A figura de profeta

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Cadelinha mira pedido de petisco (Foto: Renato S. M.)

por Renato S. M.

O meu testemunho da vez começaria com uma cachorrinha de focinho e rabicó esticados, jurando à distância o meu petisco, que o Vicente, o dono do balcão, preparava pra mim. “Vai no Bar do Vicente…!”. Não perdi tempo, caminhei cinquenta minutos, literalmente atravessei a cidade pra conferir de perto tal existência. A novidade, isto é, o estabelecimento de biritas e distrações de que falo fica no bairro Industrial. Tive que encarar a emoção de passar pela Praça Guido, de outros diários, até chegar ao lugar. Falemos da Praça Guido de testemunhos passados, quem sabe em novos testemunhos mais à frente? Enquanto eu rememorara coisas, o meu petisco de salsicha barata ficaria pronto. Peguei o pratinho de lata e me dirigi a uma cadeira cedida por um flamenguista que “já estava de saída”. “Muita gentileza a sua, amigo!”. Sentei-me, ofereci o petisco a dois parceiros ao lado. A imagem insinuada cita mesas e cadeiras encostadas numa parede. Do meu lado direito, um sujeito de pele e olhar oleoso. À esquerda, um sujeito de pele e apenas a pele oleosa. Pra ser sincero, todo o Bar do Vicente parecia oleoso. O amigo da esquerda, vulgo inquieto, foi logo se oferecendo a beliscar um pedaço de meu petisco. O amigo à direita, vulgo alegre, disse não ao petisco oferecido.

Nesta hora, já estou bebericando uma cerveja de frasco litrão e observando um sujeito que acabara de chegar ao pedaço. Não é que me vi diante de uma visão de profeta do cinema? O cara chega ao Bar do Vicente de chinelinho de dedo, short vermelho de jogador de futebol do final dos anos 1970 e sem camisa, com a pele de surfista. Mas não há praia em Ubá, o nosso cenário de mundo é chapa-quente e sem litoral. Profeta Hollywood. Ops, observo um personagem que se, se não se quer principal, se comporta como tal sem saber. A figura se acomodou rende ao balcão. Evitou sentar-se. Quer dizer, evitou sentar-se, porque as três singulares cadeiras existentes no Bar do Vicente estavam ocupadas! Ave, que sorte a minha, hem? Realmente eu tive sorte de achar lugar pra me assentar. O nosso chamado profeta, contudo, parecia não interessado em acomodar o traseiro num posto qualquer. Notei que ele pediu uma branquinha. Vicente, o popular “fala pouco”, pôs a dose e saiu de perto pra atender mais um cliente naquele estabelecimento que, agora me corrijo, não se configura apenas como de biritas e distrações. Bar do Vicente não é apenas um boteco de povão, é também mercearia e, pasmem, é ainda loja de materiais para construção! Em que mundo eu fui parar? Juro que eu me perguntei e ainda segurei o riso. Um pensamento viria imediato: vim parar ou estou de compromisso profissional no Bar do Vicente? Vicente, o patrão da vez! Impressão profunda ou me notei presente num boteco de ralé desejada? Os personagens não paravam de entrar e sair do apertado boteco do bairro industrial, fincado na Avenida Olegário Maciel.

Em um momento em que paro pra pensar um pouco, o amigo sentado na cadeira à esquerda, o glorioso comilão, se empolga e já divide comigo a porção de duas salsichas baratas. Tive que renunciar à fome de quem não tinha jantado nem almoçado naquele dia, pra fazer a felicidade alheia com um dizer: AMIGO, PODE MATAR O PETISCO! Passei o que restava de porção pro companheiro de cena, que visivelmente estava pra lá de Bagdá. Não é intenção minha denunciar a quantidade de doses tomadas por meus nobres amigos paus d’água. O personagem da direita já não falava coisa com coisa quando cheguei, a ponto de eu não dar muita atenção e ser sufocado por um fala sem vírgulas, pontuações e brusquidões de pausa.

Enquanto os núcleos secundários tentavam ganhar terreno na direção de um centro das atenções, o nosso personagem profeta, ainda não nominado, tragava o seu cigarrinho de palha com uma mão e literalmente coçava o saco com a outra não. A esta altura, estou eu antecipando o testemunho de um potencial protagonista. Alguém chega, a figura cumprimenta. Mas creio ser algo cadenciado. O momento é das tragadas. A nuvem de fumaça se forma e paira na atmosfera do boteco, também considerado mercearia, ainda considerado loja de materiais pra construção. Chamou a minha atenção um carrinho de mão postado por cima de barras de ferro ao fundo do estabelecimento de mais de uma faceta evidencia. Pra ser franco, estou eu ali ansioso para poder ouvir aquele perfil de poder teatral. Usei o vocativo profeta, por até então não saber de seu testemunho direto. Nesta passagem, vejo o potencial protagonista em conversa com um cidadão de cara fechada que acabara de chegar. Ambos estão no balcão, os dois estão tomando uma branquinha e apenas o profeta traga um cigarrinho. Minto, o seu interlocutor também traga unzinho, mas um cigarro dito industrializado. Um tanto angustiado, eu já não conseguia ver o que os dois notórios conversavam. Uma televisão ligada e suspensa junto às barras de ferro do setor local de materiais de construção não me deixava ouvir bem o que confabulavam os dois homens ali junto ao balcão. Sendo fidedigno com a narrativa de memória, a televisão interferiria no diálogo aparente de cotidiano entre as duas criaturas sob a nossa mira. Começaram a falar de eleições, aponto da voz dos dois se sobressaírem em relação ao áudio da televisão. Enquanto isso, Vicente continuava na sua, mudo, atento aos pedidos de clientes e indiferente à interferência de um mundo exterior. Este Vicente me fazia pensar, na medida em que eu tentava saber dele qual o nome da cachorrinha que habitava o boteco com liberdade de ir e vir no boteco, circulando do lado de lá do balcão como do lado de cá. Meio que consciente ou pra não ficar muito na vista, a cadelinha dava os seus giros rápidos na calçada e sempre provocava um chamado verbal de bebuns preocupados com a sua proteção física. Naturalmente, não falo do Vicente, este não abre o bico se não for pra fechar a conta de clientes! Deixei a figura de Vicente em paz e passei a me concentrar num foco de luz que recaía sobre a pessoa do nosso profeta. Não resisti, notei o perfil da figura de profeta e fotografei-o para uma capa de um episódio seguinte, um segundo, que não estava programado, sobre o Bar do Vicente.

Na escuta com Elton, o palestrante

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No Bar do Pica, bairro Caxangá (Foto: Renato S. M.)

por Renato S. M.

Entro num boteco, jurando que se trata de mais um pretexto para falar de Ubá. O estabelecimento fica no bairro Caxangá, onde este repórter diz-se então instalado. Nelson Ned, o famoso gigante da canção viveu a infância nas redondezas. Nelson Ned tem sido uma ideia fixa pra mim, me perdoem. Saí pra conhecer um pouco mais do Canxagá e me deparei com um inédito ponto de biritas e distrações. De início, a ideia era sair e conhecer o bairro vizinho Peluso, que as más línguas dizem ser “barra pesada”. Mas descobriria que o Caxangá, supostamente não menos pacífico, se encontrava ainda vivo diante de meu horizonte. Súbito, entro num boteco que avisto povoado de clientes. Era justamente o que eu procurava: um boteco “povoado de clientes”. Aliás, em dado momento, já estou no boteco sem saber de seu nome. Na chegada, pergunto a um sujeito do outro lado do balcão sobre qual cerveja tomar. Quis saber da tabela de preços. Dono de cobertor curto é assim: tem que perguntar o preço antes. Perguntei. Incríveis 6,50 de reais o litrão! Eu poderia escolher entre Skol, Brahma e Antarctica tradicional. Optei por esta, e pensei que este boteco vende cerveja por um preço muito camarada. Qual boteco? Tive a resposta quando o patrão da vez, que soube ser filho do dono que dá nome ao estabelecimento, pôs um litrão inserido numa camisinha com a inscrição “Bar do Pica”. Seguro o riso por causa do nome e pela prudência de não rir da cara de desconhecidos. Mal acabo de fazer o pedido e de saber o nome do boteco, um sujeito ao lado oferece um banco vago. Ficou explícito pra mim que o sujeito queria alguém pra conversar. Falo de um negão que eu saberia se chamar Elton. Não cheguei a perguntar se tinha a letra “h” em seu nome. Por isso transcrevo a grafia sem má intenção. Elton estava ali, segundo ele, já há algum tempo, considerando que eu havia chegado perto das 18h30. Elton trajava um boné com um jacarezinho verde, uma camiseta e um short jeans que ia até os joelhos. Nos pés ele trazia uma botina de trabalhador, quem sabe com bico de ferro pra proteger a ponta dos dedos em um eventual acidente. Meu companheiro de birita numa noite de terça-feira é um trabalhador e de construção civil. As marcas de cimento e cal eram visíveis em seus trajes. “Estou aqui matando o tempo, avisei a patroa que estou trabalhando longe e que vou demorar pra chegar em casa”, disse-me rindo. Elton mora no Canxangá, o bairro do Elias Moisés. “Ouviu falar no poeta?”. Se me lembro bem, o colega de birita se saiu assim: “Ouviu falar no Poeta Passarinho?”. Meu interlocutor é amigo do Poeta Passarinho, “que mora logo ali”. “Tenho os dois livros do poeta”, disse-me. “Leu e gostou?”, perguntei, demonstrando interesse e me declarando jornalista. Elton disse que sim, “claro”, e se disse próximo de Elias Moisés. O Poeta Passarinho teria sido alfabetizado pelo Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização), instituído ainda no período da ditadura militar (1964-1985). “Aprendeu rápido a escrever e começou a fazer poemas. Vira e mexe ele está dando palestras”, Elton assim relatou, já começando a se mostrar um exímio palestrante. Elton e o Poeta Passarinho têm idades semelhantes, eu ficaria sabendo, por volta de 43 anos.

