. A mulher reclamando, um, dois, três, quatro filhos chorando, o cansaço, o café amargo. A aposentadoria, já não há mais mulher, os filhos não fazem visitas, os antigos colegas não atendem ao telefone. O tempo não passa, não há tempo que fique, mas é sempre o mesmo tempo. Viúvo, o mau humor, solidão, velhice, reumatismo, o fim. Os filhos e netos lamentam a perda, mas não choram. Um corpo no chão, uma história.

Três. Teodora Martins, 24 anos, a estrada, a bebida, o traumatismo craniano. O futuro brilhante, o diploma de medicina, a residência, a viagem. O cachorro na casa dos pais, a mala feita, o celular carregado. Livros que ficam na estante, a praia não precisa de médicos, o sol, o mar, o balanço da rede. O último dia, um, dois, três quatro copos, o álcool, o delírio, a paixão. O carro, a chuva, o pé no acelerador, a curva, não há curva que fique, mas é sempre a mesma curva, a perda de controle. A luz, o barulho, a sirene. O futuro sumindo, a medicina sumiu, o telefone toca de madrugada, o cachorro late na casa dos pais. O desespero, o futuro era brilhante, o anel de noivado também, mas a curva era sempre a mesma e ficou. Flores na praia, flores na estrada, flores no cemitério, mas as flores não cheiram a nada. Um corpo no chão, uma história.

Quatro. Marco Aurélio Mendonça Filho, 38 anos, o som dos tiros, o pulmão perfurado, o sangue. Os pais pedem que a luz divina o acompanhe, onde quer que esteja. Nada faz sentido nos relatos de amor, nada faz sentido numa mulher apaixonada com uma arma, com uma arma apontada, como se a arma fosse o próprio coração, ah, o amor. Um, dois, três, quatro tiros, a camisa branca vira uma camisa vermelha. Vermelha como o batom da mulher traída, e aquele corpo no chão, aquela história. Os gemidos de dor, os gemidos de prazer, a cama de hotel, não há cama que fique, mas é sempre a mesma cama. A obsessão, o conhaque, a arma. O encontro no hotel de toda quinta-feira, por que você faz isso comigo, eu sou uma desgraçada, você me desgraçou. Não há desgraça que fique, mas a desgraça é sempre a mesma. O fim. Um corpo no chão, uma história.

A coluna estala. As páginas, o suor, o vento, vidro sujo, cinzeiro. Um, dois, três, quatro mortos impressos no jornal, quatro mortes inventadas, quatro mortes. Não há morte que fique, mas a morte é sempre a mesma. Josué deixa o jornal de lado, já perdeu tempo demais com aqueles nomes, aquelas idades, aquelas coisas que não têm nome e nem idade porque são apenas tinta, já morreram. Um corpo no chão, uma história. A coluna dói, o ventilador para de rodar, um, dois, três, quatro passos até o banheiro. O espelho, o suor, a torneira, a água no rosto. O pulso, o relógio, já é fim de tarde, mas a tarde não tem fim, é sempre a mesma. O pulso, o puls, o pul, o pu, o p. p. p. p……….. O coração não bate mais, mas a cabeça pensa, e roda, e pensa, e roda. Um corpo no chão, uma história. Um corpo no chão do banheiro. O corpo de Josué no chão do banheiro, o azulejo frio do banheiro, mas estava quente, o ventilador rodava, e agora é frio, o chão e o corpo também. Frios como a folha do jornal que não será impressa, o nome Josué fora da folha, o nome Josué só no chão do banheiro. Um corpo no chão, uma história.

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Dolores

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por Nina Alencar Zur

Meu nome é Dolores. Pelo menos foi Dolores o nome que me escolheu. Plural de dor em espanhol. Nasci mirrada, quase sem respirar, há vinte e oito anos recém-completos. Acho que foi uma forma estúpida da vida me dizer, desde o princípio, que eu não acharia jeito fácil de me entender com as coisas. Aliás, só encontro recados nos eventos estúpidos, como se eles é que fossem realmente importantes na minha história. Fiz-me aos improvisos. Tive uma infância difícil, cresci sem método. O meu corpo não obedecia aos comandos do mundo, era um mato a brotar em terreno baldio. Sem ninguém pra tomar conta. É isso, meu corpo foi crescendo como sem dono. Não era nem um tantinho meu. Lembro bem do nojo que sentia dos pelos grossos que começavam a aparecer em minhas pernas, naquela fase em que a gente se dá conta de que toda infância acaba. Tinha medo de observar as mudanças mais sutis, e pedia a Deus para que desse uma trégua naquele tormento de virar gente grande. De nada adiantava. Meu corpo ficava cada vez mais distante do que eu era.

