Ricardote

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O patrão do Bar do Ricardo na versão corintiana (Foto: Renato S. M.)

por Renato S. M.

Senhoras e senhores, a minha ideia fixa hoje é o dono de um boteco na Praça Guido Marlière, a popular praça Guido. Aliás, tenho quatro ou cinco leitores que acompanham as nossas histórias publicadas no blog Diarios de Mochila, como se espiassem por entre os orifícios de uma grade de um confessionário. Segundo estes quatro ou cinco leitores fiéis, quem não conhece Ubá pode pensar que a cidade não passa de uma praça com dois botecos em duas de quatro margens. Na tentativa de novamente me fazer entendido, importa dizer que volto com uma teoria declarada: as pessoas vão ao boteco para se sentirem alegres ou para de algum modo buscar alegria. Dirá o crítico mais ferrenho e cheio de razão ou cheio de si: “A alegria de boteco é uma ilusão!” Chispa! Chispa! Sai pra lá, crítico mais ferrenho e cheio de razão ou cheio de si! A razão saiu de banda, neste caso entrou uma emoção desmedida em pleno templo de biritas e distrações localizado na rua Guido Marlière, que dá nome a praça a frente.

Peço um litrão de sete reais, pra não perder o costume e os bons modos. Vá lá, o preço de bebida é de menos. Desta vez, vale considerar que o atendimento foi rápido. O novo garçom do período noturno do Bar do Ricardo, autointitulado Gaúcho, trouxe a bebida. Lembro-me bem de um dia anterior: “Você é garçom novo?”. O garçom novo, a cara de um amigo meu de Pelotas, foi categórico: “Sou! Pode me chamar de Gaúcho!”. Mais esta, mais esta! Eu pensei no amigo e professor de História Adriano lá no sul do Rio Grande do Sul. Gaúcho trouxe a bebida e um cigarrette. Ops, o cigarrette do Bar do Ricardo costuma ser do tamanho da mania de grandeza da figura do gaúcho, seja gaúcho ou gaucho do Uruguai ou da Argentina. Ah, cigarrette do Ricardote é um enrolado de massa de pão caseiro frito com miolo de presunto e queijo. Tava com fome. Sem jantar e tal. Diferentemente de outras vezes, mudei de lugar. Sentei-me numa cadeira e me apoiei numa mesa numa região intermediária do estabelecimento de biritas e distrações. E lá fiquei tomando uma e mastigando o enrolado. Busquei um olhar panorâmico, e a partir da primeira mordida de cigarrete e de um gole de cerva, eu já me posicionei na posição de quem elegeu premeditadamente um alvo. O nome dele não pode ser objeto de suspense, o nome dele só pode estar no título deste testemunho?

Avistei Ricardote como o vi nas outras vezes: andando de um lado pro outro ou em movimento de costura entre pessoas ou indo de lá pra cá de um balcão ou conversando com alguém e ao mesmo tempo fazendo alguma coisa, fechando a conta ou atendendo mais algum pedido, afinal, Ricardote é um patrão fora do comum! Ricardote, que aqui me falta o nome por extenso, é um patrão brasileiro que t-r-a-b-a-l-h-a! Puta merda, Ricardote é um patrão que coloca a mão na massa! Quem vê Ricardo pela primeira vez dentro do bar que lhe destaca o nome e não o conhece pode pensar: como este garçom trabalha, meu Deus! No dia, ou melhor, na noite que eu resolvo fotografar a figura que sustenta o nosso testemunho. Neste exato dia decisivo pras letras deste episódio. Veja bem ou imaginem: Ricardote está com a camisa do Corinthians. O nosso protagonista não é um corintiano, eu fico logo sabendo com um sinuqueiro com quem eu dividia a mesa de bebida. Sinuqueiro, aliás, é uma das figuras mais recorrentes neste descrito boteco. Não tem um dia que eu não pise no lugar e não vejo o sinuqueiro, sem camisa e com o barrigão à mostra, jogando sinuca ou observando demais sinuqueiros jogando. Longe de mim, expô-lo aqui. Sinuqueiro é uma referência para pelo menos 80% de frequentadores do Bar do Ricardo, que se destacam por não esconder os barrigotes. Eu, de minha parte, cultivo meu modesto tanquinho. Bem, Ricardote versão corintiana ia pra lá e pra cá, alegre e faceiro, provocando os amigos flamenguistas de plantão. Me pareceu uma aposta do notório torcedor do Fluminense, desfilar com um uniforme do Corinthians Paulista dentro do boteco. Pra quem não conhece Ubá… Senhoras e senhores, Ubá é puro Rio de Janeiro. Boa parte dos locais torcem pra times do estado do Rio de Janeiro. O Corinthians, um dia antes de nosso testemunho, havia eliminado o Flamengo na semifinal da Copa do Brasil. Ricardote nem disfarçava que estava tirando onda de seus amigos rubro-negros. Perdi a conta de quantas vezes ele passava perto de um, numa pausa de sua corriqueira correria, pra dizer algo em voz baixa – e que só ele ouvia – e levar o dedo indicador à boca fechada num sinal de: xiu, quietinho, pianinho, Flamengo perdeu ontem! Ricardote, como se percebe, não deixa de ser o que parece ser pra tirar sarro dos amigos. Ele faz média, se faz média, fazendo o que ele parece fazer de melhor: tratar bem as pessoas! Eu, de minha parte, conheço ou sei da figura de Ricardo, que me inspira a chamá-lo de Ricardote, há pelo menos 50 dias. Que figura! Ah, não é que Ricardo ou Ricardote não passa por mim e diz: “E aí, Renato?!”. Notem, o patrão da vez é um grande sedutor, carismático, te chama pelo nome, diz: “Como vai, Renato?!” e sai de banda. Não é brincadeira, este nosso personagem principal sabe como dizer, sabe como abordar. Imaginem que até o sorriso de Ricardote é suave?

