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Cap. 59. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

atualizado 9 agosto 2015 Deixar comentário
Um clic matinal numa loja de conveniência

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

O monitor de uma TV ligado no alto à nossa direita. Difícil acreditar? A cara do presidente Jose Mujica estampava a micro tela suspensa na parede. Numa entrevista de reportagem, o presidente mais popular do mundo entre os adeptos e simpatizantes da erva natural que não pode te prejudicar parecia dizer, categórico: “Tengo profundo amor por el pueblo brasileño”. Faço questão de traduzir pro espanhol mal falado o restante da fala presidencial: “O Brasil é uma pátria querida, e só não é mais próspera porque os cretinos da Avenida Paulista não deixam!”. Ad literam, literalmente. Enquanto o querido presidente hablava otras cosas claras, diretas e úteis, Julinho e eu, abusávamos da boa vontade da moça da loja de conveniência, que – a apedido nosso – mirou bem o quadro de duas caras inchadas. Mais eu do que el condutor, parecíamos dois lutadores de boxe após uma luta decidida por pontos.  Confesso que eu tava dormindo na hora do clic. Meu defeito de nascença: demorar pra despertar. E não fazia muito tempo que havíamos deixado a praça central de Jose Pedro Varela. Fora a 1ª pernoite da Aventura no Cone Sul. Apenas começara o segundo dia. 2 de janeiro de 2014, ok? Julinho tava ligado também. Muito chão pela frente, hem. Ah, agradecemos o favor da recepcionista, que nos devolveu o celular usado para registro fotográfico. E agora? Renato, agora é pegar a estrada! Rapaizzz, vamos beber o suco antes (bebíamos um suco), antes que ele esquente. Súbito, abro o toco do mapa que trazíamos a bordo. Daqui a pouco, Ruta 8. Despues? A cidade que a gente iria passar não aparecia no mapa. Minas? Rapaizzz, você pensa que nós estamos no sudeste brasileiro? Há, no centrão do Uruguai, uma cidade chamada Minas. Julinho logo soltou a pérola: “Oh, Minas Gerais, quem te conhece não esquece jamais. Oh Minas Gerais…”. Julinho tava impossível. Naturalmente, caímos numa gargalhada com o trocadilho. Para o espanto da recepcionista, que ficou espiando a nossa conversação. A próxima cidade não era Minas, volto a frisar. Qual cidade, então? Neste ponto da história contada, sejamos fidedignos com a reprodução de imagem de tempo real nem tão real assim. Sério, não sabíamos do município seguinte. Mas posso deixar escapar uma tira de informação? Uai, isso eu posso adiantar pro cêis. Em tal cidade, vamos esbarrar com uma figura sem igual.

(continua)

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Cap. 58. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

atualizado 9 agosto 2015 Deixar comentário
El fuca blanco nas proximidades de uma loja de conveniência, na saída de J. P. Varela

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

Os fogos de artifícios, a garotas uruguaias dos desejos de el condutor, las cervezas, a reprise de um 1º de janeiro quase interminável. Acordamos no dia seguinte, ou melhor, acordei ao primeiro sinal de luz de sol dentro de El fuca blanco. Encostamos o veículo rente à praça central de Jose Pedro Varela? Juro que eu não me recordei como cheguei em tal lugar. Minha memória ou minha falha de memória momentânea. Ao lado, digo, na parte de trás, Julinho fazia a sua junto às tralhas que trazíamos no banco traseiro. Eu que não quis experimentar aquele acento com sabor de refrigerante derramado. O fato é que acordei assustado no banco de copiloto. Onde estou? A ressaca, a bebedeira fora forte nas horas anteriores. Com certo cansaço… Olhei bem ao redor. Em alguns minutos… Foi uma batalha abrir os olhos 100%; então me lembrei de “Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca”. Ops, este título é meu! Lembrei-me da necessidade de seguir adiante. Em instantes, já estávamos em movimento atrás de um banheiro para lavar o rosto e escovar os dentes. Ah, precisamos tomar um café! Meu parceiro foi mais ambicioso: que tal um cappuccino com bolachinha de nata? Julinho acordara com gosto bastante sofisticado pro meu gosto. Ali! Interrompi o pensamento de el condutor. Um posto de gasolina surgiu em nosso visual. Como se chama mesmo, Julinho? Loja de… conveniência! Ato contínuo. Antes de estacionarmos, indaguei ainda se haveria tomada e sinal de internet para celulares no local. Queria porque queria registrar alguma coisa sobre a saga em minha página do Facebook, uma rotina que seria cumprida ao longo da viagem. Zeloso com a direção, Julinho fez questão de estacionar o carro primeiro para depois dar a sua opinião. Motor desligado. Pô, deve ter.  “Deve ter”? Que resposta sensacional, hem. Entramos na loja, vimos uma recepcionista. Olhei pra fuça de Julinho. Fiz sinal, dei com um ombro: você pergunta. Ele fez que não era com ele. Pregunta? Como é? Você é o tradutor, ok? Ah, sí, pregunto! Virei o rosto pra recepcionista, então esquecida pela nossa desatenção. A moça, com a cara de quem não entendia o que via e ouvia, parecia aguardar o fim de nossos resmungos.

