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Acerca de Rogério dos Anjos, o guru (parte 6)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Eis o momento mais esperado por todos: o instante em que dizeres pensados, frases não rimadas, orações coerentes, atos falhos não percebidos, estruturas feminizadas e cheias de efeitos saltariam em demasia diante de ouvidos ocos de positividade aflorada. A principal análise da consulta de Guru:

– É importante, mocinha, você buscar um significado para todas as experiências.

– Ahãm.

– Ah, e isso serve para todos vocês – dirigiu-se aos demais presentes, permitindo-se um parêntese.

De volta à universitária sensível:

– Se lhe falta energia positiva, então você, Alessandra? É bom você encontrar um sentido para esse momento em que a vida pode exigir que entreguemos o que nos é mais precioso. Ou, ou que a vida possa nos mostrar, neste instante, que nossos alicerces estão corroídos pela ferrugem… pela ferrugem…

A ideia fugiu-lhe à mente, mas ele disfarçou bem.

– … pela ferrugem, enfim.

Se Guru estava sendo bastante filosófico, isso pouco importava naquele momento.

Confesso que…

… naquele momento, senti também uma energia no ar.

– Você! Ali. Ali. Você! Do lado, aí…

Opa. Alguém me toca num dos ombros.

Ouço algo positivo.

Uma voz me desperta de uma introspeção.

Era pra mim!

Peguei-me numa meditação incrível.

A consulta da capricorniana havia acabado.

Perceberíamos – a plateia – que o nosso herói preza pelo poder de síntese. Sua objetividade soava a de um cientista em fim de carreira, num pós Pós-doc. Direto ao assunto, ou, sem mais.

Em vez de segurar as minhas mãos, Guru optou por um método diferente.

Abraçou-me como um urso polar, aproveitando-se de seu enorme porte físico?!

Segurou minhas mãos com a força de um pugilista drogado, numa luta de revanche?!

Coçou o queixo em um de meus ombros, como um poodle destemperado?!

Naaaada.

Que isso, plateia?

Que imaginação?!

Nosso guia optou por olhar-me insistentemente nos olhos.

E cada vez que eu virava o rosto, de relance, assim, pra espantar uma mosca ordinária de ocasião, ele elevava o tom de voz feito um professor carente de didática.

Sem perguntar meu signo, ele tascou uma análise paranormal:

– Você pertence a um dos signos da riqueza da vida, cuja representação atravessa uma fase espiritual importante, numa tentativa de se desligar do passado e seguir em frente…

Que palavras lindas, eu pensei.

Guru e seus olhos enormes de jabuticaba.

Guru e seus olhos de intimidação contagiante.

Guru e seus olhos de presença de humor.

Que energia, que energia, eu logo daria passagem pra outra pessoa.

Num pulo de gato, Guru pegou a nota que lhe dei, sem ver bem a sua representação monetária. Seus olhos já estavam voltados para a consulta seguinte.

As consultas seriam subsequentes até o final do dia.

Até o final do dia, a Universidade de b. se resumiria a aquele evento.

No final do dia, o desabar de um amém.

Até o final do dia…

FIM

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Acerca de Rogério dos Anjos, o guru (parte 5)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Incensos acesos, iluminação tipo pré-Revolução industrial.

Um céu bem abaixo do sol, um céu próximo de nossas cabeças.

A reaparição de Guru, de frente, de frente com uma moça a lhe estender as mãos.

Voltemos a si!

A imagem é de dezenas de seres sentados num chão empoeirado, e com as pernas cruzadas.

A plateia ao redor de um tapete rosa metálico, diante de uma figura de fama interestadual.

– Seu nome? – nosso herói foi direto.

– Alessandra… – a mocinha respondeu.

– Hmmmn… Signo?

– Sou de capricórnio…

– Capri-cór-ni-o?

– Sim…

Sim, a “casa” parecia então “cair” na primeira consulta. (Risos…)

Guru, como que a valorizar o próprio passe, estalou os olhos grandes pra face da pequena.

Cabeça a cabeça, Guru leva uma das mãos ao queixo, com os dedos insiste com sua barba rala. Olha pro teto do mezanino norte, um dos pátios principais do maior bloco de salas de aula da Universidade de b. Nosso herói, a segurar as mãos de uma universitária sensível.

