A Namoradinha de Tarumã – parte 2

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atualizado 16 janeiro 2018 Deixar comentário

por Renato Renato

– Demorei?

– Demorô!

– Calma, Namoradinha! Não falava com você.

– Não?! Ué…

– Eu falava…

Sou interrompido:

– Cê… Ué, cê tem hábito de falar sozinho?

Vi logo que a doce Namoradinha não ia entender a proposição de um aparente monólogo. Não acreditaria se eu também lhe considerasse, em plena explosão de minha então juventude, que eu já conversava com fantasmas.

– Renatooo! [Eu sem querer, percebi na pronuncia da doida, um sotaque francês]

– Ai, meus ouvidos…

– Tou falando com vo-cê, [ela capricha na ironia] amor querido do meu coração! Cê parece que tá viajando na maionese, hômi… [mãos na cintura] Olha pra mim? Tou te falando!

– Ai, ai… Perdão! Me perdi com os pensamentos.

– Looouco.

– Bom, Namoradinha, tá aqui mais uma latinha de coca.

Súbito, a moça fica mais contida. Desmancha sua pose de durona. Tasca um olhar estranho e selvagem pro meu  lado. De minha parte, analiso seu desempenho cênico.

Agora ela brinca com a ponta do canudinho penetrando-o entre os próprios lábios. Mira em mim de alto a baixo. Solta um risinho corriqueiro:

– Gólinho?

Tento ficar indiferente; dispenso o “gólinho”.

– A gente falava de seu “mais novo romance”?

– É – ela me responde com o canudinho ainda preso à boca.

– Posso saber quem é? Não posso?

Finjo impaciência. A Namoradinha de Tarumã parece não se importar com minha impaciência fingida.

Casado? Autoridade municipal? Ela deixa escapar em tom telegráfico:

– É o máximo que posso te falar, agora chega, Renatooo!

Êta, que a conversa tava ficando boa! Namoradinha “de caso” com uma “otoridade citadina”. Hi, hi… De repente a imaginação aflora fundo; logo imagino possíveis perfis do “dito cujo”. Mas canso rápido do exercício mental. Viro-me na direção da moça, que nesta passagem acena sorridente para um “sujeito suspeito” que acabava de passar dentro de um veículo Toyota. “Ei, olha aqui!?”

– Quê? – ela me responde sem me olhar direito no rosto.

– Não vai falar o nome, né?

– [Vira-se para mim] Não posso querido. Ele é muuuito conhecido em Tarumã.

Digo quêêêêêê. Ela disfarça. Eu, perdido em reflexões filosóficas sobre a possível grife do shortinho jeans azul curto da Namoradinha de Tarumã, até que ela arrebata o pouco de papo que sobrou entre nós:

– Querido, vou logo ali, perto da [hoje antiga] Adega do Paçoca. Já volto, tá?

Tá. Volta… Sei… Ganho um selinho no canto da… face!

A Namoradinha de Tarumã desce faceira a Avenida, enquanto alguns passantes torcem o pescoço para a vibração popular do contorno sadio de seus quadris. Êta ferro, que cintura tem esta mulher…! Se notei bem. Sim, se notei bem. Meus fantasmas foram testemunhas:

– Como esse povinho citadino é olhudo!

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