Logo que entrei na escola, um pouco antes da alfabetização, fiz amizade com as meninas. Elas gostavam daquele sujeito atrapalhado, que não sabia muito bem o que dizer, nem a hora de dizer. Quantas vezes riram de mim… Eu entendia melhor as suas brincadeiras, sempre gostei de pular corda e jogar amarelinha. Tinha uma imaginação de artista, acho que pra compensar a ausência do corpo. Inventava jogos que faziam o maior sucesso. Os meninos, normalmente, não me davam muita conversa. Achavam-me uma coisa fora do normal. Era como se eu estivesse a desafiar o entendimento daquelas crianças. Imagine, um menino que não gosta de jogar futebol! E só escolhe as fantasias de princesa na sexta-feira. Os anos assim se passaram, comigo sempre a forçar portas para encontrar um espaço. Aprendi a ignorar olhares tortos e ofensas gratuitas. O mais difícil foi aguentar a prisão de não estar no corpo certo. Sentia-me menos gente, menos digna, a conviver com um inimigo grudado na alma, me aporrinhando noite e dia.

Quando me apaixonei pela primeira vez, aos quinze anos, as coisas ficaram ainda mais complicadas. Apaixonar-se é sempre uma forma de sofrer. Tudo se sente aumentado, as fragilidades todas tomam gigantescas proporções. Achei que não ia resistir ao episódio bruto do amor, que chegou a mim através de um vizinho. Chamava-se Estevão. Por um ano inteiro, andei magra, fugindo das pessoas, sempre de olhos arregalados para não ser surpreendida. Senti um medo enorme. Tinha vergonha daquele sentir, como se a mim, que negaram o corpo, também proibissem o desejo. Quando cruzava com Estevão, virava a cara e apertava o passo. O coração acelerava, parecia estar a ponto de explodir. Já longe, chorava. E como chorava. Chorei todos os dias daquele ano. Não poderia explicar a uma pessoa tão inocente, acostumada com os desígnios naturais da vida, o que era aquela confusão que eu causava ao mundo. Sentia-me culpada por estar insatisfeita. Optei por deixá-lo em paz.

A adolescência seguiu estranha. Odiava o meu próprio corpo, sentia raiva dos músculos e cheiros que tinha. Quando estava quente, eu fedia muito. Explicaram-me que eram os hormônios. Comecei a raspar todos os pelos, a fazer a sobrancelha, a vestir o que desse na telha. Nem assim a aflição diminuiu. Ainda tinha pau, não conseguia me masturbar direito, achava o mundo injusto para caralho. Revoltei-me com aquela situação. Não conseguia conversar com ninguém sobre o que me acontecia. Era uma vontade de me virar do avesso, trocar tudo. Eu não era aquele horror que via no espelho. Usei todo tipo de droga. Arrumei briga na rua, só trepei sem camisinha. Quis mesmo me foder. Não adiantou, saí ilesa de tudo. Era forte o meu corpo de macho. No dia em que fiz dezoito anos, ganhei um vestido azul marinho de presente da minha mãe, com um decote nas costas. Foi a coisa mais linda do mundo. Era como se ela estivesse, com aquele presente, dizendo que me entendia. Acalmei. Há gestos que dão de nos sossegar.

Aos vinte anos, já mais largada de angústias e um pouco melhor resolvida, decidi me operar. Finalmente um ato de coragem. A gente precisa dela na travessia. Gastei o que podia e o que não podia, peguei dinheiro emprestado, caí em dívidas. Mas cumpri com a minha decisão e isso não tem preço. Pela primeira vez na vida, me senti honrada. Era capaz de gritar pelas ruas que, enfim, haveria de conseguir um corpo. Entrei em contato com uma alegria que nunca antes sentira. Era como se eu estivesse a nascer de novo, só que dessa vez de verdade. Até ali tinha sido uma grande mentira. Depois de dois anos, um sem número exaustivo de consultas médicas, pesquisas, dúvidas e noites insone, fui internada. A última pessoa em quem pensei, antes de tombar com a anestesia, foi o Estevão. Não sei por quê. Às vezes a gente também é traída pela mente, não só pelo corpo.

