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O gatinho da rua Edgar Allan

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Observava um gato imóvel, colado ao meio fio da rua Edgar Allan, no centro de uma cidadezinha catarinense. Um gato com pelo amarelinho. Um corpo que projetava uma imagem de eterno descanso. De fato, o gatinho (era gatinho mesmo) descansava visivelmente, sem o acréscimo de qualquer suposição verbal.

O bicho, quase esquecido, estava a alguns palmos de minha vista cansada de final de tarde de uma quarta-feira; eu então o apreciava como a um objeto de museu. Até não duvido que, naquele instante de ar público, os transeuntes me tomaram por um anormal. Bichinho? Cutuquei o bichinho com a ponta de um dos pés.

Sem saber sobre qual hipótese clínica me inclinar, apostei em hipótese alguma. Minto. Logo projetei um pensamento de quem não tem nada de interessante pra fazer num final de tarde; agora este gato não come mais a língua de mudo nenhum!

A criatura. A barriga do bichinho parecia inchada. Chovia fino. (Me perdoem, não chovia fino coisa nenhuma.) Mesmo assim, imaginei que formigas já planejavam dar o ar da graça nos orifícios do coitado.

Um dia depois do testemunho, como se eu não quisesse falar do sol e das nuvens, da moça graciosa da esquina ou da final do último campeonato de futebol local, comentei sobre o estado do gatinho com um vizinho da pensão onde eu morava, na passagem de um portão, no momento em que eu saía pra rua num descanso da redação. Enquanto o outro, sorridente, limpava o seu carro, eu disse de um lado de um muro baixo:

– Viu o gatinho lá na rua?

Antes de ele me falar algo, cogitei uma sentença:

– Deram bolinha suspeita pro coitado?

Não, não. O vizinho me garantiu que não, como se meu vizinho soubesse de detalhes do pobre animal – hipótese apenas imaginada por mim, mas automaticamente rebatida por ele. Não, “não foi eu quem o feriu”, ele se defendeu com um riso explosivo de quem acaba de perder um álibi. Sem demora, ele se defendeu com uma postura de quem tem um carro do ano e uma sogra em fim de carreira. “Pode ter sido uma pancada, uma fatalidade”, meu vizinho arriscou após um enxague no para-choque do veículo. Como é que está o gatinho? Uma pancada? Que tipo de pancada – agora mais sério – o vizinho não soube afirmar, nem sentiu necessidade de estender a problematização do caso.

Imaginei logo um golpe de balaustra de cerca velha de cafezal da época de meus bisavós na cabeça do bichinho, mas a cabeça do dito felino – lembro-me – não apresentava hematomas nem contornos do tipo.

Depois de pensar muito a respeito, pensei também em não pensar em nada, mas fracassei no intento. Pensei outras vezes no destino do animal. Horas depois, eu imaginaria um cadáver em decomposição.

No outro dia, numa sala de repouso de uma pensão, eu divagaria firme numa absurda manchete de jornal, olhando pra um teto de forro de madeira de pinos cor… amarela, a mesma cor do gato encontrado morto no meio fio logo à frente, da rua Edgar Allan.

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A volta do homem que entrou pra ficção

atualizado 31 dezembro 2015 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Faltava-me a certeza de um raio, por isso saí pra rua com uma ideia de causar estranhamento nas pessoas, como se eu – a priori – não tivesse me incluindo na realidade; ou saí pra rua como se tivesse a pisar num chão instável da vida social; ou saí para entender melhor resquícios de maluquice desmedida que ficaram no ar, desde a aparição do inusitado homem que entrou pra ficção.

O homem que entrou pra ficção? Ou o nosso livre arbítrio. Ou a releitura de casos anteriores: 1º capítulo e 2º capítulo.

O sujeito surgiu feito uma promessa cantada do centro mágico da Citi, minha cidade natal. O homem que entrou pra ficção ofertou-me – então em off – um convite para conhecer a dor humana e expressiva de parecer verdadeiro; depois de um intervalo, reforçou-me a proposta por meio de uma ligação instantânea. Assegurou-me:

– Uma cortesia, meu caro jornalista aposentado. Aceita a passagem de ida para os confins da imaginação humana? (Caso queira mesmo evitar o tédio dos seres mortais!).

