voltar

De volta com um elemento mágico

atualizado 3 outubro 2016 Deixar comentário

por Mochilowski

Se não fabulo coisas além da conta, na literatura infantil existe uma palavra-chave que explica bem o gênero: o chamado elemento mágico. Passei as últimas semanas pensando nesta ideia, coçando o saco e fingindo ser um narrador fora do comum. Assombração de narrador! Eu andava sem revolta, sem um necessário instinto transgressor, sacam? Pior foi esquecer da correspondência de um público-leitor. Puta merda! Pus a consciência na roda novamente, me fiz sob efeito do álbum Relics, de Pink Floyd, traduzido aqui como “Memórias pessoais ocultas…”. Deus do céu! Voltei a lembrar de um recente Golpe de Estado e da massa analfabeta e do autorrebaixamento da profissão de jornalista em meio ao nosso estado de coisas. Também lembrei de A. Onde estará a menina tranquila, onde? A menina tranquila, lembram-se dela? Ah, a menina tranquila continua desejável ao meu lado. A., a audiência esquecida e um parênteses que nos escapa antes que eu cause uma confusão mental na recepção, me noto um fragmento de memória no conhecido Mundo das Pulgas. Eu então apagando secretamente das profundezas do universo sideral um fantasma que lê literatura e se comporta como. Não! Mil vez não, não quero mais ter estes pesadelos à luz do dia! Mil vezes! Sai de mim imagem pretérita de quem finge entender de literatura apesar da impecável declamação de poemas! Por favor, sai de mim retrato confuso que lê Balzac em madrugada curta e não consegue entender minimamente as complexidades da vida. Sai de mim figura que não sabe colaborar com e pouco nota o ser humano que adoece sem o ar que lhe tomaste da garganta… Cansado de estimular uma miragem, voltei-me supostamente crescido pra uma nota de atualidade. A. é testemunha deste presente narrado. Investi 40 pilas  num título de Casa Grande & Senzala! Realizei um sonho antigo de leitor sem pátria em pleno centro antigo de Sampa. A. e eu voltamos à banca de livros onde o exemplar de Gilberto Freire nos esperava. Eu interessado num esquecimento para me concentrar sobre o que mais interessa a um resgatado cenário de mundo. O livro estava em minha mãos, nem pude acreditar quando me desfiz de uma nota de 50 pilas escondida no bolso para ficar com um troco de 10 que me faria mudar de sentido daquele momento em diante.

E antes que pensem que eu encontrara um manual ou um tico de remédio, eu me antecipo: achei uma senha para tentar entender o que não se pode entender completamente. Na real, eu não sabia o que me esperava após adquirir um livro que escancara uma história como um educado dedo em riste. Foi só eu tomar posse da 17ª edição de um fino tratado sociológico sobre a cultura de um povo para reconhecer entre viventes seres invisíveis que escancaram a vida sampeana como escancaram o cotidiano de qualquer lugar, capital ou o caralho a quatro deste país. Me pus a folhear o exemplar… Logo, o meu ponto de vista ficou turvo, minha cabeça pesou, de súbito parei o ato para me dar conta de um esgotamento vazado no chão de um futuro…

______

Bônus de imagens do episódio

                              

voltar

A descoberta do Mundo das pulgas

Deixar comentário

por Mochilowski

Uma tarde de passeio ou uma revisita ao Vale do Anhangabaú, região central de Sampa. Mais precisamente, fazia a vez de periodista no chamado Mundo das pulgas. Depois de prestigiar um show dominical de João Perreka e os Alambiques, A. e eu demos dois, talvez três passos e pouco na direção de um fervo. Literalmente, num pulo? Não que metaforizássemos o nome daquele mundo com destacada – ao menos pra mim – dimensão fabuladora. O retrato das pulgas era fantasia, mas a sua atmosfera de vida social era bem concreta. Os cigarros clandestinos, que mencionei em um diario anterior, continuam neste como uma quase mensagem no ar entre os figurados vivos mortais. Bem, não tive problema algum em entrar no clima de vendedores e de compradores. Até me senti bem como uma animada pulga entre outras supostamente nominadas. Não escancarei pra menina tranquila se ela estava gostando de ser uma persona. Achei melhor deixar minhas abstrações na cachola, sem promover uma batida sensação de pulgas atrás da orelha. Mas minutos antes fiquei curioso pra descobrir o nome da feira… Não, não foi difícil descobrir o nome da feira de domingo naquele cenário onde democratas nativos costumam celebrar datas e momentos históricos. Se me recordo bem, foi um vendedor de livros que me informou que a tal feira ocorre uma vez por mês naquele espaço. Digo, o sujeito não assegurou precisão da informação. Assim como A. e eu, o vendedor de livros usados a quem eu me dirigi com a primeira de minhas entrevistas informais estava ali, fazendo a vez de pulga, pela primeira vez. Tá, não sabe; também não sabemos. Pensei. Que tiozão é este que não sabe onde vende suas mercadorias? Vem pra feira e não sabe o nome da dita cuja. Fiquei tentado em reproduzir uma ênfase retórica como um duvidoso ator indignado, a poucos passos de um dos monumentos mais tradicionais da cidade: o Teatro Municipal. A uma breve distância e por mais de uma vez, dobrei o pescoço e mirei um horizonte contemplando o monumento onde Mario de Andrade, Oswald de Andrade & cia fizeram história em 1922.