Foram quatro cirurgias e pós-operatórios sofridos. Minha mãe virou um anjo a me acompanhar naquele tempo. Cantava ao pé da cama para ver se amenizava as dores que eu sentia. Quando me recuperei, surgiu o nome Dolores. Digo que surgiu porque as coisas que surgem parece que vêm porque têm de ser nossas. Foi o jeito que encontrei de nunca esquecer o quanto me custou brigar por mim. Junto dos hormônios que passei a aplicar, também veio uma liberdade que poucos vão conhecer nesse mundo. Quase todos a têm sem se dar conta, já que faz parte da ordem das coisas poder ser quem se é. Para mim, aquilo era uma novidade inquietante. Ganhei confiança e força para continuar atropelando os preconceitos. Caminhava orgulhosa, de peito aberto. Eu tinha dois peitões lindos demais! A primeira vez que fui à praia de corpo meu, fiquei até o fim do dia. Chorei quando o sol se pôs, mas de felicidade. Fui grata à vida.

Hoje, sou uma mulher feliz. Tenho as minhas decepções e impaciências, como qualquer pessoa, mas sou feliz. Trabalho, comprei um dálmata e há um ano e meio vivo com meu amor. Não com o primeiro amor, mas com o último, provavelmente. Ele sabe que nasci fora do corpo e gosta disso. É um grande companheiro. Nosso maior sonho é adotar uma criança, e para nós não importa que seja menino ou menina. Amanhã vamos a Porto Alegre. Ainda não posso usar documentos com o meu nome verdadeiro. Na passagem de avião, serei Antônio. Embarcarei calada.

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O assovio de um samba qualquer

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por Nina Alencar Zur

Betina adentra a cozinha com o mesmo balançar dos quadris de tempos idos. Com o passar dos anos, perdeu filho, dinheiro e uns tantos fios de cabelo preto, mas não o jeito manso de caminhar. A sandália de borracha arrasta no chão de um jeito que beira o som de música boa. Música boa é aquela que dá conforto nas dores todas do coração. A sua presença naquela casa é como um suspiro, uma respiração aliviada. É só com Betina ali, velando por todos, que a família Oliveira sente o calor do aconchego. Sem ela, ficam todos perdidos de afeto. As crianças, duas meninas carentes e saídas de mãe tem menos de dez anos contados, botam nela amor de neto. É um amor inocente, amor que confia. Quando a noite chega, se esparramam pelos seus peitos enormes, pedindo que fique um pouco mais. E ela fica. Conta estórias do mundo das fadas, embaralhando aqueles cachos louros, e pensa no tempo em que colocava seu filho para dormir. Se a dona Lourdes soubesse o buraco que dá na gente quando um filho é levado embora, trataria de olhar melhor para essas meninas. Ela não imagina como é bom ter o peito ocupado desse carinho.

Já são onze horas da manhã, e o vento atravessa o basculante da cozinha, avisando que está no horário acertado de preparar o almoço. Betina passeia com sua bunda gorda à procura das cebolas. Abre armários, gavetas, recolhe os ingredientes, deixa tudo aprontado. Antes de começar, conversa com eles, decidindo a importância que cada um terá na feitura do prato. Ela aprendeu com sua mãe que comida desconversada dá muito mais trabalho. Cantarola um samba antigo, que ouvia muito no Estácio quando era pequena. Hoje sai aquele refogado que o seu Carlos adora. Ele anda nervoso, cheio de piripaques. Só sabe gritar com as meninas. Uma comida que bote o seu estômago para sorrir também vai ajudar na tranquilidade da casa. Ele perde muito tempo com preocupação na cabeça, isso ainda vai fazer estourar alguma coisa ali dentro. Se isso acontece, estão todos lascados, que só ele é quem bota dinheiro por aqui. Dona Lourdes só faz gastar, todo dia vem de sacola nova. Teve um tempo em que arrumou emprego, mas seu Carlos não gostou da ideia e logo acabou com a história. Nem percebeu que ela ficou mais alegre naquela época. Parece que as pessoas aqui gostam de se ver como incompletas.

As meninas chegam da aula e correm para a Betina. Enroscam-se entre as suas pernas e quase a derrubam. Puxando sua saia, gritam a fome que têm. Como de costume, são mandadas direto para o banheiro, que o almoço só sai depois que se sente cheiro de banho tomado. E não pode ser banho de gato porque gato não volta da escola. Lourdes chega das compras e também vai até a cozinha. Puxa uma cadeira e conversa com Betina sobre o último capítulo da novela das oito. Fica ali por alguns minutos, descansando da obrigação de ser mãe, admirando a intimidade que aquela mulher tem com os afazeres do dia-a-dia. Betina aprendeu, desde muito cedo, que as coisas só parecem difíceis quando são desconhecidas. Quando a gente se aproxima delas, percebe que não são intratáveis. O ser humano é um bicho que se vira com tudo, se ajeita na situação. Antes de conhecer a família Oliveira, fez um pouco de cada coisa que se pode fazer, sendo mãe solteira e tendo quase nada de dinheiro. É assim mesmo. Para dona Lourdes, o lar só é um mistério porque ela não é atrevida a se entender com ele. No fundo, bem lá no fundo, ela sabe que poderia aprender essa felicidade.

