A descoberta do Mundo das pulgas

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por Mochilowski

Uma tarde de passeio ou uma revisita ao Vale do Anhangabaú, região central de Sampa. Mais precisamente, fazia a vez de periodista no chamado Mundo das pulgas. Depois de prestigiar um show dominical de João Perreka e os Alambiques, A. e eu demos dois, talvez três passos e pouco na direção de um fervo. Literalmente, num pulo? Não que metaforizássemos o nome daquele mundo com destacada – ao menos pra mim – dimensão fabuladora. O retrato das pulgas era fantasia, mas a sua atmosfera de vida social era bem concreta. Os cigarros clandestinos, que mencionei em um diario anterior, continuam neste como uma quase mensagem no ar entre os figurados vivos mortais. Bem, não tive problema algum em entrar no clima de vendedores e de compradores. Até me senti bem como uma animada pulga entre outras supostamente nominadas. Não escancarei pra menina tranquila se ela estava gostando de ser uma persona. Achei melhor deixar minhas abstrações na cachola, sem promover uma batida sensação de pulgas atrás da orelha. Mas minutos antes fiquei curioso pra descobrir o nome da feira… Não, não foi difícil descobrir o nome da feira de domingo naquele cenário onde democratas nativos costumam celebrar datas e momentos históricos. Se me recordo bem, foi um vendedor de livros que me informou que a tal feira ocorre uma vez por mês naquele espaço. Digo, o sujeito não assegurou precisão da informação. Assim como A. e eu, o vendedor de livros usados a quem eu me dirigi com a primeira de minhas entrevistas informais estava ali, fazendo a vez de pulga, pela primeira vez. Tá, não sabe; também não sabemos. Pensei. Que tiozão é este que não sabe onde vende suas mercadorias? Vem pra feira e não sabe o nome da dita cuja. Fiquei tentado em reproduzir uma ênfase retórica como um duvidoso ator indignado, a poucos passos de um dos monumentos mais tradicionais da cidade: o Teatro Municipal. A uma breve distância e por mais de uma vez, dobrei o pescoço e mirei um horizonte contemplando o monumento onde Mario de Andrade, Oswald de Andrade & cia fizeram história em 1922.

De volta ao presente. Eram tantas os vendedores de livros que eu quase não me contive. Um perigo estas pulgas vendedoras de livros! Eu não podia ver livros, e já pensava em comprar. Já A., não podia ver roupas. Isso! Tinham roupas no local. Os vendedores queridos não estavam pra brincadeira. Tinha muita coisa à nossa disposição. Livros, roupas, sapatos, quadros, pulseiras. Peloamorde. Como tinham bijuterias naquele pedaço! Mas foram os livros que me chamaram mesmo a atenção. Em especial, um deles. Mirei bem numa capa. “Quanto é?” “Quarenta?” Segurei o título nas mãos. Li bem: Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freire. “Hummm…”, fiz em voz alta. O vendedor ficou apreensivo com o meu “hmmm…” (me perdoe, o vendedor não ficou apreensivo com o meu “hmmm…”). Pensei na solitária nota de 50 em meu bolso. Fiz suspense. Disse ao sujeito que voltava depois.

Na verdade, eu não sabia se voltaria depois. A menina tranquila pareceu interessada em andar. Andamos e paramos um milhão de vezes pela feira. Enquanto A. folheava um cabideiro de vestidos, eu só conseguia processar frases atravessadas num monólogo interior: “Casa Grande & Senzala…”; “Quarenta pilas…”; “Compro…?”; “Compro ou não compro…?”.

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Bônus de imagens do episódio

                      

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