Elton e eu não ficamos apenas no papo poesia. Meu companheiro de balcão se mostrou um notável flamenguista. Baixou o tom de voz e me confidenciou: “Está vendo esta televisão [então desligada]?”. O amigo se virou pra parede, pra em seguida voltar-se: “Betinho é chato pra caramba e não liga pra gente ver jogo”. Betinho é o filho do Pica, ausente do boteco e, de certo modo, parcialmente ausente deste diário. Betinho, que a oposição poderia chamar de Ô Piquinha, realmente parecia fazer o papel de sistemático. Se bem que: A primeira cerveja que ele me ofereceu estava choca e ele trocou numa boa, sem custos. Até me alertou da infelicidade, inclusive. Se não relatei antes, foi por distração. Mas realmente Betinho parecia sistemático. Cochichei pro lado do agora camarada Elton: “Quer que eu peça pro Betinho ligar a televisão, pra ver se ele liga?”. Tentei ser sutil e ao mesmo tempo fazer acontecer e livrar um possível desgaste pessoal entre Elton e o filho do Pica: “Ow Betinho, e a tevê, liga?”, me arrisquei intervindo. Não sei bem Betinho gostou ou não da sutil intimada. Antes que ele voltasse a falar, passei um olhar para o horizonte do Bar do Pica. Uma mesa de sinuca, com a qual há pouco um casal se ocupava. Deixaram a mesa com as bolas e um jogo incompleto. Ao fundo, do boteco, notei dois vovôs. Provoquei o camarada do lado: “O casal que jogava sinuca saiu. E aqueles senhores lá, jogam?”. Elton virou o corpo pra trás, pensou rápido e me disse voltando-se pra frente: “Jogam. O de lá é bom. O de cá é viado”. Elton aumentaria a voz na passagem: “O DE CÁ É VIADO”. Ufa, neste momento eu iria me lembrar de um alerta amigo: furaram a tripa de um terceiro outro dia no lugar de onde eu reportava. Bar do Pica, projetado num barranco em esquina, possui cinco ou mais degraus de escada. Olhei bem pras escadas e filosofei em silêncio: “Isso aqui é lugar de clientes fiéis!”. “O Flamengo goleou o Paraná na última rodada do Brasileiro!”, assim Elton me trouxe de volta à conversa. O companheiro de balcão, que dissera ter que ir embora “daqui a pouco”, pediu a saideira. A cerveja, de frasco menor, chegou para o parceiro e ele continuou com a palavra, já em flagrante posição de palestrante. Clube de Regatas Flamengo era a sua ideia fixa. Disse-me a respeito do “furão” Diego Alves, goleiro afastado por indisciplina pela comissão técnica. Elton, tal um repórter setorista do clube do coração, demonstrou estar bem informado a respeito do famoso Fla.

“Daqui a pouco tenho que buscar o filho na catequese”, Elton mesmo se cortou como se tivesse cansado de falar do vice-líder do campeonato brasileiro de futebol, o mesmo time que tinha encontro marcado na próxima rodada com o líder. “O Palmeiras vai jogar com quatro desfalques contra o Mengão. Maracanã lotado. 75 mil ingressos já vendidos. Vamos ver!”, relatou-me. Elton não parecia cansado de falar do time do coração? De maneira nenhuma. Mas a sua cerveja acabaria e o seu prazo no boteco também. Eu do mesmo modo tinha que ir-me. Pagamos as nossas respectivas contas. Ele no cartão crédito e eu no dinheiro vivo. Na volta pra casa, o amigo palestrante ainda iria me acompanhar em parte do caminho. Cinco quadras depois do Bar do Pica, Elton me diria, se despedindo na direção de uma escola, onde seu filho participava de uma catequese: “Está vendo lá em cima?”, disse-me. Miramos um morro e uma rua pouco iluminada. O amigo estendeu um dos braços: “Lá em cima você vai encontrar o Bar do Paulista, Elias Moisés costuma frequentar o lugar. É lá que ele gosta de tomar guaraná e comer um churrasquinho”. Gravei a dica. Despedi-me do amigo, voltei pra casa fisicamente ileso. Contente com uma indicação de pauta para um testemunho futuro, e aliviado por não terem me furado as tripas durante a rápida visita ao Bar do Pica.

Tio Tão, Sebastião

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Bar Tio Tão, localizado no bairro Sebastião (Foto: Renato S. M.)

por Renato S. M.

Evitei qualquer ladainha que eu pudesse adotar de antemão e já me notei atuante no Bar Tio Tão, localizado numa das bandas da Praça Getúlio Vargas. O lugar fica num bairro paralelo ao centro de Ubá, chamado São Sebastião. No momento já estou tomando uma e conversando com Valter, o Valtinho, se ouvi bem o que ele me disse: um sujeito de uns 58 anos. “Natal” – fui logo alertado ou lembrado de viva voz por um rapaz do lado, que por provocação chamou o outro por nome diferente. “Você parece mesmo o Natal”, insistiu o rapaz com tatuagem no braço. Valtinho negaria a suposição, rindo do interlocutor. “Se eu fosse o Natal, não estaria aqui!”. Natal, logo eu soube, é um cara supostamente podre de rico em Ubá. Como eu não conheço o tal de Natal, passei a observar o Valtinho que estava sentadinho numa cadeira ao lado, junto da minha mesa, como ele de fato dizia ser: Valtinho. O derivado de Valter tem o perfil de um sujeito que fala fala fala e não parece que se cansa de falar. Encheu a boca pra dizer: bebi seis branquinhas antes de sair de casa! Logo notei estilo e irreverência no companheiro de mesa. Valtinho alternava um copo de cerveja com um de “branquinha”. Uma mesa ao lado, Tateado só espiava o parceiro de conversa fiada. Tateado é um rapaz de 29 anos e piloto de motocicleta, eu saberia. Tateado, aquele de tatuagem à mostra num dos ombros, estava ali antes de eu chegar. Assim como Valtinho. Enquanto meus dois vizinhos de pileque conversavam, eu me ocupava de observar o espaço. Bar Tio Tão, que eu conheci outro dia numa visita com amigos ubaenses. Da outra vez, eu fiquei à distância, bebendo da calçada oposta a da que dá existência concreta ao boteco. Desta vez, preferi entrar. Trouxe o meu focinho supostamente produtivo pra este espaço sacrossanto de biritas e distrações. Se observei bem, vi um casco de tartaruga gigante num pilar erguido no meio do boteco. “Será que pesa uns cinco quilos?”, perguntei pra um vovô que atua como garçom e atendente no Bar Tio Tão. Eu saberia logo do nome da figura: Paulo. Paulo ou a máscara de José Celso Martinez, o Zé Celso, um dos nomes mais importantes do teatro brasileiro, então vivo. Pra mim, Paulo era Zé Celso. Mas me segurei pra não dar bola fora e chamá-lo de Zé. Paulo não me parecia pessoa ilustrada e que quisesse confabular a respeito de teatro nacional. Ele, livre de minhas fantasias, me serviu há pouco e eu logo perguntei se ele era o dono do estabelecimento. Não era. Quem então responde pelo Bar Tio Tão é a Laura, irmã-herdeira de Sebastião, antigo dono e falecido há uns dois anos. Valtinho fez sinal com a mão, apalpando o peito, sugerindo que o antigo titular do boteco da vez morreu de problema de coração. Há, abaixo do imenso casco de tartaruga instalado num pilar estrutural, uma moldura com uma foto do antigo patrão do pedaço. A foto do falecido Sebastião, inclusive, é curiosa: destaca uma figura ou simplesmente um retrato público de Tio Tão com o dedo indicador numa calculadora. Deve de ter amado muito a calculadora e os fechamentos de contas de boteco este sujeito!