Peço que as senhoras e senhores não riam de minha irreverência. Ricardote é educadíssimo, leve, uma espécie de extremo oposto de seu irmão: o Mendes, o doce rabugento que comanda o caixa do Bar do Mendes ou Mendes Bar. Mendes Bar fica ali perto ou num dos quadriláteros da Praça Guido. Neste ponto do testemunho, eu já estou enchendo a boca pra dizer: RICARDO É O CARA! Em tom de exagero, mas num exagero que está longe de fazer com que fujamos do sentido de nosso gênero: o testemunho. NO BAR DO RICARDO: VALE TODOS OS CARTÕES DE CRÉDITOS E DÉBITOS. Que mais? Tem bingo eletrônico, um tal de Keno. Tem mais coisas, que não convém chamar a atenção pra não expor o boteco. Nesta altura da história, sem que Ricardote saiba, dedico este diário como alguém que não consegue mais esconder a admiração ao perfil que lhe destaca a condição de um notável personagem.

Entre o inusitado e a fé desejada de uma noite de sábado maluca

atualizado 29 setembro 2018 Deixar comentário
Em um boteco misterioso de Ubá (Renato S. M.)

por Renato S. M.

Noite de sábado e eu penso que posso sonhar e ver além do que o meu focinho pode almejar. Se estou em Ubá, penso que posso estar todos os dias nas imediações da Praça Guido? Afinal, hoje é sábado e se não me for permitido sair e provar uma birita e provocar um testemunho o que seria de mim? Desço a Coronel Júlio Soares, a rua onde teria nascido Nelson Ned, o famoso: O pequeno gigante da canção brasileira. Sigo. Perambulo por umas dez quadras e viro à direita, passo uma quadra e viro de novo, agora à esquerda, e já estou na Cristiano Roças. Subo um morro, um movimento íngreme, olho do lado e noto a igreja monumental Nossa Senhora do Rosário, um notável símbolo de Ubá. Descendo o morro, vou adiante até a rua e… A partir deste momento me nego a dizer em qual boteco entro. Só sei que entro num boteco e peço um litrão. Entendam, estou agora num lugar misterioso. Corto para o elemento mágico, estou numa mesa bebericando uma Antarctica. Não tinha Itaipava, sorry.

O motivo deste narrador-personagem se encontrar num boteco sem nome declarado, meus leitores não precisam saber. O por quê de ser boteco e não a sorveteria cara da Praça São Januário? Isso também não é preciso explicar. O que posso dizer é que estou numa mesa de bar e acompanhado de um fulano. O fulano agora está, imaginem vocês, dormindo. Quer dizer, num primeiro momento, o companheiro de mesa está acordado. Me cumprimenta após eu perguntar se posso sentar ao lado. Ele diz meio sem sentido, que “sim”. Sento-me e o colega de base investe logo num sono. Fecha os olhos e esquece do mundo. Fica ele ali com a boca entreaberta, olhos fechados e fungando a atmosfera de gente que não respeita a lei anti-fumo – nos bares de Ubá, digo, nos botecos ubaenses dignos do nome as pessoas fumam à vontade, sem se preocupar com anúncios de lei federal. Eu que não tenho nada a ver com o amigo que dorme na cadeira, me resguardo da posição de testemunha ocular. Beberico mais um gole de cerva.

Sem querer pagar de deselegante, deixo o amigo que dorme na cadeira falando imaginariamente sozinho. A bexiga aperta. Lembram-se que eu falo de um bar misterioso, hoje não me lembro bem por lei alguma de onde narro. Passo pela primeira mesa de sinuca. Olho de lado e vejo uma jogada. Mais dois passos, me deparo com outra mesa e visualizo: há uma aposta sanguinária nesta! Há uma terceira mesa de sinuca? Só vejo malícia nesta, deduzo que há dois malandros treinando no pano verde, afinal, noto dois oponentes sorrindo além da conta. Mais alguns passos e me percebo num fim de túnel, na direção de um mictório. Afinal, me adianto com a intenção de mijar. Se eu fosse cagar, eu daria mais um passo e entraria numa porta ou cagaria em casa mesmo, antes de sentar num trono público suspeito. Deus do céu! A imagem com que me deparo do mictório deste bar que faço questão de manter em tom velado é de uma noção…! Nunca na minha vida me vi diante de tal cena. O que importa dizer, assim que entro no ambiente nada ventilado pra dar um famoso mijão, me deparo com um sujeito levando as mãos no cocho onde se urina. Se você não é homem e nunca imaginou chegar num mictório e ver um sujeito cavar o mictório com as mãos desprotegidas de luvas onde comumente se urina… Se você que nos lê e é homem e sabe o que é mijar em pé num ambiente não ventilado, num cocho com naftalina faltando, então você pode estranhar como nunca a imagem de um sujeito de posse de uma sacolinha de supermercado e tirando um volume de uma água mais ou menos corrente e recolhendo uma substância sólida estranha.

