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Cap. 69. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

atualizado 21 julho 2015 Deixar comentário

por Re Nato

A pouco menos de três horas do cumprimento da primeira etapa de nossa viagem pelas terras planas do Uruguay. Um instante em que eu fui tomado por um sentimento de alívio e por uma sensação de prazer, que exteriorizei ao companheiro de viagem com certo receio de goro, de quem pensa em voz alta que “não somos fracos, não, hem, rapaizz!”.

Na Ruta 8, saída de Minas

Sem contar as perambulações por perímetros urbanos visitados, trafegados, havíamos percorrido mais ou menos 350 quilômetros desde a saída da sede do Jornal Pampeano, na cidade gaúcha de Jaguarão, um dia antes, numa tarde domingo de sol encardido. E El fuca blanco, vulgo ou outrora veículo de mecânica duvidosa? Para a nossa surpresa, sem nenhum problema mecânico a seu respeito ou sem sustos de causar espanto. Ao menos até este ponto da viagem, e que fique bem claro. A propósito, o motor de nossa máquina do tempo tinia bonito quando reingressamos à Ruta 8, em direção contínua à capital uruguaia. O relógio marcava um pouco mais de 14 horas quando Julinho e eu deixamos a ciudad de Minas e voltamos com El fuca para o tapete preto da estrada. “Partiu, Montevidéu, meu caro el condutor?”, de quem de imediato recebi um “sinal de entusiasmo”. Até a capital uruguaia, no entanto, ainda tinha chão; algo em torno de 120 quilômetros para que pudéssemos testemunhar o que até então era apenas uma imagem reproduzida pela televisão e de um ouvi falar. A ansiedade imperava naquela segunda-feira, 2 de janeiro de 2014. Apenas o segundo dia de estrada. Chovia naquele dia, não como chovera nas últimas horas. Quer dizer, chovia fino, com breves cessadas. O temporal que nos vitimou – ufa! – sem prejuízos no trajeto entre os municípios de Mariscala e de Minas tomara um rumo desconhecido. Pareceu-nos que o temporal percorria a Ruta 8 em sentido contrário, na direção de Treinta y Tres. Quem sabe? O pior já havia passado, enfim. Enquanto eu pensava nos últimos capítulos desta história e analisava o horizonte de clássico céu embaçado, Julinho recomeçou com os hits de Raul Seixas. Rock das Aranhas, se me recordo bem, seria interpretado pela gente umas duzentas e quarenta e sete vezes até chegarmos naquela que desde já suscitamos como a nossa próxima parada.

(continua)

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Cap. 68. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

atualizado 9 agosto 2015 Deixar comentário
Da ciudad uruguaia de Minas

por Re Nato

Estou apreensivo com a mecânica duvidosa de El fuca blanco. Julinho fez pouco caso de minha fala de confissão, um pouco antes de deixarmos o restaurante Rancho Paradouro. Neste, almoçamos duas A la minuta, o típico PF dos pampas, seja ele brasileiro ou uruguaio. Para a nossa surpresa, a chuva voltaria lá fora. Um pouco mais fraca. Quer dizer, bem mais fraca do que a do temporal que literalmente nos freara na estrada antes de chegarmos em Minas. Tivemos que correr da porta do restaurante até El fuca, que ficara estacionado a poucos metros. Assumi minha condição de copiloto, analisando o mapinha ofertado pelo Paradouro. Na verdade, o mapa era da cidade. Ao menos para sair desta bagaça, hem. Julinho riu. Em seguida, o parceiro me perguntou para onde iríamos. Na hora, lembrei que podíamos tentar resolver o problema de meu chip Antel. A recepção que nos companha nesta saga bem sabe de meu drama: comprei um chip de telefonia móvel uruguaia que não pegou em meu aparelho celular. Nesta condição, o celular de Julinho, de uma operadora brasileira que pega no país vizinho nos salvaria pela utilização de sua bússola-GPS. Foram umas três paradas até acharmos uma loja de assistência da estatal de telefonia. Duas paradas; corrijo-me. Isso. Chovia fino, quando cruzamos o farol e entramos na contração de uma rua do centro da ciudad. Sorte nossa, que o trânsito “mineeero” estava devagar. Paramos. Para o nosso azar, a loja estava fechada. Com a ajuda do mapa, orientei Julinho a passar no entorno da praça central. Uma espécie de ritual promovido em quase todas as cidades visitadas. Uma espécie de autobenzimento, superstição ou capricho nosso. Demos a volta na praça, muito arborizada, bem conservada. Ah, claro, havia uma edificação da Igreja católica no epicentro urbano, a chamada matriz. Apenas vimos de relance este retrato, não paramos por causa da chuva chata que embaçava meus óculos quando eu tentava afrontá-la. Após uma indicação de um transeunte uruguaio, achamos uma loja da Antel aberta. Lá, me cobraram 150 pesos uruguaios ou 15 reais pela configuração do aparelho junto ao chip outrora instalado. Não demorou nem 5 minutos para um tecnicista me lograr uma grana e por pra pegar a conexão de Internet em meu cel. Sem querer ou por acaso, ainda pararíamos na rodoviária para um registro fotográfico e leitura de manchetes de jornais provincianos. A ansiedade e a vontade de seguir adelante nos atraiu de volta ao tapete preto da bem cuidada e às vezes sinuosa Ruta 8.