Enquanto eu me concentrava na descrição do lugar, Valtinho se defendia de Tateado. Incansável, Tateado continuava a atacar o meu colega de mesa. “Não sou o Natal! Não sou!”. Tateado, como se tivesse percebido que o parceiro de pileque tivesse mordido e engolido a chumbada junto com o anzol, repetiu o nome de Natal até Valtinho começar a justificar porque era pé-rapado e não o aludido rico ubaense. “Sou dono de oficina! Já tive empregado e hoje não tenho mais! Todos os funcionários que tive me roubaram!”. Foi uma senha pra que Valtinho e Tateado começassem a falar de política e eleição? Ave Maria, saí de casa pra evitar o demônio e quando me noto vivo, o demônio usa a boca alheia pra se fazer presente. Começaram a meter o pau numa figura conhecida de todos: o ser humano! Ate aí, tudo bem. O problema é quando começam a colocar uma máscara no tal ser humano e fazer de conta que se está falando de um ser extraterrestre. Meus amigos paus d’água confabulavam sobre política nacional e o som de um aparelho de televisão que emitia mensagens políticas competia com eles em abordagem semelhante. Aliás, um tempinho atrás notaria que o ibope do Tio Tão dá atenção a um programa televisivo de “jornalismo mundo cão” também existente e muito reproduzido em outros botecos ubaenses. Na minha passagem pelo Bar Arizona, testemunhei  dias atrás, a mesma sanha por boletins de ocorrência e tragédias passionais que destacam as desgraças mais incompreensíveis de um grande centro urbano do país, em especial.

Como pode o interesse televisivo dos mineiros ultrapassar a fronteira interestadual assim?! Esta minha abstração estava fora de cogitação e fiquei na minha tentando relevar o que as manifestações populares espontâneas ubaenses tinham a me dizer ali no Bar Tio Tão. Mirei Valtinho novamente, percebi seus olhos vermelhos de excesso de bebida nas veias. Valtinho, agora filósofo, em fala pro amigo Tateado: “A vida é tesão! Acabou o tesão (putz!), acabou a vida!”, disse ele com voz ardida e fazendo sinal de pinto mole ou reduzido com uma das mãos para todo mundo presente do boteco ver. Nesta passagem, Valtinho se levanta. Coloca a mão no ombro de um visitante recém-chegado e cochicha algo no ouvido do outro… Valtinho, tecnicamente, deu dois passos à frente e, em seguida, dois passos pra trás. Voltaria pra sua cadeira existencial e repassaria o holofote pro nosso Zé Celso, vulgo Paulo, que agora passa um paninho molhado na mesa onde Tateado se encontra. No exato momento em que o dublê de Zé Celso prepara o palco pra chegada de um sujeito de camiseta regata vermelha que vai ocupar o posto vazio ao lado de Tateado… O nome do novo personagem, eu saberia, cita diretamente o nome do próprio boteco. Sebastião chegaria à mesa com uma tigela, um copo de cachaça cor amarela nas mãos e uma cara de quem até merecia episódio exclusivo num diário futuro. O novo personagem de boteco trouxe do balcão uma porção de buchada. A birita veio de um vidro transparente enorme postado no balcão. Sebastião ignoraria a clássica dedicatória pro santo e mandaria ver, em parcela única, dois dedos de pinga pra guela.

Nelson Arizona, Luciano e eu

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Nelson (camiseta preta), dono do Bar e Mercearia Arizona, que observa o trânsito (Foto: Renato S. M.)

por Renato S. M.

Saio de casa para… entrar no Bar Arizona. Olha, caminhei uns dois quilômetros antes de chegar ao mais novo e inédito cenário. Inicio este diário, como se eu me antecipasse a um seguinte. A Praça Getúlio Vargas, famosa em Ubá, fica pra outro momento. Soube dela outro dia. Pra chegar à Praça Getúlio Vargas, a Rua Treze de Maio é uma espécie de caminho. Nesta, trafeguei mais de uma vez com um dos cotovelos à mostra em carona de automóvel Chevrolet. Conhecendo a Treze de Maio, eu perceberia o Bar Arizona. O boteco da vez fica no limite geográfico do centro ubaense, a algumas quadras do estádio do outrora ou hoje pouco ativo Sport Club Aymorés, tradicional agremiação futebolística da chamada zona da mata mineira. Dizíamos, mesmo? O estabelecimento comercial de biritas e distrações da vez é pequeno. Eu diria que, quando se pisa no Bar Arizona, você já sente um aperto no coração e na vista. Dois motivos podem explicar o fenômeno: é bar e mercearia, possui inúmeros produtos à mostra e pelo caminho; a segunda razão realça o ibope que o lugar tem. Bar e Mercearia Arizona, que sempre me lembra uma marca de cigarro na boca escura de bebuns fumantes da minha infância, quando eu entrava em botecos pra comprar paçoquinhas e balas de caramelo. Não sei dizer se ainda existe o cigarro Arizona, que rememorado ainda possui filtro de fumo forte e preço nada popular. Um tio meu, bem empregado numa época, era militante desta marca. Perguntei ao Nelson. Opa, Nelson! Estou falando do dono do nosso boteco da vez. Nelson, de sobrenome não revelado, me lembra o seu xará Rodrigues e famoso da crônica, do conto, do folhetim e da dramaturgia nacional. Acreditam que o nosso Nelson da vez não sabe explicar por que o seu Bar e Mercearia é Arizona? Sabendo da confissão deste nosso comerciante-personagem, juro que pensei um pensamento impublicável sobre a sua figura, que herdou o boteco onde hoje dá expediente das dez às vinte e duas horas em horário comercial. Na passagem em que confabulo com o representante-mor do Bar Arizona, já me encontro bebericando uma cerva. Bebia um litrão barato, pra variar. “O que tem? Então manda uma Itaipava!”. Depois do primeiro palavreado, vieram outros. Que tal este? “Desde quando existe este bar, hem, Nelson?”. “1967”, disse ele sem eu perceber se ele se sentia um entrevistado ou não. Quase me saí indelicado, pois em seguida pensei e não disse: “Ao menos isso você sabe, ao menos com isso você se importa, hem, Nelson?”. Nelson Ned, de outros diários e ideias-fixas me veio à mente neste instante. Consegui me conter sobre o famoso pequeno gigante da canção, também de Ubá. Esta minha mania de pensar pelos cotovelos e de achar que tenho liberdade pra escrachar depois de um “olá, como vai?” e após a segunda bebericada de copo!

