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Clímax

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por Daniel Baz dos Santos

Numa mesma etapa de chamas
nossa pele é um dia áspero.
Fora de teu corpo, um chão
que já não se cria nas vozes das frutas
também não aclara as carícias,
com as quais te ofendo.

É que nos esquecemos de voar
ocupados com outras verdades.

Instauramos a carne.
Polpa enfurecida
que aproveita o aço
e gorjeia o pão.

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Catulo

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por Daniel Baz dos Santos

Catulo, não colhi os sargaços.
Catulo, Catulo, não lavei o nariz.

Teu deus te mente.
Essa gente é chata.
Ninguém ri.
Ninguém peida.
Ninguém dança.
Ninguém chora.
Mas todos têm um irmãozinho,
que adoram e ajudam a criar,
e só bebem refrigerante
nos fins de semana.

Catulo, não é só a poesia
que está com as plumas desfeitas.
Nem aqui nem na China
se diz pra lá de Bagdá.

A fome só se entende de dentro pra fora
Catulo.
O mesmo não se espera da poesia
Catulo.
A fome não escolhe pelo
Catulo.
Dá no rato, dá no gato, dá no cão.
Até deus se ilumina quando devora.

Catulo, Catulo,
se é razão que queres, cuida antes
do trigo dos ovos do leite.

Eles já sabem incendiar palavras.
Não deixarão nada aos teus animais.
Toda terra se finge de morta
e não rouba mais do que pode, Catulo.

Teremos que nos entender bem depois,
Catulo,
numa colina, entre a maré e o suor,
interrompendo o que o outro não diz.

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Sem correria sem galopes sem fumaça

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por Daniel Baz dos Santos

ou era mais fácil
sem correria sem galope sem fumaça
tomar esse terreno entre a sombra e o sangue
em que ele me oferece bolachas moles

depois me lambe como se procurasse pratos
o sabor do grito o tempero da lágrima as águas desalojadas
a fruta protegida dos desabamentos da pele
e me fala e me fode trancando meu cheiro no fole
pétala vomitada pelo enfastiado vento

ou era mais fácil tomar de um osso precoce
que cresce onde a fome não diz
e desfiar outra pele tocada a teias
ele grita eu cometo a prateada asa
o negro casco amolado entre dentes
______

Texto publicado originalmente em Invitro.

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Não foi só frio o que senti

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por Daniel Baz dos Santos

Não foi só frio o que eu senti
desses que expulsam as serpentes prenhas
e encorajam as aranhas insones.

Olhei dentro dos teus olhos
e vi um caldo que não se come,
e o corpo velho de um animal traído.

Esse vento sempre venta, essa alma sobre as roupas,
e tu não imaginas quantas vezes calei
do lado de dentro da palavra viva.

Olhei dentro dos teus olhos
e vi uma carne apressada,
menor do que a mosca morta,
que confundiu frutas e flores.

Não senti somente frio,
sobraram-me os calores pequenos
(daqueles que não se engolem)
depois que nos separamos.
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Texto publicado originalmente em Invitro.

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Relevância

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por Daniel Baz dos Santos

Muito de mim não se usa.

não farei falta às violetas
como uma corcova não faz falta aos açudes
ou uma pálpebra seria supérflua
no pequeno rio que não sonha

à espada cega só resta
viver de seu mantimento de brilhos
o importante é ter repertório
para ser destroço, beira de cor
pois não há nada como passar

quando já se foram também os verões
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Texto publicado originalmente em Invitro.

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Paternidade

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por Daniel Baz dos Santos

Presta atenção na tua morte, meu filho.
Te alimenta
do doce do salgado do amargo do azedo
– todas as descendências da fome.

Toma do martelo, da enxada, da vassoura.
Livra-te das paredes, das plantas, das poeiras.
Ou frequenta o frio dos que sonham.

Tua mãe enfurecida escolhia o feijão
com os dedos magros de nos pedir silêncio
e um cadáver imperdoável na voz.

Se sentes fome, não posso te dar
menos do que mais um dia.
Nada fica fora por tanto tempo
decidindo se mata ou se engorda.
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Texto publicado originalmente em Invitro.

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Clarim

atualizado 28 setembro 2015 Deixar comentário

por Daniel Baz dos Santos

Retornar ao princípio.
Um homem restaurado vale mais
do que um coração antigo.

O mar acorda coberto de sangue e roubado.
Observo o espanto em seus arquivos de sal.
Voltar ao princípio.

Como pode a marcha antiga –
A Secreta Música –
ser só transformação.

Há algo no princípio.
O céu foi interrompido.
Devemos atingir a antessala da memória.

Sejamos a primeira escolha da catástrofe.
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Texto publicado originalmente em Invitro.

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O amor segundo a urgência

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por Daniel Baz dos Santos

Preserva-me a um mar de distância
da quilha da noite.
Já perdi pai no teu voo noturno.
Tuas plantas cansadas distraem minha mãe.

Em nosso corpo há uma boca que regressa;
e um mês não contado.

Preserva-me antes das árvores fracas
a brigar por uma lâmina de sombra.
Nosso caroço florindo
a úmida trégua da pólvora.

Parte-me a casca dos lábios
onde voa a madrugada mansa.
Então direi:
“Basta uma fruta aberta
Para agitar as brisas da morte”,
e com uma única carícia
abafaremos os ruídos
dos que ainda se alimentam.
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Texto publicado originalmente em Invitro.

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Indisponível

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por Daniel Baz dos Santos

Tinha eu de frequentar o amor?
Onde na boca nasce um lírio branco
de estrela funda
e a noite é mais um gesto
dentro dos dedos.

Demorei tanto para voltar
que encontrei-me já povoado
e indisponível.

Tinha eu de frequentar o amor?
Descobrir o lento coração das pérolas.
O rosto calmo como um alimento.
Um rio sem ambições tragando os olhos.

Com teu sabor invento a fome.
Com teu nome, escolho um lado,
batizo os vultos.

Indisponível.
Tinha eu de frequentar o amor?
As veias dançam como estilhaços,
faíscas de sal e sêmen.
Sobra um lábio amanhecido
– nítido, reconstrói o mar.
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Texto publicado originalmente em Invitro.