Um início de novela com classificação dezoito anos

Deixar comentário
Um visual das dependências do Bar do Ricardo, em Ubá, MG (Foto: Renato S. M.)

por Renato S. M.

Se eu não começar reportando que cheguei ansioso ao bar do Ricardote, eu já inicio mentindo descaradamente neste primeiro diário sobre Idas e voltas em Ubá. Cheguei ao pedaço na correria, chuviscava e eu me sentia com álibi pelo temor com o clima. Entro no boteco, encosto no balcão. Estaciono rente à base e lá fico. Putz, nem nos meus pensamentos mais sombrios de repórter de bairro sem salário fixo eu imaginaria uma cena dessas. Passaram-se dez minutos de espera e eu já começava a pedir a senha por telepatia ao patrão imediato: “Ow Ricardo, me passa uma senha pro atendimento!” Ato contínuo, eu repetia a fala e ninguém ae comigo. Nem Ricardo, o dono do templo de biritas e distrações, nem o garçom único e prestativo, muito menos a mulher do Ricardo, que também atende e lá estava ocupada com um pedido na calçada… Bem, eu estava parado inclusive dentro de mim e logo minha condição de esquecido pelo mundo acabaria. Quando eu já pensava em erguer as duas mãos e investir num teatral e deselegante “porra, caralho!”, a mulher de Ricardo viera com um litrão de Itaipava ao meu socorro e sem que eu lhe fizesse o pedido formal. Já sabem de meu pedido de antemão? Quer dizer, finjo que já não sou conhecido da casa e que Ricardo não me chama pelo nome reforçando certa boa vizinhança ou tática de criar empatia com clientes.

Corto pra cena da mesa, onde divido a base de plástico com um conhecido por mim chamado Telespectador. Sempre que apareço no Ricardote, a figura lá está com uma garrafa de Antarctica 600ml na mesa e olhando pra uma televisão suspensa na parede. Na verdade, são três aparelhos no enorme espaço de não sei quantos metros quadrados. Posso garantir que é grande, comporta duas mesas de sinuca. O chamado Telespectador não fica muito na minha companhia. “Companheiro, não leva a mal, vou trocar de mesa”, disse ele minutos depois de eu sentar em minha cadeira. O chapa sai na companhia de uma boneca e aqui não faço nenhum juízo negativo. A mulher tem feição de uma boneca, embora uma boneca de certa idade. Boneca, assim a chamo sem desprestigiar, é uma personagem fundamental do bar do Ricardote, inclusive. Boneca ajuda o Telespectador a levar as suas garrafas vazias + uma cheia pra uma mesa do fundão. Eu que me encontrava meio que na entrada do boteco, com a saída de Telespectador, fiquei sozinho na mesa, vendo um jogo da Série B do Campeonato Brasileiro: Atlético de Goiás x Juventude. Aproveitava pra bebericar o terceiro ou quarto copo de cerva.

Queria dar outro corte de cena, mas me segurei, fui vencido pelos fatos que me surgiriam. Apareceu outra companhia. Sentou do meu lado, do outro lado de minha mesa, um sujeito que eu não tinha conhecimento em cinquenta dias residente em Ubá e há quarenta dias como sócio-irmão no templo Ricardote. O sujeito pediu licença como quem acaba de chegar em casa: “Tudo bem se eu me sentar aqui?”, ele se apresentou já adivinhando que não sou nativo. “Você não é daqui, né?”, acrescentaria. “Incrível!, tae o pai Dinah, o divinhão!”, apenas pensei. Sem saber, ele passou a ser pra mim a figura do Divinhão. “Tá vendo aquela ali?” Divinhão começou a falar de uma mulher sentada na mesa ao lado. A figura sentada ao meu lado insinuou que já conhecia “Aquela lá!”. Passei a ouvir coisas impublicáveis a partir de então. “Eh, se eu usar camisinha, fiu!”, disse-me em tom de confissão. Fingi cara de quem não entendeu a expressão e o chapa tentou consertar: “Cai!”, disse fazendo um bico com os lábios e sinal de negativo com o polegar pra baixo. Tentei fazer que não estava mesmo ali, investi na tecla no celular, falando com um amigo jornalista sobre eleições presidenciais no WhatsAppub. “Eh, saiu a nova pesquisa…!”. Ao lado, Divinhão não fechava a matraca e ignorava se você o olhava ou ignorava a vista na direção de sua fuça.