De volta ao presente. Eram tantas os vendedores de livros que eu quase não me contive. Um perigo estas pulgas vendedoras de livros! Eu não podia ver livros, e já pensava em comprar. Já A., não podia ver roupas. Isso! Tinham roupas no local. Os vendedores queridos não estavam pra brincadeira. Tinha muita coisa à nossa disposição. Livros, roupas, sapatos, quadros, pulseiras. Peloamorde. Como tinham bijuterias naquele pedaço! Mas foram os livros que me chamaram mesmo a atenção. Em especial, um deles. Mirei bem numa capa. “Quanto é?” “Quarenta?” Segurei o título nas mãos. Li bem: Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freire. “Hummm…”, fiz em voz alta. O vendedor ficou apreensivo com o meu “hmmm…” (me perdoe, o vendedor não ficou apreensivo com o meu “hmmm…”). Pensei na solitária nota de 50 em meu bolso. Fiz suspense. Disse ao sujeito que voltava depois.

Na verdade, eu não sabia se voltaria depois. A menina tranquila pareceu interessada em andar. Andamos e paramos um milhão de vezes pela feira. Enquanto A. folheava um cabideiro de vestidos, eu só conseguia processar frases atravessadas num monólogo interior: “Casa Grande & Senzala…”; “Quarenta pilas…”; “Compro…?”; “Compro ou não compro…?”.

______

Bônus de imagens do episódio

                      

voltar

Entre distintos fugitivos da seca e crua realidade

atualizado 20 maio 2016 Deixar comentário

por Mochilowski

A. eu pisamos no que eu anteriormente destaquei como um terreno potencial de fabulação. Desses com o poder de sugar os nossos corpos e estruturas mentais da seca e crua realidade social que por ventura nos destrata para uma dimensão que pode nos fazer sentir uma fantástica sensação de fugitivos. Destas transpiradas de sonhos estranhos de início de manhã, sem que a gente desconfie que tais sonhos estranhos ocorram sempre nos inícios das manhãs. Logicamente, não pensei nesta profundidade sugerida quando revi o Vale do Anhangabaú aberto para o comércio informal e o lazer de vivos mortais. Voltar ao pedaço sem que a pauta seja manifestações políticas em defesa de nossa frágil democracia é uma coisa diferente. Senti tal impacto, porque no interior de nossos diarios extraídos de Sampa a repercussão da violência e do desrespeito que parte da classe política promove contra a soberania do voto popular… Não que este periodista pretenda posar de descolado e nem que este estado o deixaria iluminado diante de uma audiência específica. O fato é que a minha máscara costuma ser a mesma em qualquer condição ou em parte deste grande teatro que chamam de Planeta Terra. Com a minha mesma cara, aliás, me notei em um mercado a céu aberto. E o Anhangabaú estava mesmo a céu aberto naquele domingo. “Baita concentração de pessoas, hem”? Acho que disse algo do tipo pra minha companhia. Confesso que não percebi se A. balançou ou não os ombros, aceitando o convite para trocarmos um boteco antes pensado por uma imersão de feira. Feira! Exatamente. Eis o nome. Ops. “Qual o nome desta feira, A.?” Quase uma cidadã sampeana, ela não soube responder. Pedi licença para a interrogação, e sugeri que avançássemos alguns passos. Não demorou, a menina tranquila e eu começamos a compor uma paisagem de… paz e amor. Isso! Paz & Amor, vale destacar o selo. Jovens, olhares soltos, caminhadas sem pressa, comes e bebes, compra e venda de produtos em bancas improvisadas no chão e… um aroma de cigarro clandestino no ar. Se eu senti uma corrente de ar daquele aroma de destravar tensões particulares…? De fato, exagero nesta passagem. Hmmmm… de aspiração pra cá, Hmmmm… de aspiração pra lá. Risos mudos fabricados, camaradas!