Se eu estranhei o que acabara de ver? Eu lembro-me de ter dito: “Meu querido, o que você está fazendo?”. “Eu… Eu…”, o sujeito se saiu assim. Eu juro que no primeiro momento eu não sabia o que se passava ali. “O que é isso, meu ca-ma-ra-da?”, se eu não disse, eu pensei com a certeza devida. “É que…”, o sujeito começou a argumentar e eu comecei a entender, segurando a vontade de mijar. Ocorria que o sujeito acabara de vomitar no mictório e, levado por uma moral fora do comum ou vai saber muito comum onde lá não sei, o sujeito que havia vomitado involuntariamente se julgou no dever de limpar urgentemente o mictório sem proteção das mãos ou num momento inapropriado. Apertado, tive que abrir a braglia da calça e dizer pro camarada: “preciso dar um mijão, sei que você está limpando e pondo a mão neste cocho metálico e sujo de bactérias, mas tenho que tirar a água do joelho…”. O camarada entendeu e eu fiquei ali, com meu pingolim à mostra e o sujeito interessado em se justificar e numa penitência particular e fora do comum: “É correto, tenho que limpar…”. Me aliviando, ainda tive fôlego pra dizer ao sujeito : “Meu querido, não precisa fazer isso, isso acontece, deixa aí, depois limpam…!”.  Em vão, eu não conseguiria convencer a figura fora do comum ou desta realidade que nos cerca nem se eu fosse uma pessoa iluminada.

De volta à minha mesa, na companhia de um sujeito dorminhoco. Quando menos espero, surge mais uma vez o autor do vômito do mictório. O contexto é que o boteco ia fechar. O camarada que usara as próprias mãos sem proteção de luvas na limpeza voluntária do mictório estava agora batendo em meus ombros, me dizendo: “Olha, limpei a mão, viu?!”. E eu em vão, disse pro camarada: “Não faz isso não, rapaz…”, argumentei pro maluco que parecia ter uns cinquenta anos e estava de saída do boteco.

Na sequência, o amigo dorminhoco que me acompanhava na mesa acorda depois de duas horas e me diz de supetão: “Hora de eu ir embora!”. Ele levanta, vai ao balcão, quem sabe quita o valor daquela sua Antarctica 600ml, que rendeu pacas ou uma noite inteira. Vi quando o cara foi até o caixa, pagou a bebida, voltou até mim e bateu em meu ombro então cheio de bactérias e sacramentou, pra fechar a noite maluca de sábado que eu tive: “Fica na fé, irmão!”.

O caso do suposto caloteiro

atualizado 29 setembro 2018 Deixar comentário
No Bar do Mendes, por acaso (Renato S. M.)

por Renato S. M.

Fiquei pensando na figura do fulano que, fazendo companhia a uma mulher, sai subitamente correndo pra não pagar a conta da bebida ou, vá lá, pra deixar de ajudar a pagar. A cena me deixou besta e com a cara no chão, ali dentro do Bar do Mendes, naquele templo das paredes e chão sebosos. Quem não me notou em outro episódio, na condição de testemunha ocular dentro do bar do querido rabugento do Mendes, vejam bem. Noto-me rente a um balcão. Há poucos instantes, um banco vazio se chocou violentamente contra o meu. A batida me fez imediatamente abandonar a audiência de um futebol na TV. O boteco lotado, até então sem incidentes, parecia querer contrariar o curso dos fatos até ali. Vi um cara correndo, tudo bem que vi de relance. A mulher, visivelmente injuriada e agora em pé, levou a mão esquerda no banco onde estava sentada e fez aquele movimento de “seu fila da mãe!”. Corrijo-me: a mulher se expressou como se tivesse possessa, indignada com a atitude de um canalha. Se ela sabia com quem estava, isso eu já não sei. O que sei é que ela teria se levantado e levado a mão esquerda que resvalou no banco onde estava com o popozão e fez com que o seu banco, no dizer técnico-policial, colidisse com o meu. O acento da mulher colidiu contra o meu e eu, logicamente, me assustei ou fiquei surpreso. Se eu não mentalizei um “que porra é esta…?”.

Foi engraçado até. O cara saiu correndo pra não pagar a bebida da mulher ou a sua própria bebida. Martelei fundo: aquela imagem na cuca; enquanto eu bebia uma Itaipava quente. Só me faltava esta: estar bebendo uma cerva quente! Estava entre indignado e resignado com aquele fato. Quer dizer, não daria tempo pra que eu ficasse ali procurando assunto para pensar ou pretexto pra pretextar. Não demorei a ficar ali chorando as pitangas com a cerva quente, a mulher injuriada se dirigiu ao caixa onde estava Mendes, o patrão do estabelecimento. Corri os olhos na personagem.  No caminho do balcão para o caixa, vi a mulher contando um dinheiro. Parecia não ter tudo pra pagar. Enquanto fingia ver o jogo, espiava aquela. Mendes atendia um cliente. Só em seguida atendeu a mulher. A imagem de que a mulher não tinha grana, passou rápido e eu olhei pro alto, o clássico argentino da Copa Libertadores estava até interessante. Independiente x River Plate. Súbito, uma voz alta interrompe a atenção de quem ali tinha atenção: “TINHA QUE SER PUTA MESMO”. Não é que era o sujeito fujão, que voltava? Por um momento eu ri mudo e pensei: “A consciência apertou, digo, a consciência pesou e o malandro voltou pra pagar ou pra ajudar a pagar a conta. Lembremos: era noite, feriado municipal”. O homem voltou, mas não foi por espontânea vontade ou não me pareceu ser, tive certeza: exatos vinte segundos depois que o fujão ressurgiu, duas companhias vieram atrás. Duas companhias, digamos assim, fardadas.