Na tentativa de ignorar Divinhão, a quem eu certamente não lembrarei do semblante num dia seguinte, fui surpreendido pela mulher sobre a qual Divinhão contava “vantagem” e em tom depreciativo, sem que ela soubesse do pensamento de meu vizinho de mesa. A mulher se aproxima, cochicha no meu ouvido esquerdo: “Moço, deixa eu te fazer duas perguntas?” Olho pra mulher, sinto sua mão pesada em meu ombro, desvio o olhar pra um decote de tamanho monumental e como quem se pergunta: “E agora, Jesus?”. Volto o olhar pra moça: “Diga! Pode dizer!”. “Você gosta de mulher que tem bunda grande ou que tem bunda pequena?”. Tentei me sair com uma resposta evasiva, ou melhor, me vi em situação inusitada e desconfortante: “Boa pergunta!”, respondi. A mulher não se fez de rogada, “pode dizer!?”, reforçou a pergunta apalpando meu ombro sutilmente e com ar de quem se orgulha das nádegas grandes que possui. De vestido curto e colado ao corpo, a mulher não arredaria o pé sem uma resposta melhor. “Depende da situação!”, eu tentei dar um tom mais técnico pra minha fala.

Ainda me sentindo em apuros, fui requisitado a responder a uma segunda pergunta. E quando veio a segunda pergunta, eu fiquei mais sem jeito. “Raspadinha ou cabeluda?”, a moça tascou. Deus do céu! A classificação de nossa breve conversa foi às alturas! Respondi e a mulher saiu de banda. “Tá vendo, tá vendo!”, me disse Divinhão, rindo e visivelmente fazendo ainda mais jus ao apelido que eu lhe dei. Fim de diálogo com a figura feminina. Voltei a me concentrar no futebol da TV. Divinhão continuou com aquela história de que catava todas e o caralho a quatro! Divinhão, que tinha aparência de menino de sessenta anos de idade e cinquenta de malandragem. “É verdade! É verdade!”, mais de uma vez me saia com esta sem estar entendendo o que o cara me dizia do lado, sempre num tom acima da humanidade que o cercava. Pensei que minha posição de testemunha ocular poderia se agravar se outras duas figuras femininas de mesmo perfil da que me abordou pudessem avançar seus papéis pro nosso núcleo novelístico. Quem me leu até aqui pode pensar maldades, ou não. Fui vítima do destino? Passei semanas estudando o melhor dia para começar a escrever sobre Idas e voltas em Ubá. Comecei justamente no momento em que testemunhos explosivos me surgiram.

Historinha de amor medieval – cap 3

atualizado 1 dezembro 2017 Deixar comentário

por Francis Macabeo

A liberdade, essa tal liberdade que depois virou estátua, ainda era apenas espírito. Um espírito que morava dentro daquele homenzinho. Sim, homenzinho, pois era um homem pequeno, embora não chegasse a ser um anão. Sua altura era uma peculiaridade, mas tinha outra, seu nariz. Tinha um nariz tão grande que diziam os piadistas da época (sim, sempre existiram piadistas) que ele podia cheirar qualquer coisa que estivesse sendo cozinhada em outra cidade. Seu nariz era tão grande quanto sua memória prodigiosa em guardar fatos e histórias. Antonio sabia quem era o turco que havia chegado, sabia inclusive antes de todos o que ele iria fazer ali e por que o turco sumiu de repente. Sabia onde o grande senhor velho gagá Nepuceno havia escondido sua fortuna, aliás ele era o único que sabia, pois o próprio Nepuceno já havia esquecido. Quem era o homem que entrava na casa do grego Kastovis enquanto ele não estava ali e o que ele fazia lá só Antonio sabia. As verdades de todas essas histórias moravam em lugares da estrada por onde andava. Você pode perguntar como ele sabia que eram histórias verdadeiras? Antonio, certa vez contou para um certo alguém que ele tinha um método: se três pessoas contassem a mesma história sem alterar detalhes era verdade. Se o detalhe alterado fosse pequeno, era uma meia verdade. Antonio não falava, só ouvia. Quando estava sentado debaixo de uma árvore, do outro lado um padre revelava em oração histórias da cidade, quando dormia em uma relva, uma mulher conversando consigo mesma revelava o nome de seu amante. Além disso, havia o muro da sorte, sempre que estava ali, do outro lado existiam vozes. Eram vozes como a chuva, que caía sobre a terra molhando o solo, no caso de Antonio eram gotas que traziam histórias. Na verdade, ele nunca as quis, tanto que era um homem calado e sem disposição para o diálogo, mas como não podemos fugir ao nosso destino, as histórias não o abandonavam. Elas estavam ali onde ele não queria ouvi-las.