Nesta de conversar com o Nelson, o do Bar Arizona, eu disfarçava que não estava a serviço e atrás de alguma novidade sobre a cidade de onde me exponho e da qual me reporto à vida social. Na real, o nosso Nelson do boteco não tinha muito tempo pra conversa fiada. Bar Arizona não possui garçom, embora tenha mesas no encostamento de asfalto. Assim que bati o olho pra este retrato, eu pensei: privatizam o meio-fio!? Bar Arizona fica numa via pública movimentadíssima, diga-se de passagem. Nos breves e eventuais diálogos que travei com Nelson Arizona, soube que o bar que a partir de agora lhe dá novo nome nasceu antes do asfalto. Segundo meu entrevistado, Bar Arizona surgiu mesmo antes de um meio-fio. Neste aspecto, pensei sem dizer a Nelson Arizona, dono de um destacado ponto de encontro de paus d’água ubaenses: o uso aparentemente indevido do meio-fio não é uma apropriação ilegal, uma espécie de direito adquirido à força e com o tempo? A sarjeta é do Bar e Mercearia Arizona – e ponto! Nesta de puxar assunto com Nelson Arizona, atraí a atenção de Luciano, um negão alegre que no começo de minha reportagem anticonvencional surgiu junto ao balcão tomando uma dose de pinga de um real e comendo um pedaço de miúdo de porco. Deduzi à distância que o miúdo, tirado de uma panela de alumínio enorme postada no balcão, fosse de porco, carne mais barata, mas poderia ser de vaca, boi, frango. Esta indecisão ou imprecisão informativa passou longe de meu focinho quando Luciano, um trabalhador braçal de uma empresa que me foge o nome e a especificação sentou-se na cadeira ao lado de minha mesa. Era a cadeira onde eu estava há poucos instantes, mas abandonei aquele assento por ele ficar próximo ao banheiro. Um vovô ruim de conversa esquentava o meu assento futuro. O vovô saiu de cena sem que eu percebesse. E não me peçam pra confidenciar alguma nota específica sobre o fedor que sai do banheiro do Bar Arizona, relembrando meu antigo assento e agora assento do colega Luciano. Importa dizer: o chapa Luciano parecia forte daquele lado. Ele e eu confabulávamos sobre um cotidiano que alimenta uma espécie de fuga da realidade, que aqui tento explicar: enquanto um comunicador famoso de um programa mundo-cão interestadual vociferava numa tela de tevê grudada na parede do boteco, Luciano versava sobre um calendário de botequeiro. Torcedor do Cruzeiro Esporte Clube, o colega de mesa já me convidava pra um dia seguinte, pra conhecer um famoso boteco nas imediações da Praça Getúlio Vargas. “Lá, costuma aparecer umas amigas e que não são interesseiras não!” Luciano repetiria: “Olha, não são interesseiras não!”. Disse-me, depois de se apresentar, dizer que é casado e muito sério. Tirando a citação das amigas, talvez Luciano apenas quisesse me convidar pra prestigiar o seu time do coração que disputaria um título nacional.

Luciano, um retrato de pessoa muito falante. Tomou a posição do Nelson Arizona, que até então, suposto destro, jogava na ponta esquerda fechando o meio-de-campo. Luciano me pareceu um típico camisa 5, cravado na frente da zaga, que nos torneios de várzea faz a vez do maluco que subitamente pega a bola e coloca debaixo do braço e para o jogo pra conversar com o juiz, para gentilmente dar instruções sobre como um mediador deve proceder e não dificultar a vida do time que tem Luciano trajando uniforme. Estou eu ouvindo uma figura, que me sugere coisas. Enquanto Luciano se repete, eu me noto um total espectador a ponto de me imaginar esticando as costas e relaxando as pernas num puff de sala. De repente, olho pra um horizonte e esbarro numa parede oposta dentro do Bar Arizona, enquanto Luciano fala, fala, fala ao lado com total liberdade, sem freios ou sem nenhum obstáculo de pronunciação.

O fim de uma jura besta

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Na mira: Bar do Niltinho, bairro Caxangá (Foto: Renato S. M.)

por Renato S. M.

A chuva me trouxe novamente pro refúgio de meus diários. Final de tarde de segunda-feira, na saída de uma sala de redação, no momento em que deixo meu expediente profissional num espaço pequeno de escritório no centro de Ubá, a água começa a cair, caía uma chuva fina e constante. Um até logo pra meus patrões numa associação ubaense e sem fins lucrativos. Atravesso a rua Treze de Maio, uma das mais movimentadas da cidade. Num zigue zague, de uma calçada pra outra, pra me proteger ou tentar proteger minha mochila com computador do chuvisco que caía. Ubá, pra quem não a conhece, é a cidade chapa-quente. Embora a chamem de “cidade carinho”. Ubá, melhor dizendo, foi fundada dentro de um grande buraco. Estando nela, se você desviar o olhar dos inúmeros prédios ou de construções altas, você vai notar um barranco. Por ter surgido entre barrancos, Ubá carece de ventilação.  Eu, naturalmente, não pensava muito nisso quando passei perto da praça São Januário de inúmeros transeuntes e visitantes de pernas, canelas e umbigos de fora em dia de sol e sem vento e frescor vindo da atmosfera ou de lá não sei de onde.  Olho bem a badalada praça pública com ares desertos, enquanto piso ligeiro na calçada de frente da matriz de mesmo nome da praça. Passo despercebido da Igreja São Januário, que compõe junto com a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, a alguns quarteirões dali, uma dupla de padroeiros municipais.  A cidade de nosso atual cenário de mundo possui dois padroeiros, dá pra acreditar?

Neste momento da narrativa, eu já havia dobrado a esquina da Igreja, saído da Treze de Maio e entrado numa rua de nome que não me recordo agora, só sei que uma quadra depois esta mesma rua sem nome reconhecido passa a dar nome à outra figura, após o cruzamento com a rua Santa Cruz, a rua de nome que me foge do conhecimento dá nome à rua Doutor Ângelo Barleta, onde outro dia eu testemunhei, a ponto de fotografar, uma mulher dando água pra um cavalo aparentemente solto; um animal andante pelas ruas do centro ubaense feito um cachorro abandonado e sem dono identificado. Enquanto eu caminhava pela Doutor Ângelo Barleta, a chuva caía sem dar sinal de trégua. Avancei os passos até chegar numa espécie de forquilhamento. O que chamam de trevo? Como de costume cotidiano, virei à esquerda e entrei na rua Dom Hervécio, já com uma ideia fixa na cabeça: passar no supermercado pra comprar alguns produtos alimentícios que me faltam em casa e depois quebrar o jejum de duas semanas. A promessa era não voltar mais à praça Guido Molière de outros diários, ou não voltar tão cedo aos dois botecos de nossos testemunhos iniciais. Juro que recebi uma chuva de e-mails e um vendaval de ligações interurbanas de leitores que puxaram a minha orelha à distância com comentários do tipo: “Jornalista, queremos testemunhos de locais inéditos, ok?”. Ou: “Afe, Ubá só tem dois bares e uma praça chamada Guido Malière?”. E que tal esta? “Como você paga pau pro Ricardote, hem!”. Não por isso, saindo do supermercado, que ostenta um letreiro com a inscrição “Carinho” na fachada… Ah, o supermercado se localiza na rua Coronel Júlio Soares. Já é bairro Caxangá. A rua e o bairro citam passeios e uma abertura urbana onde o grande gigante da canção brasileira, o famoso Nelson Ned, viveu na infância.

E se eu falar que passo quase todo o santo dia em frente à suposta casa onde o grande Nelson Ned morou na infância e me seguro pra não pular o muro cheio de lâminas com eletricidade para poder me certificar como é lá dentro, como é o lugar e de quem é o espaço atualmente? Nesta passagem, devo admitir que estou lendo a autobiografia “O pequeno gigante da canção”. Nesta obra, eu soube que Ned viveu parte da infância na rua Coronel Júlio Soares, a mesma onde resido nos dias atuais. Atualmente, tenho pensado em Nelson Ned e no fato dele ser pouco citado entre os seus conterrâneos. Outro dia até provoquei uma interlocutora ubaense, sobre se ela sabia que Ned morou na Júlio Soares.  Não, minha interlocutora não sabia. Nelson Ned, que nasceu com displasia espôndilo-epifisária, que o levou a ter apenas 1,12 metro de altura na fase adulta. O pequeno gigante da canção sofria de nanismo, conforme uma expressão de fácil entendimento. Segundo consta em sua autobiografia, seus seis irmãos nasceriam sem esse distúrbio, mas os três filhos herdariam o nanismo.

Suspendo um pouco a fixação, a curiosidade e a admiração pela figura de Nelson Ned para ver o que acontece em um estado presente. Deixo de abusar do pensamento e avisto o Bar do Niltinho logo ali. Cito um ponto de encontro de amigos que possuem carros e pagam por cerveja cara. Bar do Niltinho não vende litrão, e se não vende litrão, não merece o devido respeito do povão. Bar do Niltinho é matéria pra rap: exige muito do freguês e oferece pouquinho.

Até então, Niltinho pra mim era nome de um negão amigo de infância que hoje tem dois metros de altura. Abrevio a passagem em que vou ao banheiro do boteco dar um mijão? Sento numa banqueta rente a um balcão, e um primeiro colega de birita me força um cumprimento de mão sem que eu tenha lavado a minha há pouco. Ok. Não pude evitar de um sujeito chamado Dedé. Passo pra imagem adiante. Niltinho, eu saberia sem demora, estava camuflado em meio aos clientes. Soube de sua existência, quando a mim foi dirigido um “Opa, pois não?”. Pedi uma cerva, depois de fazer uma jura besta que não iria beber pelos próximos três meses.