A buzina lá fora anuncia a chegada do pai. Carlos entra reclamando do trabalho pesado e larga a pasta em cima da poltrona. Beija a mulher com maneira de ser sempre daquele jeito, beijo murcho, sem vontades. Sente o cheiro do refogado e vai até Betina fazer festa. Agarra com força as carnes que a mulher tem de sobra e agradece pela comida dos deuses. Ele sempre diz que sua comida tem o cheiro do paraíso. Betina se pergunta se paraíso é dado a cheiros. Para ela, o paraíso sempre foi um lugar em que se descansa e só. Quando seu filho morreu é que começou a inventar mais engenhos para esse fim da gente. Definitivamente, se paraíso tem algum cheiro, não é de refogado. Deve ter cheiro de fruta madura. As crianças saem do banho e vão correndo para a mesa, ansiosas. Enquanto o pai come, a mãe corta a carne da filha mais velha e pede para Betina fazer o mesmo para a menor. Pouco se conversa, mas estão todos satisfeitos ali, com ares de vida correta.

Findo o almoço, Lourdes se recolhe, Carlos volta ao trabalho e as crianças chamam Betina para brincar. Na varanda, as três fingem ser habitantes de grandes castelos, longe dos perigos de um mundo sem encanto. As horas correm e elas se distraem com a alegria daquele amor. Betina, assustada com o relógio, arruma um jeito de sair do jogo. Ainda tem muita casa para olhar. Varre daqui, esfrega dali, passa roupas e limpa o suor. Ao fundo, a televisão abre ao mundo o reencontro de dois irmãos separados na maternidade. Esses donos do vídeo não têm mesmo o que fazer, são uns sem juízo, puxando a gente para uma coisa tão sem importância dessas. Programa tem é que colocar coisa nova dentro das pessoas, e não esse bando de história repetida.

O dia passa apressado e Betina não se deixa assustar. Continua com o andar arrastado e a mesma calma de sempre. Ouvia de seu pai que aquele que muito corre morre antes de chegar, sem os fôlegos no pulmão. Toma um banho gelado para deixar o apartamento. Arruma suas coisas e, antes de sair, se despede das crianças. É também um se despedir de seu filho, num luto diário em que se vê sozinha ao abrir a porta de casa, sem remédios nem venenos. A vida segue seu rumo, a gente queira ou não. Sai para chamar o elevador. De dentro do apartamento frio dos Oliveira, só se ouve o assovio de um samba qualquer.