O muro da sorte, chamado assim porque um cego voltou a ver depois de encostar a mão nele, era o lugar de descanso predileto dos andarilhos. Foi ali que Antonio descobriu onde Nepuceno havia escondido sua fortuna, quando duas mulheres de vida quase fácil revelaram que o velho havia deixado no sótão da casa das meretrizes. Antonio não acreditou de imediato, pois ainda faltava uma pessoa para confirmar a história, isso aconteceu quando o próprio Nepuceno andando por uma estrada, lembrou pela última vez, antes de esquecer de vez, onde havia escondido seu tesouro. Gritou alto e alegre: “está na casa das putas”. Dizem que o velho foi até o templo da perdição atrás da fortuna, ali ele esqueceu não somente do que havia lembrado, mas também de quem ele era. Talvez se tivesse lembrado não adiantaria, pois estranhamente o templo da perdição estava maior, com arquitetura gótica, comparado às maiores e belas igrejas da época. Bem, ficou muito parecido com uma igreja, só faltando os sinos.

8/9 – Banco Central

Deixar comentário

por Marisa Veiga

Como uma Brasiliense que não tem pretensões de voltar a morar em Brasília, não entendo o que motiva as pessoas a saírem de outros lugares e se estabelecerem ali.

Ana Eliza é uma das pessoas que não entendo. Como Assistente Executiva da Gerência Nacional Sustentabilidade e Responsabilidade Socioambiental da Caixa, ela nos guiou naquela manhã. Contando-nos sobre como gostava de trabalhar em Brasília, fazendo o que fazia e a respeito do que valeu a pena se mudar de Salvador, cidade em que morava anteriormente. Gostei da Eliza.

Em um dos auditórios do Banco Central, uma mulher chamada Elvira nos deu as boas-vindas e apresentou-nos os dois palestrantes seguintes.

A primeira palestra, sobre Educação Financeira, foi exposta de uma forma não muito reflexiva. Mais uma vez senti falta de um aprofundamento crítico e acadêmico. A ideia apresentada de que o dinheiro é o meio para realização de sonhos não poderia ter eco na minha mente. Mais uma vez me senti aliviada por perceber minha capacidade de discordar.

Já a segunda palestra no Banco Central foi uma surpresa muito boa. Jean Rodrigues, Gerente de Sustentabilidade e Responsabilidade Socioambiental da Caixa, apresentou como a Caixa, como empresa pública, tem políticas que garantem a melhor forma de preservação ambiental e acesso de muitos a seus serviços, mesmo em regiões remotas do país.

______

Imagens deste diário

  

8/9 – Átrio dos Vitrais

Deixar comentário

por Marisa Veiga

O início da manhã do dia oito de setembro foi uma das melhores surpresas da passagem pela Cidade Constitucional. O Átrio dos

Vitrais no prédio da Caixa Federal é uma das obras mais emocionantes com a qual já tive contato.

Uma brincadeira solitária para descobrir a qual estado cada imagem representava.

Comparação, no caso dos estados que conheço, a perspectiva do autor com a minha.

Tentativas de fotografias que não reproduziram nem dez por cento do que eu via.

Desisti.

Uma perspectiva do Átrio dos Vitrais

6/9 – Visita à Casa do Povo – parte 2

Deixar comentário
Em gravação de programa de TV

por Marisa Veiga

– Você está de calça [leia-se calça capri]! Quer sentar ali na frente? – A apresentadora do programa Ocupação, da TV Senado, Fabiana Melo, me abordou enquanto procurava um lugar.