(continua)

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Cap. 67. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

atualizado 9 agosto 2015 Deixar comentário
Da Ruta 8 a ciudad de Minas, no fundão uruguaio

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

A tensão em meio a um temporal na Ruta 8 duraria alguns minutos, e o percurso de Mariscala até Minas, de duração mais ou menos de trinta minutos, somou o dobro de tempo. Não chegou a chover granizo, mas a visibilidade da estrada ficou precária. Ficamos presos em El fuca blanco numa tira de acostamento sem largura devida de estacionamento, com o veículo perigosamente a meio metro para dentro da pista, que não era dupla. Sem escolha, sem saída. Se colocássemos o carro literalmente para fora da pista, duas das quatro rodas ficariam no barro, numa posição tombada. Se arriscássemos tal manobra, poderíamos empacar. Ou pior, poderíamos deslizar num fosso de lama e sair dele só com a ajuda de um guincho ou quando Deus quisesse. Enquanto a chuva caia pesada na lataria de El fuca, Julinho, eu e o caronista trabalhador uruguaio prosseguimos na tentativa vã de comunicação. O uruguaio de aparente meia idade, quando não falava rápido, grunhia. Dios, como grunhia, como falava rápido. O ruído da comunicação foi tamanho que, mesmo oferecendo um prêmio a Julinho, não conseguimos sequer entender o nome da figura. Pensei em pedir para que ele nos soletrasse, quando voltamos novamente ao trânsito. Com a chuva mais fraca, Julinho acelerou. Chegamos a ciudad de Minas em instantes, onde a paisagem era de enxague. O temporal passara por ali, e parece ter varrido a região no curso da Ruta 8 sentido capital-interior. Tudo molhado. Mesmo um pouco mais amena, a chuva persistia na cidade. Neste ponto, a estratégia foi seguir o fluxo de automóveis para não nos perder no perímetro urbano. À procura de um posto de gasolina, o que não foi difícil encontrar. O momento de encher o tanque foi também o de nos despedir do uruguaio de palavreado difícil. Gracias, señores. Ao menos na nossa despedida, pudemos entender uma de suas palavras, hem. Gastamos sessenta pesos para completar o tanque. Uma quadra abaixo, após indicação do frentista do mesmo posto de combustíveis, paramos num restaurante chamado Rancho Paradouro. Neste, aproveitamos para nos enxugar. Parecíamos dois pintos molhados, no dizer aqui emprestado de minha avó materna.  Com o cardápio nas mãos e falando à vontade, nos descobriram como estrangeiros. Num primeiro instante, (quem diria?) por uma família de brasileiros de Jaguarão, que estava na mesa ao lado; num momento subsequente, um garçom, sorridente, apareceu para pegar os nossos pedidos. Até que as refeições chegassem, aproveitamos para estudar um mapa geográfico ofertado pelo restaurante. Se os leitores se recordam de um diário, o nosso sofrera um acidente de percurso.