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Folha seca no calendário

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por Nina Alencar Zur

Caraca, mulher, tu é mó piranha, hein! Eu não sou piranha, eu tô piranha, é diferente. é estado de espírito, tipo quando a gente tá com vontade de comer uma carne sangrando. Só que dessa vez a carne que tá sangrando é a tua, né, porra. com essa saia aí até aquele ceguinho que pede esmola no sinal da Gomes Freire consegue ver teu cu. Ai, amiga, que coisa horrível. não brinca com uma coisa dessas, o homem tem uma deficiência. imagina o martírio que é não ter olho pra nada, sair por aí trombando com as coisas. outro dia ele deu de cara num poste e ninguém fez nada, eu é que cheguei perto pra perguntar se ele tava bem. Xi, gamou no ceguinho. tá carente mesmo. deve tá criando teia nessa perereca. Chega, não vou nem comentar essa sua implicância. tô gata, gostosa e pronta pra matar. Cuidado com o seu Manoel. acho que ele tá endoidecendo de vez. anda desconfiado, investigando tudo. ainda tá cismado com aquela história do ladrão da madrugada. se você sai dizendo que tá pronta pra matar é bem capaz dele levar ao pé da letra. Tu tá brincando que ele ainda pensa naquilo? foi só um porta retrato que sumiu, meu pai do céu. e eu tenho certeza que a baranga da Adriana pegou pra dar de presente pro namorado no dia doze. ela tem aquela doença de gente rica, que sai roubando coisa sem valor. Hahaha, ela acha que é ryca e phyna. síndrome de patroa. aprendeu lá no Leblon. antigamente ela não tinha esse nariz empinado não. dia desses chegou com arroz integral e tofu, cê acredita? preparei logo um torresmão pra comer na cara dela. Pois é, só que a gente é um bando de fodida obrigada a morar com outro bando de fodido durante a semana. não aguento mais esse cortiço de merda. a gente bem que podia arrumar um canto só nosso. mesmo que fosse mais longe ou um pouco menor. Ah, deixa disso que eu não tenho tempo pra procurar canto pra dormir não. prefiro aturar isso aqui mesmo e ter menos uma preocupação. chega o final de semana e eu volto pro Irajá cheia de coisa na cabeça. mal consigo descansar. e ainda tem o Luiz me enchendo a porra do saco, parece que nunca viu mulher na vida. é sempre a mesma coisa, amiga. me come o sábado todinho, e quando eu penso que ele também já não aguenta mais, lá vem aquele pau duro pra cima de mim. tenho que expulsar o homem lá de casa, senão não tenho folga. Reclama de barriga cheia, vai. cê sabe que tem sorte. o luiz não quer casar e ainda te come bem. isso é raro, faz tempo que eu não arrumo coisa do tipo. só conheço traste que não sabe nem dar uma chupadinha. outro dia eu dei pra um que me comeu com pressa pra poder assistir UFC. ficava olhando pra televisão, conferindo se já tinha começado. e eu lá dando o melhor de mim, fazendo toda aquela cena de mulher maravilha. filho da puta. E o Carlos, por onde anda? voltou lá pra terra dele? tá trepando com cabra e jumento? Mas você é preconceituosa, hein. peloamor. não, não voltou pro Ceará. as coisas foram murchando só, tipo essa plantinha aqui da janela, pobrezinha. tá tão descuidada. pega aquela tesoura pra mim que eu vou dar uma aparada nessas folhas secas. também não sei quem é que deixa aqui na janela, pegando todo esse sol. Ai, fui, eu, desculpa. pensei que planta gostasse de sol. Algumas até precisam de sol, mas porra, isso aqui é um inferno. nem você que é preta e adora um bronze aguenta ficar aqui parada no meio do dia. aliás, a gente podia pegar uma praia na próxima folga, tô nesse estado de espírito também, de mar e cerveja gelada. fecha aqui pra mim que eu não alcanço, por favor. Claro, cê sabe que eu não recuso esse tipo de convite. mas vamos só nós duas. não quero correr o risco do Luiz inventar de me comer dentro do mar. hahaha. nossa, tá difícil de fechar essa porra. não leva a mal não, mas cê tá forçando a barra nesse PP. Que nada, vai com jeito aí que fecha, não é força. eu subo e desço escada o dia todo pra poder entrar nessa roupa. Credo. pronto, foi. não sei como você consegue respirar dentro disso. pensa bem se vai sair com essa blusa mesmo. se tu arruma um caso na noite vai ter que pedir pro boy fechar. hahaha, imagina a cena, você prendendo a respiração e o cara suando pra subir esse zíper. Sem chances, hoje eu só quero me acabar na pista de dança. você tem que ir comigo um dia desses. o DJ é bom e as bebidas são baratas. Ai, não sei, não curto muito esse lance de lugar fechado, acho que também tenho doença de madame, que nem a Adriana. só que a minha é aquela que dá falta de ar em apertos. gosto mesmo é de um pagode de raiz, roda de samba, vida de rua. Eu também gosto, mas uma coisa não impede a outra. vou te arrastar qualquer dia, tu vai gostar, tenho certeza. e o barman é um charme. você, do jeito que é, ia se assanhar pra cima dele. Do jeito que sou como? você que tá toda cheia de fogo no rabo e ainda sobra pra mim, vê se pode uma coisa dessas. o meu estado de espírito, querida, é virgem Maria. Hahaha, sei. vou fingir que acredito. acho que ficou melhor a situ da plantinha, né. vê aqui o que cê acha. de repente cortar mais um pouco desse lado. Tá bom, cara, cê tá mais preocupada com essa planta do que com a própria vida. Ah, mas claro, a minha vida eu já entreguei pra Deus, ele pode fazer dela o que quiser. não perco mais tempo ajeitando as minhas pontas secas não que já tenho muitas. daria um trabalho filho da puta. Nossa, como você tá poética, podia largar o emprego e lançar um livro. seria o sucesso do ano. Ô, mulher chata, sai pra lá com esse deboche. fala de mim, mas tá aqui cuidando da minha vida ao invés de olhar pro próprio umbigo. Viu como eu sou generosa? um exemplo de doação ao próximo. É, se doa tanto ao próximo que volta do final de semana assada. hahaha. Tu não brinca que isso é coisa séria! realmente me incomoda. agora vai logo, mas passa batida pelo seu Manoel, senão ele te enche de pergunta. e manda um beijo carinhoso pro ceguinho. Para de zoar gente cega que Deus ainda te castiga. fui, até amanhã. e tira a planta da janela.