A. e eu paramos numa posição que não era bem a de aspiradores felizes ou de felizes aspiradores. Na real, nos vimos noutra vi-be: como espectadores curiosos de uma apresentação musical. O consumo, a aspiração de cigarros clandestinos, a propósito, será tema de um programado capítulo que em breve promete abalar leitores conservadores. No relato da vez, interessa citar a figura de João Perreka e os Alambiques, de quem eu compraria um CD de 6 reais após ouvir um hit intitulado Desiree.  A menina tranquila, eu e outras testemunhas pudemos conferir de perto uma espécie de nostalgia de uma garota evocada na interpretação de um aparente sósia de Raul Seixas noviço. Quem foi ou quem é a tal Desiree? Talvez nunca saibamos da explicação original… O que eu soube, digo, o que me provocou a carga de introspecção foi ver na exibição de uma banda um olhar de que os integrantes também estavam numa dimensão distinta, numa condição de fantasia… Fiz o obséquio de gravar o hit ou o capricho de registrar um trechinho da intervenção de notórios fugitivos da seca e crua realidade social: Aquela frase que eu dividia com você… Desireeee / Aquele canto do meu quarto… Desireeee / Ali está o seu retrato… Desireeeee / Cada canto um pedaço… de vocêêêê . . .

______

Bônus de imagens do episódio

                  

voltar

Fascistas aludidos ou historicamente citados

Deixar comentário

por Mochilowski

“Fascistas, fascistas, não passarão!” Por outra, também escutei: “Fascistas, racistas, não passarão!”. Se escutei bem, uma terceira versão invadiu meus tímpanos: “Fascistas, nazistas, não passarão!”. Impressionante registrar que eu escutaria mais do que uma forma derivada de discurso durante a chamada Marcha Antifascista em São Paulo, que ao mesmo tempo foi também realizada em duas dezenas de cidades do país. Importa dizer: as frases de ordem ecoavam em meus miolos horas depois de eu me incluir num relato como uma pretensa testemunha ocular. Na capital paulista, onde me notei vivo, os manifestantes se reuniram na Praça da Sé, no centro antigo. Pensei em dizer um grupo, mas na real foram inúmeras tribos que se reuniram no local a partir das 16 horas de um sábado de 30 de abril e de um clima fresco. Queria eu estar na posição de curioso apenas. Mas estava na posição de repórter freelancer para a Parabula.net, a respeito da qual eu passei dias interiorizando como “a mais nova e revolucionária página eletrônica de jornalismo ativista”. Se sugeri uma pista, acordei num dia aludindo um codinome; na oportunidade, me notei auxiliar de produção do nobre jornalista Giovanni Giocondo. Falei prazer pro sujeito, que eu até ali não conhecia pessoalmente. Conversamos, fizemos algumas entrevistas, trocamos ideias enquanto um público ia chegando ao cenário. O professor de Língua Portuguesa da rede estadual e amigo Aderaldo dos Santos, vindo especialmente do interior de São Paulo para o ato, foi também testemunha na Praça da Sé, escolhida não por acaso pelos autointitulados antifascistas como um palco da atualidade. E menciono a atualidade para lembrar que o tal ambiente fora palco da dita “Revoada dos galinhas-verdes”, cujo nome faz referência ao confronto armado ocorrido na mesma Praça da Sé em 7 de outubro  de 1934. Assim damos fundamento a um testemunho de hoje de um ativista vestido de preto ao lado de um carro de som cercado de uma infinidade de outros ativistas. Em outras palavras, lembramos um registro de tempo aqui reproduzido de modo indireto: o confronto histórico ocorreu quando anarquistas, comunistas, sindicalistas e trotskistas, organizados na Frente Única Antifascista, posicionaram-se contra a realização de uma então marcha promovida pela Ação Integralista Brasileira (AIB), organização que nos anos de 1930 congregava correntes nacionalistas e fascistas, dirigida por Plínio Salgado. Uma história que também nos diz: “Durante o episódio, 30 pessoas ficaram gravemente feridas e morreram pelo menos seis pessoas – três guardas civis, dois operários integralistas e um militante da juventude comunista, Décio Pinto de Oliveira, estudante da Faculdade de Direito de São Paulo. Décio foi alvejado na cabeça quando discursava e passou a ser o símbolo do movimento antifascista brasileiro daqueles anos. Também ferido foi no confronto o jornalista Mário Pedrosa, enquanto ajudava um outro militante comunista também atingido”. Em resumo, a denominação “Revoada dos galinhas-verdes” se deve ao desfecho do incidente, com a debandada dos integralistas, que, enquanto corriam, deixavam pelo chão suas camisas verdes, principal elemento de identificação dos militantes da AIB. O professor Aderaldo, o jornalista Giovanni, eu e uma multidão pudemos conferir com olhos vivos a perspectiva dos autointitulados antifascistas de hoje. Desta vez, os fascistas não se apresentaram de corpo presente, apenas foram aludidos ou citados historicamente. Da Praça da Sé, a marcha percorreria dois quilômetros até o Memorial da Resistência, também no centro da capital paulista.