– Tem que falar alguma coisa? – era minha única preocupação.

– Não. É só pra compor a plateia do cenário – Fabiana me explicou.

Deixei minha bolsa com uma colega de curso e sentei no meu lugar na plateia do cenário. O assento de papelão não tinha encosto e parecia instável. Minha missão durante a gravação daquele programa seria não cair daquele banquinho.

Os deputados que seriam entrevistados já estavam ali. Não reconheci nenhum dos dois. Ambos participantes da comissão de avaliação da proposta das Dez medidas Contra a Corrupção, sobre as quais os alunos deveriam fazer perguntas durante o programa. De São Paulo estava o deputado Antônio Carlos Mendes Thame, do Partido Verde; e do Pará o deputado Joaquim Passarinho, do Partido Social Democrata.

O programa correu bem. De acordo com as perguntas e as respostas pude observar que as dez medidas ainda estão em discussão e em processo de aperfeiçoamento, e que a proposição delas reflete uma demanda do momento político brasileiro.

*

Valeu a pena a participação no programa Ocupação pela discussão anterior a respeito das dez medidas propostas. Com a coordenação do Professor Marcelo, ocupamos o Salão Verde do Congresso Nacional, e ali pudemos discutir cada medida em um momento de reflexão coletiva e crítica.

______

Bônus de imagens deste diário

      

6/9 – Visita à Casa do Povo – parte 1

Deixar comentário

por Marisa Veiga

A manhã do dia 6 de setembro estava reservada para visita à chamada Casa do Povo, o Congresso Nacional. Para entrar nessa tal casa há antes uma fila para revista e cadastro. Após bolsas revistadas com ajuda de detector de metais e cadastro feito com fotos de nossas faces recebemos os nossos adesivos de visitantes.

Fomos recebidos por um representante da Comissão de Legislação Participativa, Aldo Matos Moreno, que juntamente com participantes da Comissão de Cultura, coordenou a atividade mais elogiada pelos participantes da viagem aquele ano.

Tivemos a oportunidade de simular a participação em uma comissão parlamentar, com todas as normas burocráticas internas, para a discussão e votação simulada em diversos temas sugeridos pelas comissões como descriminalização de drogas atualmente ilícitas ou descriminalização do aborto.

A proposta de atividade previa que em determinados momentos, dentro dos grupos, defendêssemos posicionamentos que pessoalmente não eram nossos. Segundo Aldo, esse tipo de situação acontece realmente. Muitas vezes os parlamentares passam por isso por terem que manter uma decisão do partido.

De fato, os parlamentares, em teoria, não devem exercer suas funções baseados em interesses pessoais, mas também não sei até que ponto uma decisão totalmente partidária considera os interesses dos estados da federação, que deveriam estar representados ali.

Percebi que a Casa do Povo tem muitos funcionários. A simulação também consistia em receber um tratamento parlamentar, inclusive não precisando ir até um bebedouro ou até uma garrafa de café. Funcionários muito bem uniformizados, com terno e gravata borboleta, levavam até nós o café e a água de que precisávamos e pareciam surpreendidos com um agradecimento verbal. Pessoalmente fiquei incomodada em pensar em tantas pessoas desacostumadas a ouvir “Obrigada!”.

No destaque, estudantes em ato numa comissão legislativa da Câmara Federal

______

Bônus de imagens deste diário (Créditos de imagens: Vitor Cheregati)

  

5/9 – A Cidade Constitucional – parte 2

atualizado 26 outubro 2016 Deixar comentário

por Marisa Veiga

Mais uma vez a poltrona do ônibus foi uma cama. Neste caso para aquela cesta pós almoço na viagem entre a ESAF e o prédio da Receita Federal.

Em um pequeno auditório aguardamos alguns minutos o início da atividade. Percebi a diferença de temperatura entre a rua e aquele auditório com ar condicionado. “Da próxima vez tenho que carregar um agasalho ou ficarei doente”.