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Pedaço perdido de mar

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por Nina Alencar Zur

Muito cabra por ali diz que Pedro é teimoso, que devia largar mão dos peixes e se entender com outros ofícios. Mas ai, que não é teimosia. É o que sempre fez, o que seu pai lhe passou. E coisa passada de pai não se renega assim, como um presente desgostado. Também não tem mais jeito de aprender outra maneira de botar comida na mesa. O tempo dele já acabou para esse luxo de reinvenção. Agora é só mais um velho a viver do mar, com quem conversa como se dele fosse um amigo. É um homem entregue às histórias dos peixes e ao sussurro do vento. Já tem as mãos ásperas de rede e sol. A pele sempre queimada, ressecada dos temperos da costa. Areia e sal são do corpo, como tatuagem. Cheira a maresia, como embrulhado em alga. Em toda sua vida, só saiu da praia para ir à cidade próxima, o que faz uma vez por semana para levar o carregamento e comprar as necessidades. Ou quando é aniversário de alguém da família, já que não dá pra comemorar ano de vida no mesmo silêncio de todo dia. A gente da região quase toda desistiu de pescar, a concorrência é muita e o dinheiro beira o nenhum. Pescador assim, sozinho, não arruma grandes coisas. Vem barco grande e revira a natureza, fica tudo uma bagunça, magoado. Esses que chegam de fora não conhecem a fundo os humores da terra.

Todo final de tarde, Pedro beija a velha e as crianças como se fosse a última vez que o fizesse. A idade faz com que a gente pegue mania de preparar despedidas. Tem algum tempo, um ano ou dois, que começou a sentir um troço esquisito ao voltar à praia. Regressa menos dono de suas coisas, carcomido para marido e pai. Deixa uma parte sua para trás, como ficam as ondas. Anda com a desconfiança de que o oceano está é querendo saber de alguma coisa que ele sabe. Por isso o segura entre as correntes. Só que ele não é homem de segredos e passa as noites a prosear com as estrelas. Não há uma vírgula da sua vida que aquele lugar não entenda. Deve de ter alguma explicação, porque, se não tiver, ele vai continuar minguando, minguando, até pisar na areia como um homem sem passado. Diz para as crianças que não quer viver dias de puro deixar ser. Se um dia volta sem nome, quer que gastem as nervuras todas para contar o que aconteceu com eles até ali, em detalhes. Ele será como uma criança a ouvir contos, maravilhado com a própria história. Só assim fica tranquilo e parte para a noite no barco.

É uma quarta-feira e sai atrasado. Meio de semana deixa a gente um pouco mais atrapalhado com os horários. O céu está quase escuro, o sol já entornado no horizonte. O vento bate suave em seu rosto, dando um arrepio bom de sentir na nuca. Os barulhos da praia ficando distantes, e o tec-tec-tec interminável do motor cada vez mais coisa única. Pousa as pontas dos dedos na superfície do mar aberto para marcar o caminho que faz junto à traineira, brincando de ser levado. O balançar do barco o apanha em abraço de mãe. Sorri tranquilo, como se o pôr do sol se confundisse com seu próprio abrandamento. Sente-se um resto perdido daquele entardecer, vigia do encontro íntimo entre luz e água. A vida é só aquilo, o resto é desocupação. Então surge aquela vontade enorme de falar, contar para o mar o que navega por dentro de seu corpo moído. Romper o dormir do dia com seus trelelês. As estrelas já chegam para ouvir. Lança palavras ao mar com a rede, a língua se enroscando com o que sabe do mundo, calejada pelos hábitos e conformada com a realidade. Se o chão falasse, falaria como Pedro. Puxa a rede de volta com força, as mãos rasgadas pelo tempo, o corpo inclinado e a coluna torta. Ela chega vazia, com um ou dois peixes pequenos que logo devolve ao oceano. Não servem para dar de comer a ninguém, é melhor que continuem desconhecidos do mundo dos homens.