Dois policiais vieram no encalço do fujão. Eu fiquei sem saber se ligaram pro 190 ou se alguém em específico avisou a polícia. Os policiais militares chegaram atrás do suposto caloteiro, que me deixou em dúvida: chegou antes dos policiais ou chegou forçado pelos homi? Só não dei uma gargalhada, porque eu chamaria a atenção além da conta no momento. Tá, só não ri porque a cena era tensa. Neste meio tempo, o suposto caloteiro ficou ali cercado pelos policiais, forçado a pagar o que devia. A mulher ficou na entrada do boteco, falando alguma coisa difícil de entender à distância. Reclamava de algo, disso não tive dúvida. O suposto caloteiro se afastou do caixa, junto da dupla de policiais fardados. No mesmo passo, a mulher saiu do boteco falando alto e sem se fazer de entendida. Aparentemente. O carro da PM ficaria com o sinalizador giratório ligado. Dentro do boteco, Mendes não arredava o pé do seu lugar cativo. Na real, Mendes se quer esboçava reação a partir de seu caixa sagrado. Como se o caso fosse banal. Frisei em Mendes, o irmão do Ricardote, do Bar do Ricardo, instalado a poucos metros dali. E de novo a minha mania de comparar os irmãos e os botecos. Voltei à tona com um entra e sai do Mendes Bar. O fluxo de fregueses deu uma aumentava depois do caso de polícia. Eu, confesso, até esqueci que minha cerveja estava quente, uma bosta cerveja quente!

Agora observava o carro de polícia. O suposto caloteiro pego em flagrante do lado dos PM’s. Eu não entendia. Ia dar B. O. ou não? Ou o caso terminaria apenas num sermão? Pensei em me levantar e ficar lá na calçada, para ouvir alguma confidência do acusado. Mas eu estava bebendo. Fiquei em dúvida se o caso não ia terminar em delegacia. Se eu tivesse a serviço de algum jornal local, certamente eu estaria lá do lado dos policiais dizendo que sou do jornal e tal. Mas eu não estava bem numa reportagem tradicional, eu estava numa posição distinta. Os transeuntes iam e vinham, por bem atravessavam meus pensamentos. A sirene do carro de polícia aluminava a calçada, eu prevendo o suposto caloteiro sendo algemado e julgado pela moralidade de plantão. Olhei do lado, onde antes estava o casal: dois bancos vazios. Perdi as testemunham, já que as testemunham estavam numa posição nobre agora. Me imaginei ali, como se eles pudessem estar ali e dizendo-lhes: “Que coisa, não?”. Imaginei mais, investi num diálogo particular com meus vizinhos de balcão ausentes: “Olha, me permita dizer, se fosse eu, pagaria toda a conta!”. Meus vizinhos ausentes talvez dissessem: “Eh, duas garrafas de cerveja e uma batida! Se não pode pagar meia bebedeira, o que esperar da vida?”. Cortei rápido o diálogo inverossímil ou de pouca aparência verdadeira pra me certificar do que bem importava dizer em pensamento: “Não aguento mais esta cerveja quente, já tenho a minha história! Vou-me embora. Já gastei a minha cota diária”. Paguei a conta e fui-me embora, incomodado com uma súbita nostalgia ou com uma lembrança de um tempo em que eu me fantasiava de repórter profissional de cidade pequena, com carteira assinada e salário baixo, coletando um depoimento do local de um B.O., ligado a alguma redação de jornaleco aliado da atual gestão municipal e subordinado a um público-leitor de páginas policiais e sem peso de consciência.

Por acaso no Bar do Mendes

atualizado 29 setembro 2018 Deixar comentário
A Praça Guido Marlière; ao fundo, o Bar do Mendes (Foto: Renato S. M.)

por Renato S. M.

Sempre que piso nas imediações da Praça Guido, sinto-me envolvido por uma atmosfera baudelairiana e, falando difícil assim para alguns, tento-me fazer entendido dizendo que, se não me sinto na Paris de Charles Baudelaire do século 19, me vejo periodicamente na praça ubaense de nome reconhecido, por extenso Guido Marlière,  me vejo num retrato em miniatura do Rio de Janeiro dos dias atuais. A famosa Praça da Cinelândia me vem à mente toda vez que eu dou duas pancadinhas com a sola dos pés na Praça Guido, em Ubá. Tirando a falta de teatro, biblioteca, hotéis, cinemas. Tirando tudo isso, o que sobra? Bem, o que não sobra fica à margem dos olhos quando, vindo de uma caminhada da rua Cristiano Roças, dobro a esquina da Roças com a Rua Guido Marlière e dou de cara com o bar do Ricardo e, para minha surpresa, fechando para balanço diário. Feriado municipal, sabe como é? A mulher do Ricardote me assegurara um dia antes que o boteco abriria nesta data. Fechou antes do tempo e me frustraria ou me deixaria subitamente aborrecido, se eu não atentasse pra uma espécie de plano B. Como dizia um falecido ex-professor: “Tudo depende do ponto de vista”. Não é que uma girada de olhar vejo ao fundo, o co-irmão Bar do Mendes. Mendes, vejam só, é irmão do Ricardo, do Bar do Ricardo. Coisa que eu demoraria a saber. Levou semanas até que algum cristão, ou melhor, até que uma cristã me avisasse: “Ricardo é irmão do Mendes!”.  Bar Mendes, Mendes Bar, pra lá fui eu? Friccionei as mãos, deixei a calçada do Ricardote.