(continua)

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Cap. 66. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

atualizado 9 agosto 2015 Deixar comentário
El condutor, de perfil consagrado na Ruta 8

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

Neste ponto da história contada, tenho que confessar: meu parceiro de viagem não gosta nada de aparecer em público. Numa fotografia então…? El condutor, Don Julito, a pessoa que só diz sim. Alguns de seus codinomes; lembram-se? Quem nos acompanha sabe das múltiplas facetas do guia de El fuca blanco. Eu pensando em Mariscala, lembrando da aparição de Jose Mochila, el periodista, e Julinho querendo mais um flash dos olhos com o fundo de um azul forte estampado no horizonte do carro.  Um clic? Outro? Mais? Se eu me recordo bem, estávamos de volta à Ruta 8, na expectativa de chuva. A caminho de… Julinho, qual mesmo o nome da próxima cidade? Tasquei uma piada já contada, o parceiro me pareceu atento. “Oh, Minas Gerais, quem não te conhece não esquece jamais! Oh Minas…”. Isso, a nossa próxima parada, a antes anunciada ciudad de Minas. 60 km quilômetros de Mariscala a Minas, que duraria o dobro de tempo percorrido. Motivo? Então peço para Julinho desacelerar. O que aconteceu…? Insisti com o pedido de um freio. Ele não me entendera no ato. Avistei na ocasião uma mão estendida logo à frente. Freada brusca. Percebemos num atravessar de nosso destino, o que interpretei como um típico trabalhador uruguaio. Carona, senhor? Sobe em nossa máquina do tepo um simplório, que vai no banco traseiro junto aos mantimentos soltos sem organização. Para onde, senhor? Foi um momento curioso. Até Julinho, que sabia um pouco de espanhol, se perdeu com as palavras. Foi difícil travar um diálogo com o homem de aparência idosa, que também parecia ter dificuldade para entender o nosso portunhol. Saiu cretina a nossa tradução: “Donde vas, senor?”. À vista, o uruguaio pareceu não entender. Com muito esforço, Julinho e eu descobrimos que o trabalhador uruguaio ia para Minas. Fazer o quê? Sólo dios sabe. Súbito, uma força bruta da natureza, até aqui, o momento mais dramático da viaje. Começou a chover forte, pingos grossos caiam insistentes. De fato, um temporal. Não tivemos dúvidas quando o vidro dianteiro de El fuca ficou totalmente tomado pela invisibilidade. Julinho desacelerou automaticamente, passamos a transitar como se tivéssemos num trator em estrada de terra. Marcha lenta, e um medo que tomou conta da gente. Depois de uma carreta passar rente ao nosso veículo quase o sugando pro outro lado da rodoviária não duplicada, orientei, pedi que el condutor parasse de vez o veículo no acostamento.

(continua)

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Cap. 65. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

atualizado 9 agosto 2015 Deixar comentário
Uma parada para almoço em Mariscala

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

Julinho e eu voltávamos rindo para direção do epicentro de Mariscala. E el condutor se gabando de um beijo numa uruguaia. Um, não: “Foram quarenta e oito!”. “Rapaizzz. Vou escrever que foram cinquenta, ok?”. Em seguida, eu disse a Julinho sobre Mochila, por extenso, Jose Mochila. Jose o quê? Periodista? O parceiro não entendeu. Eu acabei falando pouco, quando pensei em apresentar o dito cujo de corpo presente… Mas cadê o Mochila?! Uma, duas panorâmicas ao redor da praça central. O uruguaio sumiu? “Rapaizzz, você está bem?” Julinho tirou onda comigo. Mochila estava a cá há pouco. Não fez nem dez minutos. A figura evaporou no ar azul escuro de chuva que se formava, só pode. Lamentei. Precisava do testemunho de Julinho. O uruguaio com chapéu de vaqueiro que domina português. História sem nexo? A fome então bateu, nos dirigimos até El fuca blanco. Na volta, percebemos que nosso veículo estava intacto. Sim, a segurança é máxima em Mariscala. A paz reina naquela “grand pequeña ciudad”. Quando eu batia um dos pés num pneu traseiro de El fuca, numa checagem de ar, Julinho me disse algo do outro lado, que Mochila havia deixado um bilhete preso ao retrovisor. O bilhete, na realidade, era um cartão. Um cartão desses de profissional. “Jose Mochila, el periodista”. Abaixo do nome e da ocupação, dizeres de quem ganhava a vida como freelancer. Mochila pedindo um emprego? Será que eu tenho cara de patrão? Fiz o comentário com el condutor, que a esta altura, já contornava  a praça central com El fuca. Em silêncio, até pensei em arrumar um bico de revisor pro rapaz no Jornal Pampeano. Mochila me pareceu bem intencionado. Bem, já beirava o meio dia. Mochila voltaria à sua condição de pretensa miragem. A fome bateu. Paramos então num estabelecimento. Um típico estabelecimento caseiro. Isso, era uma casa mesmo. A sala era o local onde uma senhora com feição indígena e um senhor de expressão europeia nos recepcionaram. “Hay canelones?”. Aproveitei a escrita de um anúncio improvisado de calçada, para camuflar meu portunhol. Na real, eu sequer sabia o que era canelone. Aliás, nem Julinho sabia. Minutos depois, o parceiro e eu estávamos sentados numa mesa postada numa calçada de chão áspero, bebendo refrigerante e comendo canelone, quero dizer, panqueca. Canelone é panqueca, pan-que-ca.