Estou num boteco de um botafoguense. Niltinho é dono de um estabelecimento que fecha cedo, às 8 da noite. Em Ubá, todos os estabelecimentos fecham cedo. Chega a ser insuportável esta constatação, vindo de quem não é nativo e de quem estranha o fato da vida boêmia ter baixo ou pouco ou nenhum ibope nesta cidade do interior de Minas Gerais. Aqui: ou você abre o seu próprio boteco e enfrenta as convenções locais ou se adapta à realidade circundante.

Ricardote

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O patrão do Bar do Ricardo na versão corintiana (Foto: Renato S. M.)

por Renato S. M.

Senhoras e senhores, a minha ideia fixa hoje é o dono de um boteco na Praça Guido Marlière, a popular praça Guido. Aliás, tenho quatro ou cinco leitores que acompanham as nossas histórias publicadas no blog Diarios de Mochila, como se espiassem por entre os orifícios de uma grade de um confessionário. Segundo estes quatro ou cinco leitores fiéis, quem não conhece Ubá pode pensar que a cidade não passa de uma praça com dois botecos em duas de quatro margens. Na tentativa de novamente me fazer entendido, importa dizer que volto com uma teoria declarada: as pessoas vão ao boteco para se sentirem alegres ou para de algum modo buscar alegria. Dirá o crítico mais ferrenho e cheio de razão ou cheio de si: “A alegria de boteco é uma ilusão!” Chispa! Chispa! Sai pra lá, crítico mais ferrenho e cheio de razão ou cheio de si! A razão saiu de banda, neste caso entrou uma emoção desmedida em pleno templo de biritas e distrações localizado na rua Guido Marlière, que dá nome a praça a frente.

Peço um litrão de sete reais, pra não perder o costume e os bons modos. Vá lá, o preço de bebida é de menos. Desta vez, vale considerar que o atendimento foi rápido. O novo garçom do período noturno do Bar do Ricardo, autointitulado Gaúcho, trouxe a bebida. Lembro-me bem de um dia anterior: “Você é garçom novo?”. O garçom novo, a cara de um amigo meu de Pelotas, foi categórico: “Sou! Pode me chamar de Gaúcho!”. Mais esta, mais esta! Eu pensei no amigo e professor de História Adriano lá no sul do Rio Grande do Sul. Gaúcho trouxe a bebida e um cigarrette. Ops, o cigarrette do Bar do Ricardo costuma ser do tamanho da mania de grandeza da figura do gaúcho, seja gaúcho ou gaucho do Uruguai ou da Argentina. Ah, cigarrette do Ricardote é um enrolado de massa de pão caseiro frito com miolo de presunto e queijo. Tava com fome. Sem jantar e tal. Diferentemente de outras vezes, mudei de lugar. Sentei-me numa cadeira e me apoiei numa mesa numa região intermediária do estabelecimento de biritas e distrações. E lá fiquei tomando uma e mastigando o enrolado. Busquei um olhar panorâmico, e a partir da primeira mordida de cigarrete e de um gole de cerva, eu já me posicionei na posição de quem elegeu premeditadamente um alvo. O nome dele não pode ser objeto de suspense, o nome dele só pode estar no título deste testemunho?

Avistei Ricardote como o vi nas outras vezes: andando de um lado pro outro ou em movimento de costura entre pessoas ou indo de lá pra cá de um balcão ou conversando com alguém e ao mesmo tempo fazendo alguma coisa, fechando a conta ou atendendo mais algum pedido, afinal, Ricardote é um patrão fora do comum! Ricardote, que aqui me falta o nome por extenso, é um patrão brasileiro que t-r-a-b-a-l-h-a! Puta merda, Ricardote é um patrão que coloca a mão na massa! Quem vê Ricardo pela primeira vez dentro do bar que lhe destaca o nome e não o conhece pode pensar: como este garçom trabalha, meu Deus! No dia, ou melhor, na noite que eu resolvo fotografar a figura que sustenta o nosso testemunho. Neste exato dia decisivo pras letras deste episódio. Veja bem ou imaginem: Ricardote está com a camisa do Corinthians. O nosso protagonista não é um corintiano, eu fico logo sabendo com um sinuqueiro com quem eu dividia a mesa de bebida. Sinuqueiro, aliás, é uma das figuras mais recorrentes neste descrito boteco. Não tem um dia que eu não pise no lugar e não vejo o sinuqueiro, sem camisa e com o barrigão à mostra, jogando sinuca ou observando demais sinuqueiros jogando. Longe de mim, expô-lo aqui. Sinuqueiro é uma referência para pelo menos 80% de frequentadores do Bar do Ricardo, que se destacam por não esconder os barrigotes. Eu, de minha parte, cultivo meu modesto tanquinho. Bem, Ricardote versão corintiana ia pra lá e pra cá, alegre e faceiro, provocando os amigos flamenguistas de plantão. Me pareceu uma aposta do notório torcedor do Fluminense, desfilar com um uniforme do Corinthians Paulista dentro do boteco. Pra quem não conhece Ubá… Senhoras e senhores, Ubá é puro Rio de Janeiro. Boa parte dos locais torcem pra times do estado do Rio de Janeiro. O Corinthians, um dia antes de nosso testemunho, havia eliminado o Flamengo na semifinal da Copa do Brasil. Ricardote nem disfarçava que estava tirando onda de seus amigos rubro-negros. Perdi a conta de quantas vezes ele passava perto de um, numa pausa de sua corriqueira correria, pra dizer algo em voz baixa – e que só ele ouvia – e levar o dedo indicador à boca fechada num sinal de: xiu, quietinho, pianinho, Flamengo perdeu ontem! Ricardote, como se percebe, não deixa de ser o que parece ser pra tirar sarro dos amigos. Ele faz média, se faz média, fazendo o que ele parece fazer de melhor: tratar bem as pessoas! Eu, de minha parte, conheço ou sei da figura de Ricardo, que me inspira a chamá-lo de Ricardote, há pelo menos 50 dias. Que figura! Ah, não é que Ricardo ou Ricardote não passa por mim e diz: “E aí, Renato?!”. Notem, o patrão da vez é um grande sedutor, carismático, te chama pelo nome, diz: “Como vai, Renato?!” e sai de banda. Não é brincadeira, este nosso personagem principal sabe como dizer, sabe como abordar. Imaginem que até o sorriso de Ricardote é suave?

Peço que as senhoras e senhores não riam de minha irreverência. Ricardote é educadíssimo, leve, uma espécie de extremo oposto de seu irmão: o Mendes, o doce rabugento que comanda o caixa do Bar do Mendes ou Mendes Bar. Mendes Bar fica ali perto ou num dos quadriláteros da Praça Guido. Neste ponto do testemunho, eu já estou enchendo a boca pra dizer: RICARDO É O CARA! Em tom de exagero, mas num exagero que está longe de fazer com que fujamos do sentido de nosso gênero: o testemunho. NO BAR DO RICARDO: VALE TODOS OS CARTÕES DE CRÉDITOS E DÉBITOS. Que mais? Tem bingo eletrônico, um tal de Keno. Tem mais coisas, que não convém chamar a atenção pra não expor o boteco. Nesta altura da história, sem que Ricardote saiba, dedico este diário como alguém que não consegue mais esconder a admiração ao perfil que lhe destaca a condição de um notável personagem.

Entre o inusitado e a fé desejada de uma noite de sábado maluca

atualizado 29 setembro 2018 Deixar comentário
Em um boteco misterioso de Ubá (Renato S. M.)

por Renato S. M.

Noite de sábado e eu penso que posso sonhar e ver além do que o meu focinho pode almejar. Se estou em Ubá, penso que posso estar todos os dias nas imediações da Praça Guido? Afinal, hoje é sábado e se não me for permitido sair e provar uma birita e provocar um testemunho o que seria de mim? Desço a Coronel Júlio Soares, a rua onde teria nascido Nelson Ned, o famoso: O pequeno gigante da canção brasileira. Sigo. Perambulo por umas dez quadras e viro à direita, passo uma quadra e viro de novo, agora à esquerda, e já estou na Cristiano Roças. Subo um morro, um movimento íngreme, olho do lado e noto a igreja monumental Nossa Senhora do Rosário, um notável símbolo de Ubá. Descendo o morro, vou adiante até a rua e… A partir deste momento me nego a dizer em qual boteco entro. Só sei que entro num boteco e peço um litrão. Entendam, estou agora num lugar misterioso. Corto para o elemento mágico, estou numa mesa bebericando uma Antarctica. Não tinha Itaipava, sorry.