Dentro do Bar do Mendes. Toda vez que me vejo no popular Mendes, me vem à cabeça uma comparação inevitável com o Bar do Ricardo. O que não tem no Ricardote e tem no Mendes ou vice e versa. De início, há a diferença de público. Bar do Ricardo possui público mais velha guarda; Mendes é lugar de uma galera, público mais jovem e, digamos assim, gente colorida. Mas no feriado de São Januário, um dos padroeiros da cidade (dizem que há outro e eu ainda não sei qual), eu me notava menos sistemático e confesso que deixei a analogia entre botecos de lado. Mendes estava mesmo pegando fogo! Se quis dizer que o Bar do Mendes estava lotado? Dirigi-me a uma vaga junto ao balcão, aproveitando pra me certificar que um banco estava vago. Um sujeito acompanhado de uma mulher, ao lado, disse que estava vago. Observei bem, sentado do balcão, o balcão de mármore de cor escura. No Mendes, a freguesia parece gostar de sentar às mesas. Quer dizer, não falo de um extenso balcão. É pequeno e do qual o dono parece gostar de manter distância. Mendes, o patrão da vez, parece não tirar o popozão do caixa instalado no meio do boteco ou em lugar estratégico de onde se vê o balcão, a saída, a correria de garçons; do acento cativo do Mendes dá pra se ver o movimento e de lá se avizinha a passagem pra cozinha, onde atua um irmão e sócio; ao lado ainda há a escada que dá acesso aos dois pisos superiores de um prédio antigo. Não era a primeira vez que eu fazia este retrato. Toda vez que eu piso no Mendes revejo este retrato com curiosidade de perceber se o Mendes faz faxina do lugar. Se faz, e eu acredito que faz, não parece. A cor, o tom seboso do boteco ou do prédio antigo nunca descola da vista de xaropes como eu.

A esta altura, eu já bebericava (adivinhem?) uma Itaipava. Incrivelmente, nesta noite de feriado municipal o próprio Mendes ou a sua cara de rabugento me serviu. Pedi um litrão. Mendes pôs a garrafa no balcão. “Veja se tá fria!”, ele disse. Abraço a garrafa com a mão direita: “Não tem mais gelada?”. A resposta que me veio me fez ver Mendes como um baita retórico. “Não!”. “Vai esta mesmo”, eu disse vai esta e emendei o pedido de um quibe. O quibe. Falo DO QUIBE e não brinco com o dizer de traços garrafais, o quibe parecia uma goiaba gigante. Fui seduzido por um salgado vendido por incríveis 2,50. Estava sem jantar. Comecei a mastigar O QUIBE, pensando no que importava: “será que hoje sai mais uma história?”. Tinha saído pra rua seco pra fazer um perfil mais detalhado do Ricardote. Diferentemente de cinquenta dias atrás, agora só saio pro lazer a trabalho! Como Ricardote fechou mais cedo, surgiu a figura do irmão-concorrente da Praça Guido, que se destaca por ter dois badalados botecos (me parece, ainda preciso checar, que ainda há ao redor da Cinelândia ubaense uma espécie de gafieira, porque sempre ouço um barulho suspeito saindo de uma porta aberta do prédio da antiga Estação Ferroviária, ali instalada); duas barulhentas igrejas pentecostais dão o restante de contorno de vida ao espaço que normalmente serve de moradia pra descamisados ou pessoas que vivem socialmente às margens de. E por falar em templos, estava eu ali no chamado templo das paredes e chão sebosos, quando noto bem o casal do meu lado. Aquele mesmo casal, a quem há pouco eu pedi licença pra me sentar no banco que avistei vago.

Não cheguei a me ocupar do casal ao lado, porque não faz bem ficar filmando os outros assim na cara dura e também preferi dar um pouco de audiência pro jogo da Copa Libertadores que passava na TV suspensa numa parede acima do caixa onde Mendes parecia fazer questão de não sair de perto. Jogo chato da pêga, sô! Isso. Ressuscitei até um dito popular que eu falava e ouvia na infância: “pêga!”. Pensava eu na morte da bezerra quando subitamente senti um banco deslizar e bater com força na base do meu! Esqueço a TV e o futebol, olho de lado e já não vejo o casal, isto é, observo o momento exato que o homem sai correndo e deixa a mulher sozinha, em pé, num inusitado caso de homem que dá calote em mulher e sai numa literal corrida pra não pagar conta ou pra não ajudar a pagar a conta. Ainda vi a mulher bater firme um copo de formato americano com bebida cor laranja dentro na direção do mármore do balcão! O copo incrivelmente não quebrou, e eu passei a me ver um repórter sensacionalista de cidade pequena que se sente eufórico com um desdobramento de caso que a mulher, ofendida pelo homem, iria nos presentear na forma de um próximo episódio.