(continua)

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Cap. 64. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

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De uma conversa de cotidiano uruguaio

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

A conversa com Mochila renderia um bocado. Ao menos até o contorno da praça central de Mariscala ser feito. Quis saber: que história é esta que a vossa pessoa não se surpreendeu com a nossa passagem por aqui? Mochila me disse que esteve nas últimas semanas em Jaguarão. Oh, conhece a Cidade Histórica? Ficou sabendo como da viagem? Se não foi por uma nota de jornal, foi por alguém. “O Jornal Pampeano?” Ele acordou para a vida: “Ah, sí, o Pampeano”. Pensei comigo, não me recordo de ter anunciado nada no trissemanário. “Não me diga que você conhece o Anibal Ribas?” “Tchêêêê… se não!”. Depois desta ênfase, comecei a acreditar que ele conhecia mesmo Jaguarão.  Muito espertamente, Mochila fazia mais perguntas do que eu. Passou quase todo o tempo me perguntando coisas, pra que time eu torcia, se era verdade que não ia ter Copa do Mundo, como os apocalípticos da imprensa brasileira pregavam. As perguntas aumentaram quando ele quis saber detalhes de Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca. Interrompi a minha própria fala, tasquei uma com o máximo possível de educação: “Por acaso você é jornalista, afe. Quantas perguntas…”. Diante de meu súbito e, para ele, inesperado desabafo, o rapaz de chapéu de vaqueiro riu. Parou, disse: “Sí, yo soy”. Devolvi-lhe o riso mudo. Na certa, não consegui disfarçar a cara de incrédulo. “Periodista, digo, jornalista também?”. “Prefiro ‘periodista’. Me chame de periodista, acho mais autopromocional”. Juro, eu não podia acreditar no que estava acontecendo. Periodista, pô. Interiorizei o substantivo. Porra, e o Julito? Por um instante, havia me esquecido de el condutor. Um brusco olhar panorâmico, e nada. Numa banda da praça, a varredora de rua conversando com uma dona de casa na companhia de um cão. Do outro lado, um homem entrando num mercadinho. O casal de idosos que atravessara o epicentro municipal já se encontrava longe de nosso alcance. Mochila ficou na dele, e eu fui em direção a uma das inúmeras ruas que abriam caminhos ao redor. Avistei Julinho embaixo de uma árvore, abraçado com uma garota. O casal então tramava no bocal, quando eu assoviei e fiz sinal com uma das mãos, como se lhe indicasse num gesto: resolve isso aí, meu chapa, pega logo o telefone, o email, o Facebook, o Wattsap, o cep…

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Cap. 63. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

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O epicentro da ciudad de Mariscala

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

“Um brasileiro em Mariscala!” No ato, eu pensei. Eu não disse? Na verdade, eu disse. As palavras saíram mascadas de minha boca. A pronúncia saiu meio baixo, mas o suficiente para que o sujeito de chapéu de vaqueiro pudesse ouvir. “No, yo no soy brasileño”. Você tá de brincadeira? Pensei em replicar… Eu disse mesmo, emendando uma fala em seguida: “… mas com esta pronúncia cristalina?” O rapaz riu. Riu mudo, o xarope. “Su nombre?” Destilei um falso pedantismo. Pensei em acrescentar um “Vive aquí?”. Preferi não avançar, vai que o sujeito prossegue a fundo com o idioma nativo, e eu me lasco. “Mi nombre?” No Brasil, esta sua resposta-pergunta se chama retórica. “Tô ligado!”, ele se saiu com esta. Tá ligado, e como está! “Sí”, insisti, “su nombre, a-mi-go.” O rapaz de chapéu de vaqueiro uruguaio continuava sentado, após um breve cumprimento de mão. Aliás, no exato momento em que eu fui repetir a pergunta, no instante em que eu mirei seu semblante, ele ficou em pé. “Mi nombre es…”. “Sí…”. “Me chamo Jose Mochila, muito prazer”. Jose… Mochila? Se eu compreendi direito. “Sí, Jo-se Mo-chi-la…”. Nombre diferente, rapaz! “Pero puedes me chamar de Mochila, sólo”. Meio que incomodado em continuar com seu espanhol, o amigo acrescentou: “Mochila. Me chame apenas de Mochila, ok”. Oh, sí. Sem muita ação pelo inesperado, olhei de lado. Avistei Julinho travando uma conversa, quem diria? com uma chica. No creo! Don Julito em ação? Súbito, apertei bem os olhos fechados, agucei a vista, e realmente vi Julinho do outro lado da praça, num intercâmbio com uma uruguaia. Caramba, se vi el condutor alisando os cabelos da garota naquele instante, tipo um gesto adolescente de quem troca olhares afetuosos? Quanta novidade num só momento – deixei escapar em voz alta. “Quanta o quê…?”. Mochila pensou que pudesse ser com ele. “Nada, não, compañero”. O que faz na cidade? A pergunta foi dita mutuamente. Mochila me disse que nasceu em Mariscala. Quanto a mim, os caronistas de plantão bem sabem de nossa Aventura no Cone Sul. Mochila, vocês não vão acreditar. Não é que o rapaz não se disse surpreso com a nossa viagem? E mais: ele afirmou categoricamente que é mesmo uruguaio, apesar do português fluente. Mochila revelou que não sai do Brasil, que sempre está, segundo ele, na terra do “eterno vice-campeão da Copa de 1950”.