– Sua energia não é positiva – disse ele, voltando-se na direção de sua interlocutora.

– É, Guru, é…

Guru entre um piscar lento de olhos e um massagear as mãos de sua cliente.

– Alessandra? Sua energia não é positiva…

Tal frase atingiu o rosto da universitária sensível – pude notar – de forma devastadora.

Sua energia, sua energia…

A expressão ganharia, com a força de um refrão de bolero, o imaginário dos demais presentes.

Se eu não notei bem, Guru agora analisava meticulosamente os traços das mãos da menina.

Uma ideia fixa ou pura perícia de mago, ou as duas coisas juntas. Era impressionante como o nosso heóri levava as mãos da mocinha de um lado para outro – sem desgrudar, um segundo que fosse -, e pra baixo e pra cima, numa imagem de lembrar os movimentos de palco de Renato Russo e de sua Legião Urbana. A mocinha parecia ser feita de borracha?

De baixo pra cima, Guru fazia agora uma análise curiosa.

– Pelo traço de suas mãos, vejo o esgotamento de uma relação pessoal, sabe?

– Sim… – respondeu ela, meio que com dores nos braços.

– Simmm.

– Sim! Guru. Isso é verdade. Ando abalada…

– Vejo também – nosso herói prosseguiu – que você não consegue aceitar que nem sempre nossa vontade funciona e que é melhor refletir, compreender e tomar atitudes coerentes com o que o destino está pedindo…

A mocinha e a plateia atenta, diante de Guru, começaria a perceber a poesia de suas palavras, a magia de sua existência…

(continua)

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Acerca de Rogério dos Anjos, o guru (parte 4)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Nosso mestre, ainda em pé, levara às mãos ao alto, num gesto de benção coletiva.

Guru, enfim, tascaria suas primeiras palavras oficiais:

– Boa tarde, gente. Quero, desde já, agradecer pela presença maciça de vocês.

Sua gentileza, notemos, também possui ares superiores:

– Penso em levar para o interior São Paulo…

Ah, sim, Rogério dos Anjos, o guru é um notório passageiro.

Sua representação, aqui, implica no reconhecimento de suas performances interestaduais, desenvolvidas com afinco em exercícios diários numa universidade pública, na cidade de Assis(-SP).

– Penso que levarei para o interior de São Paulo uma boa impressão de Brasília e dos universitários de b. – destacou.

(Guru nos pareceu um baita de um político nesta passagem, isso sim.)

Quando pensaríamos, quando pensaríamos que sua apresentação havia acabado…

– Ah, só mais uma coisa…

Como é gentil e humilde, este Guru.

Lenda não precisa pedir licença alguma, pô.

– Quero agradecer – ele prosseguiria após uma pausa pra beber um pouco de água mineral. – Quero agradecer o convite feito pela direção do Centro Acadêmico de Letras da Universidade de b., o que inclui a ótima recepção e atuação de suas lideranças na publicidade deste evento.

Súbito, as palavras de reconhecimento de nosso herói suscitaram uma sonora salva de palmas, incitada por membros identificáveis de uma claque organizada.

O elogio ao prestativo Centro Acadêmico forrou os pés de nosso herói com chapiscos de devoção. Confesso, fiquei besta com a desfaçatez retórica de Guru. Mas tive pouco tempo pra desenvolver uma crítica. Sua atuação já havia começado.

Por uma desatenção, até, eu perderia um ou dois de seus tópicos frasais:

– Meu único parâmetro é… aqui não tem quem chegou primeiro para assistir a palestra – disse ele, em tom enigmático.

A plateia riu muda.

Guru, sem perder tempo, apontou o dedo para uma mocinha, ao fundo, postada num desiquilíbrio fanático de quem estava na ponta dos pés e não conseguia ver direito o seu ídolo.

O critério de escolha de nosso herói, podemos deduzir, foi o de “ter misericórdia alheia”.

Que gesto de pureza!

Em retribuição, a mocinha retocou de beijos as mãos do guia mor, assim que dele se aproximou.