Um início de novela com classificação dezoito anos

atualizado 29 setembro 2018 Deixar comentário
Um visual do Bar do Ricardo (Renato S. M.)

por Renato S. M.

Se eu não começar reportando que cheguei ansioso ao bar do Ricardote, eu já inicio mentindo descaradamente neste primeiro diário sobre Idas e voltas em Ubá. Cheguei ao pedaço na correria, chuviscava e eu me sentia com álibi pelo temor com o clima. Entro no boteco, encosto no balcão. Estaciono rente à base e lá fico. Putz, nem nos meus pensamentos mais sombrios de repórter de bairro sem salário fixo eu imaginaria uma cena dessas. Passaram-se dez minutos de espera e eu já começava a pedir a senha por telepatia ao patrão imediato: “Ow Ricardo, me passa uma senha pro atendimento!” Ato contínuo, eu repetia a fala e ninguém ae comigo. Nem Ricardo, o dono do templo de biritas e distrações, nem o garçom único e prestativo, muito menos a mulher do Ricardo, que também atende e lá estava ocupada com um pedido na calçada… Bem, eu estava parado inclusive dentro de mim e logo minha condição de esquecido pelo mundo acabaria. Quando eu já pensava em erguer as duas mãos e investir num teatral e deselegante “porra, caralho!”, a mulher de Ricardo viera com um litrão de Itaipava ao meu socorro e sem que eu lhe fizesse o pedido formal. Já sabem de meu pedido de antemão? Quer dizer, finjo que já não sou conhecido da casa e que Ricardo não me chama pelo nome reforçando certa boa vizinhança ou tática de criar empatia com clientes.

Corto pra cena da mesa, onde divido a base de plástico com um conhecido por mim chamado Telespectador. Sempre que apareço no Ricardote, a figura lá está com uma garrafa de Antarctica 600ml na mesa e olhando pra uma televisão suspensa na parede. Na verdade, são três aparelhos no enorme espaço de não sei quantos metros quadrados. Posso garantir que é grande, comporta duas mesas de sinuca. O chamado Telespectador não fica muito na minha companhia. “Companheiro, não leva a mal, vou trocar de mesa”, disse ele minutos depois de eu sentar em minha cadeira. O chapa sai na companhia de uma boneca e aqui não faço nenhum juízo negativo. A mulher tem feição de uma boneca, embora uma boneca de certa idade. Boneca, assim a chamo sem desprestigiar, é uma personagem fundamental do bar do Ricardote, inclusive. Boneca ajuda o Telespectador a levar as suas garrafas vazias + uma cheia pra uma mesa do fundão. Eu que me encontrava meio que na entrada do boteco, com a saída de Telespectador, fiquei sozinho na mesa, vendo um jogo da Série B do Campeonato Brasileiro: Atlético de Goiás x Juventude. Aproveitava pra bebericar o terceiro ou quarto copo de cerva.

Queria dar outro corte de cena, mas me segurei, fui vencido pelos fatos que me surgiriam. Apareceu outra companhia. Sentou do meu lado, do outro lado de minha mesa, um sujeito que eu não tinha conhecimento em cinquenta dias residente em Ubá e há quarenta dias como sócio-irmão no templo Ricardote. O sujeito pediu licença como quem acaba de chegar em casa: “Tudo bem se eu me sentar aqui?”, ele se apresentou já adivinhando que não sou nativo. “Você não é daqui, né?”, acrescentaria. “Incrível!, tae o pai Dinah, o divinhão!”, apenas pensei. Sem saber, ele passou a ser pra mim a figura do Divinhão. “Tá vendo aquela ali?” Divinhão começou a falar de uma mulher sentada na mesa ao lado. A figura sentada ao meu lado insinuou que já conhecia “Aquela lá!”. Passei a ouvir coisas impublicáveis a partir de então. “Eh, se eu usar camisinha, fiu!”, disse-me em tom de confissão. Fingi cara de quem não entendeu a expressão e o chapa tentou consertar: “Cai!”, disse fazendo um bico com os lábios e sinal de negativo com o polegar pra baixo. Tentei fazer que não estava mesmo ali, investi na tecla no celular, falando com um amigo jornalista sobre eleições presidenciais no WhatsAppub. “Eh, saiu a nova pesquisa…!”. Ao lado, Divinhão não fechava a matraca e ignorava se você o olhava ou ignorava a vista na direção de sua fuça.

Na tentativa de ignorar Divinhão, a quem eu certamente não lembrarei do semblante num dia seguinte, fui surpreendido pela mulher sobre a qual Divinhão contava “vantagem” e em tom depreciativo, sem que ela soubesse do pensamento de meu vizinho de mesa. A mulher se aproxima, cochicha no meu ouvido esquerdo: “Moço, deixa eu te fazer duas perguntas?” Olho pra mulher, sinto sua mão pesada em meu ombro, desvio o olhar pra um decote de tamanho monumental e como quem se pergunta: “E agora, Jesus?”. Volto o olhar pra moça: “Diga! Pode dizer!”. “Você gosta de mulher que tem bunda grande ou que tem bunda pequena?”. Tentei me sair com uma resposta evasiva, ou melhor, me vi em situação inusitada e desconfortante: “Boa pergunta!”, respondi. A mulher não se fez de rogada, “pode dizer!?”, reforçou a pergunta apalpando meu ombro sutilmente e com ar de quem se orgulha das nádegas grandes que possui. De vestido curto e colado ao corpo, a mulher não arredaria o pé sem uma resposta melhor. “Depende da situação!”, eu tentei dar um tom mais técnico pra minha fala.