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Cap. 62. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

atualizado 9 agosto 2015 Deixar comentário
Da praça central de Mariscala

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

Caballeros, esta unidade não oferece assistência técnica. Foi mais ou menos isso que as duas atendentes da loja de telefonia Antel, em Mariscala, nos informaram. Julinho se saiu com esta versão capciosa, descarado que só ele na arte do improviso. A verdade verdadeira é que as atendentes uruguaias não entenderam porra nenhuma do nosso portunhol. Deixamos por menos, partimos pra próxima sem resolver o problema de meu chip Antel, que não estava pegando. Sem perder tempo, chegamos à praça central. Aqui…! Aqui, não, ali! Fui rápido numa chamada de correção. Julinho pisou no freio, para em seguida acionar o já telegrafado freio de mão imaginário de El fuca. Estacionamos o veículo embaixo de uma sombra. Desci primeiro do automóvel, enquanto o parceiro ficou bebendo um gole de água numa garrafinha, ainda sentado na posição promocional de el condutor. Projetei um olhar panorâmico numa praça bela, arborizada, devidamente cuidada. Havia até uma servidora pública naquele epicentro urbano. Ora ela varria um tanto de folhas caídas no chão, rastelava outro tanto, e punha pacientemente com o auxílio de uma pá os detritos pra dentro de um saco preto postado num carrinho. Manhã agradável, eu escreveria em meu caderno de anotações. Quando de repente, ouvi uma batida de porta. Ou melhor, uma, duas batidas na lata, avistei Julinho deixando a nossa máquina do tempo. Re, vou logo ali! Minto. El condutor não me disse nada, apenas mirou de soslaio, fez um sinal de nos vemos, e saiu pro interior da praça. Eu preferi ficar ali, entre a tentativa vã de fazer com que o chip de meu celular pegasse e algumas clicadas de fotografias. Foi exatamente neste ponto narrativo que nos ocorre um sujeito “sem igual”, anunciado em linhas anteriores desta história contada. Olhava numa direção, quando me voltei com o olhar para outra, eis que surge uma figura estranha sentada num banco verde limão da praça central de Mariscala, entre duas árvores de troncos avantajados. Juro que segundos antes, eu não vira nada nem ninguém no local. O rapaz (era um rapaz) portava um chapéu típico de vaqueiro uruguaio. Olhei na direção do sujeito, que não demorou a levantar um dos braços, pronunciando, para a minha surpresa e espanto, um português cristalino, com um riso mudo que não cabia no próprio rosto de ascendência indígena. Disse-me em alto em bom som: “perdido por aqui, amigo?!”

