A herança de um estranho vazio

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atualizado 30 outubro 2015 Deixar comentário

por Mochilowski

Os meus primeiros passos na casa de recuperação para almas e corpos, sendo franco, não foram meus os passos primeiros propriamente ditos. Me puseram em pé, fui posto na vertical, com os olhos abertos para uma luminosidade antes escondida de um quarto de repouso forçado. Havia ficado deitado e recluso por dias, até uma alta médica me libertar para o convívio social. No instante em que senti as pernas bambas, duas enfermeiras descravaram suas mãos de meus braços. Assim pude voltar a sentir a gravidade nos pés. Sem falar e tossindo uma feliz tosse de ar puro há muito não aspirado, notei as duas santas se afastarem. Elas não me disseram nada, sem instruções eu fiquei. Ali, paralisado, quieto, solto.

Acima, um teto alto de uma casa-grande tipo aqueles casarões dos barões e calhordas do período colonial. Por um instante, eu fiquei vidrado com a altura daquele forro de construção setecentista, aquele cenário que reluzia ao meu redor enquanto a minha visão ia sendo restaurada pelo brilho da pintura presente. De fato, eu estava mesmo numa área coletiva daquelas sedes onde um dia sinhozinhos e sinhazinhas correram para lá e para cá, em exercícios diários de enrijecer os músculos…

Lembrei-me das próprias pernas e de um atrofiar. Suspendi os pensamentos, porque não estava mesmo pensando coisa com coisa. Nem me notei vendo coisa com coisa ou enxergando direito. Então…? Surge então do outro extremo de uma área-corredor social, sob um piso vermelho de noivos, a figura de uma moça de cabelos lisos e ruivos. Ela parecia estar com as mãos na cintura, ela parecia ao mesmo tempo me encarar. Míope, eu só podia perceber nela um vulto. Ela estava distante, de vestido curto e branco.

Não demoraria muito aquela representação de encaramento recíproco, aquela mútua, conflitante ou amável troca de olhares: “amor, você por aqui!?”. Senti uma mão chocar-se, fora do script, contra um de meus ombros, seguido de um “ei, rapaz!?”.

Olhei de lado. Sem entender o alô de um cidadão fardado que eu até então nunca tinha visto mais inoportuno.

Voltei-me novamente para o retrato de vida anterior, que começou a ser atravessado pela entrada de internos que surgiram não sei de quais portas e de quantas aberturas laterais.

Tentei ficar na ponta dos pés para ver melhor a face daquela.

Impossível. A multidão já havia tomado a minha visão de mundo.

Foi em vão me esforçar para tentar ver o retrato único.

A multidão realmente engoliu a extensão de meu horizonte.

Aliás, os internos vinham em minha direção.

Fiquei parado na contracorrente de uma horda andante.

Eu saberia depois, o destino deste povo fora um restaurante.

Da passagem dos esfomeados, me sobraria o silêncio.

Do desaparecimento da ruiva, a herança de um estranho vazio.

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