Naturalmente, achei graça do parêntese e, é claro, das palavras difíceis.

Aparentemente inconcebível, a ligação telefônica do sujeito surgiu do nada. Acreditem, a figura viu de perto um dos retratos fundamentais da Citi; dito e feito, o retorno de duas doses de vinho barato num boteco local. O grauzinho desejado (o chamado efeito imediato de álcool nas veias) me fez lembrar outros botecos nada escanteados pelo mundão de Deus e de seus filhos malcriados e mal geridos. Da correspondência do homem que entrou pra ficção, fiquei a mercê mesmo de um raio que partisse as minhas divagações pes-so-a-is.

Relato perecível; pensei seriamente na proposta do inusitado amigo.

Depois de seu ressurgimento, interroguei-me a propósito: que história é esta de “passagem de ida para os confins da imaginação humana”? Outro trecho de difícil compreensão.

Às vésperas de um novo ciclo, uma passagem de ano no dizer convencional, notei-me com uma dúvida de esquina: parece-me que o aparecido amigo voltou da ficção. Interrogação. Certamente por lá também haverá outros mistérios. Exclamação.

Agora. Neste momento. Na luta diária da produção de sentido, admito um dado receio crônico com esta mania de expor rememorizações ao público.

Aliás, sussurro um desafiozinho demente para a suposta audiência de plantão:

– O que fazer com esta mania: ignoro a ficção ou parto de vez a cara da realidade?

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Do grandioso show da vida

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Vai ver.

Vai ver o “carro novo” de sua tia, lá fora.

A recomendação eufórica de minha avó sempre me comove; de modo distinto, a lembrança de minha terra natal possui a imagem obrigatória de minha avó materna.

Vai ver.

Vai ver, menino!

Fui ver. Sem hesitar, fui. Um pouco por curiosidade; outro pouco pela grande consideração que tenho pela mãe de minha mãe.

Vou ver, vó, sem demora. Diante de uma máquina prateada, fiz a vez de considerar quem parece comparar a realização de suas ambições a um bem simbólico pincelado com status de promoção social.

Carro vistoso! Observo sem pronunciar mais que duas palavras de deferência: muito bonito! Interiorizo um comentário: trata-se de um digno objeto de consumo da então chamada “nova classe média urbana” da Era Lula. O carro tem até uma traseira arrebitada que, por uma associação de ideias aparentemente estranha, me fez lembrar do rebolado gracioso das bailarinas do programa semanal de um famoso colecionador de Rolex. Alguém haverá de concordar comigo: ambas as imagens devem chamar a atenção do público.

Visualizei uma então multidão de seis ou sete espectadores – sem contar outro tanto amontoado dentro do veículo. Com certo exagero, percebia uma espécie de mini show da vida, nas proximidades de um centro urbano.

Observava o carro atentamente – novíssimo! Vá lá, quase zero.

Antes de perguntar pelo preço, disse que se tratava de “uma máquina feita pra poucos”. Atenta ao que eu dizia, minha tia deixou escapar um riso de vaidade comprimida. Quem me dera ter um deste?

Ainda preciso dizer que falo de um registro de século 21?

Saio de perto do automóvel; volto pro interior da lembrada casa da avó, esbarro com outra cena: a televisão, o deleite dos brasileiros genuínos. Ponto sugestivo: algo me prende a atenção. Pergunto qualquer coisa para o mais próximo. Esbarro com um primo adolescente. Sem muito me olhar no rosto, ele me responde com qualquer coisa. Direciono meu nariz pra telinha, vejo uma imagem impactante. Logo entendi o gesto de “o mais próximo”. Um sábado à tarde, num sabe? Não, não deve haver coincidências na associação de imagens. Súbito, me noto numa multidão de dois fiéis da comunicação de massa nas dependências de uma sala de grande prole, enquanto o restante da turma promove um salve pro mais novo “membro” da família.