A noite chega e passa como sempre, calada. Só Pedro fala. O menor sinal de vida é assunto. Questiona as funduras do mar, que para ele são um mistério de tirar o sono. Relembra as lendas das sereias, que ouviu muito quando era pequeno, dos pescadores mais antigos e preparados para a sorte má. Fala da família, dos dias em casa, lembra o vestido que quer comprar para a mulher passar a virada do ano, um vestido cintado, cor de goiaba, que viu na cidade. Pensa na casa de marimbondo que precisa arredar de perto do quarto e gasta saliva para achar o jeito mais entendido de fazer aquilo. Não tem intimidade com essas artimanhas de manter conforto. Ouve o estalo da madeira e pensa que aquele é o seu lar, subindo e descendo com a dança das ondas. Quase sem equilíbrio. Quando se está em casa, as coisas saem como destrambelhadas mesmo. O trabalho repetido, o tamanhão do céu com o mar e o acompanhar silencioso de uma magia que não se anuncia, mas que se sente na sola dos pés. Tudo isso alarga o coração para os braços. O coração fica maior que o movimento. Fica inteiro, gente de verdade a matutar sem correção. E coração é bicho afobado, experiente em atrapalhações.

Com a quinta-feira se anunciando, consegue remendar a rede, desgastada do vaivém. Observa o agonizar lento dos peixes a se rebaterem. O ar frio do alvorecer cede lugar ao calor suave da manhã, e Pedro perde lonjuras ao contemplar o voo livre das gaivotas no céu, festejando o quente desembrulhar de um novo dia. Volta calado à praia. O barco se aproximando do cais e parece que o oceano é quem se despede. Com o corpo cansado e feliz, areia debaixo das unhas, amarra a traineira e caminha pela beira do mar. A maresia enroscada nos pés e a mesma sensação de que chegou diminuído. Mas alguma coisa acordou diferente naquela manhã. Uma inclinação de ser lugar nas coisas. Pedro descobre que para sempre será um velho a viver do mar porque ele mesmo é um pedaço do mar, desencontrado do resto. Por isso a parecença de ser arrancado de si no regresso. Respira aliviado. Nunca será um homem sem passado porque no mar cabem todos os passados do mundo. Molha o rosto com água salgada e anda em direção ao casebre para espantar os marimbondos. Mar comporta todos os tempos. Também é promessa e futuro.

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Uma flor que o vento leva

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por Nina Alencar Zur

Fruta é flor adormecida que a gente come. Esse era um segredo só meu, que eu não contava para ninguém. E olha que eu adoro contar segredo, faz com que ele tenha algum sentido de ser. Minha mãe me chama de linguaruda. Quem me dera ter uma língua enorme, quem sabe assim eu não conseguia chupar três sacolés de coco da Marlene de uma só vez. Tinha dias em que, antes de dormir, eu falava essa minha descoberta em voz alta, para enganar a vontade de dizê-la por aí. Era um segredo só meu, não é mais, porque eu contei para o Artur. Quando a gente gosta de alguém as coisas vão deixando de ser muito nossas. Ele riu da minha cara e disse que eu estava errada porque flor não dorme e uma melancia de camisola era quase tão impossível quanto contar os grãos de areia da praia. Aquilo me deixou tão aflita. Como assim flor não dorme? Não existe nada que fique acordado a vida toda. Até a minha boneca dorme, e disso eu tenho certeza porque sou eu que a coloco para dormir. Perguntei se as flores não sentiam sono. Ele disse que não, que flor não dorme e nem sente sono. Continuo achando muito esquisito, mas, como ele é dois meses e quatro dias mais velho, deve entender melhor desses assuntos. Também fiquei encasquetada com a história dos grãos de areia da praia. Perguntei se ele sabia o que tem mais, se grão de areia na praia ou estrela no céu. Ele disse que tem mais areia porque as praias são muitas e o céu é só um. Até que faz sentido. O Artur é muito inteligente. Eu disse que tem muita coisa que não é obrigada a botar pijama para dormir, como a gente. Uma lagartixa, por exemplo, não usa camisola. É óbvio que melancia também não usa. Ele me perguntou se eu já tinha visto lagartixa dormir e eu disse que não, que elas devem ser muito reservadas, como a minha mãe. Eu contei para o Artur que ela nunca soltou um pum na minha frente. Ele riu de novo e falou que a sua mãe solta pum o tempo todo, e dos fedidos. Lá na casa dele tem lentilha toda semana. Não sei se a minha mãe tem esconderijos para soltar pum, se só solta no banheiro ou em qualquer lugar, contanto que eu não esteja por perto. Acho a segunda opção a menos provável, porque tem horas que a gente sente uma vontade louca de soltar pum e não tem banheiro por perto. Esconderijo não, a gente arruma em qualquer canto. Outro dia mesmo eu descobri um lugar perfeito para ser esconderijo, ao lado da casa da Marlene. Se é que ela já não usa aquele lugar para guardar os ingredientes mágicos do sacolé de coco. Tenho que ir até lá para conferir. Vou chamar o Artur para ir junto.