Diante do ato de paixão desmedida, Guru fez pose de personagem bíblico.

Passou as mãos sobre a cabeça da menina.

Sentou-se, levando com o auxílio das mãos, a moça pra junto do piso.

Os demais sentaram em setores empoeirados do pátio, automaticamente, num gesto de abjeta subserviência e adulação incomum, à espera de um chamado possível.

Holofotes para a sua primeira e sagrada consulta.

(continua)

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Acerca de Rogério dos Anjos, o guru (parte 3)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

O cenário estava cheio.

Dezenas de pessoas perfilavam-se ao redor de Rogério dos Anjos, o guru.

A seis ou sete cabeças à nossa frente, o dono da voz que não quer calar.

Ali, naquela posição, ali, todos ali, a alguns determinantes centímetros de uma lenda contemporânea presente na superfície da Universidade de b.

A propósito: deste ponto da história, o guru daria o seu cristalino ar de guia mor.

Uma olhada panorâmica acima do próprio queixo.

Se ele projetou uma reação facial a respeito da quantidade do público?

Ele pareceu-nos satisfeito com o que viu.

Curioso, certifiquei-me.

Sim! Havia muita gente, de fato, gente pra de-déu.

Virei-me pra nossa liderança novamente, assim que nosso guia, numa tirada louca de pigarro, chamou a atenção de uma plateia ansiosa.

Dali em diante, ele deixaria de lado, temporariamente, sua face batismal de Rogério dos Anjos.

Por um tempo desejado, Guru daria as cartas.

As cartas seriam dadas, literalmente.

Um sopro de vida.

Um bafo de sabedoria.

Pra surpresa geral, e dos primeiros que tomaram assento às margens de um fantástico tapete rosa metálico, o atendimento público de Guru seria feito de forma aleatória, sem recepção de fundo meritocrático.

Com ar de estranhamento, pude notar o focinho de alguns.

Ninguém fez beiço de discordância.

O cenário estava mesmo tomado por um pensamento único.

A Universidade de b., talvez, jamais sediara um evento desta envergadura.

Ali, só o notável e mais ninguém teria relevo.

E se tivesse relevo, ou se pudessem ter, as energias misticamente presentes naquela atmosfera absorveriam qualquer irreverência ou interferência por um capricho pessoal de Guru.

– Eu sei… – iniciou ele, em tom extraoficial.

Foram suas primeiras palavras, seus primeiros suspiros.

Creio ter dito em linhas anteriores: o herói deste capítulo é bastante consciente.

Ele sabe perfeitamente que nenhuma publicidade lhe sustentaria as ventas se sua individualidade de profeta precoce – e de consultor sentimental – não fosse bem apurada e contornada por um dizer maligno de “eu sei”, o fundamento de seu já dito esquema discursivo.

– Eu sei, eu sei que vocês esperam por uma mensagem positiva.

A fala surgiu identificadora sobre os presentes.

Ter ou não ter o dom de dizer o que se deve dizer, diante de mentes ávidas por atenção?

Definitivamente, este não é um dilema para nosso mestre.

Guru não esbarra em desconfortos interiorizados de jeito maneira!

O silêncio, então, fez-se matéria com a queda automática de seus braços de gigante mítico.

(continua)

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Acerca de Rogério dos Anjos, o guru (parte 2)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Paralisemo-nos num paradoxo cruel e de longa data.

Em nosso país, os líderes não podem ter vida longa.

É uma sina. Experimentem suscitar alguns de nossos heróis.

Um deles foi esquartejado e içado aos pedaços em postes públicos; outro foi suicidado num quarto escuro e sem passagem pra fugas; outro foi vítima de uma seringa às vésperas de uma data capital; outro e mais outros desconhecidos tiveram o registro sonegado pela historiografia oficial e mofam até este momento num tempo indeterminado pela falta de incentivo à pesquisa e pela ausência e determinação de pesquisadores não interessados em reescrever as biografias de nossas individualidades históricas em benefício de um traço mínimo de coerência de nossa recente ou jovem história nacional; outro, outro ainda em vida, é chamado didaticamente de semianalfabeto há mais de trinta anos por abdicar da concordância verbal em benefício da eficiência de comunicação com uma maioria sofrida.