O motivo deste narrador-personagem se encontrar num boteco sem nome declarado, meus leitores não precisam saber. O por quê de ser boteco e não a sorveteria cara da Praça São Januário? Isso também não é preciso explicar. O que posso dizer é que estou numa mesa de bar e acompanhado de um fulano. O fulano agora está, imaginem vocês, dormindo. Quer dizer, num primeiro momento, o companheiro de mesa está acordado. Me cumprimenta após eu perguntar se posso sentar ao lado. Ele diz meio sem sentido, que “sim”. Sento-me e o colega de base investe logo num sono. Fecha os olhos e esquece do mundo. Fica ele ali com a boca entreaberta, olhos fechados e fungando a atmosfera de gente que não respeita a lei anti-fumo – nos bares de Ubá, digo, nos botecos ubaenses dignos do nome as pessoas fumam à vontade, sem se preocupar com anúncios de lei federal. Eu que não tenho nada a ver com o amigo que dorme na cadeira, me resguardo da posição de testemunha ocular. Beberico mais um gole de cerva.

Sem querer pagar de deselegante, deixo o amigo que dorme na cadeira falando imaginariamente sozinho. A bexiga aperta. Lembram-se que eu falo de um bar misterioso, hoje não me lembro bem por lei alguma de onde narro. Passo pela primeira mesa de sinuca. Olho de lado e vejo uma jogada. Mais dois passos, me deparo com outra mesa e visualizo: há uma aposta sanguinária nesta! Há uma terceira mesa de sinuca? Só vejo malícia nesta, deduzo que há dois malandros treinando no pano verde, afinal, noto dois oponentes sorrindo além da conta. Mais alguns passos e me percebo num fim de túnel, na direção de um mictório. Afinal, me adianto com a intenção de mijar. Se eu fosse cagar, eu daria mais um passo e entraria numa porta ou cagaria em casa mesmo, antes de sentar num trono público suspeito. Deus do céu! A imagem com que me deparo do mictório deste bar que faço questão de manter em tom velado é de uma noção…! Nunca na minha vida me vi diante de tal cena. O que importa dizer, assim que entro no ambiente nada ventilado pra dar um famoso mijão, me deparo com um sujeito levando as mãos no cocho onde se urina. Se você não é homem e nunca imaginou chegar num mictório e ver um sujeito cavar o mictório com as mãos desprotegidas de luvas onde comumente se urina… Se você que nos lê e é homem e sabe o que é mijar em pé num ambiente não ventilado, num cocho com naftalina faltando, então você pode estranhar como nunca a imagem de um sujeito de posse de uma sacolinha de supermercado e tirando um volume de uma água mais ou menos corrente e recolhendo uma substância sólida estranha.

Se eu estranhei o que acabara de ver? Eu lembro-me de ter dito: “Meu querido, o que você está fazendo?”. “Eu… Eu…”, o sujeito se saiu assim. Eu juro que no primeiro momento eu não sabia o que se passava ali. “O que é isso, meu ca-ma-ra-da?”, se eu não disse, eu pensei com a certeza devida. “É que…”, o sujeito começou a argumentar e eu comecei a entender, segurando a vontade de mijar. Ocorria que o sujeito acabara de vomitar no mictório e, levado por uma moral fora do comum ou vai saber muito comum onde lá não sei, o sujeito que havia vomitado involuntariamente se julgou no dever de limpar urgentemente o mictório sem proteção das mãos ou num momento inapropriado. Apertado, tive que abrir a braglia da calça e dizer pro camarada: “preciso dar um mijão, sei que você está limpando e pondo a mão neste cocho metálico e sujo de bactérias, mas tenho que tirar a água do joelho…”. O camarada entendeu e eu fiquei ali, com meu pingolim à mostra e o sujeito interessado em se justificar e numa penitência particular e fora do comum: “É correto, tenho que limpar…”. Me aliviando, ainda tive fôlego pra dizer ao sujeito : “Meu querido, não precisa fazer isso, isso acontece, deixa aí, depois limpam…!”.  Em vão, eu não conseguiria convencer a figura fora do comum ou desta realidade que nos cerca nem se eu fosse uma pessoa iluminada.

De volta à minha mesa, na companhia de um sujeito dorminhoco. Quando menos espero, surge mais uma vez o autor do vômito do mictório. O contexto é que o boteco ia fechar. O camarada que usara as próprias mãos sem proteção de luvas na limpeza voluntária do mictório estava agora batendo em meus ombros, me dizendo: “Olha, limpei a mão, viu?!”. E eu em vão, disse pro camarada: “Não faz isso não, rapaz…”, argumentei pro maluco que parecia ter uns cinquenta anos e estava de saída do boteco.

Na sequência, o amigo dorminhoco que me acompanhava na mesa acorda depois de duas horas e me diz de supetão: “Hora de eu ir embora!”. Ele levanta, vai ao balcão, quem sabe quita o valor daquela sua Antarctica 600ml, que rendeu pacas ou uma noite inteira. Vi quando o cara foi até o caixa, pagou a bebida, voltou até mim e bateu em meu ombro então cheio de bactérias e sacramentou, pra fechar a noite maluca de sábado que eu tive: “Fica na fé, irmão!”.

O caso do suposto caloteiro

atualizado 29 setembro 2018 Deixar comentário
No Bar do Mendes, por acaso (Renato S. M.)

por Renato S. M.

Fiquei pensando na figura do fulano que, fazendo companhia a uma mulher, sai subitamente correndo pra não pagar a conta da bebida ou, vá lá, pra deixar de ajudar a pagar. A cena me deixou besta e com a cara no chão, ali dentro do Bar do Mendes, naquele templo das paredes e chão sebosos. Quem não me notou em outro episódio, na condição de testemunha ocular dentro do bar do querido rabugento do Mendes, vejam bem. Noto-me rente a um balcão. Há poucos instantes, um banco vazio se chocou violentamente contra o meu. A batida me fez imediatamente abandonar a audiência de um futebol na TV. O boteco lotado, até então sem incidentes, parecia querer contrariar o curso dos fatos até ali. Vi um cara correndo, tudo bem que vi de relance. A mulher, visivelmente injuriada e agora em pé, levou a mão esquerda no banco onde estava sentada e fez aquele movimento de “seu fila da mãe!”. Corrijo-me: a mulher se expressou como se tivesse possessa, indignada com a atitude de um canalha. Se ela sabia com quem estava, isso eu já não sei. O que sei é que ela teria se levantado e levado a mão esquerda que resvalou no banco onde estava com o popozão e fez com que o seu banco, no dizer técnico-policial, colidisse com o meu. O acento da mulher colidiu contra o meu e eu, logicamente, me assustei ou fiquei surpreso. Se eu não mentalizei um “que porra é esta…?”.

Foi engraçado até. O cara saiu correndo pra não pagar a bebida da mulher ou a sua própria bebida. Martelei fundo: aquela imagem na cuca; enquanto eu bebia uma Itaipava quente. Só me faltava esta: estar bebendo uma cerva quente! Estava entre indignado e resignado com aquele fato. Quer dizer, não daria tempo pra que eu ficasse ali procurando assunto para pensar ou pretexto pra pretextar. Não demorei a ficar ali chorando as pitangas com a cerva quente, a mulher injuriada se dirigiu ao caixa onde estava Mendes, o patrão do estabelecimento. Corri os olhos na personagem.  No caminho do balcão para o caixa, vi a mulher contando um dinheiro. Parecia não ter tudo pra pagar. Enquanto fingia ver o jogo, espiava aquela. Mendes atendia um cliente. Só em seguida atendeu a mulher. A imagem de que a mulher não tinha grana, passou rápido e eu olhei pro alto, o clássico argentino da Copa Libertadores estava até interessante. Independiente x River Plate. Súbito, uma voz alta interrompe a atenção de quem ali tinha atenção: “TINHA QUE SER PUTA MESMO”. Não é que era o sujeito fujão, que voltava? Por um momento eu ri mudo e pensei: “A consciência apertou, digo, a consciência pesou e o malandro voltou pra pagar ou pra ajudar a pagar a conta. Lembremos: era noite, feriado municipal”. O homem voltou, mas não foi por espontânea vontade ou não me pareceu ser, tive certeza: exatos vinte segundos depois que o fujão ressurgiu, duas companhias vieram atrás. Duas companhias, digamos assim, fardadas.

