Ah! Ah!

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atualizado 21 janeiro 2018 Deixar comentário

por Renato Renato

Como se eu ainda caminhasse cotidianamente pelas calçadas encardidas de uma velha Tarumã. Não é possível que não exista lixeiras em nosso perímetro urbano!? Só algumas cestinhas perdidas de períodos anteriores de uma bigoduda monarquia local, quando não se sabia se qualquer tipo de retaliação alheia podia, subitamente, surgir na nossa reta.

De fato, há tipos de truculência em todas as superfícies e lugares possíveis. E o que fazer diante da falta de compostura, habilidade ou civilidade alheia? O dito homem forte – sei de um amigo que olha do lado com percepção de paranoico quando cita o bigodudo.

Se eu falar um “A”. Ah! O azar pode ser o meu! Ah! Posso sofrer um golpe de mestre, uma perseguição mesquinha? Ah! Posso ser um alvo de um lança medieval fora de época?

Curiosa invenção esta ideia de que eu podia sofrer um golpe de mestre. Não, não posso estar falando de um contexto histórico desatual? Eu devo estar fantasiando… Monarquia citadina? Parece que faz muito tempo, não? Não, não faz muito tempo. Numa época em que o povo tarumaense era só paisagem, e a paisagem gostava de ser paisagem. Corrijo-me: parte da dita paisagem local, antes reprimida, representava um riso deslocado no rosto, no limite de um “ar situacionista”, uma estratégia de precária oposição política e de reles sobrevivência física.

Parte da parte da paisagem, aliás, cogitava: um de nós logo assume o trono! Esta proposta de monarquia suscita agora uma reflexão de um sujeito sem torcida: não mudou nada, nada mudou! A história de Tarumã começou a arremedar a história das velhas civilizações, logo vi. Uma insinuação que cheirou mal, como cheira mal a falta de lixeiras em calçadas de todas as cidades do mundo. No ambiente social citado, a ideia de monarquia só pode cheirar mal. Carai! Por força de proximidade, qualquer figuração de monarquia deve cheirar mal.

Lembro-me. Numa sessão da Câmara Municipal, no ano de 19xx e lá vai pedrada, num dia xis, um vereador tarumaense proferiu um discurso com certo paradoxo de nostalgia: o “ditadorrr” não está mais entre nós…! Sob olhares paisagísticos, o vereador anti-monarquista e com a cara deslavada de quem ambicionava ser um futuro monarca provocou um silêncio na plateia presente à sessão. Muita gente se assustou com a sua fala de futuro!

Como se eu tomasse uma parte do tomate pobre no chão, despertei feito uma múmia para a luz do dia seguinte. O comentário do dito anti-monarquista da cara deslavada de pretenso futuro monarca gerou em meu organismo uma estranha sensação de vida social. O vereador foi expressivo: alívio de perseguição política? Ele reiterou: O di-ta-dor! O ditador acabou!

Ah, nobre vereador narrado, os bastidores da História não guardam muitas partes limpas, e a então paisagem de Tarumã não fugiria nem fugiu nem foge à regra geral.

O poder subiu à cabeça do vereador? Confesso que não sei dizer. Confesso que não sei dizer se o poder sobe mesmo à cuca de todas as paisagens. De minha parte, só acho que posso a pensar que posso sair de casa e fantasiar um pouco com liberdade. A propósito, agora sou um pária assumido, e me julgo livre pensador para falar qualquer “A”. Ah! Agora posso falar quantos “AS” eu desejar! Ah! A verdade é que sempre faltam lixeiras nas calçadas da vida!

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