Ah, não há outras. A nossa história de história nacional, por sutileza de discurso, deve parecer bastante cruel com as mulheres. Falávamos…

Ah, a plateia, sim, neste caso, é uma mera paisagem diante de uma figura excêntrica.

Diga-se, a excentricidade é quase tudo em nossa época de intensa e deprimente publicidade.

O orador, ou o líder de então sabe disso.

O herói deste capítulo é consciente, sabe que nenhuma publicidade lhe sustentaria se sua individualidade não fosse apurada e bem contornada por um dizer maligno de “eu sei”.

O sujeito ali, entre um cofiar de barba rala e um ato de embaralhar cartas.

Um sujeito de fala mansa, grossa e cômica.

Um moço de bochechas enormes.

Aliás, sou um desconhecido a aproximar-se de um sujeito de cabeça grande, olhos grandes, bochechas grandes, boca grande, língua grande, dentes grandes, braços grandes, mãos grandes, pés grandes, peitoral grande, sorriso generoooooso.

Sua definição preferida? O hiperbólico.

Acerca de Rogério dos Anjos, o guru.

Rogério dos Anjos vai falar.

Tivemos a sorte de filmá-lo num final de aquecimento vocal.

Suas mãos friccionadas como a pensar em donativos.

Um gargarejo de simpatia: glu glu glu glu glu glu…

Louca, ansiosa, possuída, a plateia já fazia jus a seu papel de fundo.

Moedas voavam aos pés d’o guru, antes do momento combinado.

Aquele frisson que todo programa de auditório televisivo busca e não consegue.

Sacam? D’o guru prestes a falar.

Aliás, o que tinha de moças de saia curta coçando as bochechas naquele momento não tava escrito.

A plateia na iminência de uma iluminação.

Lábios entreabertos.

Respirações paralisadas.

Uma gota em boca seca.

(continua)

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Acerca de Rogério dos Anjos, o guru (parte 1)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

O horizonte.

O que é o horizonte?

Meu saco, o horizonte só pode ser uma plataforma de realidade.

Acerca de um horizonte, quase sempre não sabemos o sentido de um horizonte.

Acerca de um horizonte, quase sempre temos uma opinião redutora de mundo.

Quase sempre sabemos da existência física de um horizonte.

Mas quase sempre não sabemos, com exclusividade, de seu conceito.

Vemos um horizonte a cada meneio de cabeça.

Vemos um horizonte em parede fixa, transparente ou irregular.

Vemos um horizonte de formas múltiplas.

Tal raio de metodologia pode ser o prenúncio de uma visão de mundo curiosa.

À minha frente, um aglomerado de pessoas.

Acabara de chegar ao pedaço mais minado por vaidades de Brasília, depois do Congresso Nacional, é claro. Senti-me, assim, pronto para um processo de desumanização.

Sinalizei noutra frente: a multidão não tem cara nem rosto, ela nos desumaniza por completo. Diante de outras pessoas, só nos resta perder o pouco de nossa personalidade. A coisa é automática, o choque entre duas ou mais pessoas é um liquidificar abacate com leite e açúcar. A ideia, um plágio descarado de um descarado plagiador confesso de uma literatura descarada por leitores descarados, tomava corpo na medida em que eu me aproximava descaradamente de um eminente alvo descarado: um horizonte específico. Isso. À nossa frente – leitores, façam-nos o favor de nos acompanhar até a última passagem – vemos um sujeito peculiar.

Acreditem. O sujeito escolheu o epicentro do piso principal de um dos mezaninos do Minhocão. Lembram-se: o maior bloco de salas de aulas da Universidade de b. possui dois mezaninos. No popular, estávamos num de seus dois pátios principais, o mezanino norte.

Uma, duas, três pessoas.

As três formariam uma camada de espectadores iniciais, uma primeira menção de testemunhas oculares, segundos depois, acrescida da marca numérica de mais uma e outra pessoa, apareceram outras, sabe-se lá se por curiosidade, se atraídas pelo medo de ficarem sozinhas pelos cantos e recantos, ou se por esbarrarem com um obstáculo num trecho de caminhada diária.

O centro das atenções…

Bem, o centro das atenções, neste episódio de descaradices, não é a plateia que ali se formava como a imagem de uma besta de aluguel ou de um mostro periódico, como nos dizem e reproduzem testemunhos exagerados de tempos anteriores de nossa história política. Falo de um pretenso orador.

Salvas as exceções, a imagem atribuída à figura do orador em nossa história política ou a do líder, como pregam mentes ávidas por atenção gratuita, é o de um completo toupeira, de um retórico varrido ou de uma vaca sem tetas. Porque, de herói em herói ou de heroína em heroína, a gente vai se afundando…

(continua)

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Inspirações de um subsolo (parte 10)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Na medida em que eu caminhava por um dado corredor da Universidade de b., menos anúncios eu notava, tal a quantidade absurda de papéis semi descolados das paredes, como a sugerir a falta de espaço físico pra outros recortes providenciais.

O retrato de corredor é de suscitar, ainda, um ponto de vista que todo míope detesta, depois que se descobre míope propriamente dito, é claro: a imagem de um horizonte totalmente embaçado, sem nitidez ou organização visual.

A dois passos, a dois passos vê-se um pátio.

Já relatei que o Minhocão possui uma espécie de terceiro andar?

Bem, não há piso superior linear, se é que podemos usar esta definição.

A intenção nesta passagem é mencionar: há outros dois corredores laterais que dão existência a outras salas de aulas e departamentos de cursos afins. Além de dois mezaninos.

Mezaninos? Mais precisamente, mezanino sul e mezanino norte.

Ideia de difícil compreensão? Resumidamente, um mezanino representa um piso intermediário ou comporta uma estrutura física de uma espécie de meio-piso, um piso que não ocupa a totalidade de uma área definida pelo perímetro das paredes exteriores de um compartimento ou de um edifício. A grosso modo, a imagem é de uma estrutura de concreto, o Minhocão. Tal estrutura, um sobrado acima e uma espécie de garagem abaixo (sustentada apenas por pilares) ou um pátio e acima dele um piso pra orações e observações filosóficas múltiplas.

E foi justamente o piso superior de um dos mezaninos da marca propagandeada de maior bloco de salas de aula da Universidade de b., o mezanino norte, o mais movimentado, onde fomos parar, atraídos por uma curiosidade sonora percebida a partir do piso inferior.

Final de tarde de um dia de meio de semana ou o enterro de mais um capítulo com falta de seriedade. Aproximei-me de um palco, um pouco depois de subir por uma escada lateral.

Uma imagem meio que familiar.

Um grupo de jovens de mãos dadas.

Sacam, um lance de ciranda?

Uma ciranda de movimentos cessados.

Aproximei-me esbarrando-me num corrimão enferrujado.

Na verdade, eu estava de passagem, estava atrasado pra pegar um busão na saída.

Antes que eu vazasse, pude gravar na memória algumas palavras de uma líder espiritual:

– “Que Deus nosso senhor nos proteja, que Ele olhe por nós e por todos os universitários…”.

Num parêntesis de pensamento, eu cogitei, acho que ela quis dizer: “por todos os universitários de b.”.

A fala de referência espiritual prosseguiria:

“… que nós possamos orar diariamente por um mundo melhor.”.

Peguei a ideia, como um gato pega um rato.

Estávamos diante de mais um reconhecido movimento.

Os movimentos estão em todos os cantos e extremidades, pensei de imediato.

De fato, os políticos não perdem tempo mesmo, eles respondem por todos os lugares.

FIM

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Inspirações de um subsolo (parte 9)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Chuuuaaaaaaaaááá.

Batata, sem pensar, jogou sobre Régis – num gesto de socorro e de solidariedade – toda a água fria de um balde emprestado de um terceiro.

E? A socorrista Vanessa relataria o caso três horas depois, diante de uma miniplateia.

– Véi, justo naquela hora, justo naquela hora, caraaaalho, praticamente quando a água já tomava um sentido looouco, meeeeeu, quando o Régis tava praticamente acordado – recordaria ela, num depoimento teatral dirigido a um grupo de subsolistas, subsolistas postados numa roda de amigos às margens de um fosso de metrô imaginário, abaixo do piso superior do Minhocão. – Foi um susto, um susto… – a moça acrescentaria já ao lado do namorado, este com riso mudo de falso adulto, nada arrependido e aparentemente satisfeito pelo último pileque exagerado.

Ouvi as últimas palavras de testemunho, e despedi-me da galera.

Como cheguei, saí. Discretamente.

Os passos agora ganhariam um rumo na direção de uma superfície. O caminho de volta do Subsolo.

No andar de cima – já comentei em outra ocasião episódica? – fica o piso principal do maior bloco de salas de aula da Universidade de b. Um espaço social onde as serpentes de plantão se destacam e praguejam a publicidade de suas vidas.

Ainda há dois metros de uma saída de subsolo.

A pouco de uma iminente releitura diária.

Na subida da primeira escada, um acesso seguro à luz do sol.

Quase não há luz solar no Subsolo.

Na doidolândia há apenas um vácuo de ar que dá existência aos jardins regados acima.

Sim. Imaginem a cena, quem não a conhece, é claro.

A imagem é bucólica. Há jardins floridos acima, entre dois corredores extensos. Um canteiro de flores e outras espécies vegetais dão o ar de eterna primavera ao piso superficial do Minhocão.

Ainda no Subsolo? Acima, o ambiente do corre, de canteiros e de borboletas pouco percebidas por mortais. O ambiente das moças graciosas e de demais tribos.

O Minhocão das paredes promocionais.

O Minhocão dos murais que dão vazão às necessidades primitivas.

Parei diante de um deles. Aliás, parei diante de um anúncio de aparente apelo social.

A inscrição: “Orientação acadêmica? Aulas particulares de Redação e de Metodologia Científica, com fulano de tal”. Achei o anúncio engraçado.

Ou melhor, achei o reclame curioso.

A causa, a razão, a circunstância? Expliquemos.

Dois motivos nos chamaram a atenção naquele anúncio.

Primeiro, porque o “professor” das ditas aulas particulares se diz jornalista.

Fiz graça da inscrição, zoando com meu próprio nome; pensei alto:

– Ah, este sim, é um suposto jornalista COM solução.

Segundo: o anúncio incitava ou sugeria um possível ou potencial fracasso das aulas de Metodologia Científica, oferecidas por doutores efetivos e substitutos de salas de aula da Universidade de b.

Ainda sobre o quadro de parede de corredor. Bem, ao lado, outro anúncio mencionado, outro anúncio de dizeres parecidos, mas menos formal. (Risos…)

(continua)

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Inspirações de um subsolo (parte 8)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

– Simm. O Régis desmaiou!

– …

– Na sala de jogos, pô!

Batata desliga o celular e, agora sim!, chuta o aparelho pra um canto qualquer da sala.

Vanessa, eu saberia depois, é uma amiga próxima ou uma amizade colorida de Régis. Ela tem passe livre na sala sem publicidade, como também tem uma galera de subsolistas de b.

Mais uma vez comecei a pensar sobre como chega bebida naquele espaço da Universidade de b.

Num canto da sala, logo deduzi algo, suscitei um monte de garrafinha de água mineral sem rótulos, um conjunto que se assemelhava àquelas que me ofertaram há pouco.

Voltei-me pra cena principal:

– Cara: temos que dar um jeito de acordar o nosso parceiro.

De certo, logo reconheci meu total despreparo pra casos de socorro.

– Já sei! – Batata salta em meus pensamentos.

– Já sei, cara, já sei… – disse-me, antes de sair correndo.

Ali, na sala sem publicidade do Subsolo, Régis desacordado.

Ali, na sala sem publicidade do Subsolo, um desacordado e uma pessoa sem solução.

Restara-me abanar, abanar e abanar a fronte de nosso dito herói preto.

Ocorreu-me chamar uma emergência qualquer, mas quem sabia o número da emergência naquele instante? E eu não podia deixar o pobre do Régis desacordado, sozinho. Comecei a ficar mais tenso do que estava, até pior do que o Batata. E o Batata que não voltava? Curiosamente, Batata havia acabado de sair.

Como já relatei: naquele momento os segundos pareciam minutos, e os minutos, horas. Não demorou pra eu acelerar uma fala marginal em voz alta:

– Porra porra…

Os braços começaram a doer.

A repetição de movimentos com o pedaço de papelão já havia consumido minhas forças.

Quando eu preparava mais uma fala de tensão, Vanessa surgiu em passos largos.

Ela apareceu aspirando muito ar, feito um maratonista em final de prova.

– Oi. Como ele tá? O que é que aconteceu?

– Ele bebeu um pouco além da conta – eu expliquei.

Ela ainda fungava de falta de ar.

– Que merda!

Ela pareceu ter dado conta de si e da situação.

– O Régis é louco. Já aconteceu isso mais de uma vez. Este cara é um maluco…

A frase sai entrecortada, no momento preciso em que a tal Vanessa levava as mãos sobre o peito de Régis, massageando-o. Aparentemente sem técnica definida, ela alternava a chamada massagem na zona peitoral com uma respiração boca a boca.

– Régis parece que… –

– Sai da frente! – Batata chega correndo numa projeção de fim de mundo.

Juro que eu me assustei com a sua súbita reaparição de Batata; ele trazia consigo um objeto providencial.

De certo daria resultado? Sua operação daria resultado? Será?

Confesso que numa fração de segundos eu fiquei com uma dúvida cruel a respeito.

(continua)

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Inspirações de um subsolo (parte 7)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Não teve jeito.

Bem que Batata e eu tentamos segurar Régis.

Mas ele caíra do sofá num tombo de desacordado.

Perdera os sentidos subitamente; Régis bebera demais.

Não era a primeira vez, lembrou-me Batata, fora de momento.

Batata, que também estava mamado.

Só ele? Confesso que eu também tava em condições duvidosas.

– Régis de certo não havia almoçado, seu corpo fraquejou antes do tempo – vocalizou Batata, que passou a coçar a cabeça com insistência, num gesto de quem procura pensar em algo prático, lógico e imediato, enquanto eu, num auxílio instintivo e sem muito fundamento técnico, passei a abanar um pedaço de papelão na direção do rosto do dito cujo. Parecia um pesadelo.

Cessei os movimentos, num breve intervalo.

Avistei uma almofada numa cadeira próxima.

Peguei a almofada, a pus por debaixo da nuca de Régis.

Então mirei seu rosto: tinha uma aparência peculiar.

A pele de Régis estava visivelmente alterada; ele estava pálido.

– Caramba! E agora, cara? – Batata me perguntou do lado.

Fiquei sem o que dizer, impotente; senti-me um Jesus Cristo pregado na cruz, justo eu, missionário da falta de solução.

Em um lapso de tempo, pude ver Batata com o peso de todas as culpas a pesar nos ombros; ele me fez lembrar um socialista de carteirinha ou um cristão fanático que se julga diariamente o principal responsável por todas as aflições, fatalidades e injustiças humanas.

Batata, num lance, começa a dar tapas no rosto do parceiro, pra ver se ele desperta.

Um, dois, três e nada.

– Esta porra travou – ele deixou escapar uma fala de desespero.

Batata então puxa o celular do bolso, tenta encontrar uma combinação de número.

Quando parece concluir a ligação, o celular cai no chão.

Com uma raiva do cão, ele ameaça um chute pra descarregar a tensão pessoal no aparelho desgraçadamente escapulido das mãos.

O tempo não para, Batata procura uma recomposição.

Suas mãos tremem, pude notar, enquanto permanecia refrescando o rosto de Régis.

Batata, enfim, pega o celular com firmeza.

Respira fundo; digita novamente.

(Suspense. A ligação parece ganhar um sentido positivo).

Desta vez dá certo.

– Tá chamando, tá chamando… – ele diz pra si, numa tentativa de se acalmar.

Naquele instante, vale dizer, os segundos pareciam minutos, e os minutos, horas.

Não passara nem três minutos do desmaio de Régis, e a tensão na sala sem publicidade aumentava numa proporção maluca de um filme supostamente nunca antes filmado ali.

Batata ao celular.

– Alô… Vanessa… Onde cê tá?

– …

– Então vem logo pra cá… O Régis desmaiou.

– …

 (continua)