Ontem, um pouco antes da hora de dormir, meu pai disse que é bom a gente sonhar porque os sonhos são que nem vagalumes, acendem as nossas noites. Eu já tinha até escovado os dentes e ele me solta uma dessas. Perdi o sono na hora. Perguntei se eu podia sonhar acordada para ver o meu quarto ficar cheio de vagalumes. Odeio aquele escuro que fica, que não dá nem pra enxergar a minha própria mão, mesmo que ela esteja pertinho do meu rosto. Ele falou que não era esse tipo de noite que o sonho acendia e que, para resolver o problema do quarto escuro, a gente podia comprar uma lampadinha. Uma lampadinha é uma lâmpada feita especialmente para o medo que criança tem do escuro, porque ela é pequena e fraquinha. Ele disse que o sonho acende outra noite, uma noite que dá dentro da gente. Achei que não ia conseguir dormir nunca mais depois daquilo. Eu nunca imaginei que dentro da gente existisse noite. Até então, dentro de mim só tinha bala de hortelã do bar da esquina que eu engolia inteira, com medo de ser pega. Ele me explicou que essa noite a gente sente quando está triste, com muita saudade ou com um medo muito grande. Aí eu entendi. Isso tudo eu sinto bastante. Contei para ele que quando o Beijinho, nosso cachorro, foi atropelado por uma moto-táxi, anoiteceu dentro de mim. Quando a polícia sobe o morro e tem tiroteio, além de anoitecer, também chove, porque eu faço xixi nas calças. E que quando eu ouço aquela música do Roberto Carlos no rádio, aquela que tocou na novela, a saudade da vovó é tão grande que a noite é uma noite com lua amarela e milhões de estrelas cadentes. Só vi estrela cadente uma vez na vida, quando a gente viajou para o sítio da patroa da mamãe. Na cidade a gente não consegue ver porque tem muita claridade, foi o que ela me disse. Mesmo daqui do alto, que é mais perto do céu. A gente bem que podia combinar de um dia desses apagar a luz, todo o mundo de uma vez, para brincar de fazenda. Vou dar essa sugestão para o prefeito quando ele vier. Meu pai disse que a campanha foi agora, então ele só deve aparecer daqui a quatro anos. Vixe, daqui a quatro anos eu não sei se ainda vou querer brincar de fazenda. Pensar em daqui a quatro anos é coisa muito longa, que só adulto consegue. Quatro anos é só um pouco menos do que o tempo que passou desde o dia em que eu nasci. E faz tanto tempo que eu nasci que nem me lembro desse dia.

Quando me perguntam o que eu quero ser quando crescer, respondo que quero ser criança. Não sei por que insistem tanto nessa pergunta. Como se ser criança não bastasse e a gente precisasse querer ser mais alguma coisa. Gente afobada, deve ser por isso que anda tão rápido. Minha mãe tem uma amiga, a Dora, que é a pessoa que anda mais rápido no mundo inteiro. Quando ela me leva para passear, eu volto cansada da correria. Acho que minha mãe liga pra ela quando quer que eu durma cedo e não faça bagunça. Os filhos da Dora já são velhos, mas devem ter sido uns anjinhos quando eram pequenos. A cada passo que ela dá, eu tenho que dar uns cinco. Ela tem umas pernas compridas! As minhas são mais curtas que o cabelo da Ana Maria. Ela cortou na semana passada, mas ele continua enorme. É um cabelo infinito. Eu tenho perna curta e os adultos vivem me chamando de bonitinha, mas dizem que mentira tem perna curta e que mentira é uma coisa muito feia. Depois é criança quem diz coisa sem pé nem cabeça. Vai entender. Seria legal se existisse um sacolé de coco infinito, que a gente toma, toma e nunca acaba. Que nem o cabelo da Ana Maria. Bateu uma vontade de tomar um agora, tá me dando até coceira. Vou chamar o Artur, até porque preciso falar com ele sobre uma coisa em que eu pensei hoje de manhã. Tem muita praia e o céu é só um, mas toda praia tem céu em cima, e tem céu em cima de muita coisa que não é nem parecido com praia. Tem céu em cima da casa da Marlene. Então deve existir mais estrela que grão de areia. Também preciso perguntar qual é a diferença entre uma borboleta e uma flor que o vento leva, porque eu acho que borboleta é flor que voa por aí. Ele deve ter a resposta.