(continua)

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Cap. 57. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

atualizado 9 agosto 2015 Deixar comentário

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

Julinho havia acabado de voltar do banheiro, após insucesso com as garotas uruguaias da mesa ao lado.  Voltou, logicamente, com os rabos entre as pernas. Voltou com a cara inchada. Naturalmente, el condutor voltaria. Então, as moças não queriam nada contigo? Meu parceiro não queria argumentar.  Na verdade, o dublê de galã se acha mesmo “bonito demais”. Na real, meu parceiro não queria pensar muito no ocorrido. Julinho volta pra mesa com uma história estranha de que tinha mais cerveja na geladeira da pizzaria. Minha ideia fixa, porém, parecia não ter fim. Pra que disfarçar a tragédia, rapaz? Rimos. Para o descontentamento de leitores pouco pacientes, nos vemos congelados neste instante de rememoração. Nesta passagem, J. P. Varela bateu fundo em nossos corações. A esta altura, queríamos enrolar mesmo? Me deixa ser mais preciso: tratemos de um instante mais documental do que jornalístico-literário. A história contada ganha agora ares de combinação cenográfica. Não percamos a paciência, não percamos. Quero dizer, fizemos questão de produzir uma prova cabal. Não passaríamos ilesos por Varela, apesar da escuridão que dificultava registros fotográficos. Fizemos o vigésimo tim tim, quando da estratosfera da obscura ciudad de Jose Pedro Varela, um sinal dos deuses. No momento em que Julinho e eu já pensávamos numa pernoite dentro de El fuca blanco estacionado rente à praça, fomos surpreendidos por uma iluminação.

A seguir, um patético vídeo caseiro para manuseio, seguido de sua respectiva transcrição:

Renato: Tá fazendo um vídeo…?

Julinho: Eh, valeu, Renato… Estamos aqui agora em… Jose Pedro Varela… Uruguai. Próximo a Treinta y Tres… Não tou entendendo porque hoje é dia 1º de janeiro e eles estão comemorando!

Renato: Na verdade eles estão comemorando a… estão comemorando aqui a nossa visita e… ih… fomos pegos de surpresa! Quer dizer, uma boa surpresa.

Julinho, como se acreditasse na própria ilusão de que um dia foi um bom repórter: Aqui… nós que somos aqui paulistas, vindos do interior de São Paulo… demoramos mil e 800 quilômetros pra nós chegar até aqui.  Com muita felicidade… Vamos ver os fogos de artifício que… [trec trec…] de novo. Ah, já acabou. De novo! Isso já se repetiu umas quatro vezes. (Risos)

(continua)

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Cap. 56. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

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por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