Ainda me sentindo em apuros, fui requisitado a responder a uma segunda pergunta. E quando veio a segunda pergunta, eu fiquei mais sem jeito. “Raspadinha ou cabeluda?”, a moça tascou. Deus do céu! A classificação de nossa breve conversa foi às alturas! Respondi e a mulher saiu de banda. “Tá vendo, tá vendo!”, me disse Divinhão, rindo e visivelmente fazendo ainda mais jus ao apelido que eu lhe dei. Fim de diálogo com a figura feminina. Voltei a me concentrar no futebol da TV. Divinhão continuou com aquela história de que catava todas e o caralho a quatro! Divinhão, que tinha aparência de menino de sessenta anos de idade e cinquenta de malandragem. “É verdade! É verdade!”, mais de uma vez me saia com esta sem estar entendendo o que o cara me dizia do lado, sempre num tom acima da humanidade que o cercava. Pensei que minha posição de testemunha ocular poderia se agravar se outras duas figuras femininas de mesmo perfil da que me abordou pudessem avançar seus papéis pro nosso núcleo novelístico. Quem me leu até aqui pode pensar maldades, ou não. Fui vítima do destino? Passei semanas estudando o melhor dia para começar a escrever sobre Idas e voltas em Ubá. Comecei justamente no momento em que testemunhos explosivos me surgiram.

Historinha de amor medieval – cap 3

atualizado 1 dezembro 2017 Deixar comentário

por Francis Macabeo

A liberdade, essa tal liberdade que depois virou estátua, ainda era apenas espírito. Um espírito que morava dentro daquele homenzinho. Sim, homenzinho, pois era um homem pequeno, embora não chegasse a ser um anão. Sua altura era uma peculiaridade, mas tinha outra, seu nariz. Tinha um nariz tão grande que diziam os piadistas da época (sim, sempre existiram piadistas) que ele podia cheirar qualquer coisa que estivesse sendo cozinhada em outra cidade. Seu nariz era tão grande quanto sua memória prodigiosa em guardar fatos e histórias. Antonio sabia quem era o turco que havia chegado, sabia inclusive antes de todos o que ele iria fazer ali e por que o turco sumiu de repente. Sabia onde o grande senhor velho gagá Nepuceno havia escondido sua fortuna, aliás ele era o único que sabia, pois o próprio Nepuceno já havia esquecido. Quem era o homem que entrava na casa do grego Kastovis enquanto ele não estava ali e o que ele fazia lá só Antonio sabia. As verdades de todas essas histórias moravam em lugares da estrada por onde andava. Você pode perguntar como ele sabia que eram histórias verdadeiras? Antonio, certa vez contou para um certo alguém que ele tinha um método: se três pessoas contassem a mesma história sem alterar detalhes era verdade. Se o detalhe alterado fosse pequeno, era uma meia verdade. Antonio não falava, só ouvia. Quando estava sentado debaixo de uma árvore, do outro lado um padre revelava em oração histórias da cidade, quando dormia em uma relva, uma mulher conversando consigo mesma revelava o nome de seu amante. Além disso, havia o muro da sorte, sempre que estava ali, do outro lado existiam vozes. Eram vozes como a chuva, que caía sobre a terra molhando o solo, no caso de Antonio eram gotas que traziam histórias. Na verdade, ele nunca as quis, tanto que era um homem calado e sem disposição para o diálogo, mas como não podemos fugir ao nosso destino, as histórias não o abandonavam. Elas estavam ali onde ele não queria ouvi-las.

O muro da sorte, chamado assim porque um cego voltou a ver depois de encostar a mão nele, era o lugar de descanso predileto dos andarilhos. Foi ali que Antonio descobriu onde Nepuceno havia escondido sua fortuna, quando duas mulheres de vida quase fácil revelaram que o velho havia deixado no sótão da casa das meretrizes. Antonio não acreditou de imediato, pois ainda faltava uma pessoa para confirmar a história, isso aconteceu quando o próprio Nepuceno andando por uma estrada, lembrou pela última vez, antes de esquecer de vez, onde havia escondido seu tesouro. Gritou alto e alegre: “está na casa das putas”. Dizem que o velho foi até o templo da perdição atrás da fortuna, ali ele esqueceu não somente do que havia lembrado, mas também de quem ele era. Talvez se tivesse lembrado não adiantaria, pois estranhamente o templo da perdição estava maior, com arquitetura gótica, comparado às maiores e belas igrejas da época. Bem, ficou muito parecido com uma igreja, só faltando os sinos.

8/9 – Banco Central

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por Marisa Veiga

Como uma Brasiliense que não tem pretensões de voltar a morar em Brasília, não entendo o que motiva as pessoas a saírem de outros lugares e se estabelecerem ali.

Ana Eliza é uma das pessoas que não entendo. Como Assistente Executiva da Gerência Nacional Sustentabilidade e Responsabilidade Socioambiental da Caixa, ela nos guiou naquela manhã. Contando-nos sobre como gostava de trabalhar em Brasília, fazendo o que fazia e a respeito do que valeu a pena se mudar de Salvador, cidade em que morava anteriormente. Gostei da Eliza.

Em um dos auditórios do Banco Central, uma mulher chamada Elvira nos deu as boas-vindas e apresentou-nos os dois palestrantes seguintes.

A primeira palestra, sobre Educação Financeira, foi exposta de uma forma não muito reflexiva. Mais uma vez senti falta de um aprofundamento crítico e acadêmico. A ideia apresentada de que o dinheiro é o meio para realização de sonhos não poderia ter eco na minha mente. Mais uma vez me senti aliviada por perceber minha capacidade de discordar.

Já a segunda palestra no Banco Central foi uma surpresa muito boa. Jean Rodrigues, Gerente de Sustentabilidade e Responsabilidade Socioambiental da Caixa, apresentou como a Caixa, como empresa pública, tem políticas que garantem a melhor forma de preservação ambiental e acesso de muitos a seus serviços, mesmo em regiões remotas do país.

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Imagens deste diário

  

8/9 – Átrio dos Vitrais

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por Marisa Veiga

O início da manhã do dia oito de setembro foi uma das melhores surpresas da passagem pela Cidade Constitucional. O Átrio dos

Vitrais no prédio da Caixa Federal é uma das obras mais emocionantes com a qual já tive contato.

Uma brincadeira solitária para descobrir a qual estado cada imagem representava.

Comparação, no caso dos estados que conheço, a perspectiva do autor com a minha.

Tentativas de fotografias que não reproduziram nem dez por cento do que eu via.

Desisti.

Uma perspectiva do Átrio dos Vitrais

6/9 – Visita à Casa do Povo – parte 2

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Em gravação de programa de TV

por Marisa Veiga

– Você está de calça [leia-se calça capri]! Quer sentar ali na frente? – A apresentadora do programa Ocupação, da TV Senado, Fabiana Melo, me abordou enquanto procurava um lugar.

– Tem que falar alguma coisa? – era minha única preocupação.

– Não. É só pra compor a plateia do cenário – Fabiana me explicou.

Deixei minha bolsa com uma colega de curso e sentei no meu lugar na plateia do cenário. O assento de papelão não tinha encosto e parecia instável. Minha missão durante a gravação daquele programa seria não cair daquele banquinho.

Os deputados que seriam entrevistados já estavam ali. Não reconheci nenhum dos dois. Ambos participantes da comissão de avaliação da proposta das Dez medidas Contra a Corrupção, sobre as quais os alunos deveriam fazer perguntas durante o programa. De São Paulo estava o deputado Antônio Carlos Mendes Thame, do Partido Verde; e do Pará o deputado Joaquim Passarinho, do Partido Social Democrata.

O programa correu bem. De acordo com as perguntas e as respostas pude observar que as dez medidas ainda estão em discussão e em processo de aperfeiçoamento, e que a proposição delas reflete uma demanda do momento político brasileiro.

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Valeu a pena a participação no programa Ocupação pela discussão anterior a respeito das dez medidas propostas. Com a coordenação do Professor Marcelo, ocupamos o Salão Verde do Congresso Nacional, e ali pudemos discutir cada medida em um momento de reflexão coletiva e crítica.

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Bônus de imagens deste diário

      

6/9 – Visita à Casa do Povo – parte 1

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por Marisa Veiga

A manhã do dia 6 de setembro estava reservada para visita à chamada Casa do Povo, o Congresso Nacional. Para entrar nessa tal casa há antes uma fila para revista e cadastro. Após bolsas revistadas com ajuda de detector de metais e cadastro feito com fotos de nossas faces recebemos os nossos adesivos de visitantes.

Fomos recebidos por um representante da Comissão de Legislação Participativa, Aldo Matos Moreno, que juntamente com participantes da Comissão de Cultura, coordenou a atividade mais elogiada pelos participantes da viagem aquele ano.

Tivemos a oportunidade de simular a participação em uma comissão parlamentar, com todas as normas burocráticas internas, para a discussão e votação simulada em diversos temas sugeridos pelas comissões como descriminalização de drogas atualmente ilícitas ou descriminalização do aborto.

A proposta de atividade previa que em determinados momentos, dentro dos grupos, defendêssemos posicionamentos que pessoalmente não eram nossos. Segundo Aldo, esse tipo de situação acontece realmente. Muitas vezes os parlamentares passam por isso por terem que manter uma decisão do partido.

De fato, os parlamentares, em teoria, não devem exercer suas funções baseados em interesses pessoais, mas também não sei até que ponto uma decisão totalmente partidária considera os interesses dos estados da federação, que deveriam estar representados ali.

Percebi que a Casa do Povo tem muitos funcionários. A simulação também consistia em receber um tratamento parlamentar, inclusive não precisando ir até um bebedouro ou até uma garrafa de café. Funcionários muito bem uniformizados, com terno e gravata borboleta, levavam até nós o café e a água de que precisávamos e pareciam surpreendidos com um agradecimento verbal. Pessoalmente fiquei incomodada em pensar em tantas pessoas desacostumadas a ouvir “Obrigada!”.

No destaque, estudantes em ato numa comissão legislativa da Câmara Federal

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Bônus de imagens deste diário (Créditos de imagens: Vitor Cheregati)