O professor Marcelo, grande idealizador de todo o projeto, ficou em pé, o que é suficiente para chamar a atenção de todos os alunos por conta da sua estatura, e apresentou um homem chamado Antônio Baltazar, coordenador geral de Atendimento e Educação Fiscal.

Antônio preferiu não usar microfone. O tom de voz dele era audível, mas não prendia a atenção por si. Contudo o assunto e a forma como foi abordado foi suficiente para que ficássemos atentos.

As minhas expectativas frustradas da última palestra da manhã foram compensadas durante a tarde. De forma absolutamente tranquila fomos instigados a pensar em possibilidades de financiamento de políticas públicas além da tributação e levados a constatar a importância da arrecadação de impostos para a manutenção de provisão de direitos pelo Estado.

Foi também possível uma reflexão histórica sobre a evolução do papel do poder público como provedor de políticas públicas e como a estruturação da tributação influencia o comportamento das pessoas e a partir disso confirmamos como é importante que a população tenha clareza sobre os processos de arrecadação e gastos das esferas do governo.

Apesar de não concordar em muitos pontos com o Antônio, foi um alívio e uma alegria poder refletir mis profundamente ao ponto de conseguir discordar.

*

Nossa passagem pela aduana do aeroporto de Brasília, para uma aspirante a mochileira como eu, foi muito instigante.
Entre o portão de carga e descarga e o portão de desembarque de voos internacionais do Aeroporto de Brasília, três coisas me surpreenderam. A primeira foi o tamanho, que considerei pequeno, do depósito de encomendas e produtos que são recebidos no país pelo aeroporto. Tal fato foi explicado indiretamente com a fala de um guia (cujo nome não me recordo) que informou que os carregamentos não permaneciam ali muito tempo, graças ao trabalho da aduana os despachos eram feitos rapidamente.

O segundo aspecto que me surpreendeu foi a exposição dos procedimentos para entrada de bagagem de viagens internacionais. A importância essencial de alguns processos e a delicadeza e subjetividade de outros que podem acabar dependendo da discricionariedade do agente público da situação.

O último e menos positivo ponto de surpresa foi a fala do policial federal que nos explicou procedimentos de identificação de contrabando de produtos ilegais. Tive a percepção que esta parte do processo é muito mais focada em punir do que em promover o bem comum. Essa foi minha percepção pessoal e bastante subjetiva, nada científica ou técnica.

Terminei minha visita ao aeroporto de Brasília com a degustação, no saguão principal, de uma amostra grátis de biscoito de castanha do Pará, que, aliás, estava uma delícia.

______

Imagens deste diário

    

5/9 – A Cidade Constitucional – parte 1

Deixar comentário

por Marisa Veiga

Acordar às seis e meia da manhã do dia cinco de setembro e levantar de uma cama tão aconchegante parecia um pecado. A cama do Alojamento da Escola da Administração Fazendária – ESAF – era extremamente sedutora, como todo o alojamento e a Escola em si. Mas era preciso tomar café antes da primeira atividade do dia.

Eu e a Companheira de Quarto J fomos em busca do refeitório. A companheira de quarto M trocou o café da manhã por mais um pouco de sono. No caminho pudemos observar melhor o lugar e a arquitetura. Concreto e espelhos d’água em um estilo bem brasiliense.

Alguma coisinha para comer e para beber – café! Eu ainda não me sentia totalmente acordada. Era necessária uma xícara grande de café para convencer o organismo de que eu havia dormido horas suficientes.

Pelo cronograma, a primeira atividade era ali mesmo na escola, no auditório principal. Para lá fomos eu e Companheira de Quarto J. Muitos alunos e alunas já estavam por lá com suas olheiras de noite mal dormida e o estado de alerta forjado pelo consumo café.

Uma mulher chamada Fabiana Feijó iniciou a sua fala. Palavras de recepção e boas vindas e apresentação da ESAF com um vídeo institucional padrão. Me surpreendi com o fato de a escola ter sido criada há tanto tempo, em 1973 e de a ideia de cursos de aperfeiçoamento serem ainda mais antigas, de 1945. A apresentação da estrutura física da escola que estava contida no vídeo era algo que estávamos observando e iríamos observar empiricamente ao longo daquela semana. Interessante pensar em como a educação para as políticas públicas no Governo Federal tem uma tradição de estar relacionada ao Ministério da Fazenda. Isso poderia dizer muito sobre aspectos que vivemos hoje, mas não consegui chegar a nenhuma conclusão. Nem naquele momento, nem até o momento em que escrevo aqui.