______

Mais vídeos da Marcha Antifascista realizada na cidade de São Paulo:

______

Bônus de imagens do episódio

                                  

voltar

Num potencial terreno de fabulação

atualizado 9 maio 2016 Deixar comentário

por Mochilowski

Incluindo um rolê de metrô, um filme breve passou por minha cachola. Uma semana depois, voltei ao chamado Vale do Anhangabaú. Desta vez, o tema não seria a política e os retratos de democratas em ato pela democracia. Por um acaso dos acasos, me vi novamente no bendito Anhangabaú. A., a menina tranquila, também marcaria presença em nossos diarios. Na urgência de In Sampa, ela tende a ser uma representação recorrente. Pois bem, simulei um suposto recurso de cinema cult para esta menina. “Toca aqui, A.!” Brusco olhar de incompreensão. “Quêêêêê?”. Busquei um céu azulado e vi a imagem de A. paralela a minha subindo subindo e tocando a palma da mão na minha lá no alto com o complemento de um “toquei, periodista”! Agora sim! “Agora sim!?”, me inquiriu com riso mudo a menina tranquila. A. ficou sem me entender, mas ficou… tranquila; ficou previsivelmente lúcida. De certo, ela cravou que sou doido varrido e viajo com a cabeça pra fora de uma janela de ônibus antigo. Mas nem liguei… Expliquei para a menina que estava criando uma imagem de futuro. Imagem de futuro, tá ligada? “Uma imagem de futuro, ok?” Juro, ela repetiu “uma imagem de futuro, ok” e voltou à tranquilidade que lhe caracteriza. Um dia quem sabe, podemos tratar em específico deste seu perfil… Mas naquela tarde de 24 de abril de 2016, eu preciso assinalar, o que eu mais buscava não era ser surpreendido pelas nuvens. Como se eu tivesse esfregado uma lâmpada ancestral, a força de um destino veio à tona: um acontecimento com ar de que já estava escrito. A. e eu descobrimos que as vagas para assistir a uma peça do renomado Shakespeare estavam esgotadas num teatro. Putz putz. Menciono a suspensão de uma agenda programada, uma sessão teatral que celebrava o aniversário de nascimento do dramaturgo inglês no CCBB – Centro Cultural Banco do Brasil. Para quem não conhece, o CCBB sampeano fica do lado da estação de metrô da Sé, onde a nossa reportagem esteve num 13 de março. Lembram-se dos vídeos que mostram o ex-senador Eduardo Suplicy cantando e dançando forró com a mulherada?

