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Senha (homenagem à Adélia Prado)

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por Daniel Baz dos Santos

eu sou um homem com chuva e chão
curvas íngremes em um sorriso contra o muro
torço pelo sol toda manhã
me cerco de palácios que ardem
marcando meu manto da fumaça dos versos
máscaras que a madrugada forja com vinho e sêmen
penetro clandestinamente o alfabeto
sua tradição de distância e semente
e colho, na hipótese, um minuto da flora

sou homem com H de Hímen!

eu sou homem sem espada
a cabeça que eu apoio nos ombros
é a própria cabeça por mim degolada
sobre meus escombros
não tenho farol nem martelo
não se encontra ferramenta em meu armário
vou gerar um pão sem farelo
vou colher uma flor sem horário

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O sexo

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por Daniel Baz dos Santos

O sabor da noite dentro dos mares
E o mar farto como um espelho.
Um perfume maior que agulha;
sinais do voo óbvio
dos dedos.

A saliva resolve o silêncio.
E o silêncio termina em veia.
A boca brilha como chuva.
O mar teso como teia.

Um grito guilhotina os olhos,
abrigo de cães e estrelas.
Uma flor exilada na mudez.
Um ruído queima nos pelos.

Partiremos de manhã
se existirmos.

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Com a palavra precisa

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por Daniel Baz dos Santos

com a palavra precisa
costuro o céu em teu corpo
terminaram-se os dias
mas em outra canção

com a palavra precisa
alimento tua pele
teu nome é um contágio
e dói como se fosse livre

com a palavra precisa
mato de fome tuas mãos
o vento é um falso caminho
e respira por nós

com a palavra precisa
torno-me legenda de pássaros
bebo a água funda de tua voz
sobrevivo à bondade

com a palavra precisa
abro a tarde e te reconheço
depois é que feridas e portas
se completam na saída do corpo

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A suficiência de deus

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por Daniel Baz dos Santos

Não quero comer animais.
Saio pela rua e as sombras
ambicionam meu silêncio,
meu crepúsculo colorido,
minha névoa empoeirada.
Não quero comer animais.

Ando pela praia,
farelos de pão nos cabelos,
quero temê-los, aos homens
que buscam o sossego
armados de desculpas.

Não sou eterno, mas posso ser salvo
em ambas as pontas da espada.

Os peixes são tão humildes
que não podem se sacrificar.
Quero comê-los crus.
Abandonar em seu lago dormente
minha lua vazia.
Nada se promete a um peixe.
Exceto a fome, rugindo entre os dentes,
um golpe de panos na pasta dos olhos.

Não quero comer animais.
Entro no carro. Alguém me rouba.
Deus sofrerá em outra gruta.
Em qualquer escassa tinta,
minha fome se enredará aos pássaros.

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Adoro quando dormes aqui

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por Daniel Baz dos Santos

entendo
coisas que tua pele canta
caos de pelos e sílabas
flores tropicais
abotoadas na língua branca

ponho a roupa do trabalho
sobre o pijama
carrego grãos da cama
lama e o orvalho na boca

no meio da tarde
um anjo de muletas
e moletom
vasculha nossos lençóis
consome nossas migalhas
está atrás de uma cicatriz
para cobrir a genitália

adoro quando dormes aqui
entendo coisas que tua pele canta
mas não diz

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Av. Buarque de Macedo

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por Daniel Baz dos Santos

Na Avenida Buarque de Macedo
há um coaxar de vidros.
Desastres de carro perfumam o céu.
E o céu se enterra num chocalho de pássaros.

Bêbados tristes vestem um coração
que vibra como aplauso.
Os cães não se lembram de estarem mortos,
rasgam brancos da infância nos dentes podres.

Na Avenida Buarque de Macedo
há flores precisas e silenciosas como números.
E patas feridas sob os altos voos.
As vozes formam uma água onde flutuam dentes,
ou seriam sílabas de areia e cicuta?
Os gatos equilibram abismos de seda
onde dança o negro original
e astros se fingem de sementes frescas,
nos espreitam pelo aberto da fome.

Mulheres velhas se revezam na fumaça
de buzinas e licores.
Mulheres velhas fedendo à urina alimentam de amarelo os mendigos.
Um calafrio acende seus olhos de rã.
Olhos empapados de silêncio e espanto.

Na Avenida Buarque de Macedo
beijos dissecados fervem no asfalto.
E sonhos furiosos necessitam de cavalos
para escapar das grades dos cílios.

O homem que descobriu a cura do câncer
nada sabe de teus encantos.
Mas não morreste no parto e tua dor
é como um túnel para as formas abandonadas.

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Sob as unhas

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por Daniel Baz dos Santos

Teu corpo cresce
como o crepúsculo
no final dos pães.

Sonho que crepita em furioso animal,
recordo minhas mãos
na sede de tuas roupas.

Teus olhos rangem como a noite.
Dois fantasmas desarmados
entre os aromas da infância.

As crianças que nos desmentem
já dormiram.
A madrugada quente sob as unhas.

Pesadas em nossas costas
todas as coisas que voam.

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Oferta

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por Daniel Baz dos Santos

Teu corpo não é ambiente da pele.
Grito sem piso
de dois corpos ventando.

Sonata de tábuas
dentro das mãos

Ruído de saia
ou fruta cortada?
Bebo a espuma
da lua ofertada.

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O hálito

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por Daniel Baz dos Santos

Precária, minha voz,
coberta por um fogo preguiçoso
auxilia cavalos magros
a pertencerem à própria morte.

Eu canto porque o hálito é pouco,
ainda que ajam perfumes
mais vastos que o pão
nos pastos do sangue.

Não te posso dizer “cala”.
Não te posso dizer “diga”.
Arrasta tua voz qual asa;
nela ecoa ainda
um céu desabitado.

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Panorama de mentiras interditas e futuros inalcançáveis

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por Daniel Baz dos Santos

I
Existe alguém que dirá:
o céu protege os assassinos.
Nem eu, nem tu, nem nossos pais
poderemos compreender a dor
de um azul que não presta pra pétala.

Existe alguém que dirá:
não há rocha que suporte o parto.
Tem uma queimadura delicada
em cada criança que ama
sem saber onde desembarca o sangue.

Existe alguém que dirá:
o pássaro é um naufrágio de cinzas.
Mas é na memória que as areias descansam do amarelo;
o marfim é uma erva entre os sucos da pupila;
e novos ácidos são descobertos porque obsoletos.

Eu digo: levanta-te e recebe
um ramo de veias vazias,
o barro desonrado,
o cadáver de um grito.

Ninguém te amará
se estiveres completo!