Av. Buarque de Macedo

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por Daniel Baz dos Santos

Na Avenida Buarque de Macedo
há um coaxar de vidros.
Desastres de carro perfumam o céu.
E o céu se enterra num chocalho de pássaros.

Bêbados tristes vestem um coração
que vibra como aplauso.
Os cães não se lembram de estarem mortos,
rasgam brancos da infância nos dentes podres.

Na Avenida Buarque de Macedo
há flores precisas e silenciosas como números.
E patas feridas sob os altos voos.
As vozes formam uma água onde flutuam dentes,
ou seriam sílabas de areia e cicuta?
Os gatos equilibram abismos de seda
onde dança o negro original
e astros se fingem de sementes frescas,
nos espreitam pelo aberto da fome.

Mulheres velhas se revezam na fumaça
de buzinas e licores.
Mulheres velhas fedendo à urina alimentam de amarelo os mendigos.
Um calafrio acende seus olhos de rã.
Olhos empapados de silêncio e espanto.

Na Avenida Buarque de Macedo
beijos dissecados fervem no asfalto.
E sonhos furiosos necessitam de cavalos
para escapar das grades dos cílios.

O homem que descobriu a cura do câncer
nada sabe de teus encantos.
Mas não morreste no parto e tua dor
é como um túnel para as formas abandonadas.

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