Dois policiais vieram no encalço do fujão. Eu fiquei sem saber se ligaram pro 190 ou se alguém em específico avisou a polícia. Os policiais militares chegaram atrás do suposto caloteiro, que me deixou em dúvida: chegou antes dos policiais ou chegou forçado pelos homi? Só não dei uma gargalhada, porque eu chamaria a atenção além da conta no momento. Tá, só não ri porque a cena era tensa. Neste meio tempo, o suposto caloteiro ficou ali cercado pelos policiais, forçado a pagar o que devia. A mulher ficou na entrada do boteco, falando alguma coisa difícil de entender à distância. Reclamava de algo, disso não tive dúvida. O suposto caloteiro se afastou do caixa, junto da dupla de policiais fardados. No mesmo passo, a mulher saiu do boteco falando alto e sem se fazer de entendida. Aparentemente. O carro da PM ficaria com o sinalizador giratório ligado. Dentro do boteco, Mendes não arredava o pé do seu lugar cativo. Na real, Mendes se quer esboçava reação a partir de seu caixa sagrado. Como se o caso fosse banal. Frisei em Mendes, o irmão do Ricardote, do Bar do Ricardo, instalado a poucos metros dali. E de novo a minha mania de comparar os irmãos e os botecos. Voltei à tona com um entra e sai do Mendes Bar. O fluxo de fregueses deu uma aumentava depois do caso de polícia. Eu, confesso, até esqueci que minha cerveja estava quente, uma bosta cerveja quente!

Agora observava o carro de polícia. O suposto caloteiro pego em flagrante do lado dos PM’s. Eu não entendia. Ia dar B. O. ou não? Ou o caso terminaria apenas num sermão? Pensei em me levantar e ficar lá na calçada, para ouvir alguma confidência do acusado. Mas eu estava bebendo. Fiquei em dúvida se o caso não ia terminar em delegacia. Se eu tivesse a serviço de algum jornal local, certamente eu estaria lá do lado dos policiais dizendo que sou do jornal e tal. Mas eu não estava bem numa reportagem tradicional, eu estava numa posição distinta. Os transeuntes iam e vinham, por bem atravessavam meus pensamentos. A sirene do carro de polícia aluminava a calçada, eu prevendo o suposto caloteiro sendo algemado e julgado pela moralidade de plantão. Olhei do lado, onde antes estava o casal: dois bancos vazios. Perdi as testemunham, já que as testemunham estavam numa posição nobre agora. Me imaginei ali, como se eles pudessem estar ali e dizendo-lhes: “Que coisa, não?”. Imaginei mais, investi num diálogo particular com meus vizinhos de balcão ausentes: “Olha, me permita dizer, se fosse eu, pagaria toda a conta!”. Meus vizinhos ausentes talvez dissessem: “Eh, duas garrafas de cerveja e uma batida! Se não pode pagar meia bebedeira, o que esperar da vida?”. Cortei rápido o diálogo inverossímil ou de pouca aparência verdadeira pra me certificar do que bem importava dizer em pensamento: “Não aguento mais esta cerveja quente, já tenho a minha história! Vou-me embora. Já gastei a minha cota diária”. Paguei a conta e fui-me embora, incomodado com uma súbita nostalgia ou com uma lembrança de um tempo em que eu me fantasiava de repórter profissional de cidade pequena, com carteira assinada e salário baixo, coletando um depoimento do local de um B.O., ligado a alguma redação de jornaleco aliado da atual gestão municipal e subordinado a um público-leitor de páginas policiais e sem peso de consciência.

Por acaso no Bar do Mendes

atualizado 29 setembro 2018 Deixar comentário
A Praça Guido Marlière; ao fundo, o Bar do Mendes (Foto: Renato S. M.)

por Renato S. M.

Sempre que piso nas imediações da Praça Guido, sinto-me envolvido por uma atmosfera baudelairiana e, falando difícil assim para alguns, tento-me fazer entendido dizendo que, se não me sinto na Paris de Charles Baudelaire do século 19, me vejo periodicamente na praça ubaense de nome reconhecido, por extenso Guido Marlière,  me vejo num retrato em miniatura do Rio de Janeiro dos dias atuais. A famosa Praça da Cinelândia me vem à mente toda vez que eu dou duas pancadinhas com a sola dos pés na Praça Guido, em Ubá. Tirando a falta de teatro, biblioteca, hotéis, cinemas. Tirando tudo isso, o que sobra? Bem, o que não sobra fica à margem dos olhos quando, vindo de uma caminhada da rua Cristiano Roças, dobro a esquina da Roças com a Rua Guido Marlière e dou de cara com o bar do Ricardo e, para minha surpresa, fechando para balanço diário. Feriado municipal, sabe como é? A mulher do Ricardote me assegurara um dia antes que o boteco abriria nesta data. Fechou antes do tempo e me frustraria ou me deixaria subitamente aborrecido, se eu não atentasse pra uma espécie de plano B. Como dizia um falecido ex-professor: “Tudo depende do ponto de vista”. Não é que uma girada de olhar vejo ao fundo, o co-irmão Bar do Mendes. Mendes, vejam só, é irmão do Ricardo, do Bar do Ricardo. Coisa que eu demoraria a saber. Levou semanas até que algum cristão, ou melhor, até que uma cristã me avisasse: “Ricardo é irmão do Mendes!”.  Bar Mendes, Mendes Bar, pra lá fui eu? Friccionei as mãos, deixei a calçada do Ricardote.

Dentro do Bar do Mendes. Toda vez que me vejo no popular Mendes, me vem à cabeça uma comparação inevitável com o Bar do Ricardo. O que não tem no Ricardote e tem no Mendes ou vice e versa. De início, há a diferença de público. Bar do Ricardo possui público mais velha guarda; Mendes é lugar de uma galera, público mais jovem e, digamos assim, gente colorida. Mas no feriado de São Januário, um dos padroeiros da cidade (dizem que há outro e eu ainda não sei qual), eu me notava menos sistemático e confesso que deixei a analogia entre botecos de lado. Mendes estava mesmo pegando fogo! Se quis dizer que o Bar do Mendes estava lotado? Dirigi-me a uma vaga junto ao balcão, aproveitando pra me certificar que um banco estava vago. Um sujeito acompanhado de uma mulher, ao lado, disse que estava vago. Observei bem, sentado do balcão, o balcão de mármore de cor escura. No Mendes, a freguesia parece gostar de sentar às mesas. Quer dizer, não falo de um extenso balcão. É pequeno e do qual o dono parece gostar de manter distância. Mendes, o patrão da vez, parece não tirar o popozão do caixa instalado no meio do boteco ou em lugar estratégico de onde se vê o balcão, a saída, a correria de garçons; do acento cativo do Mendes dá pra se ver o movimento e de lá se avizinha a passagem pra cozinha, onde atua um irmão e sócio; ao lado ainda há a escada que dá acesso aos dois pisos superiores de um prédio antigo. Não era a primeira vez que eu fazia este retrato. Toda vez que eu piso no Mendes revejo este retrato com curiosidade de perceber se o Mendes faz faxina do lugar. Se faz, e eu acredito que faz, não parece. A cor, o tom seboso do boteco ou do prédio antigo nunca descola da vista de xaropes como eu.

A esta altura, eu já bebericava (adivinhem?) uma Itaipava. Incrivelmente, nesta noite de feriado municipal o próprio Mendes ou a sua cara de rabugento me serviu. Pedi um litrão. Mendes pôs a garrafa no balcão. “Veja se tá fria!”, ele disse. Abraço a garrafa com a mão direita: “Não tem mais gelada?”. A resposta que me veio me fez ver Mendes como um baita retórico. “Não!”. “Vai esta mesmo”, eu disse vai esta e emendei o pedido de um quibe. O quibe. Falo DO QUIBE e não brinco com o dizer de traços garrafais, o quibe parecia uma goiaba gigante. Fui seduzido por um salgado vendido por incríveis 2,50. Estava sem jantar. Comecei a mastigar O QUIBE, pensando no que importava: “será que hoje sai mais uma história?”. Tinha saído pra rua seco pra fazer um perfil mais detalhado do Ricardote. Diferentemente de cinquenta dias atrás, agora só saio pro lazer a trabalho! Como Ricardote fechou mais cedo, surgiu a figura do irmão-concorrente da Praça Guido, que se destaca por ter dois badalados botecos (me parece, ainda preciso checar, que ainda há ao redor da Cinelândia ubaense uma espécie de gafieira, porque sempre ouço um barulho suspeito saindo de uma porta aberta do prédio da antiga Estação Ferroviária, ali instalada); duas barulhentas igrejas pentecostais dão o restante de contorno de vida ao espaço que normalmente serve de moradia pra descamisados ou pessoas que vivem socialmente às margens de. E por falar em templos, estava eu ali no chamado templo das paredes e chão sebosos, quando noto bem o casal do meu lado. Aquele mesmo casal, a quem há pouco eu pedi licença pra me sentar no banco que avistei vago.