De volta. Mirei a face da menina tranquila. “Batemos com a fuça na porta do teatro, A.?” Um plano B logo veio. Ou viria. Estava escrito ou maktub na lata! Duas horas depois, às 18 horas, teríamos cinema iraniano no mesmo CCBB. Putz putz de novo. Ondas se criaram em minha testa. Cinema I-ra-ni-a-no? Se era ineditismo que procurávamos, acertamos em cheio num alvo dado. Ingressos adquiridos. Busquei um relógio numa parede do CCBB sampeano, que dá vida atual a um prédio antigo e muito bacana. Eram exatamente 16 horas, quando A. e eu decidimos gastar o tempo. Foi então que A. e eu resolvemos caçar um boteco pelas redondezas. Um boteco destes de cerveja barata e chão remelento. Eu quero dizer, enquanto caminhávamos por vielas do centro velho de Sampa atrás de uma saída, sugeri à minha acompanhante o retrato de um boteco cruel para ver se ela iria se espantar com a proposta. Notem a reação dela: “Por mim, tudo bem”. A tranquilidade costuma exalar de uma maneira curiosa desta estudante do quinto ano do curso de Gestão Pública, que eu confesso às vezes ficar impressionado. Como também fiquei atento à raridade de almas vivas circulando nas imediações do centro velho da cidade, numa tarde cinzenta de domingo. A nossa caminhada para gastar o tempo nos levou a um espaço vivo. Quando eu notei, disse em alto e bom som: “Porra, eu acho que conheço este lugar!”. A menina tranquila e eu havíamos pisado num potencial terreno de fabulação.

______

Bônus de imagens do episódio

          

voltar

‘NÃO ROUBO MERENDA, NÃO SOU DEPUTADO’, cantam corintianos em ato

Deixar comentário

Mais vídeos da manifestação pela democracia no Vale do Anhangabaú, em São Paulo:

______

Bônus de imagens do episódio

                                              

voltar voltar

A saída de um show ow ow

atualizado 23 abril 2016 Deixar comentário

por Mochilowski

Aquela imagem de artista em completa imersão musical com um público pulsava forte na lembrança enquanto eu andava em sentido contrário da ida ao show na casa Audio, no bairro Água Branca, numa banda da avenida Francisco Matarazzo. Quer dizer, não apenas eu. “Gostou do show, A.?” Puxei assunto com a menina tranquila. Ela me disse algo. Ou assentiu com a cabeça. Na real, A. destacou algo como “gostei, gostei, e estou com fome”. Achei graça da sinceridade confessa, cofiei a barba rala do queixo. “Deixa eu pensar…?” Eu também estava com fome.  Do lado de fora da Audio, ainda havia muitos vendedores de comida rápida à moda importação. Deduzi: este pessoal vai ajudar a conter a larica de uma boa galera que esteve naquele show. Ainda há tempo pra comer. Ainda há tempo, o nome de um dos hits tocados há pouco. Ainda há tempo, expressão que dá título ao primeiro disco de Criolo, quando ele se autointitulava Criolo Doido e que dá nome a sua turnê musical que ali se iniciava. Um hit que veio a calhar. Recordo a introdução: “Cê quer saber? Então, vou te falar / Por que as pessoas sadias adoecem? / Bem alimentadas, ou não / Por que perecem?”. Duas estrofes depois: “Não quero ver você triste assim, não / Que a minha música possa te levar amor”. Amor…? Lembro-me bem. Baixou o santo no Criolex numa madrugada de 2 de abril. No meio do show, Criolo começa a evocar o amor como um guru. E o amor de que fala a figura quer ter a profundidade de um discurso fundamental para a existência humana. Percebi também, Criolo tem o hábito de agradecer ao público pelo sucesso conquistado. Ainda o vejo com as duas mãos em sinal de amém. “Mui-to o-bri-ga-do, a to-dos vo-cês!”. A sobriedade. A humildade. O Amor, o Amor. O rapaz não se cansa de destacá-lo? Não. Não por acaso, falo do mesmo autor de Não existe amor em SP, de um hit de palco gravado em vídeo : “Não existe amor em SP /Um labirinto místico / Onde os grafites gritam / Não dá pra descrever / Numa linda frase / De um postal tão doce / Cuidado com doce / São Paulo é um buquê / Buquês são flores mortas / Num lindo arranjo / Arranjo lindo feito pra você”. Se este hit é um sucesso? O cara que o interpreta então? Curiosamente, me noto nesta tentativa de fabular a mesma SP… Eu dizia. Ainda há tempo, A.? Provoquei-a, rindo. “Tá com larica, A.?” Cara de…! Fiz a pergunta com marca de retórica. A noite não teve cigarro clandestino pra nóisss pow ow ow.  Mas estávamos com fome. Fome. Eram quase cinco da manhã e, contando o esquenta com um desconhecido DJ de música eletrônica, foram quatro horas de música alta nos nossos tímpanos. Avistamos um trailer adiante, e até que um hot dog esbarrasse nas nossas fuças, fui exercitando meu talento de cantor de chuveiro para A. e pra quem quer que fosse surgindo na trilha de uma viela escura: “Nããããão existe amor em SPPPPPP / Os bares estão cheeeeeios de almas tããããão vazias / A ganância viiiiiibra, a vaidade exciiiiiiita / Devolva minha viiiiiida e morra / Afogada em seu próprio mar de feeeeeel / Aquiiiii ninguém vai pro céu…”.