Julinho, vulgo voluntarioso. Ops, Don Julito estava prestes a dar o segundo passo em destino a uma mesa com três chicas. Belas garotas uruguaias! Só faltou meu parceiro friccionar as mãos. Além de seu modo de dizer e sorriso pessoal, tinha ele um olhar de oceano aberto pro lado exposto da vida. Até tentei imaginar o horizonte das garotas sorridentes diante da pretensão e ansiedade de um sedutor nato. As uruguaias pareciam rir daquela postura típica de atrevimento? Se da pessoa que dava o dito terceiro passo ou das reações das próprias falas replicadas aos cochichos mal disfarçados em público. O quarto passo! Julinho caminhava lentamente, embora decidido. Juro que eu fiz figas com as duas mãos praquele instante selvagem durar uma eternidade. Me pareceu divertido testemunhar. Não queria que abasse nunca aqueles passos saltitantes de el condutor. Meu parceiro parecia sambar por cima dos próprios sapatos. Se pelo efeito das cervejas, se pela audácia sem precedentes na história dos sedutores pretensamente iluminados pela audácia. Quinto passo, sexto passo! “Nãããão!” Não me contive. Um riso mudo explodiu em minha cara de espectador vip, e eu tive que cobrir a ranhura do rosto com as palmas mãos. Não queria ver. Ou melhor, fingi não ver? Porra! Don Julito…?! Não acreditei? Não, eu tava crente naquela cena de desafio. Do sétimo passo em diante… Caralho, do sétimo passo em diante…! Difícil de acreditar na maldade que foi ver Julinho surpreender a todos, incluindo as garotas, o resto da humanidade e eu que, do meu modesto local de narração exagerada, desejava o melhor pra ele.

Parte de manuscrito

A calçada estreita foi um grande palco, a pintei com uma plateia em semicírculo. A dois passos de seu paraíso telegrafado. Don Juliiiito? Baaaita contratação para o nosso time da vida real, este meu parceiro parece personagem de conto moderno. Se saiu bem esta figura? Meu queixo derreteu como o do vilão do desenho animado. Minha cara se esparramou no chãããããão daquele piso áspero de ação programada.  Meus olhos diluídos no ar. Eu nem pisquei quando na bica de chegar junto à mesa das uruguaias, Julinho virou à esquerda,  sabe se lá, na direção do banheiro. Movimento brusco. O dublê de galã se perdeu magicamente no interior da pizzaria.

(continua)

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Cap. 55. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

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por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

El condutor ia dobrar à esquerda quando eu pedi para virar à direita. No fim de uma quadra, ele fez o contorno de volta. Em menos de um minuto, El fuca blanco foi estacionado em frente à uma pizzaria. Nosso veículo, lindo e desde 1980 maravilhoso, ficou bem na frente do estabelecimento. Passava das 22h, horário local. Quiçá, 23 horas.

‘Un trozo de limón’

Estávamos com fome, de certo comeríamos uma baleia assada se tal prato tivesse no cardápio da casa. A fome era mesmo grande? Ah, claro. Em vez de comida, pedimos uma… cerveja! Devidamente sentados, Julinho e eu nos posicionamos a olhar o cardápio. O pedido fora feito num portunhol clássico. Ceveza? Sí. Tiene? Sí. Una cerveza, por favore? Espanhol clássico ou uma mescla bichada de italiano com japonês? Julinho e eu caíamos na gargalhada. Bem que eu havia prometido bancar o louco na primeira comunicação com os nativos.  O garçom, sempre prestativo, ainda me deixou recarregar a bateria do celular numa das tomadas do local. (O aparelho de Julinho estava legal.) Cerveja, cual a mejor? “Buena cerveza… es la Corona.” O garçom tentou ser amigo: “Hecho en México, ella es una Pilsen, popularmente se toma con un trozo de limón en la botella.” Se me lembro bem, a mexicana Corona foi a primeira das garrafas que experimentamos em J. P. Varela. Bem bruta, por sinal. A Corona valia três vezes o preço da mais popular, a Patrícia. Quanto aos petiscos? De fato, escolhemos o lugar top de Varela, o mais caro. Claro, claro, estávamos com dinheiro vazando pelos bolsos. Meu Deus, uma fortuna! Depois da segunda cerva, engatamos a terceira. Chama-se Pilsen, outra marca local. No momento em que fui provar esta, eu já me considerava alegre. Que dia é, Julito? Quarta? Tem certeza? E o riso corria solto entre el condutor e eu. A esta altura, corrijo-me: eu já tava mais pra alegríssimo do que para alegre. Notei o parceiro de modo parecido, mas com um diferencial. Don Julito começava a pedir passagem para Julinho. Meu parceiro ficou subitamente em pé, pareceu que ia se movimentar. Sua pose de dublê de Cauã Reymond mirou a mesa com três garotas ao lado. Olhou pra mim. Olhou pra mesa das garotas de novo. Repetiu o olhar saltitante. Como se fosse fazer história, Don Julito deu o primeiro passo…