O palestrante seguinte era um homem chamado Tobias. Tobias me parece um nome muito simpático e achei bastante engraçado Tobias ser Alemão. Tobias Kuehner, representante da GIZ – Agência de Cooperação Alemã. O português do Tobias era fluente e ele tratou de um tema bastante interessante pra mim: eficiência energética. Em especial, eficiência energética na própria ESAF. A ideia, ou melhor, os projetos que ele apresentou para que a escola se modificasse economizando financeiramente e ainda contribuindo com a manutenção de recursos naturais era algo realmente inspirador.

Como uma quase Gestora de Políticas Públicas formada foi um consolo sonhar com um futuro em que os prédios públicos, de atividades públicas pudessem ser mais sustentáveis e eficientes. Os dados que Tobias apresentou mostrou como a economia financeira seria bastante significativa no caso da ESAF. Quanto aos benefícios ambientais e sociais não podemos estimar com precisão, mas também seriam grandes. Esses choques de visualização de uma realidade que podemos mudar é algo essencial em nossa formação.

Lá pras onze da manhã já me sentia fadigada por estar sentada tanto tempo, mesmo levantando constantemente para tomar um copinho de água e contornar a baixa umidade local. Havia mais uma palestra programada para ainda antes do almoço.

A última palestra trataria de um tema que não domino e considero super importante: Educação Fiscal. Minhas expectativas estavam altas. Um homem chamado Marcos, com uma técnica interativa (apresentação de músicas seguidas de perguntas para alunos escolhidos de forma aleatória), parecia nos conduzir a reflexões importantes sobre a insatisfação da população brasileira com a forma de arrecadação e uso de impostos e taxas.

A intenção dele parecia muito boa. A primeira música que apresentou “Quem é Você”, da Banda Detonautas, era já minha conhecida. A segunda não conhecia, nem considerei tão agradável ao conhecer. Justamente sobre ela foi perguntada minhas impressões:

– E essa moça que parece uma socióloga, o que achou da música e do vídeo?

– Achei incômodos. Nos mostram uma realidade que não queremos ver – A música e o clipe tratavam sobre diversos quadros de miséria pelo país.

Pensei em dizer que eram apelativos, mas meu bom senso me aconselhou a ser neutra. Na verdade, estava incomodada por não termos sido instigados como estudantes universitários. A reflexão não foi aprofundada, permanecendo no senso comum.

Talvez meu incômodo estivesse agravado por fome, e noite mal dormida, ou até mesmo pela minha alta expectativa.

O importante é que era hora do almoço!

 

O auditório da Escola de Administração Fazendária, em Brasília

 

3/9 – Em Santa Rita

atualizado 18 outubro 2016 Deixar comentário

por Marisa Veiga

– O ônibus quebrou, gente…! – uma aluna mais informada comunicava em voz baixa e sem alarde para que a notícia se espalhasse aos cochichos.

– Por que estamos parando, vai abastecer?

– Pode descer pra fazer xixi?

– O ônibus quebrou mesmo, gente! – repetiu a aluna informada mais alto e de forma mais enérgica. Senti no ar o desânimo coletivo. Não ia abastecer. Podia descer pra fazer xixi.

Era aproximadamente 19h00min de um sábado, dia três de setembro de 2016. O Professor Douglas, que até aquele momento não tinha um perfil definido no meu arquivo mental, convoca uma reunião extraordinário lado de fora dos ônibus, em um, aparentemente, posto de beira de estrada em uma cidade que ainda não sabíamos qual era.

– Meninos e meninas o ônibus quebrou. Estamos tomando as providências possíveis no momento. Não sabemos ainda quanto tempo ficaremos aqui – mais ou menos essa foi a fala do professor Douglas, que apesar da situação transmitia ainda muita tranquilidade e confiança.