voltar

Um show de rap, um sinal dos tempos

atualizado 20 abril 2016 Deixar comentário

por Mochilowski

A certa altura, me vi entre a vontade de captar imagens de um autointitulado Criolo e o impulso de me deixar levar por uma audiência de apelo místico, cênico, referencial. De fato, a casa Audio toda estava conectada com o que chamei de moda charme criolex. Uma moda que, acrescentariam especialistas em música rap, inclui também um deliberado tom de manifesto. Bem o que muitos, a face de menina tranquila de A. e eu pudemos supor depois de um repique preliminar de berimbaus: “Falar demais, chiclete azeda / Chama o SAMU e ensina pra esse comédia / Respeitar nossos princípios / Tem mais Deus pra dar que cês tudo num penico…”. Uma engolida de saliva, olhos que se estalaram, ouvidos que se dilataram com o trecho subsequente: “Antigamente resolvia na palavra / Uma ideia que se trocava / O respeito que se bastava / Dinheiro é vil, tio geriu, instinto viril / AR-15 é mato e os moleque tão de fuzil.” Paralisado, embasbacado, admirado, surpreendido por uma figura com engenho de repentista urbano: “Do Grajaú ao Curuzu, pra imigração meu povo é mula / Inspiração é Black Alien, é Ferrez, não é Tia Augusta / Verso mínimo, lírico de um universo onírico / Cada maloqueiro tem um saber empírico / Rap é forte, pode crê, “oui, monsiuer” / Perrenoud, Piaget, Sabotá, Enchanté”. Sem ar no organismo, boca entreaberta e cara de novidade, sem cessar meus e nossos ouvidos de multidão: “É que eu sou filho de cearense / A caatinga castiga e meu povo tem sangue quente / Naufragar, seguir pela estrela do norte / Nas bença de Padim Ciço, as letra de Edi Rock / Calar a boca dos lóki / Pois quem toma banho de ódio exala o aroma da morte”. “Hoje não tem…”. O refrão veio forte, rápido, denunciante. Tratando de beijo, alma, vida, dinheiro, terno e gravata, filha, mundo, e de um céu de uma boca de um inferno esperando você, eu e quem sabe ouvir ou quem conhece ou ouviu falar deste retrato de mundo: “É a esquiva da esgrima, a lágrima esquecida / A cor da minha pele, eu sei, tem quem critica”.

A certa altura, uma luz reacendeu na cuca. A anestesia musical tinha terminado, santo rapper? Numa tentativa de ser mais claro, o chapa aqui estava tão concentrado no desempenho artístico do protagonista da noite narrada… A sensação de um gozo anestésico foi suspensa num quadro. Dois ou três subiram no palco com uma faixa. As luzes se apagariam; Criolo, DJ DanDan e o MC sumiriam de cena. Eu já não estava entendendo mais nada. Até ali todas as músicas cantadas faziam parte de uma grande colagem e eu conseguia projetar todas como se fossem uma grande e só composição. Se eu citei uma faixa com uma mensagem e figuras no palco? A sensação de gostosa fuga da realidade caiu literalmente na pista quando me notei evocando junto com uma massa um dito sinal dos tempos. Como num sonho de madrugada relembrado numa manhã seguinte, pude ler num horizonte a imagem de DJ DanDan cochichando com o público, em tom de desabafo, num intervalo de música. Súbito, uma inesperada suspensão de um show da atualidade. Como tem acontecido em inúmeras praças do país, a casa Audio do bairro Água Branca, em Sampa, abriu passagem para um consagrado coro de consciência política, vida social e registro histórico:

– NÃÃÃO VAI TER GOLPE… NÃÃÃO VAI TER GOLPE…

______

Bônus de imagens do episódio

      

voltar

‘Hoje há um ataque brutal à democracia’, afirma Guilherme Boulos em aula pública

Deixar comentário

Mais vídeos sobre a aula pública realizada na praça Roosevelt, em São Paulo:

______

Bônus de imagens do episódio