(continua)

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Cap. 54. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

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O epicentro de J. P. Varela

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

Achamos uma praça iluminada, cheia de gente. Quase 22 horas no nosso ainda desconectável horário de verão brasileiro. Clima fresco em J. P. Varela, e com um indício de chuva no ar. Aqui, Julito!, disse ao parceiro. El condutor queria dar mais uma volta na praça? Num movimento surdo de ciranda, meu parceiro queria ver o fervo. Ele deve ter notado alguma chica para fazer a manobra pela terceira vez. Um filme brasileiro ambientado na década de 1970, sem o maldito regime militar, é claro, foi o que me pareceu à primeira vista aquele aglomerado de gente, o dito fervo. Uma praça movimentada. Só faltou um parque de diversões no espaço, porque o pipoqueiro tava lá. A cidade toda ao ar livre? Era 1º de Janeiro de 2014, não podemos esquecer. Enquanto Julinho manobrava El fuca blanco no entorno da praça central de Varela – acreditem! – pela quarta vez, eu já tinha avistado um local para estacionar. Então espiei do lado. O parceiro parecia mesmo a fim de não parar mais. A cidade de escura atmosfera parecia não colar com o retrato de seu epicentro luminoso. Meu caro, que tal estacionarmos o veículo? El condutor riu. Já passava do oitavo contorno da praça. E a nossa sensação de momento era boa. Ao menos nenhum receio me tomou neste ponto, como me tomara no princípio da viagem. Se vamos chegar bem ao fim de nossa saga? Apontei o dedo indicador pra fora do carro, intervindo no próprio pensamento. A alguns metros de uma das quinas da praça, num espaço aparentemente desabitado, achamos uma sombra de árvore. Uma sombra? Bem, estávamos ainda com nossos trajes úmidos. Herança da já saudosa Playa del Olimar. Não encontramos espaço público devido para uma troca de roupas. Quer dizer, o espaço que achamos era público. Mas passível de… Enquanto eu fiquei nu em meio à sombra de uma calçada, ops, enquanto eu trocava de roupa, Julinho ficava na retaguarda, dando cobertura para ver se não aparecia alguma criatura no palco. Rapidinho. Julinho também não perdeu tempo. Em instantes, estávamos “a caráter” para uma – diriam membros diletos das novas gerações brasileiras – balada! Entramos no carro novamente. Liga a chave e acelera! Julinho, o sujeito que só diz sim nesta história, fez que não me entendeu, mas ligou a máquina. Acelera! Vou te mostrar uma coisa que vi quando estávamos “cirandando” a praça central de J. P. Varela.

(continua)

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Cap. 53. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

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por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

O céu pairava escuro por cima de nossas cabeças. Meia hora depois de um trânsito pela Ruta 8, Julinho e eu entramos ansiosos em J. P. Varela. Penetramos na atmosfera de uma notável falta de claridade. Se conforme a minha miopia declarada, se de acordo com a realidade propriamente dita. Bem escuro este retrato pós 21 horas (horário de Brasília).

O “1º olhar em movimento” de J. P. Varela

Com os corpos ainda encharcados pelas águas da rasa Playa del Olimar e com uma fome do cão (como se diz em cantos e recantos brasileiros), pisamos no universo simbólico de J. P. Varela.  El fuca blanco, nossa querida máquina do tempo, entrou triunfante nesta cidade. Julinho e eu de modo bem semelhante; eu quero apostar ainda que o nosso veículo então respirava com fôlego tipo um pretenso corcel mítico, incansável e fiel aos seus designíos de pronta personificação humana.  Se chegamos ilesos neste ponto da história contada? Percebemos os nossos narizes, olhos e bocas bem abertos em J. P. Varela, por extenso, José Pedro Varela, uma pequena cidade do norte do Departamento de Lavalleja, região sudeste da Republica Oriental del Uruguai. J. P. Varela, tá ligado Julinho? Súbita pergunta retórica dirigida ao parceiro de Aventura no Cone Sul. Eu devo confessar muito a propósito: nem o parceiro de viagem, nem eu então sabíamos do significado ou da tradução de J. P. Va…? Varela, segundo consta, foi um sociólogo, educador, político e, vejam só, jornalista uruguaio. Varela foi um ente querido. Oh, sim! Faz tempo? Varela foi em vida – pode ser mesmo uma verdade –  um defensor da educação secular no Uruguai do século 19. A propósito, “falamos diretamente de Jota Pê Varela”, eu fui logo improvisando uma locução de rádio dentro de El fuca em movimento. “Uma cidade pacata, Julito ao lado é aqui a nossa testemunha viajante. Se não tiver mais de três mil habitantes, é muito.” (Na real, o número oficial aponta entre 5 mil e 6 mil habitantes.) Enquanto Julinho manobrava a nossa máquina do tempo em busca de um epicentro urbano, eu prosseguia com a caricatura de repórter de rádio mal remunerado: “E quando você, caro ouvinte desta frequência sonora, chegar a Varela, não esqueça de reforçar o olhar de aparição com uma vela emprestada da avó, um farolete ou uma lanterna qualquer. Aqui é escuro pacas.”