Pesquisas nos informaram que nos encontrávamos em Santa Rita de Passa Quatro, estado de São Paulo, a cidade que – segundo nos disseram – abriga o maior jequitibá rosa do país. Seja lá o que isso signifique.

Havia uma churrascaria ligada ao posto em que estávamos. “Como vamos ficar aqui por tempo indeterminado e tem banheiro, não custa tomar uma cerveja”. Comprei uma latinha e me aproximei de um grupo de alunos que ainda não conhecia, e que pareciam receptivos. A conversa se desenvolveu tranquilamente, cada um bebendo da própria latinha, ou não bebendo nada, e trocando ideias sobre a nossa situação, sobre a situação política do país e sobre a vida.

Mesmo prestando atenção na conversa dos meus recentes contatos, fui levada a algumas horas antes, na partida da universidade. Todos animados com a ânsia da viagem, alunos e alunas carregando malas enormes, outros malas enormes mais cabides com capas e outros ainda carregando apenas pequenas mochilas ou bolsas de mão. Ainda me surpreendo com a diversidade de perfis que o curso de Gestão de Políticas Públicas agrega.

Não conhecia intimamente ninguém. Meus amigos mais chegados haviam cursado a disciplina e realizado a viagem em anos anteriores. Recomendaram que eu aproveitasse, pois era uma experiência única

De volta à Santa Rita do Passa Quatro, um consolo: “Pelo menos jantamos antes de o ônibus quebrar”. Estava me sentindo bem ali, conhecendo pessoas novas, tomando um ar fresco ouvindo músicas do Raul Seixas que algum aluno inspirado resolveu puxar no violão- EU QUERO DIZER-ER AGORA O OPOSTO DO QUE EU DISSE ANTES…

E assim o tempo passou favoravelmente rápido. Resolvi uma pendência sobre um arranjo de quarto com duas moças gentis que aceitaram me abrigar. Seriam minhas grandes parceiras ao longo daquela semana e grandes amigas para além.

*

A poltrona do ônibus quebrado foi uma cama bastante aceitável. Pela manhã havia muita vontade de um banho, mas na falta, escova-se os dentes, toma-se café da manhã e se começa o dia.

– Vamos fazer uma votação para decidir se os alunos do ônibus bom devem seguir viagem ou não [eram dois ônibus de estudantes que seguiam o mesmo destino]. O ônibus quebrado já está sendo consertado, talvez fique pronto em poucas horas. – O professor muito tranquilamente coordenava a contagem de votos que decidiu que todos os alunos esperariam juntos.

– Consertaram o ônibus! – Animadamente a aluna informada, aquela mesma do início de nossas linhas, comunicou depois de mais algumas horas de socialização. A churrascaria do posto da beira de estrada em Santa Rita do Passa Quatro não nos teria como clientes para o almoço.

Fazer xixi… Embarcar… Estrada novamente (cochilos seguidos…). Parada para o almoço em algum lugar…. Mais estrada (mais cochilos…).

Em algum horário entre 00h00min e 05h00min acordo com uma inquietação geral. Olho pela minha janela, ainda sonolenta e reconheço, como brasiliense que sou (sim! Nasci na capital federal!),a Esplanada dos Ministérios e toda a sua iluminação encantadora.

Meu Deus, mas que cidade linda!”. Palavras já cantadas por Renato Russo, que poderiam ter sido cantadas por mim naquele momento. E? E foram. Mentalmente.

Chegamos à Cidade Constitucional.

Senha (homenagem à Adélia Prado)

Deixar comentário

por Daniel Baz dos Santos

eu sou um homem com chuva e chão
curvas íngremes em um sorriso contra o muro
torço pelo sol toda manhã
me cerco de palácios que ardem
marcando meu manto da fumaça dos versos
máscaras que a madrugada forja com vinho e sêmen
penetro clandestinamente o alfabeto
sua tradição de distância e semente
e colho, na hipótese, um minuto da flora

sou homem com H de Hímen!

eu sou homem sem espada
a cabeça que eu apoio nos ombros
é a própria cabeça por mim degolada
sobre meus escombros
não tenho farol nem martelo
não se encontra ferramenta em meu armário
vou gerar um pão sem farelo
vou colher uma flor sem horário