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Cap. 61. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

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El fuca blanco na mira de outros automóveis em Mariscala

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

Chegamos em Mariscala exatamente às 10h de uma segunda-feira, 2 de janeiro de 2014. Estacionamos El fuca blanco numa rua de entrada do município, a alguma distância para dentro do perímetro urbano. Julinho desceu, soltou a porta do veículo, que desta vez fechou na primeira tentativa. Diferentemente da porta de el condutor, a minha porta teve que receber uma forcinha extra pra fechar. Por causa do desnível da rua – uma banda do carro ficou inclinado para baixo, do lado do copiloto. Se me recordo bem, paramos em frente a uma loja da Antel, a empresa de telefonia estatal. O chip que eu comprara dias atrás, em Río Branco, de fato, não estava pegando em meu aparelho celular. A nossa sorte era que o celular de Julinho, de operadora brasileira, também pegava no país vizinho. Usávamos o GPS para nos localizarmos e a conexão de internet para postar fotos em nossa página no Facebook, é bom que se frise. Embora menor do que Jose Pedro Varela, Mariscala era mesmo mais bonita.  À primeira vista, mais arborizada, mais calma. Quer dizer, tranquilidade é quase um lugar comum nas cidadezinhas uruguaias. Mariscala, voltemos ao nosso então cenário de pouco mais de 1.500 habitantes. Veja bem, Julinho, estamos caminhando para a metade da segunda década do século 21, certo? Chamei a atenção do parceiro para dois carros rentes a duas sarjetas logo à frente. Um deles tinha um visual parecido com o do velho Passat, o passatinho brasileiro; já o outro, eu não soube identificar o outro, mas me pareceu um modelo importado e muito comum na Cuba das emissoras de tevês colonizadas, com data de fabricação de 100 anos atrás. E, claro, da primeira impressão ainda pudemos verificar outra imagem comum no Uruguai: o registro de pessoas idosas. Uma faixa populacional considerável… A apreensão de tal retrato não tomaria mais do que cinco minutos de nossa atenção. Eu, particularmente, estava enrolando para poder entrar na loja de telefonia estatal. Mais uma vez, dei com meu ombro no ombro de Julito. Es tu quien va a hablar! Passamos pela porta, onde dois brutamontes guardavam a segurança do local. Dissemos em voz conjunta de cumprimento: Buenos dias! Julinho tascou a hablar, rente a um balcão com duas atendentes: Me puedes ayudar…?

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Cap. 60. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

atualizado 9 agosto 2015 Deixar comentário
O primeiro sinal de uma cidade que não estava no mapa

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

José Pedro Varela ficara pra trás. Com certo pesar, Julinho e eu deixamos a cidade numa manhã, após breve suco antirressaca numa loja de conveniência. Aquela vontade de ficar mais… Olha que Varela não é uma cidade que se possa dizer: “olha que cidade bonita pô que cidade fantástica…!”. Não, é uma cidade pequena, agrícola, quase abandonada pelo poder público. Aliás, esta nossa lógica de que as cidadezinhas do fundão do Uruguai são todas abandonadas pelo poder público pode ser uma furada. Há que se reconhecer esta hipótese, não, Julito? Numa breve desviada de olhar, el condutor fez que não entendeu o que eu havia acabado de dizer. Pra variar? Eu tava pensando alto. Já o parceiro se concentrava na direção de El fuca em plena Ruta 8, a rodovia que nos abria caminho para a capital Montevideo. Nosso carro, a propósito, até então nos surpreendia. E a sua anunciada mecânica duvidosa? Confesso que até este trecho, o medo de que o veículo quebrasse era latente. Parafraseando o ditado, carro que segue! Era apenas o segundo dia de viagem, e nos sentíamos bastante animados. Qual cidade, a próxima? Cheio de interrogações, Julinho quis saber ainda dos quilômetros rodados desde a última parada. Naturalmente, o relógio marcador de nossa máquina do tempo não funcionava. Deixa eu ver… o aparelho GPS apontava + ou – 120 quilômetros desde Varela. Na telinha em movimento já dava pra confirmar o nome da próxima parada. Pera… surge uma placa no alto de uma pista de mão única. Mariscala! Na hora ou numa associação de imagens de ressuscitar a minha infância, lembrei-me do nome de uma prima, a Maristela. Mariscala, Mariscala, mentalizei pra não pronunciar o nome errado.  Enfim, quase dentro da cidade que não estava no mapa que trazíamos a bordo. Até ali, uma novidade em nossos currículos. Será que é um distrito, Julinho? Será que Mariscala tem alguma loja da Antel? (Neste ponto da viagem, eu havia percebido que o chip que eu havia comprado da empresa estatal de telefonia não estava pegando direito em meu aparelho celular.) Jogo uma isca pro peixe sem aquário do banco ao lado: será que em Mariscala tem mulher bonita para el condutor? Julinho, com seu notável sorriso de dublê de galã, logo empinou as orelhas de súbito contentamento.

(continua)