3/9 – Em Santa Rita

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atualizado 18 outubro 2016 Deixar comentário

por Marisa Veiga

– O ônibus quebrou, gente…! – uma aluna mais informada comunicava em voz baixa e sem alarde para que a notícia se espalhasse aos cochichos.

– Por que estamos parando, vai abastecer?

– Pode descer pra fazer xixi?

– O ônibus quebrou mesmo, gente! – repetiu a aluna informada mais alto e de forma mais enérgica. Senti no ar o desânimo coletivo. Não ia abastecer. Podia descer pra fazer xixi.

Era aproximadamente 19h00min de um sábado, dia três de setembro de 2016. O Professor Douglas, que até aquele momento não tinha um perfil definido no meu arquivo mental, convoca uma reunião extraordinário lado de fora dos ônibus, em um, aparentemente, posto de beira de estrada em uma cidade que ainda não sabíamos qual era.

– Meninos e meninas o ônibus quebrou. Estamos tomando as providências possíveis no momento. Não sabemos ainda quanto tempo ficaremos aqui – mais ou menos essa foi a fala do professor Douglas, que apesar da situação transmitia ainda muita tranquilidade e confiança.

Pesquisas nos informaram que nos encontrávamos em Santa Rita de Passa Quatro, estado de São Paulo, a cidade que – segundo nos disseram – abriga o maior jequitibá rosa do país. Seja lá o que isso signifique.

Havia uma churrascaria ligada ao posto em que estávamos. “Como vamos ficar aqui por tempo indeterminado e tem banheiro, não custa tomar uma cerveja”. Comprei uma latinha e me aproximei de um grupo de alunos que ainda não conhecia, e que pareciam receptivos. A conversa se desenvolveu tranquilamente, cada um bebendo da própria latinha, ou não bebendo nada, e trocando ideias sobre a nossa situação, sobre a situação política do país e sobre a vida.

Mesmo prestando atenção na conversa dos meus recentes contatos, fui levada a algumas horas antes, na partida da universidade. Todos animados com a ânsia da viagem, alunos e alunas carregando malas enormes, outros malas enormes mais cabides com capas e outros ainda carregando apenas pequenas mochilas ou bolsas de mão. Ainda me surpreendo com a diversidade de perfis que o curso de Gestão de Políticas Públicas agrega.

Não conhecia intimamente ninguém. Meus amigos mais chegados haviam cursado a disciplina e realizado a viagem em anos anteriores. Recomendaram que eu aproveitasse, pois era uma experiência única

De volta à Santa Rita do Passa Quatro, um consolo: “Pelo menos jantamos antes de o ônibus quebrar”. Estava me sentindo bem ali, conhecendo pessoas novas, tomando um ar fresco ouvindo músicas do Raul Seixas que algum aluno inspirado resolveu puxar no violão- EU QUERO DIZER-ER AGORA O OPOSTO DO QUE EU DISSE ANTES…

E assim o tempo passou favoravelmente rápido. Resolvi uma pendência sobre um arranjo de quarto com duas moças gentis que aceitaram me abrigar. Seriam minhas grandes parceiras ao longo daquela semana e grandes amigas para além.

*

A poltrona do ônibus quebrado foi uma cama bastante aceitável. Pela manhã havia muita vontade de um banho, mas na falta, escova-se os dentes, toma-se café da manhã e se começa o dia.

– Vamos fazer uma votação para decidir se os alunos do ônibus bom devem seguir viagem ou não [eram dois ônibus de estudantes que seguiam o mesmo destino]. O ônibus quebrado já está sendo consertado, talvez fique pronto em poucas horas. – O professor muito tranquilamente coordenava a contagem de votos que decidiu que todos os alunos esperariam juntos.

– Consertaram o ônibus! – Animadamente a aluna informada, aquela mesma do início de nossas linhas, comunicou depois de mais algumas horas de socialização. A churrascaria do posto da beira de estrada em Santa Rita do Passa Quatro não nos teria como clientes para o almoço.

Fazer xixi… Embarcar… Estrada novamente (cochilos seguidos…). Parada para o almoço em algum lugar…. Mais estrada (mais cochilos…).

Em algum horário entre 00h00min e 05h00min acordo com uma inquietação geral. Olho pela minha janela, ainda sonolenta e reconheço, como brasiliense que sou (sim! Nasci na capital federal!),a Esplanada dos Ministérios e toda a sua iluminação encantadora.

Meu Deus, mas que cidade linda!”. Palavras já cantadas por Renato Russo, que poderiam ter sido cantadas por mim naquele momento. E? E foram. Mentalmente.

Chegamos à Cidade Constitucional.

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