Não cheguei a me ocupar do casal ao lado, porque não faz bem ficar filmando os outros assim na cara dura e também preferi dar um pouco de audiência pro jogo da Copa Libertadores que passava na TV suspensa numa parede acima do caixa onde Mendes parecia fazer questão de não sair de perto. Jogo chato da pêga, sô! Isso. Ressuscitei até um dito popular que eu falava e ouvia na infância: “pêga!”. Pensava eu na morte da bezerra quando subitamente senti um banco deslizar e bater com força na base do meu! Esqueço a TV e o futebol, olho de lado e já não vejo o casal, isto é, observo o momento exato que o homem sai correndo e deixa a mulher sozinha, em pé, num inusitado caso de homem que dá calote em mulher e sai numa literal corrida pra não pagar conta ou pra não ajudar a pagar a conta. Ainda vi a mulher bater firme um copo de formato americano com bebida cor laranja dentro na direção do mármore do balcão! O copo incrivelmente não quebrou, e eu passei a me ver um repórter sensacionalista de cidade pequena que se sente eufórico com um desdobramento de caso que a mulher, ofendida pelo homem, iria nos presentear na forma de um próximo episódio.

Um início de novela com classificação dezoito anos

atualizado 29 setembro 2018 Deixar comentário
Um visual do Bar do Ricardo (Renato S. M.)

por Renato S. M.

Se eu não começar reportando que cheguei ansioso ao bar do Ricardote, eu já inicio mentindo descaradamente neste primeiro diário sobre Idas e voltas em Ubá. Cheguei ao pedaço na correria, chuviscava e eu me sentia com álibi pelo temor com o clima. Entro no boteco, encosto no balcão. Estaciono rente à base e lá fico. Putz, nem nos meus pensamentos mais sombrios de repórter de bairro sem salário fixo eu imaginaria uma cena dessas. Passaram-se dez minutos de espera e eu já começava a pedir a senha por telepatia ao patrão imediato: “Ow Ricardo, me passa uma senha pro atendimento!” Ato contínuo, eu repetia a fala e ninguém ae comigo. Nem Ricardo, o dono do templo de biritas e distrações, nem o garçom único e prestativo, muito menos a mulher do Ricardo, que também atende e lá estava ocupada com um pedido na calçada… Bem, eu estava parado inclusive dentro de mim e logo minha condição de esquecido pelo mundo acabaria. Quando eu já pensava em erguer as duas mãos e investir num teatral e deselegante “porra, caralho!”, a mulher de Ricardo viera com um litrão de Itaipava ao meu socorro e sem que eu lhe fizesse o pedido formal. Já sabem de meu pedido de antemão? Quer dizer, finjo que já não sou conhecido da casa e que Ricardo não me chama pelo nome reforçando certa boa vizinhança ou tática de criar empatia com clientes.

Corto pra cena da mesa, onde divido a base de plástico com um conhecido por mim chamado Telespectador. Sempre que apareço no Ricardote, a figura lá está com uma garrafa de Antarctica 600ml na mesa e olhando pra uma televisão suspensa na parede. Na verdade, são três aparelhos no enorme espaço de não sei quantos metros quadrados. Posso garantir que é grande, comporta duas mesas de sinuca. O chamado Telespectador não fica muito na minha companhia. “Companheiro, não leva a mal, vou trocar de mesa”, disse ele minutos depois de eu sentar em minha cadeira. O chapa sai na companhia de uma boneca e aqui não faço nenhum juízo negativo. A mulher tem feição de uma boneca, embora uma boneca de certa idade. Boneca, assim a chamo sem desprestigiar, é uma personagem fundamental do bar do Ricardote, inclusive. Boneca ajuda o Telespectador a levar as suas garrafas vazias + uma cheia pra uma mesa do fundão. Eu que me encontrava meio que na entrada do boteco, com a saída de Telespectador, fiquei sozinho na mesa, vendo um jogo da Série B do Campeonato Brasileiro: Atlético de Goiás x Juventude. Aproveitava pra bebericar o terceiro ou quarto copo de cerva.

Queria dar outro corte de cena, mas me segurei, fui vencido pelos fatos que me surgiriam. Apareceu outra companhia. Sentou do meu lado, do outro lado de minha mesa, um sujeito que eu não tinha conhecimento em cinquenta dias residente em Ubá e há quarenta dias como sócio-irmão no templo Ricardote. O sujeito pediu licença como quem acaba de chegar em casa: “Tudo bem se eu me sentar aqui?”, ele se apresentou já adivinhando que não sou nativo. “Você não é daqui, né?”, acrescentaria. “Incrível!, tae o pai Dinah, o divinhão!”, apenas pensei. Sem saber, ele passou a ser pra mim a figura do Divinhão. “Tá vendo aquela ali?” Divinhão começou a falar de uma mulher sentada na mesa ao lado. A figura sentada ao meu lado insinuou que já conhecia “Aquela lá!”. Passei a ouvir coisas impublicáveis a partir de então. “Eh, se eu usar camisinha, fiu!”, disse-me em tom de confissão. Fingi cara de quem não entendeu a expressão e o chapa tentou consertar: “Cai!”, disse fazendo um bico com os lábios e sinal de negativo com o polegar pra baixo. Tentei fazer que não estava mesmo ali, investi na tecla no celular, falando com um amigo jornalista sobre eleições presidenciais no WhatsAppub. “Eh, saiu a nova pesquisa…!”. Ao lado, Divinhão não fechava a matraca e ignorava se você o olhava ou ignorava a vista na direção de sua fuça.

Na tentativa de ignorar Divinhão, a quem eu certamente não lembrarei do semblante num dia seguinte, fui surpreendido pela mulher sobre a qual Divinhão contava “vantagem” e em tom depreciativo, sem que ela soubesse do pensamento de meu vizinho de mesa. A mulher se aproxima, cochicha no meu ouvido esquerdo: “Moço, deixa eu te fazer duas perguntas?” Olho pra mulher, sinto sua mão pesada em meu ombro, desvio o olhar pra um decote de tamanho monumental e como quem se pergunta: “E agora, Jesus?”. Volto o olhar pra moça: “Diga! Pode dizer!”. “Você gosta de mulher que tem bunda grande ou que tem bunda pequena?”. Tentei me sair com uma resposta evasiva, ou melhor, me vi em situação inusitada e desconfortante: “Boa pergunta!”, respondi. A mulher não se fez de rogada, “pode dizer!?”, reforçou a pergunta apalpando meu ombro sutilmente e com ar de quem se orgulha das nádegas grandes que possui. De vestido curto e colado ao corpo, a mulher não arredaria o pé sem uma resposta melhor. “Depende da situação!”, eu tentei dar um tom mais técnico pra minha fala.

Ainda me sentindo em apuros, fui requisitado a responder a uma segunda pergunta. E quando veio a segunda pergunta, eu fiquei mais sem jeito. “Raspadinha ou cabeluda?”, a moça tascou. Deus do céu! A classificação de nossa breve conversa foi às alturas! Respondi e a mulher saiu de banda. “Tá vendo, tá vendo!”, me disse Divinhão, rindo e visivelmente fazendo ainda mais jus ao apelido que eu lhe dei. Fim de diálogo com a figura feminina. Voltei a me concentrar no futebol da TV. Divinhão continuou com aquela história de que catava todas e o caralho a quatro! Divinhão, que tinha aparência de menino de sessenta anos de idade e cinquenta de malandragem. “É verdade! É verdade!”, mais de uma vez me saia com esta sem estar entendendo o que o cara me dizia do lado, sempre num tom acima da humanidade que o cercava. Pensei que minha posição de testemunha ocular poderia se agravar se outras duas figuras femininas de mesmo perfil da que me abordou pudessem avançar seus papéis pro nosso núcleo novelístico. Quem me leu até aqui pode pensar maldades, ou não. Fui vítima do destino? Passei semanas estudando o melhor dia para começar a escrever sobre Idas e voltas em Ubá. Comecei justamente no momento em que testemunhos explosivos me surgiram.