A descoberta de uma velhinha

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atualizado 27 setembro 2016 Deixar comentário

por Jose Mochila

Chego a Jaguarão e descubro que a cidade então completara 158 anos de existência. A primeira informação que colhi do município? Obtive-a de uma entrevista particular perto de um espaço de circulação pública chamado Praça do Regente. Pela força do destino, vá lá, veio-me uma velhinha de 100 anos de idade. A velhinha – eu pude presumir no caminho de ida e de volta de um centro urbano – costuma ficar presa a uma cadeira de balanço, num exercício diário de provocar um bom dia, uma boa tarde e, após um necessário intervalo para um toalete, quem sabe uma boa noite aos passantes de uma calçada de chão irregular.

A velhinha morava numa casa grande de arquitetura açoriana; bem me recordo, existia uma escola numa esquina próxima ao tal casarão, onde um policial militar com feição de aposentado marcava ponto sem muito abrir a boca; por perto, existia um clube aparentemente interditado, bem do lado oposto da escola, que agora me foge o nome. Os caros passantes locais de época poderiam confirmar o que eu reproduzo neste instante de falta do que fazer na vida; se os leitores pudessem voltar no tempo e pisar comigo naquela calçada e dar um bom dia, uma boa tarde ou uma boa noite para aquela velhinha… Ela é tão carente de atenção pública!

(Quero crer que a velhinha seja filha de um morador do tempo da fundação do município; ela me assegurou a idade de Jaguarão com o fervor dos bairristas.) Eu dizia? Eu vinha caminhando pela Avenida 27 de Janeiro, quando esbarrei com a figura da velhinha centenária. Indicaram-me o centro para uma visitação, pois fui até ele caminhando, caminhando, caminhando. Após cumprimentar a velhinha e lhe fazer uma pergunta fundamental, segui adiante.

De posse da informação de que Jaguarão ostenta a imagem de um bairro que não nasceu ontem, me dirigi a um destino com a seguinte premissa de periodista: sempre que um farejador de intrigas chega numa povoação, o centro desta deve ser mobilizado, testemunhado, tocado de alguma forma. É do centro que se pode fazer um retrato fidedigno de uma urbe. E mais: observando a arquitetura que veste a elite de um povo é que se pode perceber melhor a feição de uma dada fração da humanidade. De certo, me manifesto pelo pendor de uma didática.

Chego exatamente ao epicentro de Jaguarão. Meu Deus, o que vejo? Piso numa Praça Central com bancos vazios e flores murchas; esbarro com uma Igreja Matriz fechada com um grande cadeado de porta de cadeia da Era medieval de que nunca tivemos notícias; ao mesmo tempo em que vejo uma central de pecadores potenciais, avisto a poucos metros um par de bêbados babando grosso num meio-fio. Em outras palavras, deparo-me com um dado comum de todos os ajuntamentos sociais; passo a ver Jaguarão com o seu devido lugarzinho no mapa.

 

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