(continua)

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Cap. 52. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

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por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

De volta à Ruta 8. Deixamos o rio, ops, deixamos a Playa del Olimar antes mesmo do que gostaríamos, pois a ideia era pernoitar na próxima cidade, que então imaginamos mais pacata que Treinta y Tres. Defendi com Julinho a tese de que dormir dentro do carro em cidade pequena seria mais seguro. Naturalmente, gastar dinheiro com hospedagem não estava em nossos planos. E nada contra os 35 mil habitantes de Treinta y Tres, mas a cidade pareceu grande demais para uma parada noturna. Não havia nenhum lugar que pudéssemos considerar tranquilo nas proximidades da praça local? Desculpinha. A ansiedade era grande. Queríamos mesmo partir para o próximo povoado, pegar a estrada novamente.

De volta à Ruta 8; rumo a J. P. Varela

El fuca blanco zunia na Ruta 8, e a estratégia para a primeira noite de viagem já estava dada: estacionar o carro rente a uma praça central e puxar o ronco. J. P. Varela; vi bem no mapa.  Como será esta cidade, Renato? Revi o toco de mapa que trazíamos a bordo, só com a informação bruta da localização. Cara, eu não tenho a mínima ideia de como é J. P. Varela.  J. P.? Varela! A única certeza: a distância que separa este destino de Treinta y Tres. Conforme a indicação do GPS de um de nossos celulares, mais ou menos 30 quilômetros. Tempo de viagem? O mesmo GPS indicava um pouco mais de 30 minutos. Enquanto Julinho e eu trocávamos ideias, a noite caia no horizonte da rodovia, testemunha de um contraste entre um azul escuro de nuvens densas e raios fracamente amarelados numa atravessada imagem de fundo. O nosso horário era de verão brasileiro, sacam? Passava das 20 horas, mas a claridade daquele 1º de janeiro demorou pra se desfazer.  Com as duas mãos no volante, Julinho me pareceu curioso com J. P. Varela. Quem não? Ih, Julinho com as duas mãos no volante? Mais um intervalo para o copiloto segurar a quarta marcha. Quem nos acompanha esta história sabe: a quarta marcha de El fuca blanco não permanece engatada desde os primeiros quilômetros rodados em solo uruguaio. É mesmo a minha vez de segurar o câmbio, Julito? O parceiro riu de minha retórica de malandragem. El condutor precisou descansar um pouco o braço direito.  Descaaansa a munheca, meu queeeereedo!

(continua)

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Cap. 51. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

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A Playa del Olimar aos pés de el condutor