A vida e seus pequenos espetáculos! Consagrado lazer, chapado entretenimento! Era justamente a vez do grandioso show da vida de Luciano Huck e suas santas bailarinas.

Para o contentamento dos fiéis de plantão, as santas bailarinas estavam em estado contínuo de ação de graças…!

Primo? Primo? Meu primo nem piscava…

 

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Matéria de cova

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Final de tarde de uma quinta-feira, dia 25 de junho de 2009 (memória desgraçada!).

Abro a porta da casa de um familiar e… a TV ligada num canal qualquer transmitia a morte de Michel Jackson. Paro no meio da sala pra observar. A imagem televisiva anunciava o início de uma possível comoção mundial; vide a feição de meus familiares, que já lamentavam com comentários curtos de súbita nostalgia. Um deles deixou escapar esta:

– Eu gostava tanto dele…

Meu interlocutor afirmara algo mais, mas não consigo lembrar direito de todas as suas palavras.

De imediato, fui conferir mais detalhes na rede mundial de PC’s. Como se eu já não soubesse, verifico que a fonte do jornalista da TV é parecida com a minha; notei o detalhe minutos depois, acessando a mesma rede.

Oficialmente, ou até então, o dito Rei da Música Pop sobrevivia. Argumentei com meu interlocutor, numa frase pra preencher o vazio de nossa comovida comunicação.

– É. A hora dele chegou.

A hora do Michel Jackson chegou. Minha hora também vai chegar. A hora do leitor ou da leitora também, do mesmo modo ou de modo diferente, de modo em modo, de modo que a morte pode vir a cavalo, diria outro modista sem modos.

No caso da figura célebre, a morte veio na forma de manchete.

Súbito, passei a pensar na cretinice mais adorável do país: o diário A Falha; na edição de um dia subsequente, a rainha de nosso subdesenvolvimento impresso trouxe a notícia na capa. O fato foi noticiado como um retrato histórico, coletado numa gaveta de escritório.

O conteúdo da notícia me soou interessante por apresentar detalhes sobre a vida do defunto famoso, embora tenha me saído espantoso pela rapidez da publicação. Um sujeito morre, dois minutos depois, eis que surge uma penca de informações editadas. Como se eu já não soubesse dos textos de gaveta (que jornalista não tem os seus, hein?!).

Alguém se lembra de quando o Papa João Paulo II morreu? Um fenômeno parecido se processou. O sujeito nem bem falava um “ai, meu Deus” e o urubu ou coveiro de plantão mais próximo relatava o mínimo tropeço do pontífice. Imagino que ao redor do vaticano vivam jornalistas especializados em mortes papais. Ah, todos os jornais que se prezem têm as suas gavetinhas secretas.

Lembro-me que ainda estava na faculdade – faz muito tempo. Ouvi de um professor ou de não sei quem: os jornais de grande circulação normalmente acumulam arquivos pessoais de inúmeras pessoas famosas ou historicamente conhecidas.

Compreensível! Quando um sujeito morre, basta uma breve consulta nos arquivos da redação… e pronto! A matéria de cova, digo, a matéria de arquivo logo se soma à seção de notícias, a matéria de arquivo, desarquivada fica.

 

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Escuta aqui, minha senhora!

atualizado 19 agosto 2017 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

O sujeito afirma uma coisa. Pronto. Acredito. Ou melhor, finjo que acredito; quis dizer, não faço pré-julgamento. No exercício da profissão, vou checar os dados pra ver se há no dito dito alguma contradição. E tinha.

A Sicrana – o sujeito do preâmbulo é uma mulher – me disse isso e assado.

Fulano foi quem, de pés juntos, me assegurou:

– Nada. Tudo mentira daquela!

Olhos estalados para a cara de Fulano:

– Mas como isso, vereador?!

– Verdade. Essa mulher vive inventando.

Surpreso, eu ri mudo como um mudo notável, sem poder suspirar.

A notícia já estava escrita, reportada. Jogaria uma contra afirmação na boca da Sicrana. Ela que sustente… Não…! Evitei a abordagem polemista. Tratei apenas do essencial. O relato seria publicado. O caso não era tão impactante. A afirmação da mulher, contestada pelo Fulano, não interferiu na reportagem produzida, mas revelou como é complicada a vida de repórter.

– Escuta: combinamos; você prometeu divulgar o nosso trabalho e tal.

Lembro-me da cobrança como se fosse agora. A Sicrana me ligou numa manhã de sábado de inverno sulino. Fui acordado, fazia um frio do cão. Havia prometido algo? Havia. Iria divulgar, quando pudesse, o trabalho social/beneficente que a dita cuja e outras pessoas desenvolviam numa dada comunidade local. A “matéria” era fria, ou seja, o assunto não era pra ontem. Era algo meio publicitário até, de divulgação, tinha tempo pra fazer.

Acontece que fiquei meio chateado com o ocorrido. A mulher deu uma aumentada na entrevista. Deu mesmo? Bem, a contestação foi feita por uma “autoridade municipal”. De fato, confirmei que não havia nada que abonasse a afirmação da Sicrana. Porque exatamente a mentira ou a dissimulação foi usada por aquela eu nunca vou saber – nem faço mais questão.

Notícia publicada. Um ou dois dias após, quem me liga? Queeem?

– Repórter, aqui é a Sicrana. Deixa eu te falar: você nos prometeu um exemplar. Posso passar no [escritório do] Jornal pra pegar um?

Curiosamente, eu havia prometido uma versão impressa para a Sicrana. Havia. Estava envolvido por uma santa promessa. Mas havia prometido bem antes de saber de sua dissimulação. Relevei. Que passe no escritório e pegue o exemplar, Sicrana! O máximo que eu disse sobre o exemplar, exemplar que, a bem da verdade, não merecia mais ser ofertado coisa nenhuma.

Eu poderia ter dito algo mais. Ou faltou eu dizer:

– “Escuta aqui, minha senhora! O exemplar não merece mais ser ofertado, ok? A promessa foi quebrada! Exemplar, agora, só nas bancas, estamos entendidos? A senhora vai ter que tirar as moedas do bolso se quiser ter um, por isso, por assado e por aquilo. Passar bem, notável contadora de histórias!”.

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Do lado bê da reportagem

atualizado 12 agosto 2017 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Invento de falar de um negativo da reportagem; primeiro, porque noto a falta de leitores por perto; segundo, porque a ausência de palavras pode transformar o ser humano numa forma nociva de animal, um tipo curioso que estaciona no tempo.

Em estado de alusão, recorro à memória mais profunda; em segundos, cogito a imagem de dois sujeitos conversando numa praça de uma cidade pequena. Um deles é vendedor de tecnologia chinesa; o outro tenta lograr do vendedor de tecnologia chinesa um desconto camarada.

Movido pelo diálogo dos dois que equivocadamente se acreditam capitalistas, percebo-me novamente a mercê de mais uma declaração pública.

Do outro lado da praça, observo uma mulher caminhando fora da faixa de pedestres; outra posição me tornou diferente, ainda posso ver uma criança a brincar com a água amarela que escorria de um chafariz, uma montagem de cotidiano que me fez lembrar que ainda faço parte de uma parcela de tradição cultural do ocidente.

A cada passo, passo a me perguntar sem muito saber que um questionário de sensações ressurge automático num bloco de notas sem premeditação: a criança, os dois que equivocadamente se acreditam capitalistas de rua, possíveis animais que estacionam no tempo, a mulher que não respeita o trânsito. Categórico, esbarro com um lugar comum: a vida social.

Entra em cena um repórter, pô, um sujeito disciplinado que diz prezar pelo testemunho pessoal, um cara que deve saber de tudo e mais um pouco. Pois querem saber das novidades?, pergunta pra um repórter à mercê de mais uma declaração pública, porque se ele não souber do que se trata a sua angústia, pode crer que ele não passa de um ator sem papel definido, um figurante de mais uma novela do dia a dia!