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

O surgimento da Playa del Olimar foi mais do que um achado: pudemos nos refrescar do calor dominical e, ao mesmo tempo, tomar banho de graça. Pra dentro da água, Julinho?! Rente à areia, meu parceiro de viagem, ainda de tênis, short e camiseta, aproveitaria para tirar os óculos escuros e mirar o horizonte com um desavergonhado sorriso no rosto. Eu, não perdi tempo. Corri na direção das águas correntes. Quando cheguei. Porra, eu gritei eufórico de lá: parceiro, você não vai acreditar no que eu acabo de descobrir! Eu havia acabado de descobrir uma pérola. Que bagaça de riacho é este! explodi num riso de surpresa. Bem, percebi que não havia profundidade no citado rio. Bem possível atravessar as águas correntes do rio Olimar sem que o nível de sua água avance pralém dos joelhos de qualquer banhista. Uma piada a profundidade deste rio, eu sentenciei. Já dentro da água, Julinho concordou comigo. Mas pouco nos importamos com a surpresa descoberta. Importava-nos o refresco do corpo e o deleite da alma diante de uma visão panorâmica inédita para as nossas vidas. Tomar banho nas águas do rio Olimar, contudo, só deitando mesmo. Se banhar, neste caso específico, foi um imperativo. Menos mal, a temperatura da água tava da hora. Deu pra refrescar e ainda apreciar aquele cenário de filme hollywoodiano retransmitido na TV aberta de países culturalmente colonizados. O Uruguai é mesmo outro mundo, eu refletia enquanto o parceiro se moveu num ato lento e determinado. Logo vi o motivo. Julinho resolveu confabular com uruguaios na beira do rio, ops, na areia da praia. Deu pra ver de longe. Claro, não pude ouvir o diálogo provocado por el condutor. A distância entre o retrato visto e a minha pessoa era considerável. Mesmo assim, pude notar empatia de um contato social. Havia um pai e uma garotinha de um pouco mais de três anos. A mãe observava a distração dos dois, sentada numa cadeira perto de um carro; El fuca blanco estava estacionado ao lado do veículo daquela família. Julinho se envolveu com a pescaria familiar. Escurecia, mas deu pra ver.  Por uns instante, o nosso canal foi ver lambaris notáveis no cristalino espelho da água. Mais de perto, já em pé, eu pude perceber algo além do reflexo de peixes pequeninos. No espelho d’água havia a imagem de um sujeito com cara de fome de estrada. Olhei do lado, e tasquei um súbito “bora pra estrada, el condutor!?”.

(continua)

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Cap. 50. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

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Da Playa del Olimar

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

Era mais que um rio. Muito mais, achamos uma imensa banheira a céu aberto. De uma hora pra outra, Julio Cesar Bregagnoli Martins fez-se eufórico além da conta. É uma praia, pô! Porra, uma praia! Quer dizer, refiz minha fala de consciência. Julinho estava tecnicamente certo. A espécie de balneário que apareceu em nosso caminho tinha um nome de mercado. Neste instante de rememoração, não apenas el condutor é um caso de arrebatamento. Eu não ficava muito aquém da animação do parceiro, que num determinado momento me disse: olha não! olha não! Olhei. Olhei pro lado; o parceiro de saga tinha acabado de indicar a existência de um grupo de gurias. Nãão, eu NÃO sou solteiro, eu logo fiz questão de considerar. Don Julito fez jeito de surdo. “Rapaizzz”. Olhei ainda na direção de uma placa de trânsito de fundo azul, não me recordo bem da cor. Se azul ou verde. Se não me falha a memória, projetei um ponto de vista panorâmico, para em seguida calibrar a minha armação de óculos no tronco do nariz. Face dirigida, uma expressão bem destacada numa placa pregada numa árvore nativa: “Playa del Olimar”. A praia era mesmo um rio, ops, o rio era mesmo uma praia. Rio ou riacho? Julinho não me ouviria mais diante de um espelho de água cheio de gente contente. Semanas, meses depois de nossa visita, aposto que a playa de Treinta y Tres ainda deve fazer a alegria e a folga de seus citadinos. Naquela ocasião, fez a nossa. Num movimento retrospectivo, vejo o parceiro então manobrar El fuca blanco por cima de uma ponte paralela à aquela que sustenta o asfalto negro da Ruta 8, sentido da ciudad de J. P. Varela, nosso próximo destino. Fizemos um retorno de trânsito, entramos numa estrada de chão à esquerda, após passagem por um trevo. Em questão de minutos, pulamos de uma ponte pra outra. Neste intervalo de rodagem, pudemos nos sentir devidamente integrados num cenário de banhistas. A população local chama o riacho de playa, ok. O rio poderia até ser nomeado de santa gota d’água, que não implicaríamos com a fantasia nativa. Fantasia? De fato, o rio era um rio. Para Julinho e eu, um bem-vindo pretexto para tomarmos um banho. E de graça.

(continua)