Aliás, era deste ponto exato que eu gostaria de ter começado esta crônica, sem parecer taxativo demais, é claro: não parece, mas normalmente o retrato que fazemos de um repórter é daquele que só existe para contar a verdade… a verdade dos outros.

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Fino como uma agulha

atualizado 5 agosto 2017 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Se eu tirasse de meu currículo de jornalista aposentado um personagem para a vida social e pusesse na boca dele palavras pensadas, meus leitores e leitoras seletos iriam desconfiar em voz uníssona:

– Mario, não é você quem está falando pelo personagem!?

Se eu fizesse ficção…

E se eu fizesse ficção?

Neste caso, nada de ser plagiado; ia dizer que sou muito bom para não ser uma amostra grátis?

Na boa, sou um blefe, pois.

Pois vou falar a verdade, até então era tudo de brincadeirinha.

Entendam esta história como um tempo perdido para suas vidas.

Além da verdade, entendam como desejar.

Façam o que bem entender com o que eu vos digo, porque o sentido do que vou proferir já não mais me pertence.

A cabeça dói, periodicamente.

Dói pra cara…!

Acho que me sinto um doente.

A inquietação me leva a extremos invisíveis, vejo fantasmas que eu poderia evitar; eu quis dizer, a vontade é não conter porra nenhuma. A vida só pode ser um enrosco.

A vontade é como uma história que já começa a saltar de mim; tratemos de um B.O. de tempos atrás.

Mas antes que me tomem por poeta sem verso, antes que confundam o meu nome com um codinome, antes que percam a fé e identidade de público-alvo, antes que anunciem do fundo da terra o famoso diabo e seu álbum colorido de abjetas figurinhas humanas…

Saio de plantão até a esquina mais próxima; digo que ainda sou um repórter em franca atividade.

Súbito, tenho em minha frente um entrevistado um tanto tenso, um sujeito que não consegue disfarçar uma tremedeira nos lábios quando é encarado; noto-o quase roxo de assombro feito alguém que vai ser invadido.

– É o senhor – enfatizei com palavras diretas e pausadas – que conduzia o carro Uno cinza ao ultrapassar a preferencial de trânsito do casal de motociclistas postados agora naquela maca cheia de sangue?

Um instante de silêncio parece provocar uma indecisão mental em nosso dito entrevistado.

Atropelado pela questão, o outro aos poucos sai de lado, sem me responder, fino como uma agulha.

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O projeto de ‘rei do monólogo’, a falsa entrevista

atualizado 24 julho 2017 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

O celular vibra no bolso.

Uma ligação de cotidiano logo me faz pensar no essencial da profissão jornalística: uma possível informação com potencial de notícia. “Entrevista marcada, os leitores da próxima edição agradecem”, eu pensei.

No local combinado, primeiro um cumprimento. Capricho no sorriso leve e numa abordagem amistosa; uma comunicação que não deve deixar dúvidas; ao menos de minha parte não é inventada.

O encontro é com um político profissional, e qualquer contágio com hábitos fabricados pode transmitir riscos incalculáveis ao fígado. Nesta situação, sempre digo de mim para mim: feche o corpo e alimente a alma de boas intenções. O cumprimento que se segue soa mais do que usual e espontâneo:

– Bom dia, como vai a sua pessoa?

– Bom dia. Como vai…

Mal consigo concluir o raciocínio, sou interrompido.

O sujeito começa a falar; ou melhor, o político logo me assegura da importância de sua ação em “prol da comunidade”. Mostra, por conveniência de dito poder transmitido como não momentâneo, que fez muito para “aquela gente”; a figura se posta como um santo notável. De seu autorretrato, pude até evocar um sublinhado “discurso de patrão”.

“Não era uma entrevista?”, sem demora eu pensei comigo.

– É importante ainda ressaltar… – o sujeito atravessa o meu pensamento.

Tenho dificuldades de esboçar um “a” sequer. O sujeito fala, fala, fala.

Em dado momento, sinto-me inútil pela aspereza de personagem secundário que ele atribui ao resto da humanidade; incluindo a figura deste repórter, é claro.

O nosso entrevistado segue firme numa fala pausada; pensa cada palavra e esgota rápido seu repertório de chavões; em certa passagem, corrige-se interpelando o curso de minhas anotações: “assim, não. Coloca assim!”. Ele fala e eu taquigrafo a mensagem; anoto, inclusive, seus tiques não aparentes nesta publicação.

Uma ênfase da vida. Percebi-me então com uma angustia de quem premeditou uma entrevista, mas que se deparou com um monólogo enfadonho. O nosso entrevistado costumava usar de tal expediente…?

Notei ainda que o sujeito não respeitava ou não tinha noção do outro; no caso específico, o repórter mal conseguia desempenhar a sua função. O nosso entrevistado não falava deste mundo? Talvez seja imaginação de minha parte ou uma maldade minha esta recordação de cidade pequena.

Para não tomá-lo de vez como um coronel de romance regionalista, melhor pensar que faltava a ele um pouco de senso de localização. Ou se é que me faço entendido sobre este tipo de entrevistado.

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Rato na ratoeira ou uma historieta de gibi

atualizado 17 julho 2017 1 Comentário

por Mario Rodrigues

Me doeu gastar uma ligação de fixo pra celular e meu tempo comprimido pelo excesso de trabalho com um pedido de correção jornalística. Mas tinha que assim fazê-lo. Somente pela vergonha na cara, pela decência…

– Alô?! É o Fulano de Tal?

O Outro dá sinais que não me ouve bem:

– O quê? Quem…? Da onde…?

Eu reiterei, com dada paciência:

– Aqui é o Mario Rodrigues, do jornal Xis, da Cidadezinha… tudo bem?

– Opa! Tu-do bem… com o senhor?

Fui direto:

– Fulano de Tal, é o seguinte: estou ligando pra te dizer que você publicou uma foto de minha autoria em seu jornal [uma publicação recém-criada na Cidadezinha] ou no jornal que traz o seu nome como editor.

(Eu fazia referência à publicação de uma foto de uma secretária de Saúde, feita por mim entre um final de março e início de abril e republicada num blog de época – hoje sem link.)

Eu percebi que o Fulano de Tal queria falar. Mas emendei, atropelando a sua fala:

– Detalhe, meu caríssimo: além de não dar o crédito, o seu jornal registrou que a imagem feita por mim é de arquivo do seu jornal; um cúmulo…! Tenho como provar que a foto é minha.

O Fulano de Tal embargou a voz e, eu, fiquei ansioso pra saber de sua resposta.

E? Blá blá e blá.

Fulano de Tal garantiu que iria publicar uma Errata na edição seguinte de seu jornaleco.

Então contido mas puto da vida, finalizei a ligação com um pensamento de dono de armazém:

– “Como tem rato nesta Cidadezinha!”.

Ratos? Pensei no conjunto da Imprensa nacional:

– “Ra-tos…”

Não foi a primeira vez que me depararei com rrrrrra-tos; ou melhor, não foi a primeira vez que me deparei com uma situação crônica. Por isso a determinação de rememorar esta historieta de gibi sem, contudo, expor demais a identidade alheia, porque numa historieta de gibi há de ter sempre um personagem com um mínimo de correção.

Outro pensamento pós-ligação:

– “Que coisa. Que coisa!”.

Outro pensamento?

– “Jornalista que não reconhece ou não dá crédito a fonte de informação deve ser chamado de jornalista?”.

De fato, é difícil ter paciência com um hábito matreiro (e corriqueiro) que muitos reproduzem; nem se o rato fosse um amigo mereceria um perdão? Aliás, o que leva um sujeito da dita imprensa a usar um conteúdo alheio sem o crédito devido, além de promover uma espécie rasteira de lei do menor esforço?

Arrisco-me: de quatro hipóteses, e sugiro que o leitor ou a leitora fique com uma a respeito de nosso objeto de alegoria:

– Ou os ratos são ingênuos;

– Ou os ratos são espertos (ou dado a espertos);

– Ou os ratos são barbeiros (com bigodes grandes e sujos);

– Ou ou.

Em definitivo, não dá pra ser condescendente